
Khaled Hosseini
O caador de pipas
Romance
TRADUO DE MARIA HELENA ROUANET
14 impresso
EDITORA
NOVA FRONTEIRA

Ttulo original: THE KITE RUNNER Copyright  2003 by Khaled Hosseini
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RJ.
H821c Hosseini, Khaled
O caador de pipas / Khaled Hosseini; traduo Maria Helena Rouanet. - Rio de
Janeiro : Nova Fronteira, 2005
Traduo de: The kite runner ISBN 85-209-1767-4
1. Amizade - Fico. 2. Cabul (Afeganisto) - Fico. 3. Romance afego. I.
Rouanet, Maria Helena. II. Ttulo.
CDD 891.593
CDU821.411.21(581)-3

Este livro  dedicado a Haris e Farab,
a noor dos meus olhos, e s crianas do Afeganisto.

AGRADECIMENTOS
Agradeo aos seguintes colegas por seus conselhos, sua ajuda ou seu apoio: dr. Alfred
Lerner, Dori Vakis, Robin Heck, dr. Todd Dray, dr. Robert Tull e dr. Sandy Chun.
Agradeo tambm a Lynette Parker, do East San Jos Community Law Center, por
seus esclarecimentos sobre os procedimentos da adoo, e ao sr. Daoud Wahab, por
compartilhar comigo suas experincias no Afeganisto. Toda minha gratido ao meu
querido amigo Tamim Ansary, por suas sugestes e seu apoio, e  turma do San
Francisco Writers Workshop, por seu retorno e encorajamento. Gostaria de agradecer
a meu pai, a meu irmo mais velho e quela que foi a inspirao para tudo o que h
de nobre no personagem de baba, minha me, que rezou por mim e fez nascer em cada
etapa da escrita deste livro; e a minha tia, que comprava livros para mim quando eu era
jovem. Agradeo tambm a Ali, Sandy, Daoud, Walid, Raya, Shalla, Zahra, Rob e
Kader, por lerem as minhas histrias. Quero ainda agradecer ao dr. e  sra. Kayoumy
 meus segundos pais , por seu apoio caloroso e inabalvel.
Preciso agradecer  minha agente e amiga, Elaine Koster, por sua sabedoria,
pacincia e gentileza, bem como a Cindy Spiegel, minha editora de olhos argutos e
judiciosos, que me ajudou a abrir tantas portas nesta histria. E gostaria de agradecer a
Susan Petersen Kennedy, que apostou neste livro, e a toda a incansvel equipe da
Riverhead que trabalhou nele.
Por fim, no sei como agradecer  minha adorvel esposa, Roya  em cujas
opinies sou viciado , por seu carinho e sua boa-vontade, e por ter lido, relido e me
ajudado a revisar cada verso deste romance. Pela sua pacincia e pela sua
compreenso, vou amar voc para sempre, Roya jan.

UM
Dezembro de 2001
Eu ME TORNEI o QUE sou HOJE aos doze anos, em um dia nublado e glido do inverno de
1975. Lembro do momento exato em que isso aconteceu, quando estava agachado por
detrs de uma parede de barro parcialmente desmoronada, espiando o beco que ficava
perto do riacho congelado. Foi h muito tempo, mas descobri que no  verdade o que
dizem a respeito do passado, essa histria de que podemos enterr-lo. Porque, de um
jeito ou de outro, ele sempre consegue escapar. Olhando para trs, agora, percebo que
passei os ltimos vinte e seis anos da minha vida espiando aquele beco deserto.
Um dia, no vero passado, meu amigo Rahim Khan me ligou do Paquisto. Pediu
que eu fosse v-lo. Parado ali na cozinha, com o fone no ouvido, sabia muito bem que
no era s Rahim Khan que estava do outro lado daquela linha. Era o meu passado de
pecados no expiados. Depois que desliguei, fui passear pelo lago Spreckels, na orla
norte do parque da Golden Gate. O sol do incio da tarde cintilava na gua onde
navegavam dezenas de barquinhos em miniatura, impulsionados por um ventinho
ligeiro. Olhei ento para cima e vi um par de pipas vermelhas planando no ar, com
rabiolas compridas e azuis. Danavam l no alto, bem acima das rvores da ponta
oeste do parque, por sobre os moinhos, voando lado a lado como um par de olhos
fitando San Francisco, a cidade que eu agora chamava de lar. E, de repente, a voz de
Hassan sussurrou nos meus ouvidos: "Por voc, faria isso mil vezes!" Hassan, o menino
de lbio leporino que corria atrs das pipas como ningum.
Sentei em um banco do parque, perto de um salgueiro. Pensei em uma coisa que
Rahim Khan disse um pouco antes de desligar, quase como algo que lhe houvesse
ocorrido no ltimo minuto. "H um jeito de ser bom de novo." Ergui os olhos para as
pipas gmeas. Pensei em Hassan. Pensei em baba. Em Ali. Em Cabul. Pensei na vida
que eu levava at que aquele inverno de 1975 chegou para mudar tudo. E fez de mim
o que sou hoje.

DOIS
QUANDO RAMOS CRIANAS, HASSAN e eu trepvamos nos choupos da entrada da casa de
meu pai e ficvamos chateando os vizinhos, usando um caco de espelho para mandar
reflexos de sol para as suas casas. Sentvamos um defronte do outro, nos galhos mais
altos, com os ps descalos pendurados no ar e os bolsos das calas cheios de amoras e
nozes secas. Ficvamos nos alternando com o espelho enquanto comamos amoras,
jogando os frutos um no outro, entre risinhos e gargalhadas. Ainda posso ver Hassan
encarapitado naquela rvore, com o reflexo do sol faiscando por entre as folhas no seu
rosto quase perfeitamente redondo, um rosto de boneca chinesa talhado em madeira de
lei: o nariz grande e chato, os olhos puxados e oblquos como folhas de bambu, uns
olhos que, dependendo da luz, pareciam dourados, verdes e at cor de safira. Ainda
posso ver as suas orelhas midas, dobradas feito conchas, e a protuberncia do
queixo, um apndice de carne que parecia ter sido acrescentado como simples
lembrana de ltima hora. E o lbio fendido, bem naquela linha do meio, em um ponto
em que a ferramenta escorregou, ou, quem sabe, foi apenas porque o arteso das
bonecas chinesas j estava cansado e se descuidou.
s vezes, l no alto daquelas rvores, dizia para Hassan pegar o estilingue e
atirar nozes no pastor alemo caolho do vizinho. Ele no queria, mas, se eu pedisse,
pedisse de verdade, ele no me diria no. Hassan nunca me negava nada. E era fera
com a atiradeira. Seu pai, Ali, sempre nos apanhava e ficava furioso, ou to furioso
quanto possvel, no caso de algum gentil como Ali. Com o dedo em riste, mandava que
descssemos da rvore. Pegava o espelho e repetia o que sua me lhe dizia: que o diabo
tambm faz os espelhos reluzirem, e faz isso para distrair os muulmanos durante as
oraes.
 E ri, depois que j conseguiu o que queria  acrescentava ele
invariavelmente, olhando para o filho com ar severo.
 Est bem, pai  murmurava Hassan, fitando os prprios ps. Mas ele nunca
me entregava. Nunca disse que tanto o espelho quanto as nozes atiradas no cachorro do
vizinho tinham sido idia minha.
Os choupos margeavam o caminho de tijolos vermelhos que levava a um porto de
duas folhas, todo feito de ferro fundido. Por seu turno, este se abria para a rua que dava
acesso  propriedade de meu pai. A casa ficava  esquerda, e tinha um quintal nos
fundos.
Todos eram unnimes em dizer que meu pai, o meu baba, tinha construdo a casa
mais bonita do distrito de Wazir Akbar Khan, um bairro novo e rico ao norte de
Cabul. Havia at quem dissesse que era a casa mais bonita de toda a cidade. Uma
ampla alameda ladeada por roseiras conduzia  casa espaosa, com piso de mrmore e
janelas enormes. Intrincados mosaicos de ladrilhos, que baba escolheu a dedo em
Isfahan, recobriam o cho dos quatro banheiros. Tapearias com fios dourados, que
baba comprou em Calcut, revestiam as paredes. E um lustre de cristal pendia do teto
abobadado.
Meu quarto ficava no andar de cima, junto com o de meu pai e o seu escritrio,
tambm conhecido como "sala de fumar", eternamente cheirando a tabaco e canela. Era
l que baba e seus amigos se reclinavam nas poltronas de couro preto depois que Ali
tinha acabado de servir o jantar.
Todos enchiam os cachimbos  s que meu pai sempre dizia "engordar o
cachimbo"  e conversavam sobre os seus trs assuntos favoritos: poltica, negcios,
futebol. s vezes eu perguntava se podia ir sentar l, junto com eles, mas baba ficava
parado na porta.
 Agora, v  dizia ele.  Isso  coisa de gente grande. Por que no vai ler um
daqueles seus livros?  Fechava a porta e me deixava imaginando por que, com ele,
tudo era sempre coisa de gente grande. Sentava junto da porta, abraando os joelhos
contra o peito. Algumas vezes ficava sentado ali uma hora, outras vezes, duas,
ouvindo as conversas e os risos deles.
A sala de estar, no andar trreo, tinha uma parede em arco, com estantes feitas
sob medida. Nelas ficavam os porta-retratos com as fotos de famlia: uma foto antiga e
desbotada de meu av com o rei Nadir Shah, tirada em 1931, dois anos antes do
assassinato do rei; estavam parados junto de um veado morto, ambos usando botas de
cano alto e com rifles pendurados nos ombros. Tinha uma foto da festa do casamento
de meus pais: baba todo elegante em seu terno preto e minha me, uma princesinha
sorridente, vestida de branco. Ao lado, baba e seu scio e melhor amigo, Rahim Khan,
parados diante da nossa casa. Nenhum dos dois est sorrindo. Nessa foto, sou um
beb, no colo de meu pai, que tem um ar srio e cansado. Estou em seus braos, mas 
o mindinho de Rahim Khan que os meus dedos esto segurando.
Essa parede em arco dava para a sala de jantar em cujo centro havia uma mesa de
mogno com espao de sobra para trinta convidados  e, considerando-se o gosto de
meu pai por festas extravagantes, era exatamente isto que acontecia quase toda semana.
Na outra ponta da sala, ficava uma grande lareira de mrmore, sempre iluminada pelo
brilho alaranjado do fogo durante todo o inverno.
Uma grande porta de correr, envidraada, se abria para uma varanda em
semicrculo que dava para os oito metros quadrados de terreno e as alias de
cerejeiras. Baba e Ali tinham feito uma horta perto do muro que ficava do lado leste:
plantaram tomates, hortel, pimenta e uma fileira de milho que nunca pegou de
verdade. Hassan e eu chamvamos aquele canto de "muro do milho doente".
Na parte sul do jardim,  sombra de um p de nspera, ficava a casa dos empregados,
uma casinha modesta onde Hassan morava com o pai.
Foi ali, naquele pequeno casebre, que Hassan nasceu no inverno de 1964, um ano
depois que minha me morreu durante o meu parto.

Nos dezoito anos que vivi em Cabul, s entrei na casa de Ali e Hassan umas
poucas vezes. Quando o sol comeava a se pr atrs das colinas, e tnhamos acabado
de brincar, nos separvamos. Eu passava pelas roseiras a caminho da manso de
baba, Hassan ia para a casinha de pau-a~pique onde nasceu e morou por toda a vida.
Lembro que ela era minscula, limpa e fracamente iluminada por dois ou trs
lampies de querosene. Havia dois colches, em lados opostos da sala, um velho
tapete Herati, com uns rasges no meio, um tamborete de trs pernas e, em um canto,
uma mesa de madeira onde Hassan fazia os seus desenhos. As paredes eram nuas,
exceto por uma nica tapearia bordada com contas que formavam as palavras Allahu-
akbar. Um presente que baba trouxe para Ali de uma de suas viagens a Mashad.
Foi nesse casebre que Sanaubar deu  luz Hassan, em um dia frio do inverno de
1964. Enquanto minha me morreu de hemorragia durante o parto, Hassan perdeu a
sua menos de uma semana depois de nascer. E para um destino que a maioria dos
afegos considera pior que a morte: ela fugiu com uma trupe de cantores e danarinos
ambulantes.
Hassan nunca falou da me, como se ela jamais tivesse existido. Sempre me
perguntei se sonharia com ela, se tentaria saber que aparncia tinha, por onde
andaria. Ficava imaginando se gostaria de conhec-la. Teria saudade dela, como eu
tinha da me que no conheci? Certo dia, quando estvamos indo da casa de meu pai
ao cinema Zainab, ver um novo filme iraniano, cortamos caminho pelo acampamento
militar perto da escola secundria Istiqlal. Baba tinha nos proibido de passar por aquele
local, mas, nessa poca, ele estava no Paquisto com Rahim Khan. Pulamos a cerca que
rodeava o acampamento, saltamos um pequeno regato e chegamos ao terreno enlameado
onde velhos tanques abandonados ficavam acumulando poeira. A sombra de um
desses tanques, havia um grupo de soldados fumando e jogando cartas. Um deles nos
viu, fez sinal ao companheiro que estava ao seu lado e chamou por Hassan.
 Ei!  exclamou ele.  Conheo voc.
Nunca tnhamos visto aquele sujeito antes. Era um homem atarracado, de cabea
raspada e barba por fazer. O seu jeito de nos olhar e o sorriso que deu me apavoraram.
 Continue andando  murmurei para Hassan.
 Ei, hazara! Olhe para mim. Estou falando com voc!  berrou o soldado.
Entregou o cigarro ao sujeito que estava ao seu lado, e fez um crculo com o polegar e
o indicador de uma das mos. Depois, meteu o dedo mdio da outra mo naquele
crculo. E ficou enfiando e tirando o dedo. Enfiando e tirando.
 Sabia que conheci sua me? Conheci muito bem. Peguei ela por trs, perto
daquele riacho logo ali.
Os outros soldados riram. Um deles fez um barulho que parecia um guincho. Eu
disse a Hassan para continuar andando, continuar andando.
 Que bocetinha gostosa que ela tinha!  disse o soldado, apertando as mos
dos outros, rindo.
Mais tarde, no escuro, depois que o filme j tinha comeado, ouvi Hassan
fungando ao meu lado. As lgrimas lhe escorriam pelo rosto. Cheguei mais perto,
passei o brao por suas costas e o puxei para mim. Ele encostou a cabea no meu
ombro.
 Aquele cara confundiu voc com outra pessoa  sussurrei. Confundiu,
sim.

Pelo que me disseram, ningum se surpreendeu realmente quando Sanaubar fugiu.
Na verdade, o que deixou todo mundo espantadssimo foi quando Ali, um homem que
sabia o Coro de cor, se casou com Sanaubar, uma mulher dezenove anos mais jovem,
linda, mas sabidamente sem escrpulos, que vivia de sua reputao nada honrosa. Como
Ali, ela era uma muulmana shi'a, da etnia hazara. Era tambm sua prima-irm e,
portanto, seria natural que fosse escolhida para ser sua esposa. Mas, afora isso, Ali e
Sanaubar tinham muito pouco em comum, principalmente em termos de aparncia.
Enquanto os olhos verdes brilhantes e o rosto malicioso de Sanaubar haviam, segundo
consta, atrado inmeros homens para o pecado, Ali tinha uma paralisia congnita dos
msculos faciais inferiores, o que o tornava incapaz de sorrir e lhe dava um ar
constantemente carrancudo. Era muito estranho ver Ali feliz, ou triste, pois, no seu
rosto enrijecido, apenas os olhos castanhos e oblquos brilhavam com um sorriso ou se
umedeciam com a tristeza. Dizem que os olhos so as janelas da alma. Isso nunca foi to
verdadeiro como no caso de Ali, que s podia se revelar atravs deles.
Ouvi dizer que o andar sugestivo e o rebolado de Sanaubar faziam os homens
sonharem com infidelidade. Mas a plio deixou Ali com a perna direita atrofiada e torta,
pura pele colada nos ossos, com apenas uma camada de msculos fina que nem papel.
Lembro de um dia, quando eu tinha oito anos, e Ali estava me levando ao bazaar para
comprar naan. Eu ia caminhando atrs dele, cantarolando e tentando imitar o seu
andar. Vi que balanava a perna descarnada, fazendo um movimento circular; vi que
todo o seu corpo despencava para a direita cada vez que ele punha esse p no cho.
Parecia um verdadeiro milagre ele no cair a cada passo que dava. Quando tentei fazer
a mesma coisa, quase me estatelei na sarjeta. E comecei a rir. Ali se virou e me pegou
imitando o seu andar. No disse nada. Nem na hora, nem nunca. Apenas continuou
andando.
A cara de Ali e o seu jeito de andar assustavam algumas das crianas menores da
vizinhana. Mas o maior problema era mesmo com os meninos mais velhos. Corriam
atrs dele na rua e debochavam quando passava cambaleando. Alguns deram para
cham-lo Babalu, ou Bicho-Papo.
 Ei, Babalu, quem voc comeu hoje?  gritavam eles em meio a um coro de
risadas.  Quem voc comeu, seu Babalu de nariz achatado?
Falavam do nariz achatado porque tanto Ali quanto Hassan tinham os traos
mongolides caractersticos dos hazaras. Durante anos, isso foi tudo o que soube a
respeito desse povo: que descendiam dos mongis e eram parecidos com os chineses. Os
livros didticos raramente os mencionavam e s se referiam s suas origens de passagem.
At que um dia, quando estava bisbilhotando as coisas de baba no seu escritrio,
encontrei um dos velhos livros de histria de minha me. O autor era um iraniano
chamado Khorami. Soprei a poeira que o cobria, levei-o comigo para a cama naquela
noite e fiquei espantadssimo ao ver um captulo inteiro sobre a histria dos hazaras.
Um captulo inteiro dedicado ao povo de Hassan! Foi a que fiquei sabendo que meu
povo, os pashtuns, tinha perseguido e oprimido os hazaras. Li que estes tentaram se
rebelar contra os pashtuns no sculo XIX, mas foram "dominados com violncia
indescritvel". O livro dizia ainda que meu povo matou os hazaras, expulsou-os das
suas terras, queimou as suas casas e vendeu as suas mulheres como escravas. Dizia
tambm que essa opresso de um povo pelo outro se deveu em parte ao fato de os
pashtuns serem muulmanos sunni, ao passo que os hazaras so shi'a. O livro falava
de muitas coisas que eu no sabia, de coisas que os professores no mencionavam.

Coisas que baba tambm no mencionava. Por outro lado, falava de coisas que eu
sabia, como, por exemplo, que as pessoas chamavam os hazaras de "comedores de
camundongos", "nariz achatado", "burros de carga". J tinha ouvido alguns meninos da
vizinhana gritarem essas palavras para Hassan.
Na semana seguinte, depois da aula, mostrei o tal livro ao meu professor e
indiquei o captulo sobre os hazaras. Ele passou os olhos por algumas pginas, deu
uma risadinha e me devolveu o livro.
  s isso que essa gente shi'a sabe fazer bem  comentou, juntando os
seus papis , posar de mrtires.  Franziu o nariz quando pronunciou a palavra
shi'a, como se estivesse se referindo a uma espcie de doena.
Mas, apesar de ter a mesma herana tnica e o mesmo sangue de famlia,
Sanaubar fazia coro com as crianas da vizinhana que debochavam de Ali. Ouvi dizer
que no escondia de ningum o desprezo que sentia pela aparncia dele.
 Isso l  homem que se apresente?  zombava.  J vi burros velhos que
dariam maridos bem melhores.
Afinal de contas, quase todos desconfiavam que o casamento tinha sido uma
espcie de arranjo entre Ali e seu tio, o pai de Sanaubar. Dizia-se que Ali tinha se
casado com a prima para ajudar a salvar um pouco da honra do nome j manchado
do tio, muito embora Ali, rfo desde os cinco anos, no tivesse nenhum bem ou
herana em especial.
Ele nunca tentou se vingar de nenhum dos seus algozes. Em parte, suponho eu,
porque jamais conseguiria alcan-los arrastando atrs de si aquela perna torta. Mas
principalmente porque era imune aos insultos dos seus agressores; tinha encontrado a
alegria, o antdoto para qualquer sofrimento no momento em que Sanaubar deu  luz
Hassan. Foi tudo muito simples. Sem obstetras, sem anestesistas, sem aqueles
extravagantes aparelhos de monitoramento. Apenas Sanaubar, deitada em um
colcho manchado e sem lenis, tendo Ali e a parteira para ajud-la. E no precisou
de muita ajuda, pois, j ao nascer, Hassan foi fiel  sua natureza: era incapaz de
machucar quem quer que fosse. Uns poucos grunhidos, um ou dois empurres, e
Hassan saiu. Saiu sorrindo.
Segundo confidenciou a parteira tagarela ao criado do vizinho, que, por sua vez,
se encarregou de espalhar para quem quisesse ouvir, Sanaubar teria dado uma olhada no
beb que Ali segurava no colo e, ao ver o lbio fendido, teria exclamado com um
risinho amargo:
 Pronto  teria dito ela.  Agora voc tem esse seu filho idiota para ficar
sorrindo para voc!  No quis nem mesmo segurar Hassan e, cinco dias depois,
foi-se embora.
Baba contratou a mesma ama-de-leite que tinha me amamentado para cuidar de
Hassan. Ali nos disse que ela era uma hazara de olhos azuis, natural de Bamiyan, a
cidade das esttuas dos Budas gigantes.
 Que voz doce e melodiosa ela tinha...  era o que costumava nos dizer.
Hassan e eu sempre perguntvamos o que ela cantava, embora j estivssemos
cansados de saber: ele nos contou essa histria milhares de vezes. S queramos ouvir
Ali cantando.
Ele pigarreava e comeava:
De p, no topo da mais alta das montanhas,
Chamei por Ali, o Leo de Deus
O Ali, Leo de Deus, Rei dos Homens,

Traze alegria para os nossos coraes
Que tanto sofrem.
Depois repetia que as pessoas que mamavam no mesmo peito eram como irms,
ligadas por uma espcie de parentesco que nem mesmo o tempo poderia desfazer.
Hassan e eu mamamos no mesmo peito. Demos os nossos primeiros passos na
mesma grama do mesmo quintal. E, sob o mesmo teto, dissemos nossas primeiras
palavras.
A minha foi baba.
A dele, Amir. O meu nome.
Olhando para trs, agora, fico pensando que os alicerces do que aconteceu no
inverno de 1975  e de tudo o que veio depois  j estavam contidos nessas
primeiras palavras.

TRS
CONSTA QUE, CERTA VEZ, NO BALUQUISTO, meu pai enfrentou um urso negro com as
prprias mos. Se essa histria dissesse respeito a qualquer outra pessoa, teria sido
taxada de laaf, pois os afegos tm uma certa tendncia ao exagero. Lamentavelmente,
este  quase um mal nacional. Se algum se vangloriar de ter um filho mdico, 
possvel que o rapaz tenha sido aprovado em um exame de biologia no segundo grau.
Mas ningum jamais duvidaria da veracidade de uma histria que se referisse a
baba. E se duvidassem, bem, baba tinha efetivamente aquelas trs cicatrizes paralelas
que traavam uma trilha dentada nas suas costas. Muitas vezes fiquei imaginando aquela
luta; cheguei mesmo a sonhar com ela. E, nesses sonhos, nunca fui capaz de distinguir
quem era quem entre meu pai e o urso.
Rahim Khan foi o primeiro a se referir a baba com a expresso que acabou se
tornando o seu clebre apelido, Toophan agha, ou "Sr. Furaco". Era um apelido que
lhe caa como uma luva. Meu pai era uma fora da natureza, um gigantesco espcime
da etnia pashtun, com uma barba espessa, o cabelo castanho cortado bem rente, to
rebelde quanto o prprio homem, umas mos que pareciam capazes de arrancar um
salgueiro do cho, e uns olhos negros que poderiam "fazer o diabo cair de joelhos
implorando misericrdia", como dizia Rahim Khan. Nas festas, quando aquela massa
de quase dois metros de altura irrompia sala adentro, todas as atenes convergiam
para ele assim como os girassis se viram na direo do sol.
Era impossvel ignorar baba, mesmo quando estava dormindo. Eu enfiava
chumaos de algodo nos ouvidos, puxava o cobertor para cobrir a cabea e, mesmo
assim, os seus roncos  que mais pareciam o motor de um caminho  penetravam
pelas paredes. E olhe que o meu quarto ficava em frente ao dele, do outro lado do
corredor. Como minha me teria conseguido dormir no mesmo quarto que ele era um
mistrio para mim. Este era um dos itens da longa lista de coisas que teria perguntado
se tivesse podido estar com ela.
Em fins da dcada de 1960, quando eu tinha uns cinco ou seis anos, baba
decidiu construir um orfanato. Foi Rahim Khan quem me contou essa histria. Disse
que ele prprio fez a planta, apesar de no ter qualquer experincia em arquitetura. Os
mais cticos insistiram para que deixasse de ser louco e contratasse um arquiteto. Baba
recusou,  claro, e todos abanaram a cabea, desanimados diante de sua teimosia. Mas
deu tudo certo e, ento, todos acenaram com a cabea, admirados com o seu sucesso.
Baba custeou, com dinheiro do seu prprio bolso, a construo do prdio de dois
andares, bem prximo da avenida Jadeh Maywand, ao sul do rio Cabul. Rahim Khan
me disse que baba financiou pessoalmente o projeto inteiro, pagando os engenheiros,
os eletricistas, os bombeiros e os operrios, sem contar com os funcionrios da
prefeitura cujos "bigodes estavam precisando de um pouco de leo".
A construo do orfanato durou trs anos. Eu estava ento com oito anos.
Lembro que, na vspera da inaugurao, meu pai me levou ao lago Ghargha, a uns
poucos quilmetros ao norte de Cabul. Disse-me que chamasse tambm Hassan, mas
menti dizendo que ele estava com dor de barriga. Queria baba s para mim. Alm
disso, certa vez, no lago Ghargha, Hassan e eu estvamos atirando pedras na gua e
ele conseguiu fazer com que a sua pulasse oito vezes. O mximo que consegui foram
cinco saltos. Baba estava vendo tudo e deu um tapinha nas costas de Hassan. Chegou
at a passar o brao em seus ombros.
Sentamos em uma mesa de piquenique na margem do lago, s baba e eu,
comendo ovos cozidos com sanduches de kofta  bolos de carne e picles enrolados
em naan. A gua estava azul-escura e o sol reluzia naquela superfcie como em um
espelho. s sextas-feiras, o lago ficava repleto de famlias que saam para aproveitar o
sol. Mas estvamos no meio da semana e, alm de ns dois, s havia ali uma dupla de
turistas de barba e cabelos compridos  hippies, como ele os chamou. Os dois
estavam sentados no cais, com os ps dentro da gua e varas de pescar na mo.
Perguntei por que eles deixavam o cabelo crescer, mas baba deu um grunhido e no
respondeu. Estava preparando o seu discurso para o dia seguinte, folheando um monto
de pginas escritas a mo, fazendo anotaes aqui e ali com um lpis. Dei uma
dentada no ovo cozido e perguntei se era verdade o que um menino tinha me dito na
escola, que se a gente comesse um pedao de casca de ovo, teria que pr para fora no
xixi. Baba grunhiu outra vez.
Comi um pedao do sanduche. Um dos turistas de cabelo amarelo riu e deu um
tapa nas costas do seu companheiro. Ao longe, na outra margem do lago, um
caminho vinha se arrastando para fazer a curva na colina. O sol cintilou batendo no
seu retrovisor.
 Acho que estou com saratan  disse eu. Cncer.
Baba ergueu os olhos da sua papelada, que esvoaava com o vento. Disse que
eu mesmo podia ir pegar o refrigerante; que era s procurar na mala do carro.
No dia seguinte, as cadeiras do lado de fora do orfanato j tinham acabado. Muita
gente ia ter de ficar de p para assistir  cerimnia de inaugurao. Estava ventando e
sentei atrs de baba, no pequeno palanque armado bem diante da entrada principal do
prdio. Ele estava usando um terno verde e um barrete de astrac. Bem no meio de seu
discurso, o vento arrancou o seu gorro e todo mundo riu. Baba fez um sinal mandando
eu ir pegar o barrete e me senti o mximo, pois, assim, todos iam ficar sabendo que
ele era meu pai, meu baba. Ele se virou de volta para o microfone e disse que esperava
que o prdio fosse mais firme que o seu gorro, e todos riram novamente. Quando
baba acabou o discurso, as pessoas aplaudiram de p. Bateram palmas por um bom
tempo. Depois, vieram cumpriment-lo. Alguns passaram a mo pela minha cabea e
tambm apertaram a minha mo. Fiquei to orgulhoso de baba, de ns dois...
Mas, apesar de todos os seus sucessos, as pessoas estavam sempre duvidando de
baba. Disseram-lhe que gerir negcios era coisa que no estava no seu sangue e que
deveria estudar direito, como o pai. Ento, ele provou que todos estavam errados, no
s administrando o seu prprio negcio, mas tornando-se um dos comerciantes mais

ricos de Cabul. Baba e Rahim Khan abriram uma firma de exportao de tapetes
tremendamente bem-sucedida, duas farmcias e um restaurante.
Quando disseram que nunca faria um bom casamento  afinal de contas, no era
de sangue nobre , baba se casou com minha me, Sofia Akrami, uma moa
muitssimo bem-educada, unanimemente considerada uma das criaturas mais
respeitadas, bonitas e virtuosas de Cabul. No s lecionava literatura clssica farsi na
universidade como era tambm descendente da famlia real, detalhe que meu pai
esfregava divertido na cara de todos aqueles cticos chamando-a de "minha princesa".
Exceto por mim,  claro, baba moldou o mundo  sua volta do jeito que quis. O
nico problema  que o mundo, para ele, era po, po, queijo, queijo. E precisava
decidir o que era po e o que era queijo. No se pode amar algum assim sem ter medo
dele tambm. E talvez at um pouco de dio.
Quando eu estava na quarta srie, tinha um mula que nos dava aulas sobre o isl.
Chamava-se mula Fatiullah Khan. Era um homem baixinho e atarracado, com o rosto
todo marcado de acne e uma voz rouca. Ele nos falava das virtudes do zakat e dos
deveres do hadj; ensinava as complexidades da realizao das cinco namaz dirias, e
nos fez aprender de cor versculos do Coro. S que, embora nunca traduzisse as
palavras para ns, insistia, s vezes com a ajuda de uma vara feita de ramo de
salgueiro, para que pronuncissemos corretamente as palavras em rabe a fim de que
Deus pudesse nos ouvir melhor. Certo dia, ele disse que o isl considerava a bebida um
pecado terrvel; aqueles que bebessem teriam de responder por esse pecado no dia do
Qiyamat, o Dia do Juzo. Naquela poca, beber era coisa bastante comum em Cabul.
Ningum seria chicoteado em praa pblica por esse motivo, mas os afegos que bebiam
no o faziam em pblico, por uma questo de respeito. As pessoas compravam usque
dentro de saquinhos de papel pardo, como "remdio", em algumas "farmcias"
selecionadas. Deixavam o saco escondido e recebiam, s vezes, olhares furtivos de
desaprovao daqueles que sabiam que tais estabelecimentos tinham fama de fazer
esse tipo de transao.
Estvamos no escritrio de baba, a tal "sala de fumar", quando eu lhe disse o
que o mula Fatiullah Khan tinha nos ensinado na aula. Baba estava se servindo de
usque no bar que tinha mandado fazer no canto da sala. Ele me ouviu, assentiu com a
cabea, tomou um gole da bebida. Depois sentou no sof de couro, deixou o copo de
lado e me ps no colo. Senti como se estivesse me sentando em um par de troncos de
rvore. Respirou fundo, exalou pelo nariz e o ar pareceu ficar assobiando em seu
bigode por uma eternidade. Eu no conseguia decidir se queria abra-lo ou pular fora
do seu colo, apavorado.
 Pelo que vejo, voc est confundindo o que aprende na escola com a educao
de fato  disse ele com aquela sua voz grave.
 Mas se o que ele disse  verdade, voc no  um pecador, baba?
 Humm.  Baba trincou um cubo de gelo com os dentes.  Quer saber o
que seu pai acha sobre essa histria de pecado?
 Quero.
 Pois ento vou lhe dizer, mas, primeiro, entenda bem isso, e entenda de uma
vez por todas, Amir: voc nunca vai aprender nada que preste com esses idiotas
barbudos.
 Voc quer dizer o mul Fatiullah Khan?

Baba fez um gesto, com o copo na mo. O gelo tilintou.
 Eles todos. Estou cagando para as barbas de todos esses macacos hipcritas.
Comecei a rir. A imagem de baba cagando na barba de qualquer macaco,
hipcrita ou no, era demais...
 Tudo o que sabem fazer  ficar desfiando aquelas contas de orao e
recitando um livro escrito em uma lngua que s vezes nem entendem  prosseguiu
ele, tomando mais um gole de usque.  Que Deus nos proteja se algum dia o
Afeganisto cair nas mos dessa gente.
 Mas o mul Fatiullah Khan parece legal  consegui balbuciar tentando conter
o riso.
 Gengis Khan tambm  disse baba.  Mas chega desse assunto. Voc
perguntou sobre pecado e quero lhe dizer o que penso a este respeito. Est me
ouvindo?
 Estou  disse eu apertando os lbios. Mas o riso escapou pelo meu nariz
fazendo um barulho que parecia um ronco. O que me fez recomear.
Os olhos duros de baba se fixaram nos meus e bastou isso para eu parar de rir.
 Estou tentando falar com voc de homem para homem. Ser que ao menos
uma vez na vida consegue dar conta disso?
 Consigo, baba jan  murmurei espantado, e no pela primeira vez, ao ver
como ele podia me atingir com to poucas palavras. Por um instante, tnhamos tido
um momento maravilhoso. No era sempre que meu pai conversava comigo, e menos
ainda me sentava em seu colo. E fui um idiota em estragar tudo.
 timo  disse baba, mas os seus olhos no demonstravam l muita convico.
 Pouco importa o que diga esse mul; existe apenas um pecado, um s. E esse pecado 
roubar. Qualquer outro  simples mente uma variao do roubo. Entende o que estou
dizendo?
 No, baba jan  respondi querendo desesperadamente entender. No gostaria
de desapont-lo de novo.
Baba soltou um suspiro de impacincia. O que tambm me atingiu, pois ele no era
um homem impaciente. Lembrei de todas as noites em que chegou bem tarde, todas
aquelas noites em que tive de jantar sozinho. Perguntava a Ali onde baba estava, a
que horas ia voltar para casa, embora soubesse que ele estava na obra, inspecionando
isso, supervisionando aquilo. No era algo que exigia pacincia? Cheguei a odiar
todas as crianas para quem ele estava construindo o orfanato; por vezes desejei que
todas elas tivessem morrido junto com seus pais.
 Quando voc mata um homem, est roubando uma vida  disse baba.  Est
roubando da esposa o direito de ter um marido, roubando dos filhos um pai. Quando
mente, est roubando de algum o direito de saber a verdade. Quando trapaceia, est
roubando o direito  justia. Entende?
Eu tinha entendido sim. Quando baba tinha seis anos, entrou um ladro na
casa de meu av, no meio da noite. Meu av, um juiz conceituado, reagiu ao assalto,
mas o ladro o esfaqueou na garganta, matando-o instantaneamente  e roubando de
baba o seu pai. Os moradores da cidade apanharam o assassino na manh seguinte,
pouco antes do meio-dia; era um vagabundo da regio de Kunduz. Enforcaram o
homem no galho de um carvalho quando ainda faltavam duas horas para as preces da
tarde. Foi Rahim Khan, e no baba, quem me contou essa histria. Alis, eu sempre
ficava sabendo das coisas sobre meu pai por outras pessoas.

 No h ato mais infame do que roubar, Amir  prosseguiu ele.  Um
homem que se apropria do que no  seu, seja uma vida ou uma fatia de naan...
Cuspo nesse homem... E se alguma vez ele cruzar o meu caminho, que Deus o ajude.
Est entendendo?
Achei a idia de meu pai espancando um ladro engraadssima, mas, ao mesmo
tempo, assustadora.
 Estou, baba.
 Se existe mesmo um Deus, em algum lugar por a, espero que ele tenha coisas
mais importantes para fazer do que se preocupar com o fato de eu beber usque ou
comer carne de porco. Agora, desa da. Toda essa conversa sobre pecado me deixou
com sede outra vez.
Fiquei olhando enquanto ele enchia o copo no bar e me perguntando quanto
tempo ia se passar at que tivssemos outra conversa como essa. A verdade  que
sempre achei que baba me odiava um pouco. E por que no? Afinal, eu tinha matado a
esposa que ele tanto amava, a sua linda princesa, no tinha? O mnimo que poderia
ter feito era ter a decncia de puxar um pouco mais a ele. Mas no puxei. No mesmo.
NA ESCOLA, ERA COMUM JOGARMOS UM JOGO chamado sherjangi, a "Batalha de Poemas". O
professor de farsi funcionava como moderador e o jogo era mais ou menos assim: um
aluno recitava um verso de um poema e o adversrio tinha sessenta segundos para
replicar, citando um verso que comeasse com a mesma letra com que o primeiro
terminava. Todos na turma me queriam em suas equipes, pois, por volta dos meus
onze anos, era capaz de recitar dezenas de versos de Khayyam, Hafez ou dos
clebres Masnawi de Rumi. Certa feita, enfrentei a turma toda e ganhei. Mais tarde, na
mesma noite, contei isso para baba, mas ele se limitou a balanar a cabea e
murmurar:
 Que timo.
Foi assim que escapei  indiferena de meu pai: refugiando-me nos livros de
minha me morta. E tambm na companhia de Hassan,  claro. Lia tudo. Rumi, Hafez,
Saadi, Victor Hugo, Jlio Verne, Mark Twain, Ian Fleming. Quando esgotei a biblioteca
de minha me  no aqueles chatos, de histria, pois nunca fui muito chegado a esses,
mas os romances, as epopias , passei a gastar minha mesada em livros. Comprava um
por semana, na livraria perto do cinema Park, e, quando j no havia mais espao nas
prateleiras, comecei a guard-los em caixas de papelo.
E claro que casar com uma poeta era uma coisa, mas ter um filho que preferia
meter a cara em livros de poesia a ir caar... bem, no era exatamente o que baba tinha
imaginado, suponho eu. Um homem de verdade no l poesia, e Deus permita que nunca
venha a escrever versos! Homens de verdade  meninos de verdade  jogam futebol,
exatamente como meu pai fazia quando era jovem. Isso, sim, era algo digno de paixo.
Em 1970, baba fez uma pausa na superviso da construo do orfanato para passar um
ms em Teer e ver a Copa do Mundo pela TV, j que, naquela poca, ainda no
existia televiso no Afeganisto. Ele me inscreveu em times de futebol, tentando
despertar em mim a mesma paixo. Mas eu era pattico, um estorvo considervel para
o meu prprio time, sempre atrapalhando um passe oportuno ou bloqueando
involuntariamente um espao livre de marcao. Ficava circulando pelo campo,
desajeitado com as minhas pernas finas, berrando por passes que no vinham nunca. E
quanto mais insistia, sacudindo os braos freneticamente acima da cabea, e gritando

"Estou livre! Estou livre!", mais os outros me ignoravam. Baba porm no desistia.
Quando ficou mais do que evidente que eu no tinha herdado nem um pouquinho dos
seus talentos atlticos, ele tratou de me transformar em um torcedor apaixonado. Por
certo eu podia dar conta disso, no? Fingi interesse o mximo de tempo possvel.
Comemorava com ele quando o time de Cabul ganhava do de Kandahar, e berrava
xingando o juiz quando este marcava um pnalti contra o nosso time. Mas baba
percebeu que o meu interesse no era autntico e se rendeu quela evidncia
desanimadora: seu filho nunca ia ser nem jogador nem torcedor de futebol.
Lembro de uma vez que ele me levou ao torneio anual de buzkashi, realizado
no primeiro dia da primavera, o dia do Ano-Novo. O buzkashi era, e ainda , a paixo
nacional do Afeganisto. Um chapandaz, um cavaleiro habilidosssimo, geralmente
patrocinado por torcedores ricos, tem que apanhar um bode ou um bezerro morto no
meio de um monte de adversrios. Depois, tem que arrast-lo consigo por todo o
estdio a galope, e deposit-lo em um crculo enquanto uma equipe de chapandaz o
persegue e faz tudo o que pode  chuta, arranha, chicoteia, esmurra  para arrancar
dele o bicho morto. Naquele dia, a multido comeou a berrar excitada quando os
cavaleiros soltaram os seus gritos de guerra e se precipitaram sobre a carcaa do animal
em meio a uma nuvem de poeira. A terra tremia com o tropel dos cascos. Estvamos
assistindo a tudo da parte mais alta das arquibancadas e os cavaleiros passavam por
ns, correndo a todo galope, urrando e gritando, enquanto voava espuma da boca dos
seus cavalos.
Em certo momento, baba apontou para algum.
 Est vendo aquele homem, Amir? Sentado ali, cercado de vrios outros homens?
Estava.
  Henry Kissinger.
 Ah!  disse eu. No sabia quem era Henry Kissinger e devia ter perguntado.
Mas, naquele instante, olhava horrorizado para um dos chapandaz que tinha cado
do cavalo e estava sendo pisoteado por dezenas de cascos. O corpo dele foi derrubado
da montaria e arremessado em meio ao tropel de homens e cavalos, como um boneco
de pano, e acabou parando quando aquele bando se afastou. Ento, teve um
estremecimento e, depois, ficou imvel, com as pernas dobradas em ngulos fora do
normal e uma poa de sangue encharcando a areia ao seu redor.
Comecei a chorar.
Chorei durante todo o trajeto de volta para casa. Lembro como as mos de baba
apertavam o volante. Apertavam e afrouxavam. Acima de tudo, nunca vou esquecer o
tremendo esforo que ele fez para disfarar o ar de aborrecimento em seu rosto
enquanto dirigia em silncio.
Mais tarde, estava passando pelo escritrio de meu pai quando o ouvi conversar
com Rahim Khan. Colei o ouvido na porta fechada.
 ...agradecer por ele ter sade  dizia Rahim Khan.
 Sei disso, sei disso. Mas ele est sempre enfiado naqueles livros ou rodando pela
casa como se estivesse perdido em algum sonho.
 E da?
 Eu no era assim.
Baba parecia frustrado; quase zangado. Rahim Khan riu.
 As crianas no so cadernos de colorir. Voc no tem de preench-lo com
suas cores favoritas.

 Estou lhe dizendo  prosseguiu baba.  Eu no era assim. Nem eu nem
qualquer das crianas com as quais cresci.
 Sabe, s vezes voc  o homem mais autocentrado que j vi disse Rahim
Khan. Ele era a nica pessoa capaz de dizer uma coisa dessas a meu pai sem problemas.
 O que  que uma coisa tem a ver com a outra?  retrucou baba.
 Ah, no tem no?
 No.
 Ento o que  que tem a ver com o qu?
Ouvi o rudo do couro rangendo quando baba mudou de posio na cadeira.
Fechei os olhos, colei o ouvido ainda mais  porta, querendo e no querendo ouvir o
que ele ia dizer.
s vezes olho por essa janela e o vejo brincando na rua com os meninos da
vizinhana. Vejo como eles o maltratam, tiram os seus brinquedos, do um empurro
aqui, um esbarro ali. E, imagine s, ele nunca revida. Nunca. Apenas... abaixa a
cabea e...
 Ele no  violento  disse Rahim Khan.
 No  isto que estou querendo dizer, Rahim, e voc bem sabe  retrucou
baba.  Falta algo a esse menino.
  verdade. Propenso para a maldade.
 Saber se defender no tem nada a ver com maldade. Sabe o que acontece sempre
que os vizinhos implicam com ele? Hassan intervm e pe todos para correr. J vi isso
com meus prprios olhos. Quando os dois voltam para casa, pergunto "Por que  que
Hassan est com esse arranho no rosto?" e Amir responde: "Ele caiu". Oua o que
estou lhe dizendo, Rahim, falta algo a esse menino.
 Voc s precisa deixar que ele encontre o seu prprio caminho  disse Rahim
Khan.
 E onde vai dar esse caminho?  perguntou baba.  Um me nino que no
sabe se defender vai se tornar um homem incapaz de enfrentar o que quer que seja.
 Como sempre, voc est simplificando demais as coisas.
 No concordo.
 Est zangado porque tem medo que ele jamais venha a assumir nossos negcios.
 Quem  que est simplificando demais, agora?  indagou baba.  Olhe,
sei que vocs dois se gostam muito, e fico feliz com isso. Tenho inveja, mas fico feliz.
 verdade. Ele precisa de algum que... o compreenda, porque Deus sabe que eu no
consigo. Mas h algo em Amir que me perturba de um jeito que no sei explicar. E
como se...
Podia v-lo procurando as palavras certas. Ele baixou a voz, mas deu para ouvir
assim mesmo.
 Se no tivesse visto o mdico tir-lo de minha mulher com meus prprios
olhos, no acreditaria que  meu filho.
No DIA SEGUINTE, ENQUANTO PREPARAVA o meu caf da manh, Hassan perguntou se eu
estava chateado. Gritei com ele, disse que no se metesse na minha vida.
Rahim Khan estava enganado sobre aquela histria da propenso para a maldade.

QUATRO
EM 1933, ANO EM QUE BABA NASCEU e Zahir Shah iniciou seu reinado de quarenta anos no
Afeganisto, dois irmos, rapazes de uma famlia conhecida e abastada de Cabul, se
meteram a dirigir o Ford Roaster de seus pais. Os dois, que tinham se enchido de haxixe
e estavam mast de muito vinho francs, acabaram atropelando e matando um casal
de hazaras na estrada de Paghman. A polcia trouxe os jovens com um jeito contrito e
o rfo de cinco anos perante meu av, que era um juiz muitssimo conceituado e um
homem de reputao impecvel. Depois de ouvir o relato dos irmos e o pedido de clemncia
de seu pai, meu av determinou que os dois rapazes fossem imediatamente
para Kandahar e se alistassem no Exrcito por um ano  isto apesar de sua famlia
ter conseguido, sabe-se l como, obter que eles fossem dispensados do servio militar.
O pai dos jovens tentou discutir, mas no com tanta veemncia, e, afinal, todos
acabaram concordando que a punio talvez fosse severa, mas era justa. Quanto ao
rfo, meu av decidiu adot-lo e lev-lo para sua prpria casa. Mandou que os outros
empregados tomassem conta dele, mas que fossem gentis. Esse menino era Ali.
Baba e Ali cresceram juntos, como companheiros de brincadeiras  ao menos at
que a plio o deixasse aleijado , exatamente como Hassan e eu cresceramos juntos
uma gerao mais tarde. Baba sempre falava das travessuras que ambos aprontavam,
e Ali balanava a cabea dizendo "Mas, agha sahib, diga a eles quem arquitetava as
travessuras e quem era o simples executor". Meu pai ria e passava o brao nos ombros
de Ali.
Em nenhuma dessas histrias, porm, baba se referia a Ali como amigo.
O curioso  que tambm nunca pensei em Hassan e eu como amigos. Pelo menos
no no sentido habitual. Pouco importa se um ensinou ao outro a andar de bicicleta sem
as mos, ou a construir uma cmera caseira, feita com uma caixa de papelo, e que
funcionava bastante bem. Pouco importa se passamos invernos inteiros empinando
pipas e correndo para apanhar as que caam. Pouco importa se, para mim, a cara do
Afeganisto  a cara de um menino de porte esguio, cabea raspada e orelhas meio
dobradas; um menino com uma cara de boneca chinesa perpetuamente iluminada pelo
sorriso leporino.

Nada disso importa. Porque no  fcil superar a histria. Tampouco a religio.
Afinal de contas, eu era pashtun, e ele, hazara; eu era sunita, e ele, xiita, e nada
conseguiria modificar isso. Nada.
Mas ramos duas crianas que tinham aprendido a engatinhar juntas, e no
havia histria, etnia, sociedade ou religio que pudesse alterar isso. Passei a maior parte
de meus primeiros doze anos de vida brincando com Hassan. s vezes, toda a minha
infncia parece ter sido um longo dia preguioso de vero em companhia de Hassan,
um correndo atrs do outro por entre as rvores do quintal da casa de meu pai,
brincando de esconde-esconde, de polcia-e-ladro, de ndio e caubi, de torturar
insetos. Quanto a esta ltima brincadeira, o ponto alto foi, sem dvida alguma,
aquela vez que arrancamos o ferro de uma abelha e amarramos um barbante no pobre
inseto para pux-lo de volta sempre que conseguisse levantar vo.
Atormentvamos os kochi, os nmades que atravessavam Cabul caminho das
montanhas do norte. Ouvamos as caravanas que se aproximavam de nosso bairro, os
balidos das ovelhas, os berros dos bodes o tilintar das sinetas no pescoo dos camelos.
Saamos correndo de casa para ver a caravana passando por nossa rua, aqueles homens
com o rosto empoeirado e castigado pelo sol e as mulheres usando xales longos e
coloridos, contas e pulseiras de prata nos pulsos e nos tornozelos. Jogvamos pedrinhas
nos bodes. Esguichvamos gua nas mulas. Eu mandava Hassan subir no "muro do
milho doente" e usar o estilingue para atirar pedras nos traseiros dos camelos.
Vimos nosso primeiro western juntos. Foi Rio Bravo, com John Wayne, no
cinema Park, em frente  minha livraria favorita. Lembro-me que implorei a baba que
nos levasse ao Ira para podermos ver John Wayne. Ele soltou uma daquelas suas
sonoras gargalhadas  um som no muito diferente do motor de um caminho
acelerando  e, quando conseguiu recuperar a fala, nos explicou o que era dublagem.
Hassan e eu ficamos atnitos, atordoados. Na verdade, ento, John Wayne no falava
farsi e no era iraniano! Era americano, exatamente como aqueles homens e mulheres
to simpticos, de cabelos compridos, que sempre vamos circulando por Cabul,
usando aquelas camisas esmolambadas e bem coloridas. Vimos Rio Bravo trs vezes,
mas o nosso western favorito, Sete homens e um destino, ns vimos treze vezes. Em
todas elas, choramos no final, na cena em que as crianas mexicanas enterram Charles
Bronson que, como descobrimos depois, tambm no era iraniano.
Passevamos pelos mercados com cheiro de mofo do bairro Shar-e-Nau, ou na
cidade nova, a oeste do distrito de Wazir Akbar Khan. Conversvamos sobre o filme
que tivssemos acabado de ver e caminhvamos por entre a multido de bazarris.
amos abrindo caminho em meio a mercadores e pedintes, perambulvamos pelas
estreitas ruelas apinhadas de fileiras e mais fileiras de minsculas barracas
comprimidas umas s outras. Baba dava a cada um de ns dez afeganes por semana e
gastvamos tudo em Coca-Cola quente e sorvete de gua-de-rosas com cobertura de
pistache torrado.
Durante o ano letivo, tnhamos uma rotina diria. Enquanto eu me levantava a
duras penas e ia me arrastando at o banheiro, Hassan j tinha se lavado, rezado as
namaz matinais junto com Ali e preparado meu caf da manh: ch preto quente, com
trs torres de acar, e uma fatia de naan torrado com minha gelia favorita, de cereja
cida, tudo isso muito bem arrumado na mesa da sala de jantar. Enquanto eu comia e
reclamava do dever de casa, Hassan fazia minha cama, engraxava meus sapatos,

passava as roupas que eu ia usar naquele dia, arrumava meu material escolar. Eu o
ouvia cantando no saguo enquanto passava roupa, entoando velhas cantigas hazara
com sua voz nasalada. Ento, baba e eu saamos no seu Ford Mustang preto  um
carro que atraa olhares invejosos por onde quer que passasse, j que era o mesmo
modelo que Steve McQueen dirigia em Bullit, filme que ficou seis meses em cartaz em
um cinema de Cabul. Hassan ficava em casa e ajudava Ali nas tarefas dirias: lavar 
mo toda a roupa suja e estend-la no quintal para secar, varrer a casa, ir ao bazaar
para comprar naan fresco, marinara carne para o jantar, regar o gramado.
Depois da aula, Hassan e eu passvamos a mo em um livro e corramos para
uma colina arredondada que ficava bem ao norte da propriedade de meu pai em Wazir
Akbar Khan. Havia ali um velho cemitrio abandonado, com vrias fileiras de lpides
com as inscries apagadas e muito mato impedindo a passagem pelas alias. Anos e
anos de chuva e neve tinham enferrujado o porto de grade e deixado a mureta de
pedras claras em runas. Perto da entrada do cemitrio havia um p de rom. Em um
dia de vero, usei uma das facas de cozinha de Ali para gravar nossos nomes naquela
rvore: "Amir e Hassan, sultes de Cabul." Essas palavras serviram para oficializar o
fato: a rvore era nossa. Depois da aula, Hassan e eu trepvamos em seus galhos e
apanhvamos as roms encarnadas. Depois de comer as frutas e limpar as mos na
grama, eu lia para Hassan.
Sentado ali, com as pernas cruzadas e o jogo de sol e sombra da folhagem do p
de rom no rosto, Hassan arrancava distrado pedacinhos de grama do cho enquanto
eu ia lendo as histrias que ele no podia ler sozinho. Pois Hassan cresceria analfabeto
como Ali e a maioria dos hazaras: isto j estava decidido desde o minuto em que
nasceu, talvez at mesmo desde o instante em que foi concebido no tero nada
receptivo de Sanaubar  afinal, para que um criado precisaria da palavra escrita? Mas,
apesar de ser analfabeto, ou quem sabe at por isso mesmo, Hassan era atrado pelo
mistrio das palavras, seduzido por um mundo secreto cujo acesso lhe era vedado. Lia
para ele poemas e histrias, s vezes enigmas  embora sempre parasse de ler estes
ltimos quando percebia que ele tinha muito mais facilidade que eu para decifr-los. Lia
ento coisas menos arriscadas, como as desventuras do vaidoso mul Nasruddin e seu
burro. Passvamos horas sentados debaixo daquela rvore, at que o sol comeasse a
se pr, e, mesmo assim, Hassan insistia dizendo que ainda havia luz suficiente para eu
ler uma outra histria, um outro captulo.
O que eu mais gostava, nessas horas em que estava lendo para Hassan, era
quando esbarrvamos com uma palavra que ele no conhecia. Eu implicava com ele,
exibia a sua ignorncia. Uma vez, quando estava lendo uma histria do mul
Nasruddin, ele me interrompeu.
 O que quer dizer essa palavra?
 Qual?
 Imbecil.
 Voc no sabe o que significa?  indaguei eu com um sorriso largo.
 No sei no, Amir agha.
 Mas  uma palavra to comum!
 Mesmo assim, no conheo.
Se tinha percebido meu tom de deboche, seu rosto sorridente no deixava
transparecer nada.

 Ora, todo mundo na escola sabe o que  isso  disse eu. Deixa ver.
Imbecil quer dizer esperto, inteligente. Vou fazer uma frase com essa palavra para
voc: "Quando o assunto  vocabulrio, Hassan  um imbecil."
 Ah!  exclamou ele, fazendo que sim com a cabea.
Depois de um episdio como esse, sempre me sentia meio culpado. Tentava ento
compensar o que tinha feito dando-lhe uma das minhas camisas velhas ou um brinquedo
quebrado. Dizia a mim mesmo que era o bastante para reparar uma brincadeira
inofensiva.
O livro favorito de Hassan era o Shahnamah, a epopia dos antigos heris persas do
sculo X. Gostava de todos os captulos, os shahs do passado, Feridoun, Zal e
Rudabeh. Sua histria favorita, porm, e minha tambm, era "Rostam e Sohrab", um
conto sobre o grande guerreiro Rostam e seu cavalo velocssimo, Rakhsh. Durante
uma batalha, Rostam fere mortalmente seu valente adversrio, Sohrab, e acaba
descobrindo que o rapaz , na verdade, o filho que tinha perdido h muito tempo.
Atormentado pela dor, Rostam ouve as ltimas palavras do filho moribundo:
Se sois efetivamente meu pai, ento manchastes vossa espada com o sangue de
vosso filho. E fizestes isto por vossa prpria obstinao. Pois procurei convert-lo ao
amor e implorei chamando o vosso nome, j que julguei encontrar em vs as
qualidades de que minha me tanto falava. Mas foi em vo que apelei para vosso
corao, e, agora,  tarde demais para qualquer aproximao...
 Leia outra vez, por favor, Amir agha  dizia Hassan. s vezes, ficava com os
olhos cheios de lgrimas enquanto eu lia a passagem e, nessas horas, sempre me
perguntei por quem ele estaria chorando: seria pelo sofrimento de Rostam, que rasga as
prprias roupas e cobre a cabea com cinzas, ou pelo moribundo Sohrab, que s
desejava o amor do pai? Eu, pessoalmente, no era capaz de perceber a tragdia
do destino de Rostam. Afinal de contas, todos os pais, no fundo de seu corao, no
abrigam o desejo de matar os filhos?
Um dia, em julho de 1973, aprontei outra sujeira com Hassan. Estava lendo para
ele quando, de repente, deixei de lado a histria. Fingi que continuava lendo o livro,
virando as pginas regularmente, mas tinha abandonado completamente o texto,
assumido o comando da narrativa e estava inventando tudo por minha prpria conta.
Hassan,  claro, no percebeu nada. Para ele, as palavras da pgina eram um
amontoado de cdigos, algo indecifrvel, misterioso. Eram portas secretas e eu  que
detinha todas as chaves. No final, estava pronto para perguntar se Hassan tinha
gostado da histria, com o riso j se armando na minha garganta, quando ele comeou
a bater palmas.
 O que est fazendo?  perguntei.
 H muito tempo que voc no me contava uma histria to boa  disse ele
ainda aplaudindo.
Comecei a rir.
 Srio?
 Srio.
 Fascinante!  murmurei. E tambm no estava brincando. Aquilo era...
absolutamente inesperado.  Tem certeza, Hassan?
Ele continuava a bater palmas.
 Foi o mximo, Amir agha. L mais amanh?

 Fascinante  repeti meio sem flego, sentindo-me como um homem que
descobre um tesouro enterrado em seu prprio quintal. Enquanto descamos a colina,
as idias iam explodindo em minha cabea como fogos de artifcio em Chaman. "H
muito tempo que voc no me contava uma histria to boa" foi o que ele disse. E
olhe que eu tinha lido um monte de histrias para ele. Mas Hassan estava fazendo
uma pergunta qualquer.
 O qu?  indaguei eu.
 O que quer dizer "fascinante"?
Comecei a rir. Dei-lhe um abrao bem apertado e um beijo na bochecha.
 Por que isso?  indagou ele assustado, corando.
Dei-lhe um empurro de leve. Sorri.
 Voc  um prncipe, Hassan.  um prncipe e adoro voc.
Naquela mesma noite, escrevi minha primeira histria. Levei trinta minutos
para faz-lo. Era um pequeno conto meio soturno sobre um homem que encontra um
clice mgico e fica sabendo que, se chorar dentro dele, suas lgrimas vo se
transformar em prolas. Mas, embora tenha sido sempre muito pobre, ele era feliz e
raramente chorava. Tratou ento de encontrar meios de ficar triste para que as suas
lgrimas pudessem fazer dele um homem rico. Quanto mais acumulava prolas, mais
ambicioso ficava. A histria terminava com o homem sentado em uma montanha de
prolas, segurando uma faca na mo, chorando inconsolvel dentro do clice e tendo
nos braos o cadver da esposa que tanto amava.
Subi as escadas e fui direto para a "sala de fumar" de meu pai, levando nas mos
as duas folhas de papel onde tinha rascunhado a histria. Quando cheguei, baba e
Rahim Khan estavam fumando cachimbo e tomando brandy
 O que foi, Amir?  perguntou baba recostando-se no sof e cruzando as
mos na nuca. O seu rosto estava envolto em fumaa azulada, e o seu olhar fez
minha garganta ficar seca. Pigarreei e disse que tinha escrito uma histria.
Baba acenou com a cabea e deu um leve sorriso que demonstrava pouco mais que
interesse fingido.
 Ora, isso  muito bom, no ?  disse ele.
E foi s. Apenas ficou me olhando atravs daquela nuvem de fumaa.
Devo ter ficado parado ali por menos de um minuto, mas foi um dos minutos
mais longos de toda a minha vida at aquele instante. Os segundos iam se arrastando,
separados uns dos outros por uma eternidade. O ar ficou pesado, abafado, quase
slido. Eu estava respirando tijolos. Baba continuou olhando para mim e no pediu
para ler o que eu tinha escrito.
Como sempre, foi Rahim Khan que veio em meu socorro. Estendeu a mo e me
brindou com um sorriso que nada tinha de fingido.
 Posso ver, Amir jan? Adoraria l-la.
Baba quase nunca usava o termo carinhoso, jan, quando falava comigo.
Ele deu de ombros e se levantou. Parecia aliviado, como se tambm tivesse sido
socorrido por Rahim Khan.
 Isso mesmo, mostre a kaka Rahim. Vou subir para me aprontar.  E, dizendo
isso, saiu do aposento.

A maior parte do tempo, eu adorava baba com uma intensidade quase religiosa.
Naquele instante, porm, tudo o que queria era poder abrir as minhas veias e deixar
que o seu maldito sangue sasse do meu corpo.
Uma hora mais tarde, quando o cu j estava escurecendo, os dois saram no
carro de meu pai para ir a uma festa. Quando estavam de sada, Rahim Khan se
agachou diante de mim e me entregou minha histria junto com um outro papel
dobrado. Deu um sorriso e piscou o olho.
 Tome. Leia isso mais tarde.
Fez uma pausa e acrescentou uma nica palavra que foi mais eficaz no sentido
de me encorajar a continuar escrevendo do que qualquer outro elogio que algum
editor jamais tenha me feito. Essa palavra foi "bravo!".
Depois que eles saram, sentei em minha cama querendo que Rahim Khan fosse
meu pai. Pensei ento em baba com seu peito largo e em como era bom quando ele me
apertava junto a si; como cheirava a Brut pela manh; e como a sua barba espetava o
meu rosto. De repente, senti uma culpa to grande que disparei para o banheiro e
vomitei na privada.
Mais tarde, encolhido na cama, li e reli milhares de vezes o bilhete de Rahim Khan,
que dizia o seguinte:
Amir jan,
adorei a sua histria. Mashallah, Deus lhe concedeu um talento especial. Cabe a
voc, agora, aperfeioar esse talento, pois algum que desperdia os talentos que Deus lhe
deu  simplesmente burro. Voc escreve corretamente do ponto de vista gramatical e
tem um estilo interessante. O mais impressionante, porm,  que a sua histria tem
ironia. Talvez voc nem saiba o que essa palavra significa. Mas algum dia saber. 
algo que alguns escritores passam a vida inteira procurando e nunca conseguem
atingir. E voc conseguiu isso na primeira histria que escreveu.
Minha porta est e sempre estar aberta para voc, Amir jan. Estou pronto para
ouvir qualquer histria que tenha para contar. Bravo!
Seu amigo,
Rahim
Animado com o bilhete de Rahim Khan, passei a mo na histria e corri para o
saguo onde Ali e Hassan estavam dormindo, em colches no cho. Era s nessas
circunstncias que eles dormiam dentro de casa, quando baba saa e Ali tinha que
tomar conta de mim. Sacudi Hassan, para acord-lo, e perguntei se queria ouvir uma
histria.
Ele esfregou os olhos, sonolento, e se espreguiou.
 Agora? Que horas so?
 Azar da hora! Essa  uma histria especial. Fui eu mesmo que escrevi 
sussurrei, torcendo para no acordar Ali. O rosto de Hassan se iluminou.
 Ento, tenho que ouvi-la  disse ele j empurrando o cobertor Para se levantar.
Li a histria para ele na sala de visitas, perto da lareira de mrmore. Desta vez,
nada de gozaes com as palavras. O que estava em jogo era eu mesmo! E Hassan era
o pblico perfeito, em todos os sentidos: inteiramente absorto na narrativa, a expresso
de seu rosto se modificando de acordo com os tons que a histria ia assumindo.
Quando li a ltima frase, ele fez com as mos o gesto do aplauso sem som.
 Mashallah, Amir agha. Bravo!  disse ele radiante.

 Gostou?  indaguei eu, esperando sentir pela segunda vez o sabor, e como
era doce, de uma apreciao positiva.
 Algum dia, Inshallah, voc vai ser um grande escritor  disse Hassan.  E
gente do mundo todo vai ler as suas histrias.
 Que exagero, Hassan!  exclamei, adorando-o por isso.
 No  no. Voc vai ser grande e famoso  insistiu ele.
Hesitou um pouco, ento, como se estivesse prestes a acrescentar algo. Pesou
bem as palavras e pigarreou.
 Mas posso perguntar uma coisa sobre a histria?  indagou envergonhado.
 Claro.
 Bem...  principiou ele, mas logo parou.
 Pode falar, Hassan  disse eu. E sorri, embora, de repente, o escritor
inseguro que havia em mim no soubesse muito bem se queria ou no ouvir o que
ele tinha a dizer.
 Bem...  recomeou ele  o que eu queria perguntar  por que o homem
matou a esposa. Na verdade, por que ele precisava estar triste para derramar lgrimas?
Ser que no podia simplesmente cheirar uma cebola?
Fiquei pasmo. Um detalhe como esse, to bvio que chegava a ser absolutamente
estpido, no tinha me ocorrido. Movi os lbios sem emitir som algum. Parecia que na
mesma noite em que eu tinha aprendido qual era um dos objetivos da escrita, a ironia, ia
ser apresentado tambm a uma de suas armadilhas: os furos da trama. E, entre todas as
criaturas do mundo, Hassan  que foi me ensinar isso. Hassan que no sabia ler e nunca
tinha escrito uma nica palavra em toda a sua vida. Uma voz, fria e escura, sussurrou
subitamente em meu ouvido, "Mas o que  que ele entende disso, esse hazara analfabeto?
Ele nunca vai passar de um cozinheiro. Como ousa criticar voc?".
 Bem...  disse eu. Mas nunca consegui acabar aquela frase.
Porque, de repente, o Afeganisto mudou para sempre.

CINCO
HOUVE UM ESTRONDO QUE MAIS PARECIA um trovo. A terra estremeceu um pouco e
ouvimos o ra-ta-ta-ta-t de uma arma de fogo.
 Pai!  gritou Hassan. Levantamos de um salto e samos cor rendo da sala de
visitas. Fomos encontrar Ali atarantado, mancando freneticamente de um lado para o
outro no saguo.
 Pai! Que barulho foi esse?  gritou Hassan correndo para ele com os braos
estendidos. Ali o abraou. Um claro esbranquiado iluminou o cu em tons de
prateado. Depois, um outro claro, seguido do rpido staccato da artilharia.
 Esto caando patos  respondeu Ali com a voz rouca.  Voc sabe que  
noite que se caam patos. No tenha medo.
Uma sirene passou  distncia. Em algum lugar um vidro se estilhaou e algum
gritou. Ouvi barulho de gente na rua, provavelmente acordada em sobressalto e ainda de
pijamas, com os cabelos despenteados e os olhos inchados. Hassan estava chorando.
Ali o abraou ainda mais, apertando-o com ternura. Mais tarde, diria a mim mesmo que
no fiquei com inveja de Hassan. De jeito nenhum.
Ficamos assim amontoados at as primeiras horas da manh. O tiroteio e as
exploses no duraram nem uma hora, mas nos deixaram apavorados, porque nenhum
de ns jamais tinha ouvido tiros pelas ruas. Nessa poca, aqueles rudos eram estranhos
para ns. A gerao de crianas afegs cujos ouvidos s conheceram o som das bombas
e da artilharia ainda estava por nascer. Bem juntinhos, na sala de jantar, esperando o
dia clarear, nenhum dos trs fazia a menor idia de que um jeito de viver tinha
terminado. O nosso. No de imediato, mas aquele instante tinha marcado o comeo do
fim. O fim, o fim oficial chegaria primeiro em abril de 1978, com o golpe de Estado
comunista, e, depois, em dezembro de 1979, quando os tanques russos comearam a
circular por aquelas mesmas ruas onde Hassan e eu brincvamos, trazendo a morte do
Afeganisto que conheci e dando incio a uma era sangrenta que perdura at hoje.
Um pouco antes do nascer do sol, o carro de baba embicou na entrada da casa.
Ouvimos a porta bater e os seus passos apressados ressoando nos degraus. Ento, ele
surgiu na porta da frente e vi algo em seu rosto, algo que no consegui identificar
imediatamente, pois nunca tinha visto aquilo antes: medo.

 Amir! Hassan!  exclamou ele correndo na nossa direo, com os braos bem
abertos.  Bloquearam todas as estradas e o telefone no estava funcionando. Fiquei
to preocupado!
Deixamos que nos apertasse em seus braos e, por um breve instante de loucura,
fiquei feliz pelo que quer que tivesse acontecido aquela noite.
NINGUM ESTAVA CAANDO PATOS, afinal. Como ficamos sabendo depois, eles no tinham
tido muito em que atirar naquela noite de 17 de julho de 1973. Quando Cabul
acordou na manh seguinte, descobriu que a monarquia era coisa do passado. O rei,
Zahir Shah, estava na Itlia. Aproveitando-se da sua ausncia, seu primo Daoud Khan
ps fim a um reinado de quarenta anos com um golpe sem derramamento de sangue.
Lembro que, naquela manh, Hassan e eu ficamos agachados perto da porta do
escritrio de meu pai enquanto baba e Rahim Khan tomavam ch preto e ouviam as
ltimas notcias do golpe transmitidas pela rdio Cabul.
 Amir agha...  sussurrou Hassan.
 O qu?
 O que  uma "repblica"?
 No sei  disse eu dando de ombros. No rdio de baba aquela palavra,
repblica, estava sendo repetida milhares de vezes.
 Amir agha...
 O qu?
 Ser que "repblica" quer dizer que o pai e eu vamos ter de ir embora?
 Acho que no  respondi tambm sussurrando.
Hassan pensou um pouco.
 Amir agha...
 O qu?
 No quero que eles nos mandem embora, o pai e eu.
Sorri para ele.
 Bas, seu burro. Ningum est mandando vocs embora.
 Amir agha...
 O qu?
 Voc quer subir na nossa rvore?
Meu sorriso se alargou. Isso era outra caracterstica de Hassan. Sempre sabia
dizer a coisa certa na hora certa  as notcias do rdio j estavam ficando muito
chatas. Ele foi para casa se aprontar e eu fui pegar um livro. Depois, passei pela
cozinha, enchi os bolsos de pinhes e corri para o quintal ao encontro de Hassan, que
estava esperando por mim. Samos em disparada pelo porto principal e tomamos o
rumo da colina.
Passamos pelas ruas residenciais e estvamos caminhando por um grande
terreno baldio que tnhamos de atravessar para chegar  colina quando, de repente,
uma pedra acertou Hassan pelas costas. Viramo-nos e meu corao quase parou. Assef
e dois de seus amigos, Wali e Kamal, estavam vindo em nossa direo.
Assef era filho de um amigo de meu pai, Mahmud, um piloto de avio. Moravam
a umas poucas ruas ao sul da nossa casa, em um condomnio elegante, com muros
altos e palmeiras. Se voc fosse uma criana que morasse no bairro Wazir Akbar Khan,
em Cabul, j teria ouvido falar de Assef e do seu clebre soco-ingls de ao inoxidvel,
se no tivesse tido o azar de experiment-lo na prpria pele. Filho de me alem e pai

afego, Assef era louro, de olhos azuis e bem mais alto que todos os outros garotos.
Sua merecida fama de atos de selvageria o precedia pelas ruas. Ladeado por seus
amigos obedientes, circulava pelas redondezas como um khan que passeasse pelas suas
terras cercado de seu sqito obsequioso. Sua palavra era lei e se por acaso voc
precisasse de alguma instruo legal, aquele soco-ingls metlico era o instrumento
ideal para ele lhe transmitir os seus ensinamentos. Uma vez vi Assef usar o soco-ingls
em um menino do bairro de Karteh-Char. Nunca vou esquecer como os seus olhos azuis
brilhavam com uma luz no inteiramente s, e como ele sorria, sim, como sorria
enquanto esmurrava o pobre garoto inconsciente. Alguns meninos de Wazir Akbar Khan
o tinham apelidado Assef Goshkhor, ou Assef, o "Comedor de Orelhas".  claro que
ningum ousava dizer isso na cara dele, a menos que quisesse ter o mesmo destino do
pobre garoto que tinha inspirado involuntariamente esse apelido quando brigou com
Assef por causa de uma pipa e acabou tendo que pescar a prpria orelha direita dentro
de uma valeta enlameada. Anos mais tarde, aprendi uma palavra que define muito bem
uma criatura como Assef, uma palavra para a qual no existe um equivalente perfeito
em farsi: "sociopata."
De todos os meninos da vizinhana que torturavam Ali, Assef era de longe o mais
incansvel. Na verdade, foi ele que inventou a tal histria de "Babalu": "Ei, Babalu,
quem foi que voc comeu hoje? Uh-uh! Como , Babalu? D um sorriso para ns!" E,

quando estava particularmente inspirado, caprichava ainda mais no deboche: "Ei, seu
Babalu de nariz achatado, quem foi que voc comeu hoje? No vai dizer no, seu
burro de olhos puxados?"
Agora, l estava ele, vindo na nossa direo, com as mos nas cadeiras e os tnis

levantando nuvenzinhas de poeira do cho.
 Bom dia, kunis!  exclamou Assef, acenando com a mo. "Bichas": este era
mais um de seus insultos favoritos. Hassan se escondeu atrs de mim quando os trs
garotos mais velhos chegaram bem perto.
Ficaram parados na nossa frente: aqueles trs sujeitos altos, usando camiseta e
cala jeans. Pairando muito acima de ns, Assef cruzou os braos musculosos diante
do peito, com uma espcie de sorriso selvagem nos lbios. No foi a primeira vez que
me passou pela cabea que ele no era inteiramente normal. Tambm me passou pela
cabea a sorte que eu tinha por ser filho de baba, o nico motivo, creio eu, para que
Assef quase sempre evitasse me atormentar demais. Esticou o queixo, apontando para
Hassan.
 Ei, nariz achatado!  exclamou ele.  Como vai Babalu?
Hassan no disse nada e deu mais um passo para trs.
 Ouviram as notcias, meninos?  prosseguiu ele, ainda com aquele sorriso
nos lbios.  O rei j era. E j vai tarde! Vida longa para o presidente! Meu pai
conhece Daoud Khan, sabia, Amir?
 O meu tambm  disse eu. Para ser sincero, no tinha a menor idia se aquilo
era verdade ou no.
 O meu tambm  repetiu Assef me imitando, com uma vozinha chorosa.
Kamal e Wali riram em unssono. E eu desejei que baba estivesse ali.
 E, Daoud Khan jantou l em casa no ano passado  acrescentou Assef.  O
que voc acha disso, Amir?
Perguntei a mim mesmo se algum nos ouviria gritar, aqui nesse terreno isolado.
A casa de baba ficava bem a um quilmetro de distncia. Adoraria que no
tivssemos sado...

 Sabe o que vou dizer a Daoud Khan da prxima vez que ele for jantar l em
casa?  indagou Assef.  Vou ter uma conversinha com ele, de homem para homem,
mard para mard. E vou lhe dizer o que disse para minha me. Sobre Hitler. Aquilo,
sim,  que era um lder. Um grande lder. Um homem de viso. Vou dizer a Daoud
Khan que se tivessem deixado Hitler terminar o que comeou, o mundo hoje
seria um lugar muito melhor.
 Baba diz que Hitler era louco, que mandou matar um monte de gente
inocente  me ouvi dizendo antes que tivesse tempo de tapar a boca com a mo.
Assef deu uma risadinha.
 Parece at minha me, e olhe que ela  alem... No devia cair nessa... Mas
acontece que eles querem que vocs acreditem nisso, no ? No querem que saibam a
verdade.
No fazia a mnima idia de quem seriam esses "eles", ou que verdade era essa
que estariam escondendo, mas tambm no fazia a mnima questo de saber. Tudo o
que queria era no ter dito nada. E mais uma vez, desejei levantar os olhos e dar
com baba subindo a colina.
 Mas a gente tem que ler os livros que nos do na escola prosseguiu ele.
 Eu li. E isso me abriu os olhos. Agora, tenho
uma posio, e vou dividi-la com nosso novo presidente. Sabe o que isso significa?
Fiz que no com a cabea. De um jeito ou de outro, ele ia dizer mesmo. Assef
sempre respondia s perguntas que ele prprio fazia.
Seus olhos azuis se moveram rapidamente, voltando-se para Hassan.
 O Afeganisto  a terra dos pashtuns. Sempre foi e sempre ser. Ns  que
somos os verdadeiros afegos, os afegos puros, e no esse "nariz achatado" aqui. Essa
gente polui a nossa terra, o nosso watan. Sujam o nosso sangue.  Fez um gesto bem
amplo com as mos.  O Afeganisto para os pashtuns,  isso a! Essa  a minha
posio.
Voltou a olhar para mim. Parecia algum acordando de um sonho.
 Para Hitler,  tarde demais  disse ele.  Para ns, no.  Apanhou
alguma coisa no bolso de trs do jeans.  Vou dizer ao presidente para fazer o que o
rei no teve quwat de fazer. Livrar o Afeganisto de todos esses hazaras nojentos,
kasseef!
 Deixe a gente ir, Assef  disse eu, com dio ao ver que minha voz tremia. 
No estamos atrapalhando voc...
 Mas claro que esto  retrucou ele.
E o meu corao quase parou quando vi o que ele tinha apanhado no bolso. 
lgico. O soco-ingls de ao inoxidvel reluzia ao sol.
 Esto me atrapalhando muitssimo. Na verdade, voc me aborrece muito
mais que esse hazara a. Como pode falar com ele, brincar com ele, deixar que ele
toque em voc?  perguntou com a voz cheia de repulsa. Wali e Kamal assentiram
com a cabea e com um grunhido. Assef apertou os olhos. Abanou a cabea.
Quando voltou a falar, sua voz soou to espantada quanto parecia o seu rosto.
 Como pode cham-lo de "amigo"?
"Mas ele no  meu amigo!" foi o que quase deixei escapar. " meu empregado!"
Ser que tinha realmente pensado isso? No. Claro que no. Sempre tratei Hassan
muito bem, como um amigo; talvez at melhor, como um irmo. Mas, ento, por que
ser que quando os amigos de baba vinham nos visitar com os filhos, eu nunca inclua
Hassan nas nossas brincadeiras? Por que s brincava com ele quando no tinha mais
ningum por perto?
Assef enfiou o soco-ingls na mo. E me lanou um olhar glacial.
 Voc  parte do problema, Amir. Hoje em dia, j estaramos livres dessa
gente se idiotas como voc e seu pai no os acolhessem. Todos teriam apodrecido em
Hazarajat, que  o lugar deles. Voc  uma desgraa para o Afeganisto.
Olhei para os seus olhos enlouquecidos e vi que estava falando srio, que
realmente pretendia me atacar. Assef ergueu o punho e partiu para cima de mim.
Percebi um movimento rpido s minhas costas. Com o canto do olho, vi Hassan
se abaixar e voltar a se erguer bem depressa. Os olhos de Assef avistaram algo atrs de
mim e se arregalaram de espanto. Vi o mesmo olhar perplexo no rosto de Kamal e de
Wali quando tambm se deram conta do que estava acontecendo.
Virei e dei de cara com o estilingue de Hassan. A tira elstica estava toda
esticada para trs. Na lingeta, uma pedra do tamanho de uma noz. Hassan estava
mirando bem no meio do rosto de Assef. Sua mo tremia com o esforo para manter a
tira retesada e gotas de suor banhavam a sua testa.
 Por favor, deixe-nos em paz, agha  disse ele com voz impassvel. Chamou
Assef de "agha" e, por um segundo, me perguntei como deveria ser levar uma vida
assim, com uma noo to entranhada de qual  o lugar que lhe cabe em uma
hierarquia.
Assef cerrou os dentes.
 Baixe isso, seu hazara sem me!
 Por favor, deixe a gente em paz, agha  insistiu Hassan.
Assef sorriu.
 Talvez voc no tenha notado, mas somos trs, e vocs, apenas dois.
Hassan deu de ombros. Para algum que no o conhecesse, no parecia estar
com medo. Mas aquele rosto era a minha lembrana mais remota e eu conhecia cada
uma das suas nuanas mais sutis, cada contrao ou estremecimento que porventura
se desenhasse ali. E vi que estava com medo. Com muito medo mesmo.
 Tem razo, agha. Mas talvez voc no tenha notado que sou eu estou
segurando o estilingue. Se fizer o mnimo movimento, ter trocar o apelido de Assef, o
"Comedor de Orelhas", para Assef, o "Caolho", pois esta pedra est apontada para o
seu olho esquerdo.
Disse isto de um jeito to tranqilo que at eu tive de fazer um esforo para
perceber o medo que sabia estar escondido por baixo daquela calma.
A boca de Assef se retorceu. Wali e Kamal olhavam aquele confronto com uma
espcie de fascnio. Algum tinha desafiado o seu deus. Ele estava sendo humilhado.
E, o que era pior, esse algum era um hazara franzino. Assef olhava para a pedra e
para Hassan. Observava o rosto do menino atentamente. O que viu ali deve t-lo
convencido da seriedade das suas intenes, pois baixou o punho.
 Tem uma coisa que voc precisa saber a meu respeito, seu hazara  disse
ele num tom grave.  Sou um cara muito paciente. Isto no vai ficar assim, pode
acreditar no que estou dizendo.  E acrescentou, virando-se para mim.  Isso vale
para voc tambm, Amir. Algum dia vou fazer voc me enfrentar e vai ser s entre
ns dois.
Assef deu um passo atrs. Seus discpulos o seguiram.

 O seu hazara cometeu um grande erro hoje, Amir  disse ele. Os trs viraram
ento as costas e foram embora. Fiquei olhando enquanto desciam a colina, at que
desapareceram atrs de um muro.
Hassan estava tentando enfiar o estilingue na cintura com as mos trmulas. Sua
boca se contorceu fazendo algo que, supostamente, pretendia ser um sorriso
tranqilizador. S na terceira tentativa  que conseguiu prender o estilingue no
cordo da cala. Temerosos, nenhum de ns disse praticamente nada no caminho at em
casa, pois podamos jurar que Assef e seus amigos estariam emboscados em cada
esquina. Mas no estavam, e deveramos ter ficado um pouco mais tranqilos. Mas
no ficamos. No mesmo.
DURANTE OS PRIMEIROS ANOS QUE SE SEGUIRAM ao golpe, os termos "desenvolvimento
econmico" e "reforma" danavam em vrias bocas em Cabul. A monarquia
constitucional tinha sido abolida, substituda pela repblica, e o pas era governado
por um presidente. Por um breve tempo, um certo ar de rejuvenescimento e
determinao circulou pelo Afeganisto. Falava-se em direitos das mulheres e moderna
tecnologia.
E, sob quase todos os aspectos  embora houvesse um novo lder no Arg, o
palcio real de Cabul , a vida continuava exatamente como antes. As pessoas iam
trabalhar de sbado a quinta-feira e, na sexta, se reuniam para fazer piqueniques nos
parques, nas margens do lago Ghargha, nos jardins de Paghman. nibus e lotaes
multi-coloridos, repletos de passageiros, circulavam pelas estreitas ruas da capital,
guiados pelos gritos incessantes dos ajudantes que se encarapitavam no pra-choque
traseiro dos veculos e iam indicando as direes ao motorista, aos berros, com o seu
forte sotaque kabuli. Na poca do Eid, a celebrao de trs dias que marca o fim do
ms sagrado do Ramadan, os kabulis vestiam suas melhores roupas novas e iam visitar
os parentes. Todos se abraavam, se beijavam e se cumprimentavam dizendo "Eid
Mubarak". Feliz Eid. As crianas abriam os seus presentes e brincavam com ovos
cozidos e tingidos.
Em princpios do inverno de 1974, Hassan e eu estvamos brincando no quintal,
fazendo uma fortaleza de neve, quando Ali veio cham-lo.
 Hassan, agha sahib quer falar com voc!  Estava parado na porta da frente,
vestido de branco, com as mos enfiadas debaixo dos braos e vapor saindo da
boca quando falava.
Hassan e eu nos entreolhamos sorrindo. Tnhamos passado o dia inteiro
esperando por aquele chamado. Era o aniversrio de Hassan.
 O que , pai? Voc sabe? No vai nos dizer?  perguntou Hassan. E os
seus olhos estavam brilhando.
Ali deu de ombros.
 Agha sahib no falou nada comigo.
 Vamos, Ali, diga!  insisti eu.   um livro de desenho? Talvez um
revlver novo?
Como o filho, Ali era incapaz de mentir. Todo ano, fingia ignorar o que baba
tinha comprado para Hassan ou para mim de presente de aniversrio. E, todo ano, os
seus olhos o traam e conseguamos tirar dele todas as informaes. Desta vez, porm,
parecia estar dizendo a verdade.

Baba nunca deixava o aniversrio de Hassan passar em branco. Houve uma
poca em que perguntava o que ele queria, mas desistiu de fazer isso porque Hassan era
sempre modesto demais para sugerir um presente de verdade. Assim, baba acabava
sempre escolhendo ele mesmo alguma coisa. Uma vez, comprou um caminho de
brinquedo japons; outra vez, um trem eltrico. No ano passado, surpreendeu Hassan
com um chapu de cowboy, igualzinho ao que Clint Eastwood usava em O bom, o mau e
o feio  que tinha substitudo Sete homens e um destino como nosso western favorito.
Passamos o inverno inteiro nos alternando para usar o chapu e cantando em altos
brados a famosa msica do filme quando trepvamos em montanhas de neve e
atirvamos um no outro de mentirinha.
Tiramos as luvas e as botas cheias de neve na porta da frente. Quando entramos
no saguo, vimos baba sentado perto do fogareiro de ferro fundido, tendo ao seu lado
um indiano baixo e um tanto calvo, vestido com um terno marrom e uma gravata
vermelha.
 Hassan  disse baba sorrindo meio sem jeito.  Venha conhecer o seu
presente de aniversrio.
Hassan e eu nos entreolhamos espantadssimos. No havia sinal de embrulho de
presente. Nenhuma sacola. Nenhum brinquedo. S Ali, parado atrs de ns, e meu pai
com aquele indiano baixinho que tinha um certo ar de professor de matemtica.
O indiano de terno marrom sorriu e estendeu a mo para Hassan.
 Sou o dr. Kumar  disse ele.  Prazer em conhec-lo.
Ele falava farsi com um leve e ondulante sotaque hindi.
 Salaam alaykum  disse Hassan meio hesitante. Fez um aceno com a cabea,
mas os seus olhos procuravam o pai s suas costas. Ali chegou mais perto e ps a mo
no ombro do filho.
Baba percebeu o olhar desconfiado  e desconcertado  de Hassan.
 Chamei at aqui o dr. Kumar, de Nova Delhi. Ele  um cirurgio plstico.
 Sabe o que  isso?  indagou o indiano, o tal dr. Kumar.
Hassan abanou a cabea. Olhou para mim pedindo socorro, mas dei de
ombros. Tudo o que eu sabia  que procurvamos um cirurgio para tratar de ns
quando tnhamos apendicite. Sabia disso porque, um ano antes, um dos meus colegas
de turma tinha morrido e o professor nos explicou que demoraram muito para lev-lo
a um cirurgio. Ambos olhamos para Ali, mas,  claro, no adiantou nada. O seu rosto
estava impassvel como sempre, embora houvesse um qu de seriedade nos seus
olhos.
 Bem  disse o dr. Kumar , o meu trabalho  consertar coisas no corpo das
pessoas. s vezes no rosto delas.
 Ah!  exclamou Hassan. Os seus olhos foram do dr. Kumar para baba e,
depois, para Ali. Levou a mo ao lbio superior.  Ah!  repetiu ele.
 Sei que  um presente meio estranho  disse baba.  E, provavelmente, no
era isso que voc estava esperando. Mas este  um presente que vai ficar para sempre.
 Ah!  disse Hassan novamente. Passou a lngua nos lbios. Pigarreou. 
Agha sahib, vai... vai...
 De jeito nenhum  interveio o dr. Kumar sorrindo gentilmente.
 No vai doer nem um pouquinho. Na verdade, vou lhe dar um remdio e
voc nem vai se lembrar de nada.

 Ah!  repetiu Hassan. E retribuiu o sorriso aliviado. Mas nem tanto...  No
 que estivesse com medo, agha sahib  prosseguiu ele.  S...
Hassan talvez tivesse acreditado naquela histria, mas eu no. Sabia que quando
os mdicos dizem que no vai doer voc pode ter a certeza de que est em maus
lenis. Apavorado, lembrei da minha circunciso no ano anterior. O mdico me disse
a mesma coisa, garantindo que no ia doer nada. Mas, quando passou o efeito do tal
remdio que entorpece, bem mais tarde naquela noite, parecia que algum tinha
enfiado carvo em brasa nos meus rins. Por que baba tinha esperado eu fazer dez anos
para mandar me circuncidarem  uma coisa que nunca consegui entender, e que
nunca vou perdoar.
Adoraria ter tambm algum tipo de cicatriz que atrasse a simpatia de baba. No
era justo. Hassan no tinha feito nada para conquistar a afeio de meu pai;
simplesmente tinha nascido com aquele estpido lbio leporino...
A cirurgia foi um sucesso. Ficamos todos um pouco chocados da primeira vez
que removeram os curativos; no entanto, continuamos sorrindo, obedecendo s
instrues do dr. Kumar. Mas no foi fcil pois o lbio superior de Hassan era uma
coisa grotesca, todo inchado e em carne viva. Achei que ele ia gritar horrorizado
quando a enfermeira lhe deu o espelho. Ali segurou a sua mo e ele ficou um bom
tempo contemplando o prprio rosto. Depois, balbuciou algo que no entendi.
Cheguei o ouvido bem perto da sua boca. Ele sussurrou de novo.
 Tashakor.  Obrigado.
Ento os seus lbios se contorceram e, desta vez, eu sabia exatamente o que ele
estava fazendo. Estava sorrindo. Assim como tinha feito quando saiu do tero de sua
me.
O inchao foi diminuindo e, com o tempo, a ferida cicatrizou. Em alguns meses,
no passava de uma linha rosada atravessando o lbio superior. No inverno seguinte,
era apenas uma leve cicatriz. O que  bastante irnico. Porque foi justamente nesse
inverno que Hassan parou de sorrir.

SEIS
INVERNO.
Todo ano, no primeiro dia em que comea a nevar, fao a mesma coisa: saio de
casa bem cedo, pela manh, ainda de pijama, apertando os braos contra o peito para
enfrentar o frio. Vejo a entrada, o carro de meu pai, o muro, as rvores, os telhados e as
colinas cobertos por mais de um palmo de neve. Sorrio. O cu est limpo e azul, e tudo
 to branco que os meus olhos chegam a arder. Enfio um punhado de neve na boca,
fico ouvindo aquele silncio abafado que s  rompido pelos grasnidos dos corvos.
Deso os degraus, descalo, e chamo Hassan para vir ver tambm.
O inverno era a estao favorita de todas as crianas de Cabul, pelo menos
daquelas cujos pais tinham condies de comprar um bom aquecedor de ferro. E o
motivo era simples: as escolas fechavam durante a estao gelada. Para mim, a chegada
do inverno significava no ter que fazer longas divises nem dar o nome da capital da
Bulgria, e o princpio de um perodo de trs meses jogando cartas com Hassan perto
da lareira, indo ver filmes russos no cinema Park na tera-feira de manh, comer
qurma de nabo doce com arroz na hora do almoo, depois de uma manh inteira
fazendo bonecos de neve.
E pipas,  claro. Soltar pipas. E correr para apanh-las.
Para umas poucas crianas desafortunadas, o inverno no significava o fim do ano
letivo.  que havia os chamados cursos voluntrios de inverno. Nenhuma criana jamais
foi realmente voluntria para esses cursos;  bvio que eram os seus pais que as
inscreviam. Por sorte, baba no era um deles. Lembro de um menino, Ahmad, que
morava do outro lado da rua. Seu pai era uma espcie de mdico, acho eu. Ahmad
tinha epilepsia e usava sempre um casaco de l e uns culos com lentes de fundo de
garrafa e aro escuro  ele era uma das vtimas habituais de Assef. Toda manh, pela
janela de meu quarto, via o criado hazara tirando a neve do cho defronte da casa
deles, limpando o caminho para a sada do Opel preto. Eu fazia questo de ver Ahmad
e o pai entrarem no carro, Ahmad vestindo o seu casaco negro e um sobretudo de
inverno, com a mala cheia de livros e de lpis. Ficava esperando at eles sarem,
dobrarem a esquina e, ento, voltava para a cama com o meu pijama de flanela. Puxava
o cobertor at o queixo e ficava olhando as colinas cobertas de neve que se viam pela
janela. Ficava olhando para elas at pegar no sono outra vez.

Adorava o inverno em Cabul. Adorava por causa do suave tamborilar na minha
janela  noite, quando estava nevando; por causa do barulhinho da neve fresca
debaixo das minhas galochas pretas; do calor do fogareiro de ferro fundido enquanto
o vento assobiava pelos quintais e pelas ruas. Mas principalmente porque, quando as
arvores ficavam congeladas e a neve recobria as estradas, o gelo entre mim e baba
diminua um pouco. E a razo disso eram as pipas. Baba e eu morvamos na mesma
casa, mas vivamos em esferas de existncia completamente diferentes. As pipas eram a
minscula rea de interseo que havia entre essas esferas.
TODOS OS BAIRROS DE CABUL SEMPRE organizavam campeonatos de pipas no inverno. E se
voc fosse um menino de Cabul, o dia do torneio era incontestavelmente o ponto alto
da estao fria. Nunca conseguia dormir na vspera da competio. Rolava na cama,
fazia animais de sombra na parede, chegava at a ir sentar na varanda no escuro
enrolado em um cobertor. Eu me sentia como um soldado tentando dormir na
trincheira na vspera de uma batalha importante. E no era muito diferente, no. Em
Cabul, empinar pipas era um pouco como ir para a guerra.
Como em toda guerra, voc precisa se preparar para uma batalha. Durante
algum tempo, Hassan e eu fizemos as nossas prprias pipas. Passvamos o outono
economizando dinheiro da mesada e guardvamos essas economias em um cavalinho de
porcelana que meu pai trouxe uma vez de uma viagem a Herat. Quando comeavam a
soprar os ventos do inverno e a neve comeava a cair em quantidade razovel, abramos
o fecho que ficava debaixo da barriga do cavalo. Corramos para o bazaar e
comprvamos bambu, cola, barbante e papel de seda. Passvamos horas a fio aparando
o bambu para a vareta central e as outras duas que se cruzavam para fazer a armao,
cortando o papel finssimo, indispensvel para a pipa debicar e voltar a subir com
facilidade. E,  claro, tnhamos que fazer tambm a nossa prpria linha, ou tar. Se a pipa
era o revlver, o tar, o fio cortante recoberto de cerol, era a munio. amos para o
quintal e enchamos uns duzentos metros de barbante com aquela mistura de cola e
vidro modo. Depois, pendurvamos o barbante entre as rvores para secar. No dia
seguinte, enrolvamos a linha pronta para a guerra em um carretel de madeira.
Quando a neve derretia e comeavam a cair as chuvas da primavera, todos os meninos
de Cabul ostentavam nos dedos talhos horizontais, traos reveladores de um inverno
inteiro passado nessas batalhas. Lembro de como os meus colegas e eu nos reunamos
para comparar as cicatrizes de guerra no primeiro dia de aula. Os cortes eram
doloridos e levavam umas duas semanas para sarar, mas isso no tinha a menor
importncia. Aquelas eram as marcas da estao que eu tanto amava e que, mais uma
vez, tinha acabado depressa demais. Ento, o monitor da turma soava o apito e, em
fila, todos nos dirigamos para a sala de aula, j sonhando com a volta do inverno e, no
entanto, indo ao encontro do espectro de mais um longo ano letivo.
Logo se viu, porm, que Hassan e eu ramos muito melhores empinando pipas
do que tentando fabric-las. Uma falha ou outra o nosso projeto sempre acabava
determinando o seu destino. Baba comeou ento a nos levar  loja de Saifo para
comprar nossas pinas. Saifo era um homem quase cego, moochi de profisso  que
ganhava a vida consertando sapatos. Mas tambm era o fabricante de pipas mais
famoso da cidade, com a sua minscula lojinha na Jadeh Maywand, a rua mais
movimentada ao sul das margens lamacentas do rio Cabul. Lembro que as pessoas
tinham de se agachar para entrar naquele cubculo do tamanho de uma cela de priso,
e, depois, levantar a tampa de um alapo para descer alguns degraus de madeira que

levavam ao poro mido onde Saifo guardava as to cobiadas pipas. Baba comprava

para cada um de ns trs pipas idnticas e carretis de linha com cerol. Se eu mudasse de
idia e resolvesse pedir uma pipa maior e mais extravagante, ele a compraria, mas
compraria a mesma tambm para Hassan. s vezes gostaria que no agisse assim. Que
me deixasse ser o seu favorito.
O campeonato de pipas era uma velha tradio de inverno no Afeganisto. O
torneio comeava de manh cedo e s acabava quando a pipa vencedora fosse a nica
ainda voando no cu  lembro de uma vez que a competio terminou quando j era
noite fechada. As pessoas se amontoavam pelas caladas e pelos telhados, torcendo
pelos filhos. As ruas ficavam repletas de competidores dando sacudidelas e puxes nas
linhas, com os olhos fixos no cu, tentando se pr em condies de cortar a pipa do
adversrio. Todo pipeiro tinha um assistente  no meu caso, Hassan , que ficava
segurando o carretel e controlando a linha.
Certa vez, um gurizinho indiano, cuja famlia tinha acabado de se mudar para o
nosso bairro, veio nos dizer que, l na sua terra, havia regras estritas e toda uma
regulamentao para se soltar pipa.
 Temos que ficar em uma rea cercada e  preciso se pr em um ngulo
determinado com relao ao vento  disse ele todo prosa.  E se pode usar alumnio
para fazer sua prpria linha com cerol.
Hassan e eu nos entreolhamos. E camos na gargalhada. Aquele pirralho indiano
logo, logo aprenderia o que os britnicos aprenderam no comeo do sculo, e os
russos viriam a descobrir em fins da dcada de 1980: que os afegos so um povo
independente. Cultivam os costumes, mas abominam as regras. E com as pipas no
podia ser diferente. As regras eram simples: no havia regras. Empine a sua pipa.
Corte a dos adversrios. E boa sorte.
S que isso no era tudo. A brincadeira comeava mesmo depois que uma pipa era
cortada. Era a que entravam em cena os caadores de pipas, aquelas crianas que
corriam atrs das pipas levadas pelo vento, at que elas comeassem a rodopiar e
acabassem caindo no quintal de algum, em uma rvore ou em cima de um telhado.
Essa perseguio podia se tornar bastante feroz; bandos de meninos saam correndo
desabalados pelas ruas, uns empurrando os outros como aquela gente da Espanha
sobre quem li alguma coisa, aqueles que correm dos touros. Uma vez, um garoto da
vizinhana subiu em um pinheiro para apanhar uma pipa. O galho quebrou com o seu
peso e ele caiu de mais de dez metros de altura. Quebrou a espinha e nunca mais voltou
a andar. Mas caiu segurando a pipa. E quando um desses caadores pe a mo em uma
pipa, ningum pode tir-la dele. Isso no  uma regra.  o costume.
Para eles, o prmio mais cobiado era a ltima pipa que caa em um campeonato
de inverno. Era como um trofu, algo a ser posto em um lugar de destaque e exibido
para as visitas. Quando o cu se esvaziava, e sobravam apenas as duas ltimas pipas,
todos aqueles caadores se preparavam para tentar conquistar aquele prmio.
Procuravam se posicionar de jeito a estarem prontos para a largada. Msculos tensos,
prestes a disparar. Pescoos espichados. Olhos apertados. Surgiam as brigas. E,
quando a ltima pipa era cortada, era um deus-nos-acuda.
Ao longo dos anos, vi milhares de garotos correrem atrs de pipas. Mas Hassan foi
de longe o melhor que jamais vi. Era impressionante como ele percebia onde a pipa
poderia ir parar antes mesmo que ela comeasse a cair, como se tivesse uma espcie de
bssola interior.

Lembro de um dia nublado de inverno, quando Hassan e eu estvamos tentando
apanhar uma pipa. Fui correndo atrs dele pelo bairro todo, pulando valetas, me
embrenhando por ruelas estreitas. Hassan era um ano mais moo, mas corria bem
mais depressa, e eu j estava ficando para trs.
 Hassan! Espere!  gritei quase sem flego.
Ele se virou e fez um gesto com a mo.
 Por aqui  disse, antes de desaparecer em uma outra esquina. Olhei para
cima e vi que estvamos correndo em uma direo, enquanto a pipa ia sendo levada
para o lado oposto.
 Vamos perder essa pipa! Estamos indo para o lado errado!  exclamei.
 Confie em mim!  gritou ele l de longe.
Cheguei na esquina e vi Hassan, que continuava correndo, de cabea baixa, sem
nem mesmo olhar para o cu, com as costas da camisa encharcadas de suor. Tropecei em
uma pedra e ca  eu no era s mais lento que Hassan, era mais desajeitado tambm;
sempre tive inveja de sua condio atltica natural. Quando me levantei, avistei Hassan
que desaparecia dobrando uma outra esquina. Sa mancando atrs dele, sentindo
fisgadas de dor nos joelhos esfolados.
Fomos dar em uma estradinha de terra toda esburacada, perto da escola
secundria Istiqlal. De um lado, havia um campo que, no vero, era uma plantao de
alfaces, e, do outro, um renque de cerejeiras. Vi Hassan sentado no cho, ao p de uma
daquelas rvores, comendo um punhado de amoras secas.
 O que  que estamos fazendo aqui?  indaguei ofegante, com o estmago se
revirando de enjo.
 Sente comigo, Amir agha  disse ele sorrindo.
Na verdade, me deixei cair ao seu lado e me estiquei em um pedacinho de cho
coberto de neve, quase sem flego.
 Estamos perdendo tempo. No viu que a pipa est indo para o outro lado?
Hassan trincou uma amora.
 Est vindo para c  respondeu.
Eu mal podia respirar, e ele nem parecia cansado.
 Como pode saber?  perguntei.
 Eu sei.
 Como?
Ele se virou para mim. Algumas gotinhas de suor escorriam de sua cabea
raspada.
 J menti para voc, Amir agha? De repente, resolvi implicar com ele.  Sei l
 respondi.  J?
 Mil vezes comer coc!  exclamou ele com ar indignado.
 De verdade? Voc faria isso?
Ele me lanou um olhar desconcertado.
 Faria o qu?
 Comer coc, se eu mandasse  respondi. Sabia que estava sendo cruel,
como naquelas vezes em que debochava dele quando no conhecia uma palavra
qualquer. Mas havia algo de fascinante, embora de um jeito doentio, em implicar com
Hassan. Era um pouco como brincar de torturar insetos. S que, agora, ele era a
formiga e eu  que estava segurando a lupa.

Ele ficou me encarando por um bom momento. Estvamos sentados ali, dois
meninos debaixo de uma cerejeira, e, de repente, nos olhvamos, olhvamos de
verdade. Foi ento que aconteceu de novo: o rosto de Hassan mudou. Talvez no tenha
mudado, no para valer, mas, de repente, tive a sensao de estar olhando para dois
rostos: um deles, o que eu conhecia, aquele que era a minha lembrana mais remota; o
outro, o segundo rosto, era o que estava escondido logo abaixo da superfcie, j tinha
visto isso acontecer antes e aquilo sempre me deixava um pouco atordoado. Esse
outro rosto s aparecia por uma frao de segundo, mas isso era o bastante para me
deixar com a perturbadora sensao de que talvez j o tivesse visto em algum lugar.
Ento, Hassan piscava e voltava a ser ele mesmo. Simplesmente Hassan.
 Se voc mandasse, faria, sim  disse ele afinal, olhando bem para o meu
rosto. Baixei os olhos. Foi a que descobri como  difcil olhar diretamente nos olhos
das pessoas como Hassan, essas pessoas que dizem sinceramente o que pensam. 
Mas fico imaginando...  acrescentou ele.  Ser que algum dia voc me mandaria
fazer uma coisa dessas, Amir agha?
E, com isso, Hassan me props um pequeno teste. Se eu ia provoc-lo, desafiando
a sua lealdade, ele ia fazer o mesmo, pondo  prova a minha integridade.
Adoraria no ter comeado aquela conversa. Dei um sorriso forado.
 No seja idiota, Hassan. Voc sabe muito bem que eu no faria isso!
Ele tambm sorriu. S que o dele no parecia forado.
 Eu sei  disse.
E esse  o problema das pessoas que so sinceras: acham que todo mundo tambm
.
 L vem ela  exclamou ele apontando para o cu.
Levantou-se e deu uns poucos passos para a esquerda. Olhei para cima e vi a
pipa rodopiando na nossa direo. Ouvi correria, gritos, um monte de outros caadores
que se aproximavam. Mas estavam perdendo seu tempo. Porque Hassan ficou parado
ali, de braos abertos, sorrindo,  espera da pipa. E que Deus  se  que Ele existe 
me cegue se no for verdade que a pipa caiu exatamente naqueles braos estendidos.
NO INVERNO DE 1975 VI HASSAN CORRER atrs de uma pipa pela ltima vez.
Normalmente, cada bairro tem a sua prpria competio. Mas, aquele ano, o
campeonato ia ser realizado no meu, Wazir Akbar Khan, e vrios outros  Karteh-
Char, Karteh-Parwan, Mekro-Rayan e Koteh-Sangi  tinham sido convidados. No
se podia ir a lugar nenhum sem ouvir falar do torneio que se aproximava. Dizia-se que
aquela ia ser a maior competio dos ltimos vinte e cinco anos.
Certa noite, naquele inverno, a apenas quatro dias do campeonato, meu pai e eu
estvamos sentados no escritrio, nas cadeiras estofadas de couro,  luz da lareira.
Conversvamos, tomando ch. Ali tinha servido o jantar mais cedo  batatas e
couve-flor ao curry com arroz  e tinha ido se deitar juntamente com Hassan. Baba
estava engordando o cachimbo, como dizia, e eu lhe pedi que me contasse aquela
histria sobre o inverno em que um bando de lobos desceu das montanhas de Herat,
obrigando as pessoas a ficarem trancadas em casa por uma semana. Ele riscou um
fsforo e disse, como quem no quer nada:
 Talvez voc ganhe o campeonato este ano. O que acha?

Fiquei sem saber o que pensar. Ou o que dizer. Ser que era o que eu estava
imaginando? Ser que ele estava simplesmente me dando uma indireta? Eu era bom
empinando pipas. Na verdade, era muito bom Umas poucas vezes estive bem perto de
ganhar o campeonato de inverno  certa feita, fiquei entre os trs finalistas. Mas chegar
quase l no era a mesma coisa que vencer, no ? Baba no tinha chegado quase l.
Ganhou porque os vencedores ganham e todos os demais vo embora para casa. Ele
estava acostumado a vencer, vencer em tudo o que resolvesse fazer. Ser que no
tinha o direito de esperar o mesmo do prprio filho? E imagine s se eu ganhasse...
Baba ficou fumando seu cachimbo e falando. Fingi estar ouvindo. Na verdade,
porm, no conseguia ouvir nada, pois o ligeiro comentrio casual que ele tinha feito
plantou uma semente em minha cabea: a deciso de ganhar o torneio de inverno. Eu
ia ganhar. No havia nenhuma outra opo vivel. Ia ganhar e ia conseguir aquela
ltima pipa. Ento, ia traz-la para casa e mostr-la a baba. Mostrar a ele, de uma vez
por todas, que o seu filho tinha valor. E, assim, quem sabe a minha vida de fantasma
naquela casa no acabaria afinal? Fiquei sonhando: imaginei conversas e risos
durante o jantar, em vez daquele silncio s rompido pelo barulho dos talheres e
algum grunhido ocasional. Vi ns dois saindo de carro, na sexta-feira, rumo a Paghman,
com uma parada no lago Ghargha para comer truta frita com batatas. Iramos ao
zoolgico ver Marjan, o leo, e talvez baba no ficasse bocejando e olhando o relgio
o tempo todo. Talvez at lesse uma das minhas histrias. Seria capaz de escrever uma
centena delas se achasse que ele leria uma que fosse... Talvez ele me chamasse de Amir
jan, como Rahim Khan fazia. E talvez, apenas talvez, ele finalmente me perdoasse por
ter matado minha me.
Baba estava falando de quando cortou quatorze pipas em um dia s. Fiquei
sorrindo, assentindo com a cabea; ri em todos os momentos certos, mas praticamente
no ouvi uma palavra do que ele disse. Agora, eu tinha uma misso. E no ia
decepcionar baba. No desta vez.
NEVOU FORTE NA VSPERA DO CAMPEONATO. Hassan e eu ficamos sentados debaixo do kursi,
jogando panjpar, ouvindo os galhos das rvores batendo na vidraa sacudidos pelo
vento. Mais cedo, pedi a Ali que preparasse o kursi para ns  basicamente um
aquecedor eltrico instalado sob uma mesa baixa recoberta com um edredom bem grosso.
Em volta da mesa, ele ps colches e almofadas e, desse jeito, umas vinte pessoas
poderiam se sentar e enfiar as pernas ali embaixo. Normalmente, Hassan e eu passvamos
os dias de muita neve desse jeito, jogando xadrez ou cartas  quase sempre panjpar.
Comprei o dez de ouros de Hassan e joguei para ele dois valetes e um seis. Ao
lado, no escritrio, baba e Rahim Khan estavam tendo uma conversa de negcios com
dois outros homens, um dos quais reconheci como sendo o pai de Assef. Atravs da
parede, dava para ouvir o som meio chiado do noticirio da rdio Cabul.
Hassan deixou o seis e apanhou os valetes. No rdio, Daoud Khan estava
anunciando alguma coisa sobre investimentos estrangeiros.
 Ele est dizendo que um dia desses vamos ter televiso em Cabul  disse
eu.
 Quem?
 Daoud Khan, seu idiota, o presidente.
 Ouvi dizer que no Ira j tem  disse Hassan com um risinho.
 Esses iranianos...  suspirei.

Para muitos hazaras, o Ir representava uma espcie de santurio. Suponho que
fosse porque, como eles, a maioria dos iranianos era xiita. Mas estava lembrando de
algo que meu professor tinha dito naquele vero sobre os iranianos: que eles eram
indivduos sorridentes e de fala mansa, que davam tapinhas nas costas com uma das
mos enquanto roubavam a nossa carteira com a outra. Contei isso a baba e ele disse
que meu professor era um daqueles afegos invejosos, invejosos porque o Ir era um
poder em ascenso na sia e a maior parte das pessoas pelo mundo afora mal sabia
localizar o Afeganisto em um mapa. " duro dizer isto", acrescentou ele dando de
ombros. "Mas  melhor uma verdade que di do que uma mentira que conforta."
 Qualquer dia desses compro uma para voc  acrescentei.
O rosto de Hassan se iluminou.
 Uma televiso? Srio?
 Claro. E no vai ser dessas em preto-e-branco, no. Provavelmente j seremos
grandes nessa poca, mas vou comprar duas. Uma para voc, outra para mim.
 Vou botar em cima da minha mesa, onde ficam os meus desenhos  disse
Hassan.
Ouvi-lo dizer isso me deixou triste. Triste por ele ser o que era, por morar onde
morava. Pelo fato de aceitar que ia crescer naquela cabana do quintal, exatamente como
tinha acontecido com seu pai. Comprei a ltima carta e joguei para ele um par de
damas e um dez.
Hassan pegou as damas.
 Sabe, acho que voc vai deixar agha sahib muito orgulhoso amanh.
 Acha mesmo?
 Inshallah  disse ele.
 Inshallah  repeti eu, embora a idia de uma "vontade de Deus" no
soasse muito sincera em minha boca. Isso era um dos problemas com Hassan. O
desgraado do garoto era to puro que a gente sempre parecia hipcrita perto dele.
Comprei o rei e joguei a ltima carta, o s de espadas. Ele tinha que compr-la.
Ganhei, mas, enquanto embaralhava as cartas para uma outra partida, tive a clara
suspeita de que Hassan tinha me deixado ganhar.
 Amir agha...
 O qu?
 Sabe... gosto do lugar onde moro.  Ele sempre fazia isso: ler meus
pensamentos.   o meu lar.
 Bom, voc  quem sabe...  disse eu.  Prepare-se para perder outra vez.

SETE
No DIA SEGUINTE, ENQUANTO PREPARAVA meu ch preto para o caf da manh, Hassan me
contou que tinha tido um sonho.
 Estvamos no lago Ghargha  disse ele.  Voc, eu, o pai, agha sahib,
Rahim Khan e mais um monte de gente. Fazia sol, a temperatura estava tima e o
lago estava lmpido como um espelho. Mas ningum estava nadando porque
andavam dizendo que um monstro tinha vindo para o lago. Estava escondido l no
fundo, s operando...
Encheu a minha xcara, acrescentou o acar e soprou algumas vezes. Ps ento
o ch diante de mim.
 Era por isso que todos estavam com medo de entrar na gua. De repente,
voc descalou os sapatos, Amir agha, e tirou a camisa.
"No tem monstro nenhum a", disse. "Vou mostrar a todos vocs." E antes que
algum pudesse impedi-lo, mergulhou na gua e comeou a nadar. Mergulhei tambm e
samos os dois nadando.
 Mas voc no sabe nadar!
  um sonho, Amir agha  disse Hassan rindo.  A gente pode fazer qualquer
coisa. Seja como for, todo mundo comeou a gritar: "Saiam da! Saiam da!", mas ns
continuamos a nadar na gua fria. Chegamos sos e salvos ao meio do lago e paramos.
Viramos na direo da margem e acenamos para as pessoas que estavam paradas l.
Pareciam formiguinhas, mas podamos ouvir os seus aplausos. Agora estavam vendo.
No tinha monstro nenhum ali, s gua. Depois disso, mudaram o nome do lago,
que passou a se chamar "Lago de Amir e Hassan, sultes de Cabul", e podamos
cobrar das pessoas que quisessem ir nadar l.
 E o que isso significa?  perguntei eu.
Ele passou gelia no meu naan e botou em um prato.
 Sei l... Tinha esperanas que voc me explicasse.
 Ora,  um sonho besta. No acontece nada...
 O pai diz que os sonhos sempre querem dizer alguma coisa.
Tomei uns goles do meu ch.
 Ento, por que no vai perguntar a ele, j que  to esperto  disse eu, mais
rispidamente do que pretendia. No tinha dormido nada aquela noite. Meu pescoo e
minhas costas estavam parecendo molas bem enroladas, e meus olhos pinicavam. De
todo modo, tinha sido uma peste com Hassan. Quase pedi desculpas, mas acabei no
fazendo nada. Hassan ia compreender que eu estava nervoso. Ele sempre
compreendia o que acontecia comigo.
Podia ouvir l em cima o rudo da gua escorrendo no banheiro de baba.
As RUAS CINTILAVAM COM A NEVE FRESCA e o cu estava de um azul impecvel. A neve
recobria todos os telhados e pesava sobre os ramos das amoreiras mirradas que
margeavam a nossa rua. Durante a noite, tinha se infiltrado em cada fenda ou vala.
Precisei apertar os olhos diante daquele branco ofuscante quando Hassan e eu samos
pelo porto de ferro fundido. Ali fechou o porto depois que passamos. Ouvi que
murmurava baixinho uma orao  sempre fazia isso quando o filho saa de casa.
Nunca tinha visto tanta gente em nossa rua. Crianas atirando bolas de neve,
brigando, correndo atrs umas das outras, rindo. Competidores s voltas com os
seus ajudantes, fazendo os ltimos preparativos. Das ruas adjacentes, podamos ouvir
gente rindo e conversando. Os telhados j estavam repletos de espectadores reclinados
em cadeiras de jardim, com o ch quente fumegando nas garrafas trmicas e a
msica de Ahmad Zahir tocando em altos brados nos toca-fitas. O popularssimo
Ahmad Zahir revolucionou a msica afeg e escandalizou os puristas acrescentando
guitarras eltricas, bateria e trompetes aos instrumentos tradicionais, a tabla e o
harmnio. No palco ou nas festas, ele desprezava a atitude austera e quase soturna dos
cantores de antigamente e chegava mesmo a sorrir enquanto cantava  s vezes at para
as mulheres. Olhei para o nosso telhado e vi meu pai e Rahim Khan sentados em um
banco, ambos com suteres de l, tomando ch. Baba acenou. No pude distinguir se
tinha sido para mim ou para Hassan.
 Acho que  melhor a gente comear a se mexer  disse Hassan.
Ele estava usando botas de neve de borracha preta, um chapan verde brilhante por
cima de uma suter bem grossa e uma cala de veludo cotel desbotada. A luz do sol
batia em cheio no seu rosto e, com isso, dava para perceber como a marca rosada no
seu lbio superior tinha cicatrizado bem.
De repente, me deu vontade de desistir. Pegar as minhas coisas e ir embora para
casa. O que  que estava pensando? Por que estava me metendo nessa enrascada, se j
sabia qual seria o resultado? Baba estava l em cima do telhado, olhando para mim.
Sentia o seu olhar no meu corpo como a gente sente o calor do sol ardente. Ia ser um
fracasso estrondoso, mesmo para algum como eu...
 No sei se estou a fim de empinar pipa hoje  disse.  Est um dia lindo 
retrucou Hassan.
Passei o peso do corpo de um p para o outro. Tentei desviar os olhos do telhado
l de casa.
 No sei, no. Talvez seja melhor voltar.
Ento, ele deu um passo na minha direo e, baixinho, disse uma coisa que me
deixou um pouco assustado.
 No se esquea, Amir agha. No tem monstro nenhum; s um lindo dia.
Como eu podia ser assim to transparente para ele quando, pelo menos em
cinqenta por cento das vezes, no fazia a menor idia do que estaria passando pela
sua cabea? E era eu que ia ao colgio. Era eu que sabia ler e escrever. Era eu o
inteligente. Hassan no era capaz de ler nem um livro de primeira srie, mas podia me
ler com a maior facilidade. Era um tanto perturbador, mas tambm um pouco
reconfortante ter algum que sempre sabia do que voc estava precisando.

 Monstro nenhum...  repeti, sentindo-me um pouco melhor para minha
prpria surpresa.
 Monstro nenhum  disse ele sorrindo.
 Tem certeza?
Ele fechou os olhos e fez que sim com a cabea. Olhei para aquelas crianas
correndo pela rua, atirando bolas de neve.
 O dia est lindo, no est?
 Vamos l?  indagou ele.
Ocorreu-me que talvez Hassan tivesse inventado aquele sonho. Seria possvel?
Decidi que no. Hassan no era to esperto assim. Eu no era to esperto assim. Mas,
inventado ou no, aquele sonho idiota tinha diminudo um pouco a minha ansiedade.
Talvez devesse tirar a camisa e nadar no lago. Por que no?
 Vamos l  respondi.
O rosto de Hassan se iluminou.
 timo  disse ele.
Ergueu a nossa pipa vermelha com as bordas amarelas e que trazia, logo abaixo
do ponto em que as varetas se cruzam, a marca inconfundvel da assinatura de Saifo.
Lambeu os dedos e segurou a pipa l no alto; testou o vento e, ento, correu na sua
direo  nas raras vezes em que empinvamos pipas no vero, ele chutava o cho
para levantar poeira e ver para que lado o vento estava soprando. O carretel ficou
rolando nas minhas mos at Hassan parar, a uns vinte metros de distncia. Ficou
segurando a pipa bem acima da cabea, como um atleta olmpico que exibe a medalha
de ouro. Dei dois puxes na corda, o sinal combinado entre ns, e ele soltou a pipa.
Dividido entre baba e os muls da escola, ainda no sabia muito bem o que pensar
a respeito de Deus. Mas quando me veio  cabea um ayat do Coro, que tinha
aprendido na aula de diniyat, eu o repeti baixinho. Respirei fundo e comecei a puxar a
corda. Em um minuto, a minha pipa estava subindo vertiginosamente pelos ares. Fazia
um barulho que parecia um pssaro de papel batendo as asas. Hassan aplaudiu,
assobiou, e correu de volta para perto de mim. Segurei firme na linha, e lhe
entreguei o carretel que ele girou bem depressa para enrolar novamente a parte que
tinha ficado solta.
Havia pelo menos umas vinte e tantas pipas no cu, como tubares de papel
perambulando  cata de uma presa. Em uma hora, esse nmero tinha duplicado, e pipas
vermelhas, azuis e amarelas voavam e rodopiavam pelo ar. Um vento frio soprava em
meu cabelo. Era o vento perfeito para empinar pipas, apenas forte o bastante para dar a
elas alguma altitude e facilitar os movimentos. Ao meu lado, Hassan segurava o
carretel com as mos j sangrando por causa do cerol.
Logo a batalha comeou e as primeiras pipas derrotadas j rodopiavam fora de
controle. Caam do cu feito estrelas cadentes, com as caudas luzidias e ondulantes,
enchendo o bairro de trofus para os meninos que corriam atrs delas para apanh-las.
Era possvel ouvi-los gritando e correndo pelas ruas. Algum anunciou que tinha
comeado uma briga dois quarteires adiante.
Continuei lanando olhares para baba sentado junto com Rahim Khan no telhado
l de casa, tentando imaginar o que estaria pensando. Ser que estava torcendo por mim?
Ou ser que parte dele gostava de me ver fracassar?  isso que acontece quando a gente
empina pipas: nossa cabea sai voando junto com elas.
Agora, caam pipas por todo lado e a minha ainda estava no ar. A minha ainda
estava no ar. Meus olhos continuavam buscando baba agasalhado em sua suter de l.

Ser que estava surpreso ao ver que eu estava conseguindo resistir tanto? "Se tirar os
olhos do cu, no conseguir manter a pipa no ar por muito tempo." Tratei ento de
olhar de novo para o cu. Uma pipa vermelha estava se aproximando da minha. Eu a
notei bem na hora. Embolei um pouco com ela, mas acabei levando a melhor quando o
outro empinador ficou impaciente e tentou me cortar por baixo.
Por todo canto, viam-se aqueles caadores que voltavam triunfantes, erguendo
bem alto as pipas que tinham capturado, exibindo-as para os pais e os amigos. Todos
sabiam, porm, que o melhor ainda estava por vir. O maior dos prmios ainda estava
voando. Derrubei uma pipa amarela brilhante, com uma rabiola branca toda enroladinha.
Esse feito me custou mais um talho no indicador e o sangue comeou a escorrer
pela palma da minha mo. Mandei Hassan segurar a linha e, depois de chupar o
sangue, esfreguei bem o dedo na cala jeans.
Mais uma hora se passou e a quantidade de pipas que ainda resistiam tinha
despencado de umas cinqenta para cerca de uma dzia. Consegui estar entre as doze
finalistas. Sabia que essa parte da disputa ia ser um pouco mais demorada, porque os
caras que tinham agentado at ali eram bons  no cairiam facilmente, com
armadilhas simples como o velho tentear e debicar, o truque favorito de Hassan.
Por volta das trs da tarde, o cu foi ficando encoberto e o sol se escondeu atrs
das nuvens. As sombras comearam a aumentar. Os espectadores que estavam nos
telhados se agasalharam ainda mais, com cachecis e casacos bem grossos. J ramos
s umas dez, e eu ainda estava voando. As minhas pernas doam e o meu pescoo estava
duro. Mas, a cada pipa derrubada, a esperana crescia no meu corao, como a
neve que vai se acumulando em cima de um muro, um floco de cada vez.
Os meus olhos estavam sempre voltando a fitar uma pipa azul que vinha fazendo a
maior devastao h cerca de uma hora.
 Quantas ele j derrubou?  perguntei.
 Contei onze  respondeu Hassan.
 Sabe de quem pode ser essa pipa?
Hassan estalou a lngua e esticou o queixo para a frente. Aquele gesto era a sua
marca registrada, significando que no fazia a menor idia a respeito de algo. A azul
cortou uma outra pipa grande e roxa, e, majestosa, deu duas voltas no ar. Dez minutos
depois, derrubou mais duas, fazendo milhares de garotos sarem desabalados ao seu
encalo.
Meia hora depois, s restavam quatro pipas. E eu ainda estava voando. Parecia
praticamente impossvel fazer algum movimento errado. Era como se todas as rajadas de
vento soprassem a meu favor. Nunca me senti to dono da situao, to sortudo.
Estava embriagado. No ousava olhar para o telhado l de casa. No ousava tirar
os olhos do cu. Precisava me concentrar, ficar ligado no que estava fazendo. Mais
quinze minutos se passaram e aquilo que, pela manh, teria parecido um sonho
ridculo tinha, de repente, se tornado realidade: s restvamos ns dois, eu e o outro
garoto. O da pipa azul.
O ar em volta estava to tenso quanto a linha com cerol que eu manejava com as
mos ensangentadas. As pessoas estavam batendo com os ps no cho, aplaudindo,
assobiando, berrando: "Boboresh! Boboresh! Derrube! Derrube!" Fiquei me
perguntando se a voz de baba estaria entre as que eu estava ouvindo. A msica tocava
altssima. O cheiro de mantu no vapor e de pakora frito se espalhava pelo ar, vindo dos
telhados e das portas abertas.

Tudo o que ouvia, porm  tudo o que me permitia ouvir , era o pulsar do
sangue na minha cabea. Tudo o que via era a pipa azul. O nico cheiro que sentia era o
da vitria. Salvao. Redeno. Se baba estivesse enganado, e existisse mesmo um Deus,
como me diziam no colgio, ento Ele ia deixar que eu vencesse. No sabia com que
objetivo o outro garoto estava competindo, talvez s para exibir os seus dotes. Mas,
para mim, aquela era a nica chance de me tornar algum que era olhado, e no apenas
visto; que era escutado, e no apenas ouvido. Se existia mesmo um Deus, Ele ia guiar o
vento, deixar que soprasse para mim, e assim, com um puxo na corda, eu ia me livrar
da minha dor, dos meus anseios. Tinha agentado muito, chegado longe demais. E, de
repente, em um piscar de olhos, a esperana virou certeza. Eu ia ganhar. Era s uma
questo de tempo.
Acabou acontecendo mais cedo do que eu imaginava. Uma rajada de vento fez a
minha pipa subir e fiquei em vantagem. Dei mais linha e, depois, um puxo. Com isso, a
minha pipa fez um looping e ficou acima da azul. Mantive essa posio. A pipa azul
sabia que estava em apuros. Tentava desesperadamente realizar manobras para sair
daquele aperto, mas no deixei. Mantive minha posio. A multido percebia que o fim
da batalha estava prximo. O coro "Derrube! Derrube!" foi ficando cada vez mais forte,
como os romanos gritando para os gladiadores: "Mate! Mate!"
 Voc est quase l, Amir agha! Quase l!  exclamou Hassan ofegante.
Ento, chegou a hora. Fechei os olhos e afrouxei a pegada na linha. Cortei os dedos
novamente quando o vento arrastou a minha pipa. E a... no precisei ouvir os gritos
da multido para saber. Tambm no precisei ver nada. Hassan estava gritando e tinha
passado o brao pelo meu pescoo.
 Bravo! Bravo, Amir agha!
Abri os olhos e o que vi foi a pipa azul rodopiando loucamente como um pneu
que se solta de um carro em alta velocidade. Pisquei vrias vezes, tentei dizer alguma
coisa. No saiu som nenhum. De repente, eu estava flutuando no ar, vendo a mim
mesmo l embaixo. Casaco de couro preto, cachecol vermelho, cala jeans desbotada.
Um menino magricela, um tanto plido e meio baixinho para algum de doze anos.
Com ombros estreitos e crculos escuros que se insinuavam em torno dos olhos cor de
avel. O vento despenteava os seus cabelos castanho-claros. Ele ergueu os olhos para
mim e sorrimos um para o outro.
Comecei ento a gritar, e tudo era cor e som, tudo estava cheio de vida e era
maravilhoso. Abracei Hassan com o brao que estava livre e comeamos a pular,
ambos rindo, ambos chorando.
 Voc ganhou, Amir agha! Voc ganhou!
 Ns ganhamos! Ns ganhamos!  foi tudo o que consegui dizer. Isso no
estava acontecendo. Logo, logo estaria piscando os olhos e despertando desse sonho
maravilhoso; saindo da cama, descendo at a cozinha para tomar o meu caf da manh
sem ter ningum com quem conversar a no ser Hassan. Me aprontar. Ficar esperando
por baba. Desistir. De volta  minha velha vida. Foi ento que o vi no telhado l de
casa. Estava de p na mureta, agitando ambos os braos. Gritando e aplaudindo. E
aquele ali foi o nico momento importante dos meus doze anos de vida: ver baba no
telhado, finalmente orgulhoso de mim.
Mas, agora, ele estava fazendo alguma coisa, fazendo um gesto com as mos
como quem indica urgncia. Ento, compreendi.
 Hassan, ns...

 Eu sei  disse ele se desvencilhando do meu abrao.  Inshallah, ,vamos festejar
mais tarde. Agora, vou apanhar aquela pipa azul para voc  acrescentou. Largou o
carretel e saiu correndo, com a borda do chapan verde arrastando na neve atrs de si.
Hassan!  gritei eu.  Volte com ela!
Ele j estava dobrando a esquina, com as botas de borracha levantando neve do
cho. Parou e se virou. Ps as mos em concha junto da boca.
Por voc, faria isso mil vezes!  disse ele. E deu aquele sorriso de Hassan,
desaparecendo ento na esquina. S voltei a v-lo sorrir assim to descontrado vinte e
seis anos mais tarde, olhando uma foto Polaroid desbotada.
Comecei a recolher a minha pipa e as pessoas vinham correndo para me dar
parabns. Cumprimentei a todos, agradeci. As crianas menores me olhavam com um
brilho de respeito nos olhos. Eu era um heri. Mos vinham me dar tapinhas nas
costas, afagar os meus cabelos. Fui puxando a linha, retribuindo os sorrisos de todos,
mas s pensava mesmo naquela pipa azul.
Afinal, tinha a minha pipa nas mos. Enrolei no carretel a linha solta que estava
amontoada junto dos meus ps, cumprimentei mais algumas pessoas e corri para casa.
Quando cheguei ao porto de ferro, Ali estava esperando por mim do lado de dentro.
Passou as mos pela grade.
 Meus parabns!  disse.
Entreguei a ele a pipa e o carretel, apertei sua mo.
 Tashakor, Ali jan.
 Fiquei o tempo todo rezando por vocs  acrescentou ele.
 Pois ento, continue rezando. Ainda no terminamos.
Voltei correndo para a rua. Nem perguntei a Ali onde estava meu pai. Ainda no
queria v-lo. Tinha tudo planejado na cabea: faria uma entrada triunfal, como um
heri, tendo nas mos ensangentadas o to valioso trofu. Todas as cabeas iam se virar
e os olhos ficariam pregados em mim. Rostam e Sohrab se avaliando mutuamente. Um
dramtico instante de silncio. Ento, o velho guerreiro ia se aproximar do mais jovem,
abra-lo e reconhecer o seu valor. Legitimao. Salvao. Redeno. E depois? Bem...
Felizes para sempre,  claro. O que mais poderia ser?
As ruas de Wazir Akbar Khan eram numeradas e haviam sido traadas
formando ngulos retos, como se fosse uma grade. Naquela poca, era um bairro novo,
ainda em fase de formao, com lotes vazios e casas parcialmente construdas em
todas as ruas, entre condomnios cercados por muros de uns trs metros de altura. Corri
para cima e para baixo, passando por todas as ruas,  procura de Hassan. Em todo
canto, as pessoas estavam atarefadas dobrando cadeiras guardando comida e
arrumando as coisas depois de um longo dia de festa. Algumas delas, ainda sentadas
nos telhados, gritavam para me dar parabns.
Quatro ruas ao sul da nossa, vi Omar, filho de um engenheiro amigo de baba.
Estava jogando futebol com o irmo no gramado em frente  sua casa. Omar era um
sujeito bem legal. Tnhamos sido colegas na terceira srie e, certa vez, ele me deu uma
caneta-tinteiro, daquele tipo que a gente recarrega com um cartucho.
 Soube que voc venceu, Amir  disse ele.  Parabns!
 Obrigado. Voc viu Hassan?
 O seu hazara?
Fiz que sim com a cabea.
Omar atirou a bola para o irmo.

 Ouvi dizer que  fantstico apanhando pipas  acrescentou. O irmo jogou a
bola de volta para ele. Omar a pegou, fazendo-a quicar para cima e para baixo.
 Se bem que sempre me perguntei como consegue isso. Quero dizer, com
aqueles olhinhos apertados, como  que pode ver alguma coisa?
Seu irmo deu uma risada e pediu a bola. Omar o ignorou.
 Voc o viu?  insisti eu.
Sem se virar, Omar apontou para o sudoeste com o polegar.
 Vi ele passar correndo rumo ao bazaar ainda agora mesmo  respondeu
ele.
 Obrigado  disse eu, e sa em disparada.
Quando cheguei  praa do mercado, o sol j tinha desaparecido quase
inteiramente atrs das colinas e o anoitecer tingiu o cu de rosa e arroxeado. Alguns
quarteires adiante, na mesquita Haji Yaghouh, o mul comeou a entoar o azan,
convocando os fiis a estender o tapete, voltados para o oeste, e inclinar a cabea
para a orao. Hassan nunca deixava de fazer nenhuma das cinco oraes dirias-
Mesmo quando estvamos brincando no quintal, ele pedia desculpas, tirava gua do
poo, se lavava e desaparecia no seu casebre. Saa de l poucos minutos depois,
sorrindo, e vinha me encontrar recostado no muro ou trepado em uma rvore. No
entanto, hoje  noite ele ia deixar de fazer as suas oraes, e por minha causa.
O bazaar estava ficando vazio bem depressa, com os mercadores encerrando os
negcios do dia. Fui correndo pela lama, em meio aos inmeros cubculos colados uns
aos outros, onde se podia comprar um faiso recm-abatido em uma das tendas e uma
calculadora na do lado. Fui me espremendo por entre a multido que ia se reduzindo:
os mendigos aleijados embrulhados em trapos esfarrapados, os vendedores carregando
tapetes nos ombros, os mercadores de roupas e os aougueiros que j fechavam suas
lojas. No vi nem sinal de Hassan.
Parei em uma tenda que vendia frutas secas, descrevi Hassan para um velho
mercador que estava pondo caixotes de pinhes e uvas passas no lombo de uma mula
e usava um turbante azul-claro.
Ele parou o que fazia para me olhar por um bom momento e s depois me
respondeu.
  possvel que o tenha visto...
 Para que lado ele foi?  indaguei.
Ele me olhou dos ps  cabea.
 Por que um menino como voc est andando por aqui, a essa hora do dia,
procurando um hazara?
Os seus olhos se detiveram no meu casaco de couro e na minha cala jeans 
"calas de cowboy", como as chamvamos. No Afeganisto, ter alguma coisa que viesse
dos Estados Unidos, e, principalmente, que no fosse de segunda mo, era sinal de
riqueza.
Preciso encontr-lo, agha.
O que ele  para voc?  perguntou o mercador. No entendi o porqu
daquela pergunta, mas disse com meus botes que a impacincia no ia fazer com que
ele desse mais informaes.   o filho de nosso empregado  respondi. O velho
ergueu as sobrancelhas grisalhas.

 ? Que sorte a desse hazara, ter um patro que se preocupa tanto assim
com ele! O pai desse garoto devia se ajoelhar e varrer com as pestanas a poeira do
cho em que voc pisa.
 O senhor vai ou no vai me dizer para onde ele foi?
Ele apoiou o brao no lombo da mula e apontou para o sul.
 Acho que vi o garoto que voc descreveu correndo naquela direo. Estava
segurando uma pipa nas mos. Uma pipa azul.
 Estava?  perguntei.
"Por voc, faria isso mil vezes" era o que tinha prometido. Grande Hassan. O bom,
velho e leal Hassan. Cumpriu a promessa e pegou aquela pipa para mim.
 E claro que, a essa hora, j devem t-lo apanhado  acrescentou o velho
mercador dando um grunhido e pondo mais um caixote no lombo da mula.
 Quem?
 Os outros garotos  disse ele.  Que estavam correndo atrs dele. Todos
vestidos assim como voc.  Ergueu os olhos para o cu e suspirou.  Agora v
embora, pois est me atrasando para a namaz.
A essa altura, porm, eu j tinha disparado ruela abaixo.
Por cerca de cinco minutos, rodei o bazaar inteiro, em vo. Talvez os olhos do
velho mercador o houvessem trado. Acontece que ele tinha visto a pipa azul. S de
pensar em pr as mos nela... Metia a cabea em cada ruela, em cada tenda. Nem
sinal de Hassan.
J estava ficando preocupado com a idia de que anoitecesse antes de eu
encontrar Hassan quando ouvi vozes um pouco mais adiante. Cheguei a uma rua
deserta e lamacenta, perpendicular ao fim da avenida que passava bem no meio do
bazaar. Dobrei a esquina da ruela esburacada e fui seguindo o som das vozes. As
minhas botas chapinhavam na lama a cada passo, e a minha respirao ia se
transformando em nuvens brancas  minha frente. De um dos lados da estreita
passagem havia um barranco cheio de neve, onde, na primavera, talvez corresse um
riacho. Do outro lado, fileiras de ciprestes cobertos de neve intercalados com casas de
barro de teto achatado  em sua maioria, simples casebres de pau-a-pique , separadas
umas das outras por minsculos becos.
Voltei a ouvir aquelas vozes, agora mais altas, vindo de um desses corredores. Fui
me esgueirando at a entrada. Prendi a respirao. Escondido na quina da casa, espiei
l para dentro.
No final do beco sem sada, vi Hassan em uma pose desafiadora: punhos cerrados,
pernas ligeiramente afastadas. Atrs dele, em cima de pilhas de entulho e lixo, estava
a pipa azul. A minha chave para o corao de baba.
Impedindo Hassan de sair do beco, estavam trs garotos, os mesmos daquela
manh l na colina, no dia seguinte ao golpe de Estado de Daoud Khan, quando Hassan
nos salvou com o estilingue. Wali estava parado de um lado, Kamal, do outro, e, no
meio, Assef. Senti o corpo todo se contrair e alguma coisa gelada escorreu pelas
minhas costas. Assef parecia relaxado, confiante. Estava girando o soco-ingls
metlico nas mos. Os dois outros, nervosos, trocavam constantemente o p de apoio,
olhando ora para Assef, ora para Hassan, como se houvessem acuado algum tipo de
animal selvagem que s Assef fosse capaz de domar.
 Cad o estilingue, hazara?  perguntou Assef sem parar de brincar com o
soco-ingls.  O que foi mesmo que voc disse? "Vo ter de chamar voc de Assef, o

Caolho." , foi isso sim. Assef, o Caolho. Brilhante. Realmente brilhante. Mas, por
outro lado,  fcil ser to esperto quando se tem nas mos uma arma carregada.
Percebi que ainda no tinha soltado o ar. Exalei bem devagarinho, sem fazer
barulho. Estava me sentindo paralisado. Fiquei olhando enquanto eles se aproximavam
do menino com quem eu tinha crescido, aquele menino cujo rosto com o lbio leporino
era a minha lembrana mais remota.
 Mas hoje  o seu dia de sorte, hazara  prosseguiu Assef. Estava de costas
para mim, mas eu podia apostar que estava rindo.  Estou a fim de perdoar. O que
acham disso, rapazes?
  muita generosidade sua  exclamou Kamal.  Principalmente depois de
toda a grosseria que ele fez conosco daquela vez.
Tentou falar no mesmo tom de deboche, mas a sua voz saiu um tanto trmula.
Foi ento que entendi tudo: na verdade, no era Hassan que metia medo nele. Estava
com medo porque no tinha a menor idia do que Assef pretendia fazer.
Assef fez um gesto com a mo, como que encerrando a questo.
 Bakhshida. Est perdoado. Pronto.  E acrescentou, baixando um pouco a voz:
  claro que nada nesse mundo  assim, de graa. Por isso o meu perdo tem um preo
bem razovel.
  justo  disse Kamal.
 Nada  de graa  acrescentou Wali.
 Voc  um hazara de sorte  disse Assef, dando um passo na direo de
Hassan.  Porque, hoje, isso s vai lhe custar essa pipa azul. Um negcio bem justo,
no , rapazes?
 Mais que justo  respondeu Kamal.
Mesmo do lugar em que estava, pude ver o medo se instalando nos olhos de
Hassan, mas ele abanou a cabea.
 Amir agha ganhou o campeonato e corri atrs dessa pipa para ele. E consegui
apanh-la jogando limpo. Essa pipa  dele.
 Que hazara mais leal... Leal como um cachorro  disse Assef.
O riso de Kamal soou estridente, nervoso.
 Mas, antes de se sacrificar por Amir, pense nisso: ser que ele faria a mesma
coisa por voc? J se perguntou por que ele nunca inclui voc nas brincadeiras
quando tem visita? Por que s brincam juntos quando no tem ningum mais por l?
Eu lhe digo por qu, hazara. Porque, para ele, voc no passa de um bichinho de
estimao feioso. Alguma coisa para brincar quando ele est aborrecido; alguma coisa
que pode chutar quando est zangado. No tente se enganar, e lembre que voc 
mais que isso.
 Amir agha e eu somos amigos  disse Hassan. E me pareceu que tinha ficado
vermelho.
 Amigos?  exclamou Assef, rindo.  Seu idiota pattico! Algum dia voc
vai acordar dessa sua fantasia e descobrir que timo amigo ele . Agora, bas! Chega de
lengalenga. Passe essa pipa pa ra c!
Hassan se abaixou e pegou uma pedra.
Assef vacilou. J ia dando um passo atrs, mas parou.
  a sua ltima chance, hazara!
A resposta de Hassan foi erguer a mo que segurava a pedra.
 Como quiser...

Assef desabotoou o casaco, tirou-o e, deliberadamente, dobrou-o com todo
cuidado, pondo-o junto do muro.
Abri a boca e quase disse algo. Quase. O resto da minha vida poderia ter sido
bem diferente se eu tivesse dito alguma coisa naquela hora. Mas no disse. S fiquei
olhando. Paralisado.
Assef acenou com a mo e os dois outros garotos se separaram para formar um
semicrculo, encurralando Hassan naquele beco sem sada.
 Mudei de idia  disse Assef.  Vou deixar que fique com a pipa, hazara.
Vou deixar que fique com ela para que nunca se esquea do que vou fazer agora.
Ento, atacou. Hassan atirou a pedra, atingindo Assef na testa. Ele gritou e
partiu para cima de Hassan, derrubando-o no cho. Wali e Kamal o seguiram.
Mordi a mo. Fechei os olhos.
UMA RECORDAO:
Sabia que Hassan e voc mamaram do mesmo leite? Sabia disso, Amir agha? Ela
se chamava Sakina. Era uma linda hazara de olhos azuis, nascida em Bamiyan, e
cantava para vocs velhas cantigas de casamento. Dizem que as pessoas que mamam do
mesmo leite so como irms. Sabia disso?
Uma recordao:
"Uma rupia por cabea, crianas. S uma rupia por cabea, e abrirei para vocs
as cortinas da verdade." O velho estava sentado junto a um muro de barro. Os seus
olhos cegos eram como prata derretida encrustada em duas crateras profundas,
idnticas. Curvado sobre a bengala, o vidente passa a mo nodosa por toda a superfcie
do rosto murcho. Estende para ns a mo em concha. "No  um preo muito alto
pela verdade, ? Uma rupia por cabea." Hassan pe uma moeda naquela palma
spera. Eu ponho outra. "Em nome de Allah, o mais clemente, o mais misericordioso",
sussurra o velho adivinho. Pega primeiro a mo de Hassan e, com uma unha que mais
parecia um osso, fica fazendo voltas e voltas, voltas e voltas na sua palma. O dedo se
desloca ento at o rosto de Hassan e, com um rudo seco e spero, vai
acompanhando lentamente o traado das suas bochechas, o contorno das suas orelhas.
As pontas calejadas daqueles dedos roam os olhos de Hassan, A mo pra ali e se
detm Por um instante. Uma sombra percorre o rosto do cego. Hassan e eu nos
entreolhamos. O velho pega a mo de Hassan e pe a rupia de volta em sua palma.
Vira-se para mim. "E voc, meu jovem amigo?" pergunta. Do outro lado do muro, um
galo canta. O velho pega minha mo, mas eu a retiro.
Um sonho:
Estou perdido em uma tempestade de neve. O vento assobia atirando pedacinhos
de gelo que espetam os meus olhos. Vou cambaleando, os ps afundando em camadas
daquela brancura fofa. Grito por socorro, mas o vento no deixa que os meus gritos
sejam ouvidos. Caio e fico ofegando na neve, perdido naquela imensido branca, com o
lamento do vento soando nos meus ouvidos. Vejo que a neve est apagando as minhas
pegadas. "Agora sou um fantasma", penso eu, "um fantasma sem pegadas". Volto a
gritar, com a esperana sumindo como as marcas dos meus passos. Desta vez, porm,
h uma resposta longnqua. Protejo os olhos com as mos e dou um jeito de me sentar.
Alm das cortinas flutuantes de neve, tenho a breve viso de algo se movendo, um borro

de cor. Uma forma familiar se materializa. Uma mo se estende na minha direo.
Vejo profundos talhos paralelos cortando a sua palma e o sangue escorrendo, tingindo a
neve. Seguro aquela mo e, de repente, a neve desaparece. Estamos em um campo de
relva verde-clara e macios flocos de nuvens deslizam no cu. Olho para cima e vejo o cu
claro coalhado de pipas verdes, amarelas, vermelhas, laranja. Elas cintilam  luz do
entardecer.
HAVIA UM MONTE DE LIXO E SUCATA espalhado pelo beco. Pneus de bicicleta velhos,
garrafas com os rtulos arrancados, revistas rasgadas, jornais amarelados, tudo jogado
em meio a uma pilha de tijolos e de placas de cimento. Um fogareiro de ferro
enferrujado, com um enorme furo em um dos lados, estava apoiado no muro. Mas, no
meio de todo aquele lixo, havia duas coisas de que eu no conseguia tirar os olhos.
Uma delas era a pipa azul encostada no muro, perto do tal fogareiro enferrujado; a
outra era a cala de veludo cotel marrom de Hassan jogada sobre uma pilha de
tijolos danificados.
 No sei no...  dizia Wali.  Meu pai diz que  pecado.
Ele parecia hesitante, excitado, assustado, tudo ao mesmo tempo. Hassan estava
deitado, com o peito colado no cho. Kamal e Wali seguravam os seus dois braos
virados para trs, e dobrados na altura do cotovelo, fazendo com que as suas mos
ficassem imobilizadas nas costas. Assef estava de p, acima deles, pressionando, com o
salto da bota de neve, a nuca de Hassan.
 O seu pai no vai ficar sabendo de nada  retrucou Assef.
 E no vejo que pecado pode haver em dar uma boa lio em um burro
desrespeitoso.
 No sei no...  murmurou Wali.
 Bom, como quiser  resmungou Assef.  E quanto a voc?  perguntou
virando-se para Kamal.
 Eu... bem...
  s um hazara  disse Assef. Mas Kamal manteve os olhos voltados para o
outro lado.  Tudo bem!  exclamou.  S o que precisam fazer ento, seus
covardes,  segurar ele firme no cho. Ser que disso vocs conseguem dar conta?
Wali e Kamal concordaram com um gesto de cabea. Ambos pareciam aliviados.
Assef se ajoelhou por trs de Hassan, agarrou-o pelos quadris e ergueu um
pouco o seu traseiro. Continuou segurando com uma das mos e, com a outra, abriu
a fivela do prprio cinto. Baixou o fecho ecler da cala jeans. Fez o mesmo com a
cueca. Se ajeitou atrs de Hassan. Este no lutou. Nem mesmo se lamentou. Virou a
cabea lentamente e pude ver o seu rosto de relance. O que vi, ali, foi resignao. Era
um olhar que eu j tinha visto antes. O olhar de um cordeiro.
AMANH  O DCIMO DIA DO DHUL-HIJJAH, ltimo ms do calendrio muulmano, e o
primeiro dos trs dias do Eid Al-adha, ou Eid-e-Qorban, como se diz no Afeganisto 
quando se celebra o episdio em que o profeta Abrao esteve a ponto de sacrificar o
prprio filho a Deus. Como sempre, baba escolheu pessoalmente o carneiro para esse
ano: ele era branco e peludo, com umas orelhas negras meio descadas.
Estamos todos de p, no quintal dos fundos: Hassan, Ali, baba e eu. O mul
recita a orao, passa a mo pela barba. Baba murmura baixinho "Vamos logo com

isso". Parece chateado com aquelas oraes interminveis do ritual para que a carne
se torne halal. Ele despreza a histria que est por trs do Eid, como despreza, alis, tudo
o que se refira a religio. Mas respeita a tradio do Eid-e-Qorban Segundo o costume,
a carne  dividida em trs pores, uma para a famlia, uma para os amigos e uma
para os pobres. Todo ano, baba d tudo para os pobres. "Os ricos j esto gordos o
bastante"  o que diz.
O mul conclui suas oraes. Ameen. Pega o faco de cozinha de lmina bem
comprida. E costume no deixar que o carneiro veja a faca. Ali faz o animal comer um
torro de acar  outro costume, para que a morte seja mais doce. O carneiro
escoiceia, mas no muito. O mul o segura pelo focinho e encosta a lmina da faca no
seu pescoo. Um segundo antes de ele cortar a garganta do carneiro com um golpe
certeiro, vejo os olhos do animal. E um olhar que vai assombrar os meus sonhos por
semanas a fio. No sei por que assisto a essa cerimnia que acontece todo ano em
nosso quintal; meus pesadelos ainda persistem bem depois que as manchas de sangue
no gramado j desapareceram. Mas sempre assisto. Assisto por causa dessa expresso
de aceitao nos olhos do animal. E um absurdo, mas imagino que o carneiro entende.
Imagino que ele v que aquela morte iminente tem um propsito mais elevado. E essa a
expresso dos olhos...
PAREI DE OLHAR E ME AFASTEI DO BECO. Alguma coisa quente escorria pelo meu pulso.
Olhei e me dei conta que ainda estava mordendo a mo. E com tanta fora que cheguei
a tirar sangue das juntas. Percebi outra coisa tambm. Estava chorando. L da esquina,
podia ouvir os grunhidos rpidos e ritmados de Assef.
Era a minha ltima chance de tomar uma deciso. Uma ltima oportunidade para
decidir quem eu ia ser. Poderia entrar no beco, ir defender Hassan  do mesmo jeito
que ele me defendeu todas aquelas vezes no passado  e aceitar o que quer que viesse a
acontecer comigo. Ou podia sair correndo.
E, afinal, sa correndo.
Sa correndo porque era um covarde. Tinha medo de Assef e do que ele pudesse
fazer comigo. Tinha medo de me machucar. Foi o que disse a mim mesmo quando
dei as costas para o beco e para Hassan. Foi disso que me convenci. Realmente desejei
ser covarde, j que a outra alternativa, a verdadeira razo pela qual eu tinha sado
correndo, era que Assef tinha razo: nada era de graa nesse mundo. Talvez Hassan
fosse o preo que eu tinha que pagar, o cordeiro que tinha de sacrificar, para conquistar
baba. Era um preo justo? A resposta ficou pairando na minha mente consciente at eu
conseguir reprimi-la: ele era apenas um hazara, no era?
Voltei correndo por onde viera. Voltei correndo pelo bazaar quase deserto.
Titubeando, parei em uma daquelas tendas e me encostei na porta trancada. Fiquei ali
ofegando, suando, desejando que as coisas tivessem tomado outro rumo.
Uns quinze minutos depois, ouvi vozes e tropel de passos. Fiquei agachado atrs
da barraca e vi Assef e os dois outros passarem correndo e rindo ruela abaixo. Me
obriguei a esperar mais uns dez minutos. S ento voltei para o caminho lamacento
paralelo ao barranco cheio de neve. Naquela luz baa, apertei os olhos e avistei Hassan
que vinha andando lentamente na minha direo. Ns nos encontramos diante de uma
btula desfolhada que ficava na margem do barranco.
Ele tinha nas mos a pipa azul: foi a primeira coisa que vi. E no vou mentir agora,
dizendo que os meus olhos no a percorreram de ponta a ponta, para ver se havia algum

rasgo. O chapan de Hassan estava todo sujo de lama na frente, e a sua camisa, rasgada
logo abaixo do colarinho. Ele parou. Cambaleou como se fosse desabar no cho. Depois,
conseguiu recuperar o equilbrio. E me entregou a pipa.
 Onde voc estava? Procurei por toda parte  disse eu. E ao dizer essas
palavras, senti como se estivesse mastigando uma pedra.
Hassan enxugou o rosto com a manga da camisa, limpando catarro e lgrimas.
Esperei que dissesse alguma coisa, mas ficamos parados ali em silncio,  luz do fim do
dia. Benditas sombras do anoitecer, que encobriam o rosto de Hassan e escondiam o
meu. Fiquei feliz por no ter que fit-lo nos olhos. Ser que ele sabia que eu sabia? E
se soubesse, o que eu veria se efetivamente olhasse nos seus olhos? Acusao?
Indignao? Ou, tomara que no, o que eu mais temia: devoo sincera? Porque, mais
que qualquer outra coisa, isso era o que eu no poderia suportar.
Comeou a dizer algo, mas sua voz falhou. Fechou a boca, voltou a abri-la e,
depois, a fechou novamente. Deu um passo atrs. Enxugou o rosto. E isso foi o mais
perto que Hassan e eu chegamos de uma conversa sobre o que tinha acontecido no
beco. Pensei que ele fosse cair no choro, mas, para meu alvio, no foi o que aconteceu,
e fingi que no tinha percebido que sua voz estava embargada. Assim como fingi no
ver a mancha escura nos fundilhos de sua cala. Ou aquelas gotinhas que iam pingando
por entre as suas pernas, deixando marcas escuras na neve.
 Agha sahib vai ficar preocupado  foi tudo o que ele disse.
Afastou-se de mim e saiu mancando.
TUDO ACONTECEU EXATAMENTE DO JEITO que eu tinha imaginado. Abri a porta do
escritrio enfumaado e entrei. Baba e Rahim Khan estavam tomando ch e ouvindo as
notcias chiadas no rdio. Ambos viraram a cabea. Ento, apareceu um sorriso nos
lbios de meu pai. Ele abriu os braos. Pus a pipa no cho e me dirigi para aqueles
braos fortes e peludos. Enterrei a cabea no calor do seu peito e chorei. Baba me
puxou para si e ficou me embalando, para frente e para trs. Nos seus braos, esqueci
o que tinha feito. E isso foi timo.

OITO
DURANTE UMA SEMANA, PRATICAMENTE NO VI Hassan. Acordava de manh e l estavam o
meu po torrado, o meu ch e o meu ovo cozido, tudo pronto e arrumado na mesa da
cozinha. As roupas que ia vestir j estavam passadas e dobradas, em cima da cadeira
com assento de palhinha que ficava no saguo, onde Hassan normalmente passava
roupa. Em geral, ele esperava eu me sentar para tomar caf e s ento comeava essa
tarefa porque, desse jeito, podamos conversar. E, em geral, tambm cantava,
encobrindo com a voz o chiado do ferro a vapor. Eram velhas cantigas hazara que
falavam de campos de tulipas, Agora, s as roupas dobradas estavam esperando por mim.
As roupas e um caf da manh que eu mal conseguia terminar.
Em uma manh nublada, estava brincando com o meu ovo cozido, fazendo-o girar
pelo prato quando Ali entrou, carregando uma pilha de lenha cortada. Perguntei onde
estava Hassan.
 Voltou a se deitar  respondeu Ali, ajoelhando-se diante do
fogareiro e abrindo a portinhola quadrada.
 Ser que daria para Hassan ir brincar hoje?
Ali parou o que estava fazendo, com uma acha de lenha na mo Um ar de
preocupao lhe passou pelo rosto.
 Ultimamente, parece que tudo o que ele quer  dormir. Faz as suas tarefas
porque cuido para que no deixe de faz-las, mas, depois, s quer voltar para
debaixo das cobertas. Posso lhe perguntar uma coisa?
 Se acha que  necessrio...
 Depois daquele campeonato de pipas, ele voltou para casa meio
ensangentado e com a camisa rasgada. Perguntei o que tinha acontecido, mas
Hassan me disse que no era nada, que tinha se metido em uma briguinha -toa
com outros meninos por causa de uma pipa.
Fiquei calado. Simplesmente, continuei a fazer o ovo cozido girar pelo prato.
 Aconteceu alguma coisa com ele, Amir agha? Alguma coisa que ele no
esteja querendo me contar?
 Como posso saber?  indaguei eu, dando de ombros.
 Voc me contaria, no ? Inshallah, voc me contaria se tivesse acontecido
algo?

 Eu j disse... Como posso saber se tem alguma coisa errada com ele? 
acrescentei asperamente.  Talvez esteja doente. s vezes as pessoas ficam doentes,
Ali. Afinal...  para hoje que voc vai acender esse fogareiro ou vou morrer congelado
aqui dentro?
NAQUELA MESMA NOITE, PERGUNTEI a meu pai se podamos ir para Jalalabad na sextafeira.
Ele estava se virando para l e para c, na cadeira de couro com rodinhas que
ficava atrs de sua escrivaninha, lendo um jornal. Baixou o jornal, tirou os culos de
leitura que eu tanto detestava  baba no era velho, no mesmo; e ainda tinha muitos
anos de vida pela frente... Por que ento precisaria usar aqueles culos idiotas?
 Por que no?  respondeu ele. Ultimamente vinha concordando com tudo
que eu pedisse. E no era s: duas noites antes, ele tinha vindo me perguntar se eu
queria ir ver El Cid, com Charlton Heston, no cinema Aryana.  Quer chamar Hassan
para ir conosco para Jalalabad?
Por que baba tinha que estragar tudo daquele jeito?
 Ele est mareez  disse eu.  No anda se sentindo bem.
  mesmo?  indagou baba parando de se remexer na cadeira.  O que  que
ele tem?
Dei de ombros e me afundei no sof perto da lareira.
 Pegou um resfriado, ou coisa do gnero. Ali disse que ele tem estado de
molho, que passa quase o tempo todo dormindo.
 No o tenho visto muito nesses ltimos dias...  disse meu pai.   s isso
mesmo, um resfriado?
No pude me impedir de ficar com dio ao ver a ruga de preocupao que se
formou na sua testa.
  s um resfriado, sim. E ento? Vamos na sexta, baba?
 Claro, claro  disse ele, se afastando da escrivaninha.  Que pena essa
histria com Hassan... Acho que voc se divertiria muito mais se ele fosse conosco.  Mas ns dois podemos nos divertir juntos  retruquei.
Ele sorriu. Piscou os olhos.
 Agasalhe-se bem  acrescentou.
PODERAMOS TER IDO MESMO S NS DOIS  alis, era exatamente isso que eu queria. Mas,
na quarta-feira  noite, meu pai deu um jeito de convidar mais umas vinte pessoas.
Ligou para seu primo Homayoun  na verdade, seu primo em segundo grau  e
mencionou que estava indo para Jalalabad na sexta. Homayoun, que estudou
engenharia na Frana e tinha uma casa em Jalalabad, disse que seria timo poder reunir
todo mundo, que levaria as crianas e suas duas esposas; e, j que iramos at l, a
prima Shafiqa, que tinha vindo de Herat com a famlia para visit-los, talvez gostasse
de ir junto; e, como ela estava hospedada na casa do primo Nader, em Cabul, ele e sua
famlia tambm teriam de ser convidados, embora Homayoun e Nader estivessem meio
brigados; e, se Nader fosse convidado, com certeza o seu irmo Faruq tambm teria que
ser, caso contrrio poderia ficar magoado e no convidar ningum para o casamento
da filha, no prximo ms; e...
Enchemos trs caminhonetes. Eu fui junto com baba, Rahim Khan kaka Homayoun
 meu pai sempre dizia que as crianas devem chamar todos os homens mais velhos

de kaka, tio, e todas as mulheres mais velhas de khala, tia. As duas filhas gmeas de
kaka Homayoun tambm vieram com a gente, assim como as suas duas esposas  a
mais velha, que tinha uma cara de quem comeu e no gostou e as mos cheias de
verrugas; a mais moa, que sempre cheirava a perfume e danava com os olhos
fechados. Sentei no banco de trs, e fiquei tonto e enjoado, espremido entre as duas
gmeas de sete anos que no paravam de passar o brao na minha frente para dar
tapas uma na outra. A viagem para Jalalabad leva duas horas, por estradas que vo
serpenteando pelas montanhas, beirando grandes precipcios, e o meu estmago
chacoalhava a cada curva que o carro fazia. Todo mundo estava conversando,
falando alto e ao mesmo tempo, quase gritando, o que  o jeito tpico de falar dos
afegos. Perguntei a uma das gmeas  Fazila ou Karima, j que nunca consegui
saber quem era quem  se no queria trocar de lugar comigo e me deixar ir na janela
para pegar um pouco de ar fresco, dizendo-lhe que estava enjoado. Ela me deu a lngua e
disse que no. Eu disse que, ento, estava bem, mas que, depois, ela no poderia
reclamar se eu vomitasse no seu vestido. Um minuto mais tarde, l estava eu olhando
pela janela. Fiquei fitando aquela estrada cheia de altos e baixos, que ia subindo e
descendo, enroscando a cauda no flanco da montanha; fui contando os caminhes de
todas as cores que passavam por ns, carregados de indivduos acocorados. Tentei
fechar os olhos, deixar que o vento batesse no meu rosto, e abri a boca para engolir
aquele ar puro. Mesmo assim no me senti melhor. De repente, algum me cutucou.
Era Fazila/Karima.
 O que foi?  perguntei.
  que eu estava contando a eles sobre o campeonato  disse baba, l do
volante. Kaka Homayoun e suas esposas estavam sorrindo para mim do banco do meio.
 Devia haver bem uma centena de pipas no cu aquele dia  prosseguiu
meu pai.  No era mais ou menos isso, Amir?
 Acho que sim  murmurei.
 Umas cem pipas, Homayoun jan. Sem laaf. E, no fim do dia, a nica que
ainda estava voando era a de Amir. Ele tem a ltima pipa l em casa, uma linda pipa
azul. Hassan e Amir conseguiram apanh-la juntos.
 Meus parabns  disse kaka Homayoun.
Sua primeira esposa, a que tinha as tais verrugas, bateu palmas.
 Ora, muito bem, Amir jan, estamos todos muito orgulhosos de voc! 
exclamou ela.
A mais nova fez o mesmo e l estavam as duas batendo palmas, uivando mil
elogios, dizendo como eu tinha deixado todos eles orgulhosssimos. S Rahim Khan,
sentado no banco do carona ao lado de baba, continuava calado. E me olhava de um
jeito estranho.
 Encoste o carro, por favor, baba  disse eu.
 O qu?
 Estou enjoado  murmurei, me inclinando no banco e espremendo as filhas
de kaka Homayoun.
Fazila/Karima fez cara de nojo.
 Encoste o carro, kaka Ele est ficando todo amarelo! No quero que
vomite no meu vestido novo!  berrou ela.
Baba tratou de encostar o carro, mas no deu tempo. Alguns minutos depois,
estava sentado em uma pedra,  beira da estrada, enquanto eles deixavam a
caminhonete toda aberta para arej-la. Baba fumava com kaka Homayoun que

mandava Fazila/Karima parar de chorar; ele lhe compraria um outro vestido em
Jalalabad. Fechei os olhos e virei o rosto para o sol. Manchas midas iam se formando
por detrs das minhas plpebras, como mos brincando de fazer figuras de sombra na
parede. Elas rodopiavam, se fundiam e formavam uma s imagem: a cala de veludo
cotel marrom de Hassan jogada em uma pilha de tijolos naquele beco.
A CASA DE KAKA HOMAYOUN EM JALALABAD era branca, tinha dois andares e uma
varanda que dava para um grande jardim murado, todo plantado de macieiras e
caquizeiros. Havia vrios arbustos que o jardineiro podava no vero, formando
figuras de animais, e uma piscina de ladrilhos cor de esmeralda. Com os ps
pendurados, sentei na borda da piscina inteiramente vazia a no ser por uma camada
de neve lamacenta no fundo. Os filhos de kaka Homayoun estavam brincando de
esconde-esconde do outro lado do jardim. As mulheres estavam na cozinha e dava para
sentir o cheiro das cebolas fritas como dava para ouvir os "pff-pff" de uma panela de
presso, alm de msica e de risos. Baba, Rahim Khan, kaka Homayoun e kaka Nader
estavam fumando na varanda. Kaka Homayoun dizia que tinha trazido o projetor para
mostrar os slides da sua viagem  Frana. J fazia dez anos que ele tinha voltado de
Paris e continuava a exibir aqueles slides idiotas...
No devia estar me sentindo desse jeito... Baba e eu finalmente ramos amigos.
Tnhamos ido ao zoolgico alguns dias antes, para ver Marjan, o leo, e ele atirou
uma pedrinha no urso quando no tinha ningum olhando. Depois, fomos comer
kabob no Dadkhoda em frente ao cinema Park. Comemos kabob de carneiro com naan
fresquinho, sado do tandoor. E meu pai ficou me contando histrias das suas viagens 
ndia e  Rssia, falando das pessoas que conheceu por l, como aqueles dois em
Bombaim, que no tinham nem braos nem pernas, mas estavam casados h quarenta e
sete anos, e tinham criado onze filhos. Aquilo tudo deveria ter sido bem divertido: passar
um dia assim com baba e ficar ouvindo as suas histrias. Finalmente, eu estava tendo o
que desejei durante todos esses anos. S que agora, que tinha conseguido o que queria,
estava me sentindo to vazio quanto aquela piscina maltratada onde os meus ps
balanavam.
Ao pr-do-sol, as esposas e as meninas serviram o jantar  arroz, kofta e qurma de
galinha. Jantamos do modo tradicional, sentados em almofadas  volta da sala, com
toalhas espalhadas pelo cho, cada grupo de quatro ou cinco pessoas comendo com as
mos a comida servida na mesma travessa. No estava com fome, mas, mesmo assim,
sentei para jantar junto com meu pai, kaka Faruq e os dois filhos de kaka Homayoun.
Baba, que tinha tomado uns dois usques antes do jantar, continuava falando do
campeonato de pipas, dizendo como eu tinha suplantado todos os demais, como tinha
voltado para casa com a ltima pipa cortada. S se ouvia a sua voz possante na sala.
As pessoas erguiam a cabea, me davam parabns. Kaka Faruq me deu um tapinha nas
costas com a mo limpa. Senti como se tivesse levado uma facada no olho.
Mais tarde, bem depois da meia-noite, meu pai e seus primos, que tinham
passado algumas horas jogando pquer, foram se deitar. Os homens ficaram na mesma
sala em que tnhamos jantado, em colches dispostos no cho, paralelos uns aos
outros. As mulheres foram para o andar de cima. Uma hora se passou e eu ainda
no tinha conseguido pegar no sono. Fiquei me revirando para um lado e para o outro,
ouvindo os meus parentes resmungando, suspirando e roncando enquanto dormiam.
Sentei no colcho. Uma rstia de luar penetrava pela janela.

 Fiquei olhando enquanto Hassan estava sendo violentado disse eu em
voz alta, sem me dirigir a ningum em particular.
Meu pai se remexeu dormindo. Kaka Homayoun soltou um grunhido. Parte de mim
tinha esperanas que algum tivesse acordado e ouvido o que eu disse, porque, assim,
no precisaria mais viver com aquela mentira. Mas ningum acordou e, no silncio que
se seguiu  minha frase, compreendi a natureza exata da minha nova maldio: teria
que passar o resto da vida convivendo com a impunidade.
Lembrei do sonho de Hassan, aquele em que nadvamos no lago. "No tem
monstro nenhum a," era o que tinha dito, "s gua". Mas ele estava enganado a este
respeito. Tinha um monstro no lago, sim. Ele agarrou Hassan pelos quadris e o arrastou
para o fundo tenebroso. Esse monstro era eu.
Foi a partir dessa noite que passei a ter insnia.
NO VOLTEI A FALAR COM HASSAN at meados da semana seguinte. Tinha comido muito
pouco no almoo e Hassan estava tirando a mesa. Comecei a subir a escada, me
dirigindo para o meu quarto, quando ele me perguntou se eu no queria ir l para a
colina. Respondi que estava cansado. Ele tambm parecia cansado: tinha emagrecido
e dois crculos escuros tinham se formado em torno dos seus olhos inchados. Mas,
quando perguntou novamente, aceitei, embora com relutncia.
Caminhamos at o topo da colina, com as botas deslizando na neve enlameada.
Nenhum dos dois disse coisa alguma. Sentamos debaixo do nosso p de rom e me dei
conta de que tinha cometido um erro. Nunca devia ter vindo at a colina. L estavam as
palavras que eu tinha gravado no tronco da rvore, com a faca de Ali, "Amir e
Hassan: sultes de Cabul"... Simplesmente, no conseguia olhar para elas agora.
Ele me pediu para ler uma histria do Shahnamah e eu lhe disse que tinha
mudado de idia. Que tudo o que queria era voltar para o meu quarto. Hassan
desviou os olhos e deu de ombros. Descemos a colina exatamente do jeito que
tnhamos subido: em silncio. E pela primeira vez na vida, eu mal podia esperar pela
chegada da primavera.
MINHAS LEMBRANAS DO RESTO DO INVERNO de 1975 so bem pouco ntidas. Lembro que
ficava razoavelmente feliz quando baba estava em casa. Comamos juntos, saamos
para ver um filme, visitar kaka Homayoun ou kaka Faruq. s vezes, Rahim Khan vinha
nos ver, e meu pai deixava eu me sentar com eles no escritrio para tomar ch. At me
pediu que lesse algumas das minhas histrias para ele. Isso era bom e cheguei a
acreditar que fosse durar para sempre. E baba tambm acreditou, acho eu. Mas no
devamos ter acreditado. Durante pelo menos alguns meses depois do campeonato, meu
pai e eu mergulhamos em uma doce iluso, passamos a ver um ao outro como nunca
tnhamos feito antes. Na verdade, estvamos nos enganando, achando que um
brinquedo feito de papel de seda, cola e bambu podia de algum modo preencher o
abismo que existia entre ns.
Mas quando baba saa  e ele saa muito  eu ficava trancado no quarto. Lia
um livro a cada dois dias, escrevia histrias, aprendia a desenhar cavalos. Ouvia Hassan
circulando pela cozinha de manh, ouvia o tilintar dos talheres, o assobio da chaleira.
Esperava ouvir o barulho da porta se fechando e s ento descia para tomar caf. No

calendrio, tracei um crculo marcando a data do reinicio das aulas, e comecei a fazer
a contagem regressiva.
Para meu desespero, Hassan continuou tentando fazer as coisas entre ns
voltarem s boas. Lembro da ltima vez. Estava no meu quarto, lendo uma verso
abreviada do Ivanho traduzido para o farsi, quando ele bateu  porta.
 O que ?
 Estou saindo para comprar naan  respondeu ele do outro lado da porta.
 Estava pensando se voc... se voc no queria vir comigo...
 Acho que prefiro continuar lendo  respondi, esfregando as tmporas. Nos
ltimos tempos, sempre que Hassan estava por perto, eu ficava com dor de cabea.
 Est fazendo sol  disse ele.
 Estou vendo.
 Pode ser divertido dar um passeio.
 V voc.
 Gostaria que viesse comigo  insistiu ele. E se calou. Algo esbarrou na
porta, talvez a sua testa.  No sei o que foi que eu fiz, Amir agha. Queria que me
dissesse. No sei por que no brincamos mais juntos.
 Voc no fez nada, Hassan. Agora, v embora.
 Pode me dizer o que foi. No vou fazer nunca mais.
Enterrei a cabea no peito, apertando as tmporas com os joelhos como se fosse
um torno.
 Vou lhe dizer o que no quero mais que faa  disse-lhe ento, com os olhos
bem fechados.
 Pode dizer.
 Quero que pare de me perturbar. Quero que v embora  exclamei. Desejei
que ele revidasse, que arrombasse a porta, que me dissesse poucas e boas. Assim,
seria mais fcil; tudo ficaria melhor. Mas no fez nada disso e, quando abri a porta,
minutos depois, ele j no estava ali. Desabei na cama, enfiei a cabea debaixo do
travesseiro, e chorei.
DEPOIS DISSO, HASSAN FICOU CIRCULANDO pelas beiradas da minha vida. Eu tomava todas as
precaues para que os nossos caminhos se cruzassem o mnimo possvel, planejando os
meus dias neste sentido. Porque, quando ele estava por perto, o oxignio desaparecia do
aposento. Sentia o peito apertado e tinha dificuldade para respirar; ficava ali, sufocando
na minha bolhazinha de atmosfera absolutamente abafada. Mas mesmo quando ele no
estava por perto, estava presente. Estava nas roupas lavadas e passadas sobre a cadeira de
assento de palhinha, nos chinelos aquecidos deixados diante da porta do meu quarto, na
lenha que j ardia no fogareiro quando eu descia para tomar o meu caf da manh.
Para onde quer que eu me virasse, l estavam os sinais da sua lealdade, da sua maldita
lealdade inabalvel.
No comeo da primavera, uns poucos dias antes do reinicio das aulas, baba e eu
estvamos plantando tulipas no jardim. Quase toda a neve tinha derretido e as colinas
ao norte j ostentavam alguns trechos de grama. Era uma manh fria e cinzenta; meu
pai estava agachado ao meu lado, cavando a terra e plantando os bulbos que eu ia lhe
passando. Estava dizendo que a maioria das pessoas acredita que a melhor poca para
plantar tulipas  o outono, e que isso no era verdade, quando eu o interrompi, sem
mais nem menos, para lhe fazer uma pergunta.
 Voc nunca pensou em contratar empregados novos?

Ele deixou cair o bulbo de tulipa que tinha nas mos e enfiou a pazinha na terra.
Tirou ento as luvas de jardinagem. Tinha tomado um susto.
 Chi? O que foi que voc disse?
 Estava s pensando...
 E por que eu ia querer fazer uma coisa dessas?  indagou ele secamente.
 Acho que no ia, no. Foi apenas uma pergunta  respondi j quase em um
murmrio. Estava realmente arrependido de ter dito aquilo.
 Tem a ver com voc e Hassan? Sei que est acontecendo alguma coisa entre vocs
dois, mas, seja l o que for,  voc mesmo quem tem que resolver tudo, e no eu. No
vou me meter nessa histria.
 Me desculpe, baba.
Ele calou as luvas outra vez.
 Cresci junto com Ali  disse, com os dentes cerrados.  Meu pai o levou para
morar conosco, e gostava de Ali como se fosse seu prprio filho. H quarenta anos
que ele vive com a minha famlia. H quarenta malditos anos. E agora voc vem
achar que vou simplesmente mand-lo embora?
Virou-se para mim e o seu rosto estava to vermelho quanto uma daquelas tulipas.
 Nunca encostei a mo em voc, Amir, mas se disser isso novamente... 
Desviou os olhos, abanando a cabea.  Voc me envergonha. E Hassan... Hassan
no vai a lugar nenhum, est me entendendo?
Baixei a cabea e peguei um punhado daquela terra fria. Deixei ento que
escorresse por entre os meus dedos.  Perguntei se esta me entendendo...  rosnou
ele.
 Estou, baba  disse eu, me encolhendo.
 Hassan no vai a lugar nenhum  repetiu ele, rispidamente. Abriu uma nova
cova com a pazinha, golpeando a terra com mais fora que o necessrio.  Vai
continuar morando aqui conosco, pois esta  a casa dele.  o seu lar e ns somos a sua
famlia. Nunca mais me faa uma pergunta dessas!
 Pode deixar, baba. Me desculpe.
Acabamos de plantar as tulipas em silncio.
Fiquei aliviado quando as aulas recomearam na semana seguinte. Alunos, com
cadernos novos e lpis apontados, caminhavam pelo ptio, chutando poeira,
conversando em grupinhos, esperando pelo apito dos monitores das turmas. Baba
pegou a estrada de terra que levava at o porto. A escola era um velho prdio de dois
andares, com janelas quebradas e corredores de cho de pedra, mal iluminados, onde se
viam trechos de um amarelo plido, a tinta original, em meio a pedaos descascados que
deixavam aparecer o reboco das paredes. A maioria dos meninos ia a p para o colgio,
e no eram poucos os olhares invejosos que o Mustang preto de meu pai atraa. Deveria
ter ficado radiante de orgulho quando ele me deixou diante do porto  meu velho eu
ficaria , mas tudo o que consegui sentir foi um certo constrangimento. Fiquei
encabulado e com uma sensao de vazio. Baba foi embora sem se despedir.
Evitei a costumeira comparao de cicatrizes entre os meninos que empinavam
pipas e fui direto para a forma. A sineta tocou e, em fila, dois a dois, fomos para a sala
de aula que seria a nossa. Sentei na ltima fileira. Quando o professor de farsi distribuiu
os nossos livros de textos, rezei para que ele passasse toneladas de dever de casa.
A escola me dava um pretexto para passar horas e horas no meu quarto. E, por
algum tempo, tirava da minha cabea o episdio ocorrido naquele inverno; aquilo que eu
tinha deixado acontecer. Durante umas semanas, fiquei mergulhado em gravidade e
momentum, tomos e clulas, guerras anglo-afegs, em vez de ficar pensando em Hassan e
no que tinha acontecido com ele. Mas minha cabea acabava sempre voltando para
aquele beco. Para a cala de veludo cotel marrom jogada na pilha de tijolos. Para o
sangue que pingava, manchando a neve de um vermelho escuro, quase negro.
Em uma tarde preguiosa e enevoada, no comeo daquele vero, chamei Hassan
para vir comigo at o topo da colina. Disse que queria ler para ele uma nova histria que
tinha escrito. Ele estava estendendo roupas no quintal e vi como ficou impaciente pelo
jeito meio atabalhoado com que acabou a tarefa que fazia.
Subimos a colina falando sobre coisas banais. Ele perguntou do colgio, quis
saber o que eu estava estudando, e falei dos meus professores, principalmente do
professor de matemtica, aquele malvado que castigava os alunos que ficavam
conversando enfiando uma vareta metlica entre os seus dedos e, depois, apertando
bem. Hassan estremeceu ao ouvir isso e disse que esperava que eu nunca tivesse de
passar por essa experincia. Respondi que, at agora, tinha tido sorte, sabendo muito
bem que aquilo no era absolutamente uma questo de sorte. Eu tambm ficava
conversando na aula. Mas, como meu pai era rico e todos o conheciam, acabava sendo
poupado do tratamento com vareta metlica.
Sentamos junto ao muro do velho cemitrio,  sombra do p de rom. Dentro de
um ou dois meses, tufos de mato amarelo e ressecado estariam cobrindo a colina, mas,
este ano as chuvas da primavera duraram mais que de costume, penetrando pelo incio
do vero, e, com isso, a grama ainda estava toda verde, salpicada de flores do campo.
L embaixo, via-se Wazir Akbar Khan, com as suas casas pintadas de branco e os
telhados achatados brilhando ao sol, e as roupas penduradas na corda pelos quintais,
que danavam ao vento como borboletas.
Colhemos bem uma dzia de roms. Desdobrei a histria que tinha trazido, virei
a primeira pgina, mas, depois, pus as folhas no cho. Fiquei de p e peguei uma rom
j passada que tinha cado da rvore.
 O que voc faria se eu desse com isso na sua cabea?  perguntei, jogando o
fruto nas mos, para cima e para baixo.
O sorriso de Hassan desapareceu. Ele parecia mais velho do eu imaginava.
Alis, mais velho no, velho. Seria possvel? Linhas marcavam o seu rosto moreno, e
vincos contornavam os seus olhos e a sua boca. Eu bem que poderia ter pegado uma
faca e escavado ali aquelas linhas com as minhas prprias mos.
 O que voc faria?  repeti.
Hassan ficou sem cor. Perto dele, o vento soprava as folhas grampeadas da histria
que eu tinha prometido ler. Atirei a rom em cima dele. Ela bateu em cheio no seu peito
com um jorro de polpa vermelha. O grito que ele deu estava cheio de surpresa e de dor.
 Bata em mim!  exclamei.
Hassan ficou olhando para a mancha no seu peito e para mim.
 Levante da! Bata em mim!  disse eu.
Hassan levantou mesmo, mas ficou parado, atordoado como um homem que 
arrastado para o oceano por uma onda repentina quando, minutos antes, estava
passeando calmamente pela praia.
Atirei outra rom em cima dele; desta vez, no ombro. O suco espirrou em seu
rosto.

 Revide!  exclamei.  Revide, seu maldito!
Queria mesmo que ele fizesse isso. Queria que me desse o castigo que eu estava
pedindo. Talvez, assim, pudesse finalmente dormir de noite. Talvez, assim, as coisas
pudessem voltar a ser como antes entre ns. Mas Hassan no fez nada e continuei
atirando frutas nele sem parar.
 Voc  um covarde!  gritei.  Apenas um maldito covarde!
No sei quantas vezes o atingi. Tudo o que sei  que, quando finalmente parei,
exausto e ofegante, Hassan estava todo lambuzado de vermelho, como se tivesse
passado diante de um peloto de fuzilamento. Ca de joelhos, cansado, sem foras,
frustrado.
Foi ento que Hassan apanhou uma rom e veio andando na minha direo.
Abriu a fruta e a esmagou na prpria testa.
 Pronto!  disse ele, com voz rouca, e com o suco vermelho escorrendo pelo
rosto como se fosse sangue.  Est satisfeito agora? Est se sentindo melhor?
Depois, virou as costas e comeou a descer a colina.
Deixei as lgrimas rolarem livremente e, de joelhos, fiquei balanando o corpo
para frente e para trs.
 O que  que vou fazer com voc, Hassan? O que  que vou fazer com voc?
Quando as lgrimas secaram, porm, e comecei a me arrastar colina abaixo, j
sabia qual a resposta para essa pergunta.
Fiz TREZE ANOS NO VERO DE 1976, o penltimo de um Afeganisto de paz e anonimato.
As coisas entre mim e baba j estavam esfriando novamente. Acho que tudo comeou
com aquele estpido comentrio que fiz no dia em que estvamos plantando tulipas,
aquela histria de contratar empregados novos. Me arrependi de ter dito aquilo  me
arrependi de verdade , mas acho que, mesmo que no tivesse dito nada, o nosso
pequeno interldio de felicidade ia se acabar de qualquer jeito. Talvez no to
depressa assim, mas ia acabar. No final do vero, o barulho do garfo e da faca
arranhando o prato tinha substitudo as conversas  mesa, e meu pai tinha voltado a se
retirar para o escritrio depois do jantar. E a fechar a porta. J eu recomecei a folhear
Hafez e Khayyam, a roer as unhas quase at o sabugo, a escrever histrias. Guardava
todas elas empilhadas debaixo da cama, deixando-as ali porque, afinal, nunca se sabe...
Mas duvidava que baba algum dia voltasse a me pedir que lesse uma delas para ele.
O lema de meu pai sobre dar festas era o seguinte: convide o mundo inteiro, ou
no ser uma festa. Lembro de percorrer com os olhos a lista de convidados, uma
semana antes da minha festa de aniversrio, e no conseguir identificar pelo menos trs
quartos dos quatrocentos e tantos kakas e khalas que viriam me trazer presentes e me
dar parabns por estar completando treze anos de vida. Depois me dei conta de que
no era exatamente por mim que toda aquela gente viria. O aniversrio era meu, mas
eu sabia muito bem quem era a verdadeira estrela daquele espetculo.
Durante vrios dias, a nossa casa foi um contnuo entra-e-sai de gente contratada
por baba. Salahuddin, o aougueiro, veio trazendo um novilho e dois carneiros, e se
recusou a receber pagamento por qualquer dos trs animais. Ele prprio os abateu no
quintal, perto de um choupo. "O sangue faz bem para a rvore", lembro de ter ouvido
ele dizer enquanto a grama ao redor do choupo ia se tingindo de vermelho. Homens
que eu no conhecia subiram nos carvalhos com rolos de fios cheios de lmpadas e

metros e metros de extenso. Outros armaram vrias mesas pelo quintal, cobrindo cada
uma delas com uma toalha. Na vspera da festana, Del-Muhammad, um amigo de meu
pai que era dono de uma casa de kabob em Shar-e-Nau, veio trazendo sacos de
especiarias. Como aconteceu com o aougueiro, Del-Muhammad  ou Dello, como
baba o chamava  se recusou a ser pago pelos seus servios. Disse que meu pai j
tinha feito muito por sua famlia. Enquanto ele estava marinando as carnes, Rahim
Khan cochichou em meu ouvido que foi baba quem emprestou o dinheiro para Dello
abrir o seu restaurante. E se recusou a receber o pagamento da dvida at o dia em
que Dello apareceu na entrada l de casa, dirigindo uma Mercedes, e disse que s sairia
dali depois que baba tivesse aceitado o tal dinheiro.
Sob vrios aspectos  ou, pelo menos, aqueles a partir dos quais essas coisas so
julgadas , a festana do meu aniversrio foi um tremendo sucesso. Nunca tinha visto
a casa to lotada. Convidados, com copos de bebida nas mos, conversavam pelos
corredores, fumavam pelas escadas, paravam recostados nas portas. Sentavam-se onde
quer que encontrassem um lugar vazio, como as bancadas da cozinha, o saguo e at
mesmo o vo da escada. No quintal dos fundos, amontoavam-se sob as luzes azuis,
vermelhas e verdes das lmpadas que pendiam das rvores, com os rostos iluminados
pela claridade dos archotes de querosene espetados por todo canto. Meu pai tinha
mandado armar um palco na varanda que dava para o jardim e vrios alto-falantes
foram instalados aqui e ali. No palco, Ahmad Zahir tocava harmnio e cantava diante
de uma multido de corpos danantes.
Eu tinha de ir cumprimentar cada convidado pessoalmente. Baba fazia questo que
fosse assim, pois, no dia seguinte, ningum sairia por a dizendo que ele no tinha sabido
educar o filho. Beijei milhares de rostos, abracei gente inteiramente desconhecida,
agradeci a todos pelos presentes que me davam. Meu rosto j estava doendo por causa do
sorriso forado.
A certa altura, estava parado com baba no quintal, perto do bar quando ouvi
algum dizer "Feliz aniversrio, Amir". Era Assef, acompanhado dos pais, O pai dele,
Mahmud, era um sujeito baixo e magro, de pele morena e rosto afilado. A me,
Tanya, era uma mulher mida e agitada, que sorria demais e piscava demais. Assef
estava ali, entre os dois, bem mais alto que ambos, sorrindo, com os braos passados
nos ombros de um e de outro. Veio se aproximando de ns como se fosse ele que tivesse
trazido os pais  festa; invertendo os papis, como se aqueles dois fossem os seus filhos.
Uma espcie de vertigem percorreu todo o meu corpo. Baba lhes agradeceu por terem
vindo.
 Eu mesmo escolhi o seu presente  disse Assef. O rosto de Tanya se
repuxou e seus olhos foram de Assef para mim. Sorriu, de um jeito nada convincente, e
piscou. Fiquei me perguntando se meu pai teria notado.
 Continua jogando futebol, Assef jan?  perguntou baba. Ele sempre quis que
Assef e eu fssemos amigos.
Assef sorriu. Era assustador ver como conseguia fazer o seu sorriso parecer
autntico.
 Claro que sim, kaka jan.
 Ponta-direita, se bem me lembro?

 Na verdade, passei a jogar como centroavante esse ano  respondeu Assef. 
A gente tem mais chance de fazer gols nessa posio. Na semana que vem vamos jogar
com o Mekro-Rayan. Deve ser um jogo bem legal. Eles tm alguns bons jogadores.
Baba assentiu.
 Sabe que eu tambm joguei de centroavante quando era jovem?
 Aposto que ainda consegue jogar se quiser  disse Assef.
E brindou meu pai com uma piscadela amigvel.
Baba retribuiu a piscadela.
 Pelo que vejo, seu pai lhe ensinou as suas clebres tticas lisonjeiras  disse
ele, dando uma cotovelada no pai de Assef e, por pouco, no derrubando o
homenzinho no cho. O riso de Mahmud foi quase to convincente quanto o sorriso de
Tanya e, de repente, me passou pela cabea a idia de que, em certa medida, talvez o
filho os amedrontasse. Tentei fingir que sorria, mas tudo o que consegui fazer foi erguer
um pouquinho os cantos da boca. Meu estmago estava se revirando s de ver o meu
pai todo enturmado com Assef.
Ento, ele olhou para mim.
 Wali e Kamal tambm esto aqui. No perderiam o seu aniversrio por nada
no mundo  disse ele com o riso escondido pouco abaixo da superfcie. Assenti em
silncio.
 Estamos pensando em organizar uma partida de vlei l em casa amanh 
prosseguiu ele.  Quem sabe voc no vem? Se quiser, pode levar o Hassan.
 Parece divertido  disse baba radiante.  O que acha, Amir?
 No gosto muito de vlei  murmurei. Vi o brilho desaparecer dos olhos de
meu pai, e um silncio desconfortvel se instalou entre ns.
 Sinto muito, Assef jan  disse baba dando de ombros. E aquilo doeu: meu pai,
pedindo desculpas por mim.
 Imagine, no tem problema  retrucou Assef.  Mas o convite est de p, Amir
jan. De todo modo, ouvi dizer que gosta de ler e, por isso, trouxe um livro para voc. Um
dos meus favoritos.  E, estendendo um embrulho de presente, acrescentou:  Feliz
aniversrio.
Ele estava usando uma camisa de algodo e uma cala social azul, com uma
gravata de seda vermelha e mocassins pretos bem engraxados. Cheirava a gua-decolnia,
e o cabelo louro estava todo penteado para trs. Por fora, era a prpria
encarnao do sonho de todo pai: um garoto alto, forte, bem vestido e com boas
maneiras, talentoso e de boa aparncia, sem falar de sua habilidade para fazer
brincadeiras com os adultos. Mas, para mim, eram os olhos que o traiam. Quando os
fitava, a fachada desmoronava, deixando ver algo da loucura que se escondia ali atrs.
 No vai pegar, Amir?  Ouvi baba perguntando.
 H?
 O seu presente  disse ele irritado.  Assei jan est lhe dando um presente.
 Ah,  claro  balbuciei.
Peguei o embrulho das mos de Assef e baixei os olhos. Adoraria estar sozinho no
meu quarto, com os meus livros, longe de toda essa gente.
 Bem?  indagou baba.
 O qu?

E, a, ele falou bem baixinho, como sempre fazia quando eu o deixava
embaraado em pblico.
 No vai agradecer a Assef jan? Foi muita considerao da parte dele.
Queria que baba parasse de se referir a ele desse jeito. Quantas vezes tinha me
chamado de "Amir jan"?
 Obrigado  disse eu.
A me de Assef me olhou como se quisesse me dizer algo, mas no fez nada, e
foi s nesse momento que me dei conta de que os pais de Assef no tinham dito uma
palavra sequer. Antes que pudesse ficar mais sem jeito e deixar meu pai ainda mais
embaraado  mas principalmente para me livrar de Assef e do seu sorriso , fui
embora dali.
 Obrigado por terem vindo  disse eu.
Fui me esgueirando por entre aquele monte de convidados e sa pelo porto de
ferro fundido. Duas casas adiante, havia um grande terreno baldio. Ouvi baba dizer a
Rahim Khan que um juiz tinha comprado aquele lote e um arquiteto j estava
trabalhando no projeto. Mas, por enquanto, o terreno estava vazio, a no ser pela lama,
pelas pedras e pelo mato.
Rasguei o papel que embrulhava o presente de Assef e espiei a capa do livro  luz
da lua. Era uma biografia de Hitler. Atirei aquilo em uma moita.
Encostei no muro do vizinho e fui escorregando at o cho. Fiquei sentado ali por
algum tempo, apertando os joelhos junto ao peito, olhando para as estrelas, esperando
a noite acabar.
 Voc no deveria estar recebendo os convidados?  perguntou uma voz
familiar. Era Rahim Khan que vinha caminhando pela calada at onde eu estava.
 Ningum precisa de mim para isso. Esqueceu que baba esta l?  disse eu.
O gelo no copo de Rahim Khan tilintou quando ele se sentou ao meu lado.
 No sabia que voc bebia  acrescentei.
 Pois bebo  respondeu ele. E me deu uma cutucada de brincadeira.  Mas
s em ocasies muito especiais.
 Obrigado  disse eu, sorrindo.
Ergueu o copo na minha direo e tomou um gole. Acendeu um cigarro, um
daqueles cigarros paquistaneses sem filtro que baba e ele estavam sempre fumando.
 J lhe contei que quase me casei certa vez?
 Verdade?  indaguei eu, meio divertido com a idia de Rahim
Khan se casando. Sempre pensei nele como o alter ego calado de meu pai, como o
meu mentor em termos de escrita, o meu amigo, algum que nunca esquecia de me trazer
uma lembrana, um saughat, quando voltava de uma viagem ao exterior. Mas como
marido? Como pai?
 Verdade  disse ele.  Eu tinha dezoito anos. Ela se chamava Homaira. Era
uma hazara, filha dos empregados dos nossos vizinhos. Era linda como uma pari, com
cabelos castanho-claros, grandes olhos cor de avel... e tinha aquele riso... Ainda posso
ouvi-lo de vez em quando.  Ficou brincando com o copo.  Ns nos encontrvamos
s escondidas, na plantao de macieiras de meu pai, sempre depois da meia-noite,
quando todos j tinham ido dormir. Passevamos sob as rvores e eu segurava a sua
mo... Estou deixando voc sem jeito, Amir jan?
 Um pouco  respondi.

 Mas pode deixar que no vai morrer por isso...  disse ele, dando outra
tragada no cigarro.  E tnhamos um sonho. Faramos uma grande festa de casamento,
convidando todos os amigos e parentes, desde Cabul at Kandahar. Eu compraria uma
casa bem grande para ns dois, com amplas janelas e um ptio azulejado. Plantaramos
rvores frutferas no jardim e cultivaramos todo tipo de flores, e teramos tambm um
gramado para os nossos filhos poderem brincar. s sextas-feiras, depois da namaz na
mesquita, todo mundo viria almoar l em casa, e comeramos no jardim, debaixo das
cerejeiras, bebendo gua fresca tirada do poo. Depois, tomaramos ch com
docinhos, vendo os nossos filhos brincarem com os primos...
Tomou um longo gole de usque. Tossiu.
 Devia ter visto a cara de meu pai quando toquei no assunto com ele. Minha
me chegou at mesmo a desmaiar. Minhas irms tiveram que jogar gua em seu
rosto. Comearam a aban-la e ficaram me olhando como se eu tivesse lhe cortado a
garganta. Ante que meu pai pudesse det-lo, meu irmo Jalal j tinha ido apanha o
rifle de caa.  Rahim Khan deu uma risada amarga.  ramos Homaira e eu contra
o mundo inteiro. E oua o que lhe digo, Amir jan: no final, o mundo sempre sai
ganhando. As coisas so assim pura e simplesmente...
 Mas o que foi que aconteceu?
 Naquele mesmo dia, meu pai ps Homaira e sua famlia em um lotao, e os
mandou embora para Hazarajat. Nunca mais voltei a v-la.
 Puxa, sinto muito  disse eu.
 Provavelmente, foi melhor assim  retrucou Rahim Khan dando de ombros. 
Ela teria sofrido. Minha famlia jamais a aceitaria como uma de ns. Voc no pode
mandar algum engraxar os seus sapatos em um dia e, no dia seguinte, passar a
chamar essa pessoa de "irm"  prosseguiu ele, e, virando-se para mim,
acrescentou:  Sabe, Amir jan, pode me contar o que quiser. Quando quiser.
 Sei disso  respondi meio hesitante.
Ele ficou me olhando por um bom tempo, como se estivesse esperando alguma
coisa, com os olhos negros e profundos sugerindo a existncia de um segredo tcito
entre ns. Por um instante, estive a ponto de falar mesmo. Quase lhe contei tudo. Mas o
que ele ia pensar de mim? Ia me odiar, e com toda razo.
 Tome  disse ele entregando-me algo.  J estava quase me esquecendo.
Feliz aniversrio.
Era um caderno com uma capa de couro marrom. Passei os dedos pelos pespontos
dourados que acompanhavam suas bordas. Senti o cheiro do couro.
  para as suas histrias  acrescentou ele.
Ia abrir a boca para agradecer quando ouvimos um estrondo e exploses de luz
iluminaram o cu.
 Fogos de artifcio!
Voltamos correndo para casa e vimos todos os convidados de p no quintal,
olhando para o cu. As crianas berravam e gritavam a cada estrondo e a cada assobio.
As pessoas explodiam em aplausos cada vez que um foguete chiava e estourava em
buqus de fogo. A intervalos de poucos segundos, o quintal se iluminava com clares
vermelhos, verdes e amarelos.
Em um desses momentos, vi algo que nunca vou esquecer: Hassan servindo
bebidas a Assef e Wali, em uma bandeja de prata. A luz se apagou. Depois, novo chiado

e novo estrondo, trazendo outro claro de luz alaranjada: Assef estava rindo, batendo
no peito de Hassan com o punho cerrado.
E ento voltou a bendita escurido.

NOVE
NA MANH SEGUINTE, SENTADO no meio do quarto, fui abrindo os pacotes de presentes,
um atrs do outro. No sei por que me dei o trabalho de fazer isso, j que s passava
os olhos em cada um deles, sem o menor entusiasmo, antes de empilhar tudo em um
canto. A pilha ia aumentando: uma cmera Polaroid, um rdio transistor, um trem
eltrico cheio de nove-horas  e muitos envelopes fechados contendo dinheiro. Sabia
que nunca ia gastar aquele dinheiro ou ouvir aquele rdio, e o trem eltrico jamais
circularia pelos trilhos no cho do meu quarto. No queria nada daquilo  era tudo
dinheiro sujo. Baba jamais teria feito uma festa daquelas para mim se eu no tivesse
ganhado o campeonato.
Ele me deu dois presentes. Um deles certamente ia deixar todas as crianas do
bairro morrendo de inveja: uma Schwinn Stingray novinha em folha, a rainha das
bicicletas. S uns poucos garotos em toda Cabul tinham uma Stingray nova e, agora, eu
era um deles. Ela tinha o guidom bem alto, com punhos de borracha pretos, e o clebre
selim em forma de banana. Os raios das rodas eram dourados e a estrutura metlica do
quadro, vermelha, como uma ma do amor. Ou como sangue. Qualquer outro garoto
teria montado imediatamente naquela bicicleta e sado para dar uma volta no
quarteiro. Eu teria feito a mesma coisa alguns meses atrs.
 E a, gostou?  perguntou meu pai, recostado na porta do meu quarto.
Respondi com um sorriso acanhado e um rpido "Obrigado". Adoraria ter podido
demonstrar um pouco mais de entusiasmo.
 Que tal sairmos para dar uma volta?  disse baba. Aquilo era um convite,
mas no muito animado.
 Mais tarde, talvez. Agora estou um pouco cansado  respondi.
 Claro  disse ele.
 Baba?
 O que foi?
 Obrigado pelos fogos de artifcio  disse eu. Era um agradecimento, mas no
muito animado.
 V descansar um pouco  respondeu ele, dirigindo-se para o seu quarto.
O outro presente que meu pai me deu  e este, ele no ficou rondando para me
ver abrir  foi um relgio de pulso. Tinha um mostrador azul com ponteiros de ouro
em forma de relmpagos. Esse a eu nem experimentei. Botei l na pilha de
brinquedos no canto do quarto. S o caderno de couro que Rahim Khan me deu no

foi parar naquela pilha de presentes. Era o nico que eu no sentia como sendo dinheiro
sujo.
Sentei na beirada da cama, virei e revirei o caderno nas mos, lembrei de Rahim
Khan falando de Homaira, dizendo que, afinal de contas, aquela histria de seu pai ter
mandado ela embora pode ter sido a melhor soluo. "Ela teria sofrido", disse ele.
Como nas vezes em que o projetor de kaka Homayoun emperrava em um slide, a mesma
imagem ficava aparecendo sem parar na minha mente: Hassan, cabisbaixo, servindo
bebidas a Assef e Wali. Talvez fosse mesmo o melhor a fazer. Diminuir o seu
sofrimento. E o meu tambm. Seja como for, uma coisa estava bem clara: um de ns
dois tinha que ir embora.
No final daquela tarde, levei a Schwinn para a sua primeira e ltima sada. Dei
umas duas voltas no quarteiro e voltei para casa. Fui at o quintal dos fundos, onde
Hassan e Ali estavam limpando a sujeira da festa da noite anterior. Copos de papel,
guardanapos amarrotados e garrafas de refrigerante vazias estavam espalhados por
todo canto. Ali estava dobrando as cadeiras e botando todas elas encostadas no muro.
Quando me viu, acenou com a mo.
 Salaam, Ali  disse eu, acenando tambm.
Ele ergueu um dedo, fazendo sinal para eu esperar um pouco, e foi at a casinha
onde morava. Logo depois saiu de l com alguma coisa nas mos.
 Ontem  noite, Hassan e eu no tivemos oportunidade de lhe dar isso  disse
ele me entregando um embrulho.   coisa simples e no  um presente digno de voc,
Amir agha. Mesmo assim, esperamos que goste. Feliz aniversrio.
Comecei a sentir um n na garganta.
 Obrigado, Ali  murmurei.
Adoraria que no tivessem comprado nada para mim. Abri o embrulho e vi um
Shahnamah novinho em folha, encadernado, com ilustraes acetinadas abaixo das
passagens. Em uma delas, Ferangis fitava o filho recm-nascido, Kai Khosrau. Noutra,
via-se Afrasiyab montado em seu cavalo, espada em punho,  frente de seu exrcito. E, 
claro, Rostam ferindo mortalmente seu filho, o guerreiro Sohrab.
  lindo!  exclamei.
 Hassan disse que o seu est velho e meio rasgado, e que esto at faltando
algumas pginas  prosseguiu Ali.  Neste aqui, todas as gravuras so feitas  mo, a
bico-de-pena  acrescentou ele, todo orgulhoso, olhando para aquele livro que nem
ele nem o filho eram capazes de ler.
  maravilhoso!  disse eu.
Era mesmo. E desconfiava que no devia ter sido nada barato. Quis dizer a Ali
que no era o livro que era indigno, mas eu mesmo. Montei outra vez na bicicleta.
 Agradea a Hassan por mim  disse.
Acabei deixando o livro na pilha de presentes do canto do quarto. Mas no
conseguia tirar os olhos dele. Decidi, ento, escond-lo debaixo de tudo. Naquela noite,
antes de ir dormir, perguntei a baba se ele tinha visto o meu relgio novo em algum
lugar.
NA MANH SEGUINTE, FIQUEI ESPERANDO no quarto at que Ali tivesse acabado de tirar a
mesa do caf na cozinha. Esperei que terminasse de lavar a loua e secar a bancada.

Fiquei na janela para ver quando ele e Hassan sairiam para fazer as compras no
bazaar, empurrando o carrinho vazio.
Ento, fui at a pilha de presentes e peguei alguns envelopes com dinheiro e o
meu relgio de pulso. Sa do quarto p ante p. Parei diante da porta do escritrio de
meu pai e fiquei  escuta. Ele tinha passado a manh toda ali dentro, dando uns
telefonemas. Nesse momento, estava falando com algum sobre um carregamento de
tapetes que devia chegar na prxima semana. Desci a escada, atravessei o quintal e
entrei na casa de Ali e Hassan, perto da nespereira. Levantei o colcho de Hassan e pus
ali debaixo o meu relgio novo e um punhado de notas de afeganes.
Esperei mais uma meia hora. Depois, bati  porta do escritrio e disse o que
esperava que fosse a ltima de uma longa lista de mentiras vergonhosas.
PELA JANELA DO MEU QUARTO, vi Ali e Hassan empurrando o carrinho carregado de carne,
naan, frutas e legumes pela alameda de entrada. Vi meu pai saindo de casa e
caminhando para ir ao encontro deles. Vi suas bocas se mexendo, dizendo palavras
que eu no conseguia ouvir. Baba apontou para a casa e Ali assentiu com um gesto
de cabea. Separaram-se. Baba entrou em casa novamente enquanto Ali seguia Hassan
at a cabana do quintal.
Minutos depois, meu pai veio bater  porta do meu quarto.
 Venha at o meu escritrio  disse ele.  Vamos sentar e resolver essa
histria de uma vez.
Fui para o escritrio e sentei em um dos sofs de couro. Em meia hora, ou mais,
Hassan e Ali vieram ao nosso encontro.
AMBOS TINHAM CHORADO; PODIA VER isso por causa dos seus olhos vermelhos e inchados.
Pararam diante de baba, de mos dadas e fiquei me perguntando como e quando eu
tinha me tornado capaz de provocar tamanha dor.
Meu pai foi direto ao assunto:
 Voc roubou esse dinheiro? Roubou o relgio de Amir, Hassan?  perguntou
ele.
A resposta foi uma nica palavra, dita em voz baixa e rouca:
 Roubei.
Tomei um susto. Foi como se tivessem me dado uma bofetada. Senti o corao
apertado e quase deixei escapar a verdade. Depois compreendi: aquele era o sacrifcio
final que Hassan fazia por mim. Se ele tivesse dito no, baba teria acreditado, porque
todos ns sabamos que Hassan no mentia nunca. E, se baba acreditasse nele, eu  que
seria acusado. Teria que dar explicaes e todos ficariam sabendo quem eu realmente era.
Meu pai jamais poderia me perdoar. E, com isso, pude compreender outra coisa
tambm: Hassan sabia. Sabia que eu tinha visto tudo o que aconteceu naquele beco;
sabia que eu estava parado l e no tinha feito nada. Sabia que tinha sido trado e
estava me salvando mais uma vez; a ltima, quem sabe. Naquele momento, eu o amei;
mais do que jamais amei qualquer outra pessoa, e quis dizer a todos que eu  que era a
serpente oculta na grama, o monstro no fundo do lago. No merecia aquele sacrifcio;
era um mentiroso, um impostor, e um ladro. E teria feito isso mesmo, se no fosse o
fato de uma parte de mim estar feliz. Feliz porque logo, logo tudo aquilo estaria
terminado. Meu pai os mandaria embora; haveria algum sofrimento, mas a vida
poderia continuar. Era isso que eu queria: seguir em frente, esquecer, comear uma
vida nova. Queria ter condies de respirar novamente.
S que baba me deixou atnito ao dizer "Eu o perdo".
Como, perdoar? Mas roubar no era o nico pecado que no tinha perdo; o
denominador comum entre todos os pecados? "Quando voc mata um homem, est
roubando uma vida. Est roubando da esposa o direito de ter um marido, roubando
dos filhos um pai. Quando mente, est roubando de algum o direito de saber a
verdade. Quando trapaceia, est roubando o direito  justia. No h ato mais infame
do que roubar." Baba no tinha me posto no colo e dito essas palavras? Como, ento,
podia simplesmente perdoar Hassan? E se podia perdoar isso, por que, ento, no
podia me perdoar por no ser o filho que ele sempre quis ter? Por que...
 Estamos indo embora, agha sahib  disse Ali.
 O qu?  exclamou baba empalidecendo.
 No podemos continuar morando aqui  acrescentou Ali.
 Mas eu o perdoei, Ali. Voc no ouviu?
  impossvel para ns continuar vivendo aqui, agha sahib.Estamos indo
embora.
Ali chegou mais perto de Hassan, passando o brao nos ombros do filho. Era um
gesto protetor e eu bem sabia de quem ele o estava protegendo. Olhou para mim e, por
aquele olhar frio e que no podia perdoar, fiquei sabendo que Hassan tinha lhe contado
tudo. Tinha lhe contado o que Assef e seus amigos fizeram com ele; tinha lhe contado
sobre a pipa e sobre mim. Era esquisito, mas fiquei feliz vendo que algum sabia
exatamente quem eu era. J estava cansado de fingir.
 No me importo com o dinheiro, nem com o relgio  disse baba, com os
braos abertos, as palmas das mos voltadas para cima.  No entendo por que voc
est fazendo isso... O que significa "impossvel"?
 Lamento muito, agha sahib, mas j arrumamos as nossas coisas. Nossa deciso
est tomada.
Meu pai ficou parado e um lampejo de dor percorreu o seu rosto.
 No cuidei para que nunca lhes faltasse nada, Ali? No fui sempre bom com
voc e com Hassan? Voc  o irmo que nunca tive, Ali, e sabe disso. Por favor, no
faa isso comigo.
 No torne as coisas ainda mais difceis, agha sahib  disse Ali.
Sua boca se contorceu e, por um momento, achei que fosse uma careta. Foi ento
que compreendi todo o alcance da dor que eu estava causando, a profundidade da
tristeza que estava fazendo todos eles sentirem, pois nem o rosto paralisado de Ali
tinha sido capaz de esconder aquele sentimento. Fiz um esforo e olhei para Hassan, mas
ele estava de cabea baixa, ombros encurvados, torcendo e retorcendo um fio solto na
bainha da sua camisa.
Baba agora pedia:
 Mas, pelo menos, me diga por qu. Preciso saber!
Ali no contou nada, como tambm no tinha protestado quando Hassan
confessou ter roubado. Nunca saberei exatamente por qu, mas podia imaginar os dois
chorando naquele casebre escuro, Hassan pedindo a ele que no me entregasse. Mas no
era capaz de imaginar o esforo que Ali deve ter sido obrigado a fazer para cumprir
uma promessa como essa.
 Pode nos levar at a rodoviria?

 Voc est proibido de fazer isso!  gritou meu pai.  Proibido! Ouviu bem?
 Com todo respeito, agha sahib, o senhor no pode me proibir nada  retrucou
Ali.  J no trabalhamos mais aqui.
 E para onde vo?  indagou baba com a voz embargada.
 Para Hazarajat.
 Para a casa do seu primo?
 Isso mesmo. Pode nos levar at a rodoviria, agha sahib? Ento vi baba fazer
uma coisa que nunca tinha visto antes: chorar.
Fiquei um pouco assustado vendo um adulto soluar assim. Afinal, pais no
choram...
 Por favor...  insistia ele, mas Ali j estava se encaminhando para a porta,
com Hassan em seu encalo. Nunca vou me esquecer do jeito de baba ao dizer aquilo;
da dor, do medo que havia em seu pedido.
EM CABUL  RARO CHOVER NO VERO. Em geral, o que se v  o cu azul, bem l no alto, e o
sol como ferro em brasa a nos queimar a nuca. Os regatos onde Hassan e eu
jogvamos pedrinhas durante toda a primavera secavam, e os riquixs levantavam
poeira do cho ao passar pelas ruas. As pessoas iam  mesquita fazer as dez raka'ts do
meio-dia e, depois, tratavam de se recolher onde quer que houvesse alguma sombra,
para fazer a sesta e esperar que o tempo comeasse a refrescar mais para o fim da tarde.
O vero significava longos dias suaremos na escola, dentro das salas lotadas e pouco
arejadas, aprendendo a recitar ayats do Coro, lutando com aquelas exticas palavras
do rabe que eram de dar n na lngua. Significava apanhar moscas com a mo enquanto
o mul prosseguia com sua lengalenga e o vento quente trazia o cheiro de merda das
latrinas que ficavam do outro lado do ptio, alm de levantar poeira em torno da
msera cesta de basquete fincada no cho de terra.
Mas choveu na tarde em que meu pai levou Ali e Hassan at a rodoviria. Com
trovoadas e tudo. E o cu se tingiu de cinza-chumbo. Em poucos minutos, desceu uma
verdadeira cortina de chuva e, nos meus ouvidos, s havia o rudo contnuo da gua
que caa.
Baba se ofereceu para lev-los at Bamiyan, mas Ali recusou. Pela vidraa turva e
encharcada da janela do meu quarto, eu o vi carregando a nica mala que continha
todos os seus pertences, levando-a at o carro de baba, que estava parado esperando do
lado de fora do porto. Hassan ia levando nas costas os colches enrolados e
amarrados com uma corda. Tinha deixado todos os seus brinquedos no casebre vazio
 foi o que descobri no dia seguinte , empilhados em um canto exatamente como
eu tinha feito com os presentes de aniversrio no meu quarto.
Grossas gotas de chuva escorriam pela vidraa. Vi meu pai fechar o porta-malas.
J encharcado, dirigiu-se para o lugar do motorista. Encostou-se no carro e disse
algo a Ali, que estava no banco de trs, talvez um ltimo esforo desesperado para
faz-lo mudar de idia. Conversaram assim por um instante, baba ficando cada
vez mais ensopado, pingando, com um brao apoiado na capota. Quando se
reergueu, porm, vi naqueles ombros encurvados que a vida que eu conhecia desde
que nasci tinha terminado. Ele entrou no carro. Os faris se acenderam, lanando
dois fachos de luz atravs da chuva. Se fosse um daqueles filmes indianos que Hassan
e eu vamos juntos, eu agora correria l para fora, com os ps descalos
chapinhando no cho molhado. Iria atrs do carro, gritando para que parassem.

Tiraria Hassan do banco de trs e lhe diria que sentia muito, muito mesmo, e as
minhas lgrimas se misturariam  chuva que caa. Ficaramos ali, abraados, debaixo
daquele aguaceiro. Mas aquilo no era um filme indiano. Estava mesmo arrependido,
mas no chorei, nem sa correndo atrs deles. Vi o carro de meu pai se afastar,
levando consigo aquela pessoa para quem a primeira palavra pronunciada, ao
aprender a falar, foi o meu nome. Ainda vi de relance, pela ltima vez, o vulto de
Hassan afundado no banco de trs, antes que o carro dobrasse  esquerda naquela
esquina onde tantas vezes tnhamos jogado bolas de gude.
Me afastei da janela e tudo o que vi ento foi a chuva caindo pelas vidraas, que mais
pareciam prata derretida.

DEZ
Maro de 1981
QUEM SE SENTOU DIANTE DE NS FOI UMA MOA. Estava usando um vestido verde-oliva e tinha a
cabea coberta por um xale preto bem enrolado em volta do rosto para se proteger da
friagem da noite. Comeava a rezar cada vez que o caminho sacolejava ou passava por
um buraco na estrada, exclamando "Bismillah!" a cada tranco ou solavanco do veculo.
O marido, um homem forte, de calas largas e turbante azul-celeste, embalava um beb
com um dos braos e, com a mo livre, ia desfiando as contas de orao. Os seus
lbios se moviam em uma prece silenciosa. Havia outros passageiros, uns dez ao todo,
entre os quais meu pai e eu, sentados ali dentro, com a mala entre as pernas, apinhados
entre essa gente estranha, debaixo da coberta de lona da carroceria de um velho
caminho russo.
Minhas entranhas j vinham se contorcendo desde que deixamos Cabul, pouco
depois das duas da manh. Baba nunca diria uma coisa dessas, mas eu tinha certeza
que considerava os meus enjos em viagens como mais uma das minhas tantas
fraquezas  percebi isso pela cara constrangida que fez nas vezes em que o meu
estmago se contraiu de tal forma que cheguei a gemer. Quando o sujeito forte com
as contas de orao  o marido da mulher que rezava  perguntou se eu estava
ficando enjoado, respondi que achava que sim. Baba olhou para o outro lado. O
homem levantou uma ponta da lona e bateu na janela do motorista, pedindo-lhe que
parasse. Mas o motorista, Karim, um moreno magricela com cara de falco e um
bigodinho fino como um lpis, fez que no com a cabea.
 Estamos perto demais de Cabul  respondeu ele.  Diga-lhe para segurar o
estmago.
Meu pai resmungou alguma coisa bem baixinho. Quis lhe dizer que sentia
muito, mas, de repente, a minha boca ficou cheia de gua e, l do fundo da garganta,
comeou a subir um gosto de bile. Virei de costas, ergui a lona e vomitei pela lateral
do caminho em movimento. Atrs de mim, baba pedia desculpas aos outros
passageiros. Como se ficar enjoado fosse um crime. Como se algum de dezoito anos
no pudesse mais ficar enjoado. Vomitei ainda duas vezes at que Karim concordou
em parar, principalmente para evitar que eu empesteasse o caminho, seu
instrumento de trabalho. Karim era um contrabandista de gente  nessa poca,

um negcio bastante lucrativo , transportando pessoas que saam da Cabul
ocupada pelos shorawi e deixando-as em relativa segurana no Paquisto. Estava
nos levando para Jalalabad, que fica a cerca de cento e setenta quilmetros a sudeste
de Cabul, e onde o seu irmo, Toor, que tinha um caminho bem maior, estava
esperando, com um segundo comboio de refugiados, para nos conduzir atravs do
Passo Khyber at a cidade de Peshawar.
Estvamos a alguns quilmetros a oeste das cataratas Mahipar quando Karim
encostou na lateral da estrada. Mahipar  que significa "peixe voador"   um pico
elevado, com um desfiladeiro que domina a barragem da hidreltrica construda pelos
alemes em 1967. Baba e eu tnhamos vindo de carro at essa montanha milhares de
vezes, quando amos para Jalalabad, a cidade dos ciprestes e das plantaes de
cana-de-acar
onde os afegos costumam ir passar as frias de inverno.
Pulei da traseira do caminho e fui cambaleando para o acostamento da estrada.
Minha boca ficou cheia de gua, sinal da nsia de vmito que estava por vir. Mal e
mal, consegui chegar  beira do penhasco que dominava o vale profundo agora oculto
pela escurido. Inclinado para frente, com as mos nos joelhos, fiquei esperando pela
bile. Em algum lugar, um galho de rvore estalou, uma coruja piou. Um vento frio e
brando balanava os arbustos espalhados pelo barranco, fazendo farfalhar a sua
folhagem. E, l do fundo, subia o rudo distante da gua que rolava pelo vale.
Parado ali na beira da estrada, lembrei de como tnhamos deixado a casa onde
passei a vida toda, como se estivssemos saindo para comer alguma coisa: pratos sujos
de kofta empilhados na pia da cozinha; roupas na cesta de vime que ficava no saguo;
camas por fazer; os ternos de baba pendurados nos cabides. As tapearias
continuavam nas paredes da sala de visitas e os livros de minha me ainda estavam
amontoados nas estantes do escritrio de baba. Os vestgios da nossa fuga eram
bastante sutis: o retrato do casamento de meus pais tinha desaparecido, bem como a
velha foto desbotada de meu av, com o rei Nader Shah, de p, junto do veado
morto. Faltavam algumas peas de roupas nos armrios. O caderno de couro que
Rahim Khan tinha me dado cinco anos antes tambm sumiu.
Pela manh, Jalaluddin  nosso stimo empregado em cinco anos  com certeza
ia pensar que tnhamos sado para dar uma volta. No contamos nada para ele. J no
se podia confiar em mais ningum em Cabul: em troca de dinheiro, ou sob ameaa,
todo mundo entregava todo mundo, vizinhos delatavam vizinhos, filhos delatavam
pais, irmo entregava irmo, empregado entregava patro, amigo entregava amigo.
Lembrei do cantor Ahmad Zahir, que tinha tocado harmnio na festa do meu
aniversrio de treze anos. Ele saiu de carro com uns amigos e, mais tarde, algum
encontrou o seu corpo na beira da estrada, com uma bala na nuca. Os rafiqs, os
camaradas, estavam por toda parte e tinham dividido Cabul em dois grupos: aqueles
que bisbilhotavam a vida alheia e aqueles que no faziam isso. O problema era que
ningum sabia quem pertencia a qual desses grupos. Um comentrio qualquer, feito
para o alfaiate enquanto se experimenta um terno, podia lev-lo ao calabouo do
Poleh-Charkhi.
Reclame do toque de recolher, em uma conversa com o aougueiro e, quando
der por si, estar atrs das grades, de cara para o cano de um Kalashnikov. At
mesmo durante o jantar, na privacidade das suas casas, as pessoas tinham que pensar
muito antes de falar, pois os rafiqs estavam tambm nas salas de aula, ensinando as
crianas a espionar os prprios pais, dizendo-lhes a que tipo de assunto deviam prestar
ateno e a quem ir contar o que sabiam.

O que  que eu estava fazendo naquela estrada, no meio da noite? Devia estar na
cama, debaixo das minhas cobertas, tendo, ao meu lado, um livro cheio de pginas
com as pontas dobradas. Isso tinha de ser um sonho. S podia ser. Quando acordasse,
amanh de manh, chegaria na janela e no haveria nenhum soldado russo de cara
amarrada patrulhando as caladas, nem tanques circulando para cima e para baixo
pelas ruas da minha cidade, com aquelas torres girando feito dedos acusadores; no
haveria escombros, nem toque de recolher, nem veculos do exrcito russo rodando
pelos mercados e transportando militares de um lado para o outro. Ouvi ento, s
minhas costas, baba e Karim conversando, entre uma tragada e outra, sobre as
providncias a serem tomadas em Jalalabad. Karim garantia que o seu irmo tinha um
caminho bem grande, "excelente, de primeirssima qualidade", e que a viagem at
Peshawar seria coisa absolutamente corriqueira.
 Ele pode levar vocs at l de olhos fechados  afirmou Karim.
Continuou dizendo que ele e o irmo conheciam os soldados russos e afegos que
trabalhavam nos postos de controle, e que tinham feito um trato "lucrativo para ambas
as partes". No era sonho. De repente, como se obedecendo a uma deixa, o rudo
estridente de um MiG passando sobre nossas cabeas se fez ouvir. Karim jogou o
cigarro fora e tirou um revlver da cintura. Apontou a arma para o cu, fez gestos
como se estivesse atirando, cuspiu e xingou o avio russo.
Pensei em Hassan e me perguntei onde estaria. Aconteceu ento o inevitvel.
Vomitei em uma moita e o barulho que fiz foi abafado pelo rudo ensurdecedor do
MiG.
ENCOSTAMOS NO POSTO DE CONTROLE de Mahipar vinte minutos mais tarde. Nosso
motorista desligou o motor do caminho e desceu para cumprimentar as vozes que se
aproximavam. Ps esmagavam cascalho. Disseram-se algumas palavras, breves e
sussurradas. Surgiu a luz de um isqueiro. "Spassiba."
Novamente o isqueiro. Algum riu, um riso estridente que me assustou. A mo de
baba se apoiou com fora na minha coxa. O homem que ria comeou a cantar, uma
verso um tanto incompreensvel e desafinada de uma velha cantiga de casamento
afeg, entoada com forte sotaque russo:
Ahesta boro, Mah-e-man, ahesta boro.
V devagar, minha linda lua, v devagar.
Saltos de botas ressoaram no asfalto. Algum entreabriu a lona que cobria a
carroceria do caminho e pudemos ver trs rostos. Um deles era Karim, os outros dois
eram soldados, um afego, o outro, um russo sorridente, com cara de buldogue e um
cigarro pendendo do canto da boca. Atrs deles, uma lua esbranquiada suspensa l no
cu. Karim e o soldado afego trocaram algumas palavras em pashtu. Consegui
entender pouca coisa  algo sobre Toor e o seu azar. O soldado russo meteu a
cabea na traseira do caminho. Continuava cantarolando aquela cantiga e
tamborilava na borda da carroceria. Mesmo com a plida luz da lua, pude ver o olhar
um tanto bao que lanava a cada um dos passageiros. Apesar do frio, o suor lhe escorria
pela testa. Os seus olhos se detiveram na mulher que usava o xale preto. Disse algo em
russo a Karim, sem deixar de fit-la. Karim lhe deu uma resposta curta, em russo, e ele
replicou de modo mais breve ainda. O soldado afego tambm disse alguma coisa, em
voz baixa, parecendo ponderar. Mas o russo gritou algo que fez os dois outros homens
estremecerem. Pude sentir que meu pai se chegava mais para perto de mim. Karim
pigarreou e baixou a cabea. Disse que o soldado queria meia hora com a mulher, ali na
traseira do caminho.
A moa cobriu o rosto com o xale e caiu em prantos. O garotinho sentado no colo
do pai tambm comeou a chorar. O rosto do marido ficou to plido quanto a lua l
no alto. Pediu ento a Karim que falasse com o "Senhor Soldado sahib" para que
tivesse um pouco de compaixo; quem sabe no tinha uma irm ou me; talvez at
uma esposa. O russo ouviu o que Karim lhe disse e berrou um monte de palavras.
 E o preo que ele est pedindo para nos deixar passar  disse Karim, que
no conseguia ter foras para olhar o marido da moa nos olhos.
 Mas j pagamos um preo bem razovel. Ele est levando um bom dinheiro
nisso  retrucou o marido.
Karim e o russo falaram ainda um pouco mais.
 Ele est dizendo... est dizendo que todo preo inclui um imposto.
Foi quando meu pai fez meno de se levantar. E, agora, era minha vez de segurar a
sua perna. Mas ele tirou a minha mo, conseguindo se desvencilhar. Quando ficou de
p, encobriu a luz da lua.
 Quero que pergunte uma coisa a esse homem  disse ele, dirigindo-se a
Karim, mas olhando diretamente para o oficial russo.  Pergunte a ele se no tem
vergonha na cara.
Os dois se falaram.
 Ele disse que isso  uma guerra. No h vergonha na guerra.
 Pois diga-lhe que ele est redondamente enganado. A guerra no nega a
decncia. Pelo contrrio, exige isso, muito mais que os tempos de paz.
"Voc precisa ser sempre o heri?", pensei eu com o corao aos pulos. "No
pode deixar as coisas correrem soltas, ao menos uma vez na vida?" Mas sabia que
no; uma atitude como essa no estava em sua natureza. O problema  que a sua
natureza ia fazer com que fssemos todos mortos.
O soldado russo disse algo a Karim, com um sorriso retorcendo os seus lbios.
 Agha sahib  disse Karim , esses roussi no so como a gente. No tm
a mnima idia do que seja respeito, honra.
 O que foi que ele disse?
 Que vai ter tanto prazer em lhe meter uma bala quanto em...
Karim se afastou, mas fez um aceno com a cabea para a moa que tinha
deixado o soldado to interessado. O russo jogou fora o cigarro inacabado e sacou o
revlver. "Ento  aqui que baba vai morrer?", pensei eu. "Vai ser desse jeito."
Mentalmente, comecei a rezar uma orao que tinha aprendido no colgio.
 Diga-lhe que vai ter que me dar milhares de tiros para que eu permita que
uma indecncia como essas acontea  disse meu pai.
A minha cabea reviveu aquele dia de inverno, h seis anos. Eu, parado na esquina
do beco, espiando. Kamal e Wali mantendo Hassan deitado no cho. Os msculos do
traseiro de Assef se contraindo e relaxando, os seus quadris se movendo para frente e
para trs. Que grande heri eu tinha sido, s porque estava louco para ter aquela
pipa! s vezes eu tambm me perguntava se era mesmo filho daquele homem.
O russo com cara de buldogue ergueu o revlver.

 Baba, por favor, sente-se  disse eu, puxando-o pela manga da camisa. 
Acho que esse sujeito pretende mesmo atirar em voc.
Ele, porm, afastou a minha mo.
 No lhe ensinei nada?  exclamou. E, voltando-se para o soldado
sorridente:  Diga-lhe que  melhor ele me matar com o primeiro tiro. Porque, se eu
no morrer, vou pic-lo em pedacinhos. Maldito seja o seu pai!
O sorriso do soldado russo no diminuiu em momento algum enquanto ouvia a
traduo do que meu pai tinha dito. Destravou o revlver. Mirou o peito de baba. Com
o corao pulando na garganta, escondi o rosto entre as mos.
O revlver disparou.
"Pronto. Acabou. Tenho dezoito anos e estou sozinho. No me resta mais
ningum no mundo. Baba morreu e, agora, tenho que enterr-lo. Onde vou enterrlo?
Para onde vou depois?"
Mas o turbilho de pensamentos inacabados que girava em minha mente estancou
quando entreabri os olhos e meu pai ainda estava de p  minha frente. Vi um segundo
oficial russo junto com os outros. Era do cano do seu revlver apontado para o alto
que saa fumaa. O soldado que pretendia atirar em baba j tinha guardado a arma
no coldre. Estava se afastando, arrastando os ps. Nunca tive tanta vontade de chorar
e de rir ao mesmo tempo.
O segundo oficial russo, um indivduo grisalho e troncudo, falou conosco em um
farsi meio arrevesado. Pediu desculpas pelo comportamento do colega.
 A Rssia os mandou para c para lutar  disse ele.  Mas no passam de
garotos e, quando chegam aqui, descobrem o prazer das drogas.  Lanou ao oficial
mais jovem um olhar consternado, como um pai exasperado com a m conduta do
filho.  Esse a est viciado agora. Tenho tentado det-lo...
E fez sinal para que fssemos embora.
Minutos depois, o caminho estava saindo do posto de controle. Ouvi uma risada
e, a seguir, a voz do primeiro soldado, pastosa e desafinada, cantando aquela velha
cano de casamento.
SEGUIMOS VIAGEM EM SILNCIO por cerca de quinze minutos, at que, de repente, o marido
da moa se levantou e fez algo que j tinha visto muitos outros fazerem antes: beijou
a mo de meu pai.
O AZAR DE TOOR. NO ERA ISSO que eu tinha ouvido naquela conversa l em Mahipar? .
Chegamos a Jalalabad cerca de uma hora antes do nascer do sol. Karim nos levou
rapidamente do caminho at uma casa trrea, que ficava no cruzamento de duas
estradas de terra ladeadas por outras casas como ela, ps de accia e lojas fechadas.
Ergui a gola do casaco, tentando me proteger do frio, enquanto corramos para a tal
casa carregando os nossos pertences. Por alguma razo, lembro de ter sentido cheiro
de rabanetes.
Quando j estvamos todos no aposento vazio e mal iluminado, Karim trancou a
porta da frente e fechou os lenis esfarrapados que faziam as vezes de cortinas.
Depois, respirou fundo e nos deu a m notcia: seu irmo, Toor, no poderia nos levar
para Peshawar. Pelo que sabia, o motor do seu caminho tinha estourado na semana
passada, e ele ainda estava esperando as peas para o conserto.

 Na semana passada?  exclamou algum.  Se j sabia disso, por que nos
trouxe at aqui?
Com o canto do olho, percebi um movimento rpido. Depois, foi como se alguma
coisa tivesse passado correndo pela sala. O que vi a seguir foi Karim ser jogado de
encontro  parede, com os ps calados de sandlias pendurados a mais de meio metro
do cho. Agarrando o seu pescoo estavam as mos de baba.
 Vou lhe dizer por qu  esbravejou ele.  Porque foi pago para fazer essa
parte do percurso. Era s isso que lhe interessava.
Karim fazia uns sons guturais como se estivesse sufocando. Do canto da sua
boca escorria uma saliva espessa.
 Solte ele, agha, o senhor vai mat-lo  disse um dos passageiros.
  exatamente o que pretendo fazer  replicou meu pai.
O que ningum ali sabia era que ele no estava brincando. Karim comeou a ficar
vermelho e a espernear. Baba continuou apertando o seu pescoo at que a jovem me,
aquela que tinha deixado o russo todo interessado, lhe implorou que parasse.
Quando meu pai finalmente o soltou, Karim despencou l do alto e ficou se
revirando no cho, tentando desesperadamente respirar. A sala mergulhou em
silncio. H menos de duas horas, baba tinha se disposto a levar um tiro em nome da
honra de uma mulher que sequer conhecia. Agora, quase estrangulou um homem at a
morte, e teria estrangulado para valer se no fossem as splicas da mesma mulher.
Ouvimos um barulho na porta. No, no era naquela porta, era l embaixo.
 O que  isso?  indagou algum.
 So os outros  balbuciou Karim, ofegante.  No poro.
 H quanto tempo esto esperando a?  perguntou meu pai, parado junto
dele.
 H duas semanas.
 Pensei ter ouvido voc dizer que o caminho quebrou na semana passada...
 Deve ter sido na semana anterior  disse Karim com a voz rouca,
esfregando a garganta.
 Quanto tempo?
 O qu?
 Quanto tempo ainda vai demorar para as peas chegarem?  rosnou baba.
Karim estremeceu, mas no disse nada. Fiquei feliz porque ali dentro estava
escuro. No queria ver o olhar assassino no rosto de meu pai.
UM FEDOR DE UMIDADE, DE COISA MOFADA, penetrou por minhas narinas adentro quando
Karim abriu a porta que dava para a velha escada de madeira do poro. Descemos em
fila indiana. Os degraus rangeram sob o peso de baba. Parado naquele lugar frio, senti
que vrios olhos piscando no escuro me observavam. Podia ver vultos amontoados
pelo cmodo, formas projetadas nas paredes pela luz fraca de duas lamparinas de
querosene. Um murmrio se fez ouvir pelo poro; menos distinto ainda, havia o rudo
de gua pingando em algum lugar e um outro barulho, um som rascante.
Baba suspirou s minhas costas, e ps as malas no cho.
Karim disse que no levaria mais de dois dias at que o caminho fosse
consertado. A, ento, seguiramos viagem para Peshawar. Para a liberdade. Para a
segurana.

Aquele poro foi a nossa casa durante toda a semana seguinte e, na terceira noite,
descobri de onde vinha aquele som rascante. Eram ratos.
QUANDO OS MEUS OLHOS SE ACOSTUMARAM  escurido, contei uns trinta refugiados ali
embaixo. Ficvamos sentados, um bem junto do outro, encostados nas paredes;
comamos biscoitos, po com tmaras e mas. Na primeira noite, todos os homens
rezaram em conjunto. Um dos refugiados perguntou a meu pai por que no se juntava
a eles.
 Deus vai nos salvar a todos. Por que no reza para ele?
Baba aspirou uma pitada de rap. Esticou as pernas.
 O que vai nos salvar so oito cilindros e um bom carburador.
Desde ento o resto dos homens se calou de uma vez por todas em termos de
Deus.
Foi depois da primeira noite que descobri que duas das pessoas escondidas ali
junto conosco eram Kamal e seu pai. Fiquei bastante chocado ao v-lo sentado
naquele poro, a uns poucos metros de distncia de onde eu estava. Mas quando os
dois vieram para mais perto de ns e vi o rosto de Kamal, vi de verdade...
Ele tinha murchado  no havia outra palavra para descrever aquilo. Fitou-me
com os olhos vazios e no havia neles o menor sinal de que tivessem me reconhecido. Os
seus ombros estavam encurvados, e as suas bochechas, cadas, como se estivessem
cansadas demais para aderir aos ossos que ficavam ali atrs. O pai dele, que era dono
de um cinema em Cabul, estava contando a baba que, h trs meses, uma bala perdida
tinha atingido a sua esposa no templo, matando-a. Depois, comeou a falar de Kamal.
S pude ouvir uns fragmentos do que ele dizia: "Nunca deveria ter deixado ele ir
sozinho... sempre to bonito, sabe... eram quatro... tentou lutar... Deus... pegaram
ele... sangrando l embaixo... as calas dele... nunca mais falou... fica s olhando
fixo..."
O CAMINHO NO VIRIA. Foi o que nos disse Karim, depois que j tnhamos passado uma
semana naquele poro infestado de ratos. O caminho no tinha conserto.
 Mas h uma outra possibilidade  acrescentou, erguendo a voz acima dos
gemidos. Um primo dele tinha um caminho-tanque e j havia transportado gente
algumas vezes. Estava em Jalalabad e talvez pudesse nos levar a todos.
Todo mundo decidiu ir, exceto um casal mais idoso.
Partimos naquela mesma noite, baba e eu, Kamal e o pai, os outros todos. Karim e
o primo, um homem meio calvo, de cara quadrada, chamado Aziz, nos ajudaram a
entrar no tanque de combustvel. Um a um, amos trepando no estribo traseiro do
caminho, subamos a escadinha de acesso e deslizvamos para dentro do tanque.
Lembro que meu pai parou no meio da escada, pulou de novo para o cho e tirou a
caixa de rap do bolso. Esvaziou a caixinha e apanhou um punhado de terra no meio
da estrada que no era asfaltada. Beijou a terra. Encheu com ela a caixinha. Voltou a
guard-la no bolso da camisa, bem junto do corao.
PNICO.
Voc abre a boca. Abre tanto que as mandbulas chegam a estalar. Manda que os
seus pulmes puxem o ar, AGORA; voc est precisando de ar, precisando AGORA. Mas as

suas vias respiratrias ignoram o seu comando. Entram em colapso, se estreitam, se
contraem e, de repente, voc est respirando atravs de um canudinho de refrigerante.
A sua boca se fecha e os seus lbios se enrugam, e tudo que voc consegue fazer 
soltar um som rouco, estrangulado. As suas mos tremem e se contorcem. Em algum
lugar, as comportas se abriram e uma enxurrada de suor frio transborda, encharcando
todo o seu corpo. Voc quer gritar. Gritaria, se pudesse. Mas, para gritar,  preciso
respirar.
Pnico.
Era bem escuro l no poro. Mas o tanque do caminho era um verdadeiro
breu. Olhei para a esquerda, para a direita, para cima, para baixo, abanei as mos
diante dos olhos, e o mximo que consegui foi ter uma vaga noo de movimento.
Pisquei os olhos; pisquei de novo. Absolutamente nada. O ar ali dentro no era
normal: era espesso demais, quase slido. E o ar no  para ser uma coisa slida, Quis
estender os braos, estilhacei o ar em mil caquinhos que se enfiaram pela minha
traquia abaixo. Ainda por cima, tinha o fedor da gasolina. Os meus olhos estavam
ardendo, como se algum tivesse virado as minhas plpebras pelo avesso e esfregado
limo nelas. A cada respirao, o meu nariz pegava fogo. "Voc pode morrer em um
lugar como este", pensei. Um grito j vinha subindo pela minha garganta. Subindo,
subindo...
E, de repente, um pequeno milagre. Meu pai deu um puxo na manga da minha
camisa e surgiu uma luzinha verde na escurido. Luz! O relgio de pulso de baba.
Fiquei com os olhos pregados naqueles ponteiros de um verde fluorescente. Estava
com tanto medo de perd-los que nem ousava piscar.
Pouco a pouco, fui me dando conta do que havia  minha volta. Ouvi gemidos e
preces murmuradas. Ouvi um choro de criana e a me que a acalmava baixinho.
Algum teve nsia de vmito. Algum amaldioou os shorawi. O caminho ia
sacolejando, de um lado para o outro, para cima e para baixo. Cabeas se
chocavam contra o metal.
 Pense em alguma coisa boa  cochichou baba em meu ouvido.  Em alguma
coisa feliz.
Alguma coisa boa. Alguma coisa feliz. Deixei que a minha mente vagasse. Deixei
que as lembranas fossem vindo.
Sexta-feira  tarde, em Paghman. Um campo de relva verde, salpicado de
amoreiras em flor. Hassan e eu parados ali, com as pernas enterradas no mato at os
tornozelos. Eu estou puxando a linha, o carretel vai girando nas mos calejadas de
Hassan, e ambos temos os olhos voltados para a pipa l no cu. No trocamos uma
palavra; no porque no tenhamos nada a dizer, mas porque no precisamos dizer nada
  assim que acontece com as pessoas para quem a outra  a lembrana mais remota;
com pessoas que mamaram do mesmo leite. Um vento faz o mato ondular e Hassan
libera o carretel. A pipa rodopia, mergulha, se firma. As nossas sombras gmeas
danam naquela relva ondulante. Vindo de algum lugar, alm da mureta de tijolos que
fica do outro lado do campo, ouvimos vozes e risos, e o barulhinho de um chafariz. E
msica, algo antigo e familiar. Acho que  "Ya Mowlah", tocada nas cordas do rubab.
Por cima do muro, algum nos chama, dizendo que est na hora de ir tomar ch com
bolo.
No me lembrava que ms era, nem mesmo que ano. S sei que aquela
lembrana vivia dentro de mim como um pedao gostoso de passado, perfeitamente

encapsulado; uma pincelada de cores naquela tela cinzenta e rida que as nossas vidas
tinham se tornado.
O RESTO DA VIAGEM SO APENAS PEDAOS esparsos de lembranas que vm e vo, em sua
maioria constitudos de sons e de cheiros: o ronco dos MiGs passando por sobre nossas
cabeas; os staccatos de artilharia; um burro zurrando em algum lugar; o tilintar de
sinos e o balido de carneiros; cascalho esmagado pelos pneus do caminho; um beb
choramingando no escuro; o fedor de gasolina, vmito e merda.
Depois, o que me lembro mesmo  da luz ofuscante do amanhecer quando sa
daquele tanque de combustvel. Lembro de ter virado o rosto para o cu, semicerrando
os olhos, respirando como se o mundo estivesse com falta de ar. Deitei na beira da
estrada de terra, perto de um riacho pedregoso, e fiquei olhando para o cu
acinzentado da manh, dando graas pelo ar, dando graas pela luz, dando graas por
estar vivo.
 Agora, estamos no Paquisto, Amir  anunciou meu pai, de p junto de
mim.  Karim disse que vai pedir um nibus para nos levar at Peshawar.
Virei de bruos, sem me levantar da terra fria, e vi as nossas malas de ambos os
lados dos ps de baba. Pelo V invertido formado pelas suas pernas, vi o caminho
parado na beira da estrada e os outros refugiados descendo pela escada traseira.
Mais adiante, a estrada seguia em meio a campos que mais pareciam lenis de
chumbo sob aquele cu cinzento e ia desaparecer por detrs de uma fileira de colinas
arredondadas. A meio caminho, passava por um msero vilarejo encarapitado no topo
de um morro estorricado.
Os meus olhos voltaram ento para as nossas malas. Fiquei com pena de meu
pai. Depois de tudo o que construiu, planejou, sonhou; depois do tanto que lutou e se
esforou para conseguir o que queria, era quilo que toda a sua vida se resumia: um
filho que era uma decepo, e duas malas.
Algum estava gritando. Gritando, no, se lamentando. Vi os passageiros
amontoados em um crculo, ouvi a agitao em suas vozes. Algum disse a palavra
"exalaes". Algum mais disse a mesma coisa. Os lamentos se transformaram em um
berro dilacerante.
Baba e eu corremos at aquele amontoado de curiosos e abrimos caminho por
entre eles. No meio do crculo, o pai de Kamal estava sentado no cho, com as
pernas cruzadas, balanando o corpo para frente e para trs, beijando o rosto terroso
do filho.
 Ele no est conseguindo respirar! O meu menino no est conseguindo
respirar!  repetia ele aos prantos. Em seu colo, jazia o corpo sem vida de Kamal. A
sua mo direita, aberta e frouxa, se sacudia ao ritmo dos soluos do pai.  O meu
menino! Ele no est respirando! Allah, ajude-o a respirar!
Baba se ajoelhou ao seu lado e passou-lhe o brao nos ombros. Mas o pai de
Kamal o afastou e investiu contra Karim, que estava parado ali ao lado, junto com o
primo. Depois, tudo aconteceu to depressa, e foi to rpido que nem se pode dizer
que tenha sido uma briga. Tomado de surpresa, Karim deu um grito e recuou. Vi um
brao girando, uma perna chutando. Um minuto mais tarde, o pai de Kamal estava
de p, segurando na mo o revlver de Karim.
 No me mate!  gritou Karim.

Mas, antes que algum pudesse dizer ou fazer alguma coisa, o pai de Kamal
enfiou o cano da arma na prpria boca. Nunca vou me esquecer do eco daquele
disparo. Nem do claro de luz e do sangue espirrando.
Me curvei novamente e tentei vomitar na beira da estrada, mas no tinha nada
no estmago.

ONZE
Fremont, Califrnia, dcada de 1980
BABA ADORAVA A IDIA da Amrica.
Morar nos Estados Unidos lhe valeu uma lcera.
Lembro de ns dois passeando pelo parque do lago Elizabeth, em Fremont, a
algumas quadras do nosso apartamento, olhando os meninos que praticavam
arremessos de beisebol e as meninas que riam e brincavam nos balanos. Ele
aproveitava esses passeios para tentar me instruir em termos de poltica, alongando-se
em dissertaes chatssimas.
 S existem trs povos nesse mundo que so homens de verdade, Amir  dizia
ele. E os contava nos dedos:  os americanos, esses heris fanfarres; os britnicos e
os israelenses. Todo o resto  e, ao dizer isso, costumava fazer um gesto com a mo,
acompanhado de um "pfff"  no passa de velhotas mexeriqueiras.
A referncia a Israel deixava os afegos de Fremont enfurecidos e todos o
acusavam de ser pr-judeus e, portanto, antiisl. Meu pai ia sempre se encontrar com
eles no parque, para tomar ch com bolo de rowt, e os levava  loucura com as suas
idias sobre poltica.
 O que eles no conseguem entender  era o que me dizia mais tarde   que
isso no tem nada a ver com religio.
Na concepo de baba, Israel era uma ilha de "homens de verdade" em um mar
de rabes que, de to ocupados que estavam em lucrar com o petrleo, acabavam
esquecendo de si mesmos.
 Israel faz isso, Israel faz aquilo  dizia ele, imitando o sotaque rabe.  Pois
ento, tomem alguma atitude a este respeito! Partam para a ao. Vocs so rabes.
Pois tratem de ajudar os palestinos!
Detestava Jimmy Carter, a quem chamava "aquele dentuo cretino". Em 1980,
quando ainda estvamos em Cabul, os Estados Unidos anunciaram que iam boicotar os
Jogos Olmpicos de Moscou.
 Bah!  exclamou ele enojado.  Brejnev est massacrando os afegos e tudo
o que esse comedor de amendoim sabe dizer  "no vou nadar na sua piscina"...
Baba estava persuadido de que Carter tinha, deliberadamente, feito mais pelo
comunismo do que Leonid Brejnev.
 Ele no  o homem ideal para comandar esse pas. E como pr um menino
que nem sabe andar de bicicleta ao volante de um Cadillac novinho em folha  dizia.

Segundo ele, os Estados Unidos e o mundo precisavam mesmo era de um homem
enrgico. Um homem com quem todos pudessem contar; algum que agisse em vez de
ficar trocando apertos de mo. Esse algum surgiu na pessoa de Ronald Reagan. E,
quando Reagan apareceu na TV chamando os shorawi de "Imprio do Mal", meu
pai foi para a rua e comprou um retrato do presidente sorrindo, com os polegares para
cima. Mandou emoldurar o retrato para instal-lo no corredor, pendurado bem ao
lado da velha foto em preto-e-branco onde ele prprio aparecia, usando uma
gravatinha fina, apertando a mo do rei Zahir Shah. Quase todos os nossos vizinhos em
Fremont eram motoristas de nibus, policiais, frentistas de postos de gasolina e mes
solteiras vivendo com a ajuda da seguridade social; exatamente o tipo de trabalhadores
que em breve estaria sufocando com a poltica econmica do governo Reagan que os
obrigaria a apertar os cintos. Meu pai era o nico republicano no prdio em que
morvamos.
Mas a neblina da regio da baa de San Francisco fazia os seus olhos arderem, o
barulho do trnsito lhe dava dor de cabea e o plen o deixava tossindo. As frutas
nunca eram doces o bastante, a gua nunca era limpa o bastante, e onde estavam todas
as rvores e espaos ao ar livre? Durante dois anos, tentei convencer baba a se
inscrever no ESL, para melhorar o seu ingls arrevesado. Mas ele debochava da idia.
 Quem sabe no vou soletrar direitinho a palavra "cat" e a professora vai
me dar uma estrelinha cintilante? Assim, vou poder voltar correndo para casa e
exibi-la para voc  resmungava.
Em um domingo da primavera de 1983, fui at uma pequena livraria que vendia
livros de segunda mo, perto do cinema indiano, quase na esquina da Amtrak com o
Fremont Boulevard. Disse a baba que estaria de volta em cinco minutos e ele deu de
ombros. Estava trabalhando em um posto de gasolina em Fremont e era seu dia de
folga. Vi quando atravessou o Fremont Boulevard fora do sinal e entrou na Fast &
Easy, a pequena mercearia do sr. e da sra. Nguyen, um casal vietnamita j mais idoso.
Eram duas criaturas grisalhas e bem gentis; ela sofria do mal de Parkinson, ele tinha
uma prtese na bacia.
 Agora, ele  como o "Homem de Seis Milhes de Dlares"  dizia ela,
rindo com a boca banguela.  Lembra do "Homem de Seis Milhes de Dlares",
Amir?
Ento, o sr. Nguyen fazia uma cara fechada, imitando Lee Majors, e fingia correr
em cmera lenta.
Estava folheando um velho exemplar de um romance de mistrio de Mike
Hammar quando ouvi gritos e barulho de vidro se quebrando. Larguei o livro e
atravessei a rua correndo. Encontrei o casal abraado atrs do balco, colado na
parede dos fundos e com o rosto lvido. Pelo cho, laranjas, um porta-revistas
derrubado, um frasco de conserva quebrado e muitos cacos de vidro perto dos ps de
meu pai.
Acabei descobrindo que baba no tinha dinheiro suficiente para comprar laranjas.
Fez ento um cheque, e o sr. Nguyen lhe pediu um documento de identidade.
 Ele est querendo ver a minha carteira de motorista  disse baba em farsi,
aos berros.  H quase dois anos que compramos essas malditas frutas e botamos
dinheiro no bolso dele, e, agora, esse filho-da-me vem me pedir um documento!
 No  nada pessoal, baba  disse eu, sorrindo para o casal Nguyen.  
praxe pedir um documento de identidade.

 No quero mais o senhor por aqui  disse o sr. Nguyen, dando um passo 
frente, para deixar a esposa atrs de si, e apontando para baba com a bengala.
Virando-se ento para mim, acrescentou: Voc  um bom rapaz, mas seu pai  louco.
No  mais bem-vindo na nossa loja.
 Ele est achando que sou um ladro?  indagou baba erguendo a voz. J tinha
juntado gente do lado de fora. Todos estavam olhando para ns.  Afinal, que tipo de
pas  esse? Ningum confia em ningum!
 Vou chamar a polcia  disse a sra. Nguyen, mostrando s o rosto por
detrs do marido.  Ou o senhor sai daqui ou chamo a polcia.
 Por favor, sra. Nguyen, no chame a polcia. Vou lev-lo para casa. Mas no
chame a polcia, est bem? Por favor.
 Isso mesmo. Leve-o para casa. Boa idia  disse o sr. Nguyen. Por detrs das
lentes bifocais na armao metlica, os seus olhos no se afastavam de meu pai.
Sa porta afora levando baba comigo. No caminho, ele ainda chutou uma revista
cada no cho. Depois de fazer ele me prometer que no iria mais l, voltei  loja para
pedir desculpas ao casal Nguyen. Disse-lhes que meu pai estava atravessando um
perodo difcil. Dei o nosso endereo e o nosso telefonei sra. Nguyen, e lhe pedi que
calculasse os prejuzos.
 Por favor, telefone assim que souber quanto  tudo. Fao questo de
pagar, sra. Nguyen. Lamento muitssimo.
Ela pegou o papel da minha mo e assentiu com um aceno de cabea. Vi que as
suas mos tremiam mais que de costume e fiquei furioso com baba por deixar uma
senhora idosa naquele estado.
 Meu pai ainda est se habituando  vida nos Estados Unidos  disse eu 
guisa de explicao.
Gostaria de lhes contar que, em Cabul, pegvamos um galho de rvore e
usvamos aquilo como se fosse um carto de crdito. Hassan e eu levvamos aquele
galhinho at a padaria. O padeiro ia fazendo marcas na vareta com uma faca e cada
uma delas correspondia a um naan que ele tirava para ns das chamas que rugiam no
tandoor. No fim do ms, meu pai lhe pagava pela quantidade de marcas feitas na vareta.
Era s isso. Sem perguntas. Sem documentos de identidade.
Mas no disse nada. Agradeci ao sr. Nguyen por no ter chamado os tiras. Levei
meu pai para casa. Ele ficou todo aborrecido, fumando na varanda, enquanto fui
preparar arroz com guisado de pescoo de galinha. J fazia um ano e meio que
tnhamos desembarcado do Boeing vindo de Peshawar, e ele ainda estava se
adaptando.
Naquela noite, comemos em silncio. Depois de duas garfadas, baba empurrou o
prato.
Olhei para ele, ali, do outro lado da mesa, com as unhas lascadas e sujas de graxa,
as juntas esfoladas, e, nas roupas, os cheiros do posto: poeira, suor e gasolina. Baba era
como aqueles vivos que voltam a se casar, mas que no conseguem se livrar da esposa
falecida. Sentia falta das plantaes de cana-de-acar de Jalalabad e dos jardins de
Paghman. Sentia falta do entra-e-sai das pessoas que freqentavam a nossa casa, dos
passeios pelo alvoroo das alamedas do Shor Bazaar, cumprimentando gente que o
conhecia, mas que tambm tinha conhecido o seu pai e o seu av; pessoas que
compartilhavam com ele dos mesmos ancestrais, cujo passado estava interligado ao
seu.

Para mim, os Estados Unidos eram o lugar onde podia enterrar as minhas
lembranas.
Para meu pai, uma vida de luto pelas suas.
 Quem sabe no seria melhor voltarmos para Peshawar?  sugeri eu, olhando
para o gelo que boiava no meu copo de gua. Tnhamos ficado seis meses por l,
esperando que o servio de imigrao liberasse os nossos vistos. Nosso msero
apartamento de quarto-e-sala fedia a meias sujas e a mijo de gato, mas estvamos
cercados de gente conhecida, pelo menos gente que meu pai conhecia. Ele convidava
o corredor inteiro para jantar, em sua maioria afegos  espera de vistos. Algum
acabava inevitavelmente trazendo um par de tablas e algum mais, um harmnio.
Preparava-se ch e qualquer pessoa que tivesse um pouco de voz cantava at o sol
raiar. Ningum mais ouvia o zumbido dos mosquitos e as palmas iam ficando cada vez
mais exaltadas.
 L voc era mais feliz, baba. Era mais parecido com a nossa terra  disse
eu.
 Peshawar era bom para mim. No para voc.
 Aqui voc trabalha tanto...
 J no  to ruim agora  disse ele, fazendo aluso ao fato de ter se tornado o
gerente do posto no turno do dia.
Mas eu via como fazia caretas e esfregava os pulsos nos dias mais midos. Como
o suor lhe banhava a testa quando estendia a mo para pegar o frasco de anticido
depois das refeies.
 Alm disso  acrescentou , no foi por mim que eu nos trouxe para c,
foi?
Estiquei o brao e pus a mo sobre a sua. Minha mo de estudante, limpa e macia,
na sua mo de trabalhador, spera e calejada. Lembrei de todos os caminhes, trens
eltricos e bicicletas que comprou para mim l em Cabul. Agora, era a Amrica. Um
ltimo presente para Amir.
Fazia apenas um ms que tnhamos chegado aos Estados Unidos quando meu pai
conseguiu um emprego no Washington Boulevard, como frentista em um posto de
gasolina de propriedade de um afego conhecido nosso. Na prpria semana em que
chegamos, ele comeou a procurar emprego. Durante seis dias por semana, enfrentava
turnos de doze horas pondo gasolina nos carros, acionando a caixa registradora,
fazendo troca de leo e lavando pra-brisas. s vezes eu ia at l levar o seu almoo.
Via baba, com o rosto carregado e plido sob a luz brilhante das lmpadas
fluorescentes, apanhando um mao de cigarros para um cliente que esperava do outro
lado do balco manchado de leo. A sineta eletrnica da porta tilintava quando eu
entrava e ele olhava para trs, acenava e sorria para mim, com os olhos lacrimejando
de cansao.
No dia mesmo em que foi contratado, fomos procurar a funcionria encarregada
do nosso dossi na seguridade social. A sra. Dobbins era uma mulher negra e gorda,
com olhos brilhantes e covinhas quando sorria. Certa vez, disse que cantava na
igreja, e acreditei, pois tinha uma voz que me fazia pensar em leite morno com mel.
Baba ps a pilha de tquetes-alimentao em cima da escrivaninha,  sua frente.
 Obrigado, mas no quero isso  disse ele.  Trabalho sempre. Trabalhei no
Afeganisto, trabalho nos Estados Unidos. Muito obrigado, sra. Dobbins, mas no
gosto de dinheiro dado de graa.

A sra. Dobbins piscou, incrdula. Pegou os tquetes-alimentao, olhou para meu
pai e para mim como se estivssemos brincando, ou "de gozao com ela", como
dizia Hassan.
 H quinze anos que trabalho com isso  disse ela  e nunca tinha visto
algum fazer uma coisa como essa.
E foi assim que baba ps um fim queles momentos de humilhao, quando
tnhamos que apresentar os tquetes na caixa registradora, e, com isso, abrandou um
dos seus maiores medos: que algum afego o visse comprando comida com dinheiro
dado de esmola. Ele saiu do escritrio da previdncia como um homem curado de um
tumor.
NAQUELE VERO DE 1983, TERMINEI O segundo grau, aos vinte anos de idade e, com isso,
era de longe o mais velho entre os estudantes que ficaram agitando os capelos naquele
dia, ali no campo de futebol americano. Lembro que perdi meu pai de vista em meio
quele monte de famlias, flashes de mquinas fotogrficas e becas azuis. Fui localiz-lo
perto da linha das vinte jardas, com as mos enfiadas nos bolsos e a cmera
pendurada no pescoo. Desaparecia e voltava a aparecer por detrs das pessoas que se
moviam entre ns: meninas vestidas de azul, gritando e chorando entre abraos,
garotos comemorando ruidosamente com seus pais. A barba de baba estava ficando
grisalha, os seus cabelos comeavam a rarear nas tmporas, e, ser que, l em Cabul,
ele no era mais alto? Estava usando um terno marrom  seu nico terno, aquele
mesmo que usava para ir a casamentos e enterros no Afeganisto  e a gravata
vermelha que eu tinha comprado para lhe dar de presente esse ano, quando fez
cinqenta anos. Ento ele me viu e acenou para mim. Fez sinal para que eu pusesse o
capelo e tirou uma foto, com a torre do relgio da escola como pano de fundo. Sorri
para ele  de uma certa forma, esse dia era mais dele do que meu. Depois, veio
caminhando at onde eu estava, passou o brao em meu pescoo e me deu um nico
beijo na testa.
 Estou moftakhir, Amir  exclamou.
Orgulhoso. Os seus olhos brilharam quando disse isso e fiquei feliz por ser o
ponto para onde aquele olhar se dirigia.
Naquela noite, ele me levou a um restaurante afego especializado em kabob, que
ficava em Hayward, e pediu uma quantidade enorme de comida. Disse ao dono do
lugar que o filho dele estava indo para a universidade no outono. Tnhamos discutido
rapidamente o assunto um pouco antes da formatura, e eu lhe disse que queria arranjar
emprego. Trabalhar por algum tempo, juntar algum dinheiro e, quem sabe, ir para a
universidade no ano que vem. Mas ele me lanou um daqueles seus olhares
fulminantes e as palavras se evaporaram na minha boca.
Quando acabamos de jantar, baba me levou para um bar que ficava do outro
lado da rua. O lugar era meio escuro e o cheiro acre de cerveja, que sempre detestei,
transpirava das paredes. Homens usando bons de beisebol e camisetas tipo regata
jogavam sinuca; nuvens de fumaa de cigarros pairavam acima das mesas verdes,
rodopiando na luz fluorescente. Todos os olhos se voltaram para ns, baba em seu
terno marrom e eu de cala social e palet esportivo. Sentamos nos bancos do bar,
perto de um velho cujo rosto macilento ficava ainda mais plido sob a luz azulada do
letreiro de Michelob pendurado ali em cima. Baba acendeu um cigarro e pediu
cerveja para ns dois.

 Estou felicssimo esta noite  anunciou ele para quem quisesse ouvir.  Hoje
vou beber com meu filho. E uma tambm para o amigo aqui  acrescentou, dando um
tapinha nas costas do velho que levou a mo ao chapu e sorriu. No tinha os dentes
de cima.
Baba esvaziou o copo com trs goles e pediu mais uma cerveja. J tinha tomado
trs enquanto eu, com o maior esforo, tinha tomado um quarto da minha. A essa
altura, ele j tinha pedido um usque para o velho e convidado uns quatro jogadores
de sinuca para uma caneca de Budweiser. Os homens o cumprimentavam e batiam
nas suas costas. Fizeram um brinde a ele. Algum acendeu o seu cigarro. Baba
afrouxou a gravata e deu ao velho um punhado de quarters. Apontou para o jukebox.
 Diga-lhe que pode pr as suas msicas favoritas  disse ele, dirigindo-se a
mim.
O velho assentiu com a cabea e lhe bateu continncia. Em poucos minutos, a
msica country ecoava pela sala e, assim, sem mais nem menos, baba tinha comeado
uma festa.
L pelas tantas, ele se levantou, ergueu o copo, respingando cerveja pelo cho
recoberto de serragem, e berrou:
 Que a Rssia se foda!
O bar inteiro riu, e as sonoras gargalhadas ecoaram por toda parte. Ento ele
pagou mais uma rodada de canecas para todo mundo.
Quando resolvemos ir embora, ningum queria v-lo sair dali. Cabul, Peshawar,
Hayward. "O mesmo velho baba", pensei, sorrindo.
Eu  que fui dirigindo o velho Buick Century amarelo-ocre de meu pai. Ele
cochilou durante todo o trajeto, roncando como uma britadeira. Dava para sentir o
cheiro de tabaco e de lcool, doce e pungente. Mas, quando parei o carro, sentou bem
aprumado e disse, com voz rouca:
 Continue dirigindo at o fim do quarteiro.
 Por qu, baba?
 Ande, v.
Mandou que eu estacionasse na extremidade sul da rua. Meteu a mo no bolso
do casaco, tirando de l um chaveiro.
  esse a  disse ele, apontando para o carro que estava bem  nossa frente.
Era um Ford, modelo antigo, grande e largo, de uma cor escura que no pude
distinguir  luz da lua.  Est precisando de pintura, e um dos rapazes l do posto
vai instalar amortecedores novos, mas funciona muito bem.
Peguei as chaves, atnito. Fiquei olhando para o carro e para ele.
 Vai precisar de um carro para ir para a universidade  disse ele.
Segurei a sua mo. Apertei com fora. Os meus olhos estavam cheios de
lgrimas, e achei timo que estivesse escuro e no desse para ver os nossos rostos.
 Obrigado, baba.
Samos do carro e sentamos no Ford. Era um "Grand Torino". Azul-marinho,
segundo meu pai. Dei a volta no quarteiro, testando os freios, o rdio, o pisca-pisca.
Parei no estacionamento do nosso prdio e desliguei o motor.
 Tashakor, baba jan  disse eu.
Queria dizer mais, queria dizer a ele como estava emocionado com aquele seu gesto
to carinhoso; agradecer por tudo o que tinha feito por mim, e tudo o que continuava a
fazer. Mas sabia que ia deix-lo sem jeito. Em vez disso, repeti:

 Tashakor.
Ele sorriu e se recostou no banco, com a cabea quase batendo no teto. No
dissemos nada. S ficamos ali sentados, no escuro, ouvindo o barulhinho do motor
esfriando, o rudo de uma sirene ao longe. Ento, ele se virou para mim e disse:
 Gostaria que Hassan estivesse aqui conosco hoje.
Punhos de ao se fecharam apertando a minha garganta ao simples som do nome
de Hassan. Baixei o vidro da janela. Fiquei esperando que aquelas mos de ao
afrouxassem a presso que faziam.
IA ME MATRICULAR NO CURSO BSICO no prximo outono. Disse isso a baba no dia
seguinte  festa de formatura. Ele estava tomando ch preto gelado e mastigando
sementes de cardamomo, seu antdoto mais garantido contra a dor de cabea da
ressaca.
 Acho que vou fazer ingls  acrescentei. Estava tremendo por dentro,
esperando a resposta dele.
 Ingls?
 Redao literria.
Ele pareceu refletir. Tomou um gole de ch.
 Quer dizer histrias. Voc vai criar histrias...
Fiquei de olhos baixos, fitando os meus ps.
 Isso d dinheiro, inventar histrias?
 Se voc for bom  disse eu,  E se algum o descobrir.
 E isso acontece mesmo, de algum ser descoberto?
 Acontece.
Ele assentiu com um gesto.
 E o que vai fazer enquanto espera at ser bom e ser descoberto? Como vai
ganhar dinheiro? Se voc se casar, como vai sustentar a sua khanum?
No conseguia erguer os olhos para fit-lo.
 Vou... arranjar um emprego  balbuciei.
 Ah!  disse ele.  Wah wah! Ento, se entendi bem, voc vai estudar
vrios anos para ter um diploma e, depois, vai arranjar um emprego chatti, como o
meu, o tipo de emprego que poderia perfeitamente arranjar hoje mesmo. E tudo isso
apostando na chance remota de que o seu diploma possa um dia ajud-lo a ser...
descoberto.  Respirou fundo e tomou um gole do seu ch. Resmungou alguma
coisa sobre faculdade de medicina, de direito, e "trabalho de verdade".
O meu rosto estava pegando fogo e me sentia imensamente culpado, culpado por
me permitir fazer o que queria  custa da sua lcera, das suas unhas pretas e dos seus
pulsos doloridos. Mas ficaria firme, decidi. No queria mais me sacrificar por baba. A
ltima vez que fiz isso tinha sido a minha desgraa.
Ele suspirou e, desta vez, enfiou na boca um punhado de sementes de cardamomo.
S VEZES, SENTO AO VOLANTE DO MEU FORD, baixo os vidros das janelas e fico horas
dirigindo; vou para um dos lados da baa, e, depois, para o outro; vou at a pennsula,
e volto. Dirijo pelas ruas margeadas de choupos do nosso bairro, em Fremont, onde
pessoas que jamais tinham apertado mos de reis moravam em mseras casas trreas
com grades nas janelas; onde carros to velhos quanto o meu vazavam leo pelas ruas
asfaltadas; onde brinquedos, pneus carecas e garrafas de cerveja sem rtulos se
amontoavam nos gramados mal cuidados. Passo pelos parques arborizados que tm
cheiro de cortia; passo por centros comerciais que so grandes o bastante para
comportar cinco torneios de buzkashi ao mesmo tempo. Vou dirigindo o meu Torino
pelas colinas de Los Altos, passando bem devagar diante de manses com grandes
janelas panormicas e lees prateados guardando os portes de ferro, chafarizes com
figuras de querubins nas bordas das alamedas impecveis, e onde no se vem Fords
Torino pelas ruas. Manses que fariam a casa de meu pai, em Wazir Akbar Khan,
parecer uma cabana de criados.
Alguns sbados de manh, acordava cedo, pegava a auto-estrada 17, em direo
ao sul, e embicava o meu Ford pela estrada sinuosa das montanhas rumo a Santa Cruz.
Parava perto do velho farol e ficava esperando o nascer do sol, sentado no carro e
olhando a neblina que vinha subindo do mar. Enquanto vivia no Afeganisto, s tinha
visto o oceano no cinema. Sentado, no escuro, ao lado de Hassan, sempre fiquei
intrigado me perguntando se seria verdade o que tinha lido: que o ar do mar tinha
cheiro de sal. Dizia para Hassan que algum dia amos passear por uma praia cheia de
algas marinhas; enfiaramos os ps na areia e ficaramos olhando a gua ir se afastando
dos nossos dedos. A primeira vez que vi o Pacfico, quase gritei. Ele era to imenso e
to azul quanto os oceanos das telas do cinema da minha infncia.
s vezes, ao anoitecer, parava o carro e subia em um viaduto de uma via
expressa. Com o rosto colado na cerca, tentava contar as luzinhas vermelhas das
lanternas traseiras que iam se afastando, se estendendo at onde a minha vista
alcanava. Eram BMWs. Saabs. Porsches. Carros que jamais tinha visto em Cabul,
onde a maioria das pessoas dirigia Volgas russos, velhos Opels ou Paikans iranianos.
J tinham se passado quase dois anos desde que chegamos aos Estados Unidos e
eu ainda ficava deslumbrado com o tamanho desse pas, com a sua imensido. Alm
de cada via expressa, tinha outra via expressa; alm de cada cidade, outra cidade;
colinas alm das montanhas e montanhas alm das colinas, e, depois delas, mais
cidades e mais gente.
Muito antes de o exrcito roussi invadir o Afeganisto; muito antes de suas
aldeias serem queimadas e suas escolas destrudas; muito antes de se plantarem minas
terrestres como sementes da morte e se enterrarem crianas debaixo de pilhas de pedras,
Cabul j tinha se tornado uma cidade de fantasmas para mim. Uma cidade de fantasmas
de lbio leporino.
Nos Estados Unidos era diferente. Aqui era como um rio, correndo, sem pensar
no passado. Eu podia entrar nesse rio, deixar os meus pecados mergulhados l no
fundo, permitir que a gua me levasse para algum lugar ao longe. Algum lugar onde
no houvesse fantasmas, nem recordaes, nem pecados.
E se no houvesse mais nenhuma outra razo, s essa j bastaria para eu adotar
esse pas.
NO VERO SEGUINTE, o VERO DE 1984, quando fiz vinte e um anos, meu pai vendeu o
seu velho Buick. Por quinhentos e cinqenta dlares, comprou, de um velho afego
conhecido seu  que tinha sido professor de cincias em Cabul , uma Kombi 1971
caindo aos pedaos.  tarde, todos os vizinhos se viraram para ver aquela velharia
barulhenta passando pela rua e entrando no estacionamento do nosso prdio. Baba
desligou o motor e deixou a Kombi ir deslizando silenciosamente at a nossa vaga.
Afundamos nos bancos, rimos tanto que chegamos a chorar, e, o que era ainda mais
importante, ficamos ali at termos a certeza de que os vizinhos no estavam mais
olhando. Aquela Kombi era uma msera carcaa de metal enferrujado, com janelas
quebradas recobertas por sacos de lixo pretos, pneus carecas e o estofamento to
rasgado que dava para ver as molas. Mas o velho professor garantiu a meu pai que o
motor e a transmisso estavam em timo estado e, quanto a isso, no tinha mentido.
Aos sbados, baba me acordava de madrugada. Enquanto ele estava se
arrumando, eu passava os olhos nos classificados dos jornais locais e ia assinalando
todos os anncios das clebres "vendas de garagem". Travamos o nosso itinerrio 
primeiro, Fremont, Union City, Newark e Hayward; depois, San Jos, Milpitas,
Sunnyvale e Campbell se desse tempo. Ele dirigia, tomando ch da garrafa trmica, e eu
era o co-piloto. Parvamos naquelas garagens e comprvamos as quinquilharias que
as pessoas no queriam mais. Pechinchvamos no preo de velhas mquinas de
costura, Barbies com um olho s, raquetes de tnis de madeira, violes faltando cordas
e velhos aspiradores Electrolux. L pelo meio da tarde, a traseira da Kombi estava
repleta de objetos usados. No domingo de manh, bem cedo, amos ento para San
Jose, para a feirinha de antiguidades de Berryessa. Alugvamos uma barraca e
vendamos aquela tralha com uma pequena margem de lucro: um disco do Chicago,
comprado na vspera por vinte e cinco centavos, podia ser vendido por um dlar, ou
por quatro dlares, em um lote de cinco discos; uma mquina de costura Singer, bem
danificada, comprada por dez dlares, podia, depois de alguma negociao, chegar a
render vinte e cinco dlares.
Naquele vero, havia toda uma parte da feirinha que era ocupada por famlias do
Afeganisto. Pelas alamedas do setor de objetos usados, o que se ouvia era msica
afeg. Havia um cdigo tcito de conduta entre os afegos da feira de antiguidades:
voc cumprimentava o sujeito da barraca em frente  sua, convidava-o para comer
bolani de batata ou um pouco de qabuli, e ficava batendo papo. Dava tassali, psames
pela morte de um parente, parabns pelo nascimento de uma criana, e meneava a
cabea com ar consternado quando o assunto passava a ser o Afeganisto e os roussi
 o que acabava inevitavelmente acontecendo. Todos, porm, evitavam falar do
sbado. Pois o sujeito da barraca em frente podia ser aquele que voc quase atropelou na
vspera, na sada de uma via expressa, tudo porque queria chegar antes dele a uma
"venda de garagem" bem promissora.
A nica coisa que circulava mais que o ch por aquele setor da feirinha era o
disse-me-disse afego. Aquilo ali era o lugar onde as pessoas tomavam ch verde com
kolchas de amndoas e ficavam sabendo que a filha de fulano tinha terminado o
noivado para fugir com um namorado americano; quem era parchami  comunista 
l em Cabul e quem tinha comprado uma casa com dinheiro recebido por debaixo do
pano, embora continuasse inscrito na seguridade social. Ch, poltica e escndalos,
estes eram os ingredientes de um domingo afego na feirinha de antiguidades.
s vezes, era eu que ficava na barraca, enquanto meu pai saa perambulando por
ali, com as mos respeitosamente junto ao peito, cumprimentando gente que conhecia
de Cabul: mecnicos e alfaiates, que vendiam casacos de l de segunda mo ou
capacetes de bicicleta arranhados, lado a lado com ex-embaixadores, cirurgies
desempregados e professores universitrios.
Em um domingo de julho de 1984, bem cedo pela manh, enquanto meu pai ficou
arrumando as coisas, fui comprar duas xcaras de caf no estande da administrao e,
quando voltei, vi que ele estava conversando com um homem mais velho, de
aparncia bem distinta. Pus o caf no pra-choque traseiro da Kombi, perto do
adesivo "Reagan/Bush 84".
 Amir  disse baba, fazendo um gesto para que eu me aproximasse , este  o
general sahib Iqbal Taheri. Era um oficial condecorado l em Cabul. Trabalhou no
Ministrio da Defesa.
Taheri... Por que ser que aquele nome me parecia familiar?
O general riu como algum habituado a freqentar recepes formais, onde
precisava rir na hora certa ouvindo piadas sem graa contadas por personagens
importantes. Tinha o cabelo grisalho cortado bem curto e penteado para trs, mostrando
a testa lisa e morena, e tufos brancos nas sobrancelhas cerradas. Cheirava a gua-decolnia
e usava um terno cinza-chumbo j lustroso das tantas vezes que foi passado a
ferro, e, em seu palet, pendia a corrente de ouro de um relgio de bolso.
 Que apresentao mais pomposa  disse ele, com uma voz grave e
refinada.  Salaam, bachem. Ol, meu menino.
 Salaam, general sahib  disse eu estendendo-lhe a mo. Aquelas mos
esguias no combinavam absolutamente com a fora de seu aperto, como se
houvesse ao escondido por baixo daquela pele umedecida.
 Amir vai ser um grande escritor  disse baba. E custei a acreditar que
tivesse ouvido aquilo.  Acabou o primeiro ano da faculdade e tirou "A" em todas
as matrias.
 Do curso bsico  emendei.
 Mashallah  disse o general Taheri.  Vai escrever sobre a nossa terra?
Histria, talvez? Economia?
 Escrevo fico  respondi, pensando nos dez ou doze contos escritos naquele
caderno de capa de couro que Rahim Khan tinha me dado, e perguntando a mim mesmo
por que, de repente, estava me sentindo to sem jeito por causa deles na presena
daquele homem.
 Ah, um contador de histrias  disse o general.  Bem, as pessoas
precisam de histrias para se divertir em tempos to difceis como esses.  Ps a mo
no ombro de baba, e voltou-se para mim.  Por falar em histrias, seu pai e eu fomos
caar faises em um dia de vero em Jalalabad  disse ele.  Bons tempos, aqueles!
Se no me falha a memria, seu pai mostrou ter olhos to argutos para as
caadas quanto para os negcios.
Com a ponta da bota, baba chutou uma raquete de tnis que estava em cima da
nossa lona.
 Alguns negcios...
O general Taheri caprichou em um sorriso simultaneamente tristonho e educado,
soltou um suspiro e deu um tapinha afetuoso no ombro de meu pai.
 Zendagi migzara  disse ele. A vida continua. E acrescentou, olhando para
mim:  Ns, afegos, temos tendncia a levar tudo a um certo grau de exagero,
bachem, e j vi muitos homens serem tolamente taxados de grandes. Mas com seu pai 
diferente, ele pertence quela minoria que realmente merece esse rtulo.
Esse breve discurso me soou exatamente como o seu terno: usado com muita
freqncia e lustroso de uma forma nada natural.
 Voc est me adulando  retrucou baba.
 No estou, no  disse o general inclinando a cabea para o lado e levando
a mo ao peito em sinal de humildade.  Os rapazes e as moas precisam conhecer o
legado de seus pais.  E, voltando-se para mim:  Voc aprecia seu pai, bachem?
Realmente o aprecia?
 Balay, general sahib, claro que sim  disse eu, desejando que ele parasse de
me chamar de "meu menino".
 Ento, meus parabns, porque isso  efetivamente meio caminho andado para
voc se tornar um homem  disse ele sem nenhum vestgio de humor, ou de ironia, o
cumprimento displicente dos arrogantes.
 Voc esqueceu o seu ch, padar jan  disse uma voz feminina. Ela estava
parada atrs de ns. Era uma linda jovem, esbelta, com cabelos negros aveludados,
uma garrafa trmica aberta e um copinho de isopor nas mos. Pisquei os olhos, com o
corao aos pulos. Ela tinha sobrancelhas negras bem espessas, que chegavam a se unir
acima do nariz, como as asas arqueadas de um pssaro em pleno vo, e um gracioso
nariz adunco como uma princesa da antiga Prsia, talvez como o de Tahmineh, do
Shahnamah, a esposa de Rostam e me de Sohrab. Os seus olhos, de um castanho
bem escuro, e protegidos por longos clios recurvados, encontraram os meus.
Detiveram-se ali por um momento. Tomaram outra direo.
 Quanta gentileza sua, minha querida  disse o general Taheri. Pegou o
copinho das suas mos. Antes que ela se virasse para ir embora, vi que tinha um
sinal de nascena marrom, em forma de foice, na pele suave do rosto, bem acima
do maxilar esquerdo. Foi andando para uma caminhonete de um cinza fosco,
estacionada duas alamedas mais adiante, e ps a garrafa trmica dentro do carro. O
seu cabelo caiu todo para um lado quando ela se ajoelhou entre as caixas contendo
velhos discos e livros.
 Minha filha, Soraya jan  disse o general Taheri. Respirou fundo, como quem
est querendo mudar de assunto e consultou o relgio de ouro.  Bem, j  hora de ir e
comear a arrumar as coisas.
Meu pai e o general se beijaram de ambos os lados do rosto e ele apertou a
minha mo entre as suas.
 Desejo-lhe toda a sorte do mundo com as suas histrias  disse ele olhando
bem nos meus olhos. E aquele olhar de um azul plido no revelava nada dos
pensamentos que poderiam estar por detrs dele.
Passei o resto do dia lutando comigo mesmo, tentando no ficar olhando o
tempo todo para a tal caminhonete cinzenta.
FOI S NO CAMINHO DE VOLTA PARA CASA que a idia me ocorreu. Taheri. Sabia que j
tinha ouvido aquele nome antes.
 No tinha uma histria qualquer sobre a filha de Taheri?  perguntei,
tentando no demonstrar nenhum interesse especial.
 Voc me conhece  disse baba avanando bem devagar naquela fila de carros
que saam da feirinha de antiguidades.  Conversas viram boatos e por a vai...
 Mas tinha alguma coisa, no tinha?  insisti.
 Por que est perguntando isso?  indagou ele, me olhando de um jeito meio
sonso.
Dei de ombros e me defendi com um sorriso.
 S por curiosidade, baba.
 Tem certeza?  s isso mesmo?  perguntou ele, olhando bem nos meus
olhos com um ar brincalho.  Ou ser que voc ficou interessado nela?

No consegui encar-lo.
 Ah, por favor, baba.
Ele sorriu. Passou com a Kombi pela sada da feira e foi se dirigindo para a autoestrada
680. Por algum tempo, ficamos em silncio.
 Tudo o que sei  que houve um homem e as coisas... no deram l muito certo.
Disse isso em um tom srio, como se tivesse me revelado que ela tinha um cncer
de mama.
 Ah...!
 Pelo que ouvi dizer,  uma moa decente, trabalhadora e muito gentil. S que
nenhum khastegar, nenhum pretendente veio bater  porta do general desde ento 
disse baba com um suspiro.  Pode ser injusto, mas o que acontece em poucos dias, s
vezes at uma nica vez, pode alterar o rumo da vida inteira, Amir  acrescentou ele.
DEITADO NA CAMA, NAQUELA NOITE, fiquei pensando na marca de nascena em forma de
foice no rosto de Soraya Taheri; no seu nariz levemente adunco e no jeito como os
seus olhos brilhantes tinham fitado os meus por uns breves instantes. O meu corao
parecia que ia parar s de pensar nela. Soraya Taheri. Minha princesa da feirinha de
antiguidades.

DOZE
NO AFEGANISTO, A YELDA  A PRIMEIRA NOITE do ms de jadi, a primeira noite do inverno, e
a mais longa do ano. Como mandava a tradio, Hassan e eu ficvamos acordados at
mais tarde, com os ps enfiados debaixo do kursi, enquanto Ali atirava cascas de ma
no fogareiro e nos contava velhas histrias de sultes e de ladres para passar o tempo
dessa noite que era a mais comprida de todas. Foi por meio de Ali que fiquei
conhecendo a tradio da yelda, daqueles meses enfeitiados, que se precipitam para as
chamas das velas, e dos lobos que sobem ao alto das montanhas em busca do sol. Ali
jurava que quem comesse melancia na noite da yelda no sentiria sede durante o vero
seguinte.
Quando fiquei mais velho, li nos meus livros de poesias que a yelda era a noite
sem estrelas em que aqueles que sofrem por amor permanecem acordados, suportando
a escurido interminvel e esperando que o nascer do sol traga consigo a pessoa
amada. Depois que conheci Soraya Taheri, todas as noites da semana passaram a ser
yelda para mim. E, quando chegavam as manhs de domingo, pulava da cama j
pensando no rosto de Soraya Taheri e naqueles seus olhos castanhos. Na Kombi de
baba, ia contando os quilmetros que faltavam para v-la sentada, descala, arrumando
as caixas de papelo cheias de enciclopdias amareladas, com os calcanhares brancos
contrastando com o asfalto e as pulseiras de prata tilintando nos seus pulsos finos.
Lembrava da sombra que seus cabelos projetavam no cho quando escorregavam por
suas costas e pendiam como uma cortina de veludo. Soraya. A princesa da feirinha de
antiguidades. O sol da manh depois da minha yelda.
Inventava desculpas para ficar perambulando pelas alias  coisa que meu pai
aceitava com um risinho brincalho  e poder passar diante da barraca dos Taheri.
Acenava cumprimentando o general, eternamente vestido com aquele terno cinza
lustroso de tanto ser passado a ferro, e ele respondia ao meu aceno. s vezes se
levantava da cadeira de diretor e conversvamos um pouco sobre os meus escritos, a
guerra, as vendas do dia. Eu tinha de me controlar para no deixar que os meus olhos
escapulissem e fossem vagar por perto de Soraya, que ficava sentada lendo um livro.
Depois, ns nos despedamos e eu me esforava para no demonstrar que ficava
chateado quando tinha de ir embora.
s vezes ela estava l sentada, sozinha, pois o general tinha ido para alguma
outra fileira de barracas encontrar os conhecidos, e eu passava ao seu lado, fingindo
no conhec-la, mas morrendo de vontade de me aproximar. Outras vezes estava com
uma senhora corpulenta, de pele muito plida e cabelo pintado de ruivo. Prometi a
mim mesmo que falaria com ela antes do fim do vero, mas as aulas recomearam, as
folhas foram ficando vermelhas, amarelas, e, depois, caram; vieram as chuvas do
inverno, atormentando as articulaes de baba; depois, novas folhas comearam a
brotar e eu ainda no tinha tido coragem, de, nem mesmo para olh-la nos olhos.
O trimestre letivo de primavera terminou em fins de maio de 1985. Tive conceito
"A" em todas as matrias, o que foi uma espcie de milagre, considerando-se que
passava as aulas inteiras pensando no nariz levemente adunco de Soraya.
Em um domingo escaldante do vero, baba e eu estvamos na feirinha de
antiguidades, sentados na nossa barraca, abanando o rosto com jornal. Embora nesse dia
o sol estivesse ardente como ferro em brasa, a feira estava lotada e os negcios foram
timos  era apenas meio-dia e meia e j tnhamos vendido cento e sessenta dlares.
Fiquei de p, estirei o corpo e perguntei se ele queria uma Coca-Cola. Baba respondeu
que adoraria.
 Tome cuidado, Amir  acrescentou ele quando eu j estava me afastando.
 Cuidado com o qu, baba?
 No sou nenhum ahmaq, portanto no venha bancar o idiota comigo!
 No sei do que voc est falando.
 Lembre-se disso  disse ele, com o dedo apontado para mim.  Um
homem  pashtun at a raiz dos cabelos. Tem nang e namoos.
Nang. Namoos. Honra e orgulho. Os princpios do pashtun. Especialmente
quando se tratava da castidade de uma esposa. Ou de uma filha.
 Vou apenas pegar umas bebidas para ns  insisti.
 S no crie embaraos para mim.  tudo o que lhe peo.
 Pode deixar, baba. Pelo amor de Deus!
Ele acendeu um cigarro e recomeou a se abanar.
Passei primeiro na barraca da administrao. Depois, virei  esquerda e fui para
o estande das camisetas onde, por cinco dlares, se pode mandar imprimir o rosto de
Jesus, de Elvis, de Jim Morrison, ou dos trs juntos, em uma camiseta de malha
branca. Ouvi msica de mariachi tocando e pude sentir o cheiro de picles e de carne
na churrasqueira.
Avistei a caminhonete cinza dos Taheri a duas alias da nossa, perto de um
quiosque que vendia mangas no palito. Ela estava sozinha, lendo. Usava um vestido
branco de vero que lhe batia nos tornozelos. E sandlias abertas. Tinha o cabelo
puxado para trs, preso em um coque banana. Tudo o que pretendia era passar
novamente por ali e achei que estivesse fazendo apenas isso. S que, de repente, me vi
parado junto da borda da toalha de mesa branca dos Taheri, olhando para Soraya
sentada ali, em meio a ferros de frisar cabelo e gravatas usadas. Ela ergueu os olhos.
 Salaam  disse eu.  Desculpe se estou sendo mozahem. No tinha a inteno
de incomod-la.
 Salaam.
 O general sahib veio hoje?  perguntei. Minhas orelhas estavam ardendo.
No conseguia olh-la nos olhos.
 Ele foi por ali  disse ela, apontando para a direita. A pulseira escorregou at
o seu cotovelo, prata sobre azeitona.
 Diga-lhe, por favor, que passei aqui para cumpriment-lo.

 Digo, sim  respondeu ela.
 Muito obrigado  disse eu.  Ah, e meu nome  Amir. Talvez precise saber.
Assim, pode dizer a ele. Que passei por aqui. Para... cumpriment-lo.
 Claro.
Fiquei parado ali, meio inquieto. Pigarreei.
 J vou indo. Desculpe ter incomodado.
 No incomodou, no  disse ela.
 Que timo!  Levei a mo  cabea, em um aceno, e sorri ligeiramente.
 Ento, vou indo.  J no tinha dito isso antes?  Khoda hafez.
 Khoda hafez.
Sa andando, mas parei e me virei. Antes que acabasse perdendo a coragem,
disse:
 Posso perguntar o que est lendo?
Ela pareceu espantada.
Prendi a respirao. De repente, senti os olhares de todos os afegos da feirinha
de antiguidades se voltarem para ns. Imaginei o silncio se instalando no ar. Lbios
parando no meio de uma frase. Cabeas se virando. Olhos se apertando no maior
interesse.
O que era isso?
At aquele instante, o nosso encontro poderia ser interpretado como uma
indagao respeitosa, a mesma coisa que um homem pedindo a outro informaes
sobre algum lugar. Mas, agora, acabava de lhe fazer uma pergunta e, se ela
respondesse, estaramos... bem, estaramos conversando. Eu, um mojarad, um rapaz
solteiro, e ela, uma jovem tambm solteira. E, ainda por cima, algum que tinha uma
histria. Era algo que beirava perigosamente a condio de assunto para fofocas, e da
melhor qualidade. Lnguas venenosas iam comear a se agitar. E ela  que ia ter de
agentar o impacto desse veneno, no eu  conhecia muito bem o sistema afego de
dois pesos e duas medidas que favorecia o meu sexo. Ningum diria "Viu que ele estava
conversando com ela?", mas sim "Xiii! Viu como ela no o largava? Mas que lochak!".
Pelos padres afegos, minha pergunta tinha sido audaciosa. Com isso, tinha
me trado, no deixando a menor dvida quanto ao interesse que sentia por ela. Mas
eu era homem e o nico risco que corria era o orgulho ferido. E feridas como essas
tm cura. J as reputaes, no. Ser que ela ia aceitar o meu desafio?
Soraya virou o livro deixando a capa de frente para mim. Era O morro dos
ventos uivantes.
 J leu?  perguntou ela.
Fiz que sim com a cabea. Podia sentir o meu corao pulsando acelerado por
detrs dos meus olhos.
  uma histria triste  comentei.
 Histrias tristes do bons livros  disse ela.
  verdade.
 Ouvi dizer que voc escreve.
Como podia saber? Ser que o pai tinha lhe contado? Talvez ela tenha
perguntado alguma coisa. Descartei imediatamente ambas as possibilidades por serem
absurdas. Pais e filhos podem falar abertamente sobre mulheres. Mas nenhuma garota
afeg  pelo menos nenhuma garota afeg decente e mohtaram  perguntaria algo a
seu pai sobre um rapaz. E nenhum pai, principalmente um pashtun, com nang e
namoos, conversaria com a filha sobre um mojarad, pelo menos no at que o indivduo
em questo se tornasse um khastegar, um pretendente; que tivesse feito tudo como
manda o figurino, pedindo ao prprio pai que fosse bater  porta daquela casa.
Por incrvel que parea, me ouvi perguntando:
 Gostaria de ler uma das minhas histrias?
 Gostaria  respondeu ela.
Agora, podia notar que ela estava meio constrangida. Dava para ver isso pelo
jeito com que seus olhos comearam a ir de um lado a outro, talvez procurando o
general. E me perguntei o que ele diria se me visse ali, conversando com a sua filha
por um tempo bastante inconveniente.
Vou ver se trago uma para voc um dia desses  disse eu. Estava prestes a
acrescentar mais alguma coisa quando avistei, caminhando pela alia, aquela mulher
que j tinha visto uma vez com Soraya. Ela vinha trazendo um saco plstico cheio de
frutas. Quando nos viu, os seus olhos saltaram de Soraya para mim e novamente para
Soraya. E ela sorriu.
 Amir jan, que bom v-lo por aqui!  exclamou, depositando a sacola sobre a
toalha. As suas sobrancelhas brilhavam por causa do suor. O cabelo ruivo, penteado
como um capacete, reluzia ao sol, e dava para ver o seu couro cabeludo em certos
pontos onde o cabelo tinha rareado. Ela tinha olhos verdes e midos, que
desapareciam no rosto redondo como um repolho, jaquetas nos dentes e os dedos
rolios feito salsichas. Um "Allah" de ouro repousava em seu colo, mas o cordo se
perdia nas rugas e pregas do pescoo.
 Sou Jamila, a me de Soraya jan.
 Salaam, khala jan  disse eu todo sem jeito, como acontecia tantas vezes em
rodas de afegos, porque ela me conhecia e eu no tinha a menor idia de quem ela
era.
 Como vai seu pai?  indagou.
 Bem, obrigado.
 Sabe, seu av, o juiz Ghazi sahib? O tio dele e o meu av eram primos 
disse ela.  Como pode ver, somos parentes.  Sorriu, com aquele sorriso cheio de
jaquetas, e pude perceber que o canto direito da sua boca ficava um tanto descado. Os
seus olhos voltaram a se mover para Soraya e, depois, para mim.
Certa vez, perguntei a baba por que a filha do general Taheri ainda no tinha
se casado.
 Falta de pretendentes  disse ele. E logo corrigiu.  Falta de pretendentes
aceitveis.  E no disse mais nada, pois sabia muito bem como uma simples
conversa podia ser fatal para as perspectivas de uma moa conseguir fazer um bom
casamento. Os homens afegos, principalmente os de famlias respeitveis, eram
criaturas inconstantes. Um sussurro aqui, uma insinuao ali, e eles batiam asas como
pssaros assustados. Assim, casamento vai, casamento vem, e ningum cantou
"Ahesta boro" para Soraya, ningum pintou as palmas das suas mos com hena,
ningum segurou o Coro acima da sua cabea, e foi o general Taheri que danou com
ela em todos os casamentos a que compareceram.
Agora, essa mulher, essa me estava ali, com uma ansiedade de dar pena, um
sorriso meio torto e uma esperana mal disfarada nos olhos. Fiquei um pouco
constrangido com a posio de poder que me cabia simplesmente porque ganhei na
loteria gentica que determinou o meu sexo.
Nunca seria capaz de ler as idias escondidas por trs dos olhos do general, mas
sabia muito bem o que se passava na cabea da mulher dele: se porventura tivesse que
enfrentar um adversrio nessa histria, qualquer que fosse ela, esse adversrio no seria
a me de Soraya.
 Sente-se, Amir jan  disse ela.  Soraya, pegue uma cadeira para ele,
bachem. E lave um desses pssegos. Esto frescos e bem doces.
 No, obrigado  retruquei.  Preciso ir andando. Meu pai est esperando
por mim.
 Ah!  exclamou khanum Taheri, nitidamente impressionada por ver que eu
tinha escolhido a atitude mais educada e recusado a sua proposta.  Ento, tome.
Ao menos leve isso  acrescentou ela enfiando um punhado de kiwis e alguns
pssegos em um saco de papel, e insistindo para que eu os aceitasse.  Cumprimente
seu pai por mim. E volte para nos ver.
 Volto, sim. Obrigado, khala jan  disse eu. Com o rabo do olho, vi que
Soraya estava olhando para o outro lado.
 PENSEI QUE VOC TIVESSE IDO APANHAR umas Cocas  disse baba, pegando o saco
de pssegos de minha mo. Ficou me olhando de um jeito simultaneamente srio e
brincalho. J estava tratando de inventar alguma desculpa quando ele mordeu um
pssego e fez um gesto com a mo,  Deixe para l, Amir. S no esquea do que eu
lhe disse.
ESSA NOITE, DEITADO NA CAMA, fiquei pensando nos raios de sol danando nos olhos de
Soraya e nas suaves depresses que havia sobre as suas clavculas. Reproduzi
mentalmente a nossa conversa milhares de vezes. Ela tinha dito "Ouvi dizer que voc
escreve" ou "Ouvi dizer que voc  escritor"? Como teria sido? Empurrei as cobertas e
fiquei olhando para o teto, desanimado diante da perspectiva de seis interminveis
noites de yelda at poder v-la de novo.
CONTINUEI FAZENDO A MESMA COISA por algumas semanas. Esperava que o general sasse
para dar uma volta e, ento, passava diante da barraca dos Taheri. Se khanum Taheri
estivesse l me oferecia um ch com kolcha e ficvamos conversando sobre a Cabul
dos velhos tempos, as pessoas que conhecamos, a sua artrite. Com toda certeza, ela
tinha notado que a minha chegada sempre coincidia com as ausncias do seu marido,
mas nunca demonstrou nada.
 Ah, por pouco voc pegava seu kaka aqui  dizia.
Na verdade, gostava quando khanum Taheri estava l, e no s por causa do seu
jeito acolhedor; Soraya ficava mais relaxada, mais falante se a me estivesse por perto.
Como se a presena dela legitimasse o que quer que estivesse acontecendo entre ns 
embora,  claro, no tanto quanto se fosse o general. Mas ter khanum Taheri como
chaperon fazia com que os nossos encontros fossem, se no  prova de fofocas, ao
menos no to dignos delas, embora o fato de ela ficar meio que me bajulando
deixasse Soraya visivelmente constrangida.

Um dia, Soraya e eu estvamos sozinhos em sua barraca, conversando. Ela estava
me falando da faculdade, de como estava estudando para as matrias do curso bsico do
Ohlone College, em Fremont.
 O que voc pretende fazer?  perguntei.
 Quero ser professora  respondeu ela.
 Verdade? Por qu?
 Sempre quis. Quando morvamos na Virgnia, me diplomei no ESL e, agora,
dou aulas na biblioteca pblica uma noite por semana. Minha me tambm era
professora, dava aulas de farsi e de histria na escola secundria Zarghoona, para
meninas, em Cabul.
Um homem barrigudo com bon de caador ofereceu trs dlares por um par de
castiais de cinco dlares, e Soraya deixou que ele os levasse. Jogou o dinheiro em uma
caixinha de balas que estava a seus ps. Olhou para mim com ar encabulado.
 Queria lhe contar uma histria  disse ela.  Mas estou um pouco sem
graa.
 Conte.
  que  meio bobo.
 Conte, por favor  insisti.
Ela riu.
 Bem, quando estava na terceira srie, em Cabul, meu pai contratou uma
mulher chamada Ziba para trabalhar l em casa. Ela tinha uma irm no Ira, em
Mashad, e, como era analfabeta, me pediu que escrevesse umas cartas para a sua irm
de vez em quando. E, depois que ela respondesse, eu leria as suas cartas para Ziba. Um
dia, perguntei se ela no gostaria de aprender a ler e a escrever. Ela abriu um sorriso
de orelha a orelha, apertando os olhos, e disse que adoraria fazer isso. Ento, depois
que eu terminava o dever de casa, amos sentar  mesa da cozinha e comecei a lhe
ensinar o Alef-beh. Lembro que, s vezes, no meio do dever de casa, olhava para a
cozinha e via Ziba mexer a carne na panela de presso e, depois, sentar e pegar o lpis
para fazer os exerccios que eu tinha passado na noite anterior.
"S sei dizer que, em um ano, Ziba j estava lendo livros infantis. Sentvamos no
quintal e ela lia para mim as histrias de Dara e Sara. Devagar, mas certinho. Passou a
me chamar moalem Soraya, professora Soraya.  Riu novamente.  Sei que parece
bobagem de criana, mas, a primeira vez que Ziba escreveu sozinha uma carta,
descobri que no havia nada que eu quisesse tanto quanto ser professora. Estava muito
orgulhosa dela e sentia que tinha feito algo que realmente valia a pena, entende?"
 Claro  menti. Fiquei pensando em como tinha usado os meus
conhecimentos para ridicularizar Hassan. Como implicava com aquela histria das
palavras que ele no conhecia.
 Meu pai quer que eu v estudar direito; minha me fica sempre insinuando que
eu devia fazer medicina, mas vou ser professora. No  um trabalho muito bem pago
por aqui, mas  o que quero fazer.
 Minha me tambm era professora  disse eu.
 Eu sei  disse ela.  Minha me me contou.
E o seu rosto enrubesceu por ter deixado escapar aquele comentrio, j que, com
isso, ficava claro que as duas falavam de mim quando eu no estava presente. E precisei
fazer um esforo imenso para me impedir de sorrir.
 Trouxe uma coisa para voc.  Tirei o mao de pginas dobradas do bolso
de trs.  Como prometi.  E lhe entreguei um dos meus contos.

 Ah! voc se lembrou  exclamou ela radiante.  Obrigada!
 Mal tive tempo de perceber que ela tinha dito "tu" pela primeira vez, e no
"shoma", o tratamento formal que usava normalmente, porque, de repente, o seu
sorriso se extinguiu. A cor lhe fugiu do rosto e notei que os seus olhos estavam
fitando um ponto qualquer s minhas costas. Virei a cabea. E me vi cara a cara com
o general Taheri.
 Amir jan. Nosso aspirante a contador de histrias. Que prazer  disse ele
com um breve sorriso.
 Salaam, general sahib  respondi eu, sentindo a boca seca.
Passou por mim, indo direto para a barraca.
 Que lindo dia, no ?  observou, com o polegar enfiado no bolso do palet
e a outra mo estendida para Soraya, que lhe entregou as folhas de papel.  Dizem
que vai chover essa semana. Difcil de acreditar, no ?  acrescentou, jogando as
pginas dobradas na lata de lixo. Voltou-se para mim e ps a mo em meu ombro
com brandura. Samos andando juntos.
 Sabe, bachem  prosseguiu o general , aprendi a gostar de voc.  um rapaz
decente, acredito realmente que seja, mas...  suspirou e fez um gesto com a mo 
mesmo os rapazes decentes precisam que a gente lhes refresque a memria. Portanto, 
meu dever lembrar que, aqui nessa feira, voc est entre seus iguais.  Parou. Seus
olhos inexpressivos penetraram pelos meus.  Veja bem, aqui todo mundo  contador
de histrias.  Sorriu revelando dentes absolutamente regulares.  Transmita os meus
respeitos a seu pai, Amir jan.
Deixou cair a mo. Sorriu novamente.
 O QUE FOI?  INDAGOU BABA. Estava recebendo o dinheiro de uma senhora idosa que
acabava de comprar um cavalinho de balano.
 No foi nada  respondi. E sentei em um velho aparelho de TV. Mas acabei
lhe contando.
 Ah, Amir...  disse ele com um suspiro.
Logo descobri, porm, que no poderia passar muito tempo remoendo o que
tinha acontecido.
Porque um pouco mais tarde, nessa mesma semana, meu pai pegou um
resfriado.
TUDO COMEOU COM UMA TOSSE SECA e o nariz escorrendo. Depois, a coriza melhorou, mas
a tosse persistia. Ele tossia, levava o leno  boca e o enfiava de novo no bolso. Fiquei
insistindo para que fosse ver aquilo, mas ele se recusava terminantemente. Baba odiava
mdicos e hospitais. Que eu saiba, a nica vez que procurou um mdico foi quando
pegou malria na ndia.
Ento, duas semanas mais tarde, eu o surpreendi cuspindo catarro sanguinolento
no vaso sanitrio.
 H quanto tempo isso vem acontecendo?  perguntei.
 O que vamos ter para o jantar?  indagou ele  guisa de resposta.
 Vou lev-lo ao mdico.
Embora baba fosse gerente, o dono do posto de gasolina nunca lhe props um
seguro-sade, e ele, em sua inconseqncia, no insistiu. Levei-o, ento, ao hospital do
condado, em San Jose. O mdico plido e de olhos inchados que nos recebeu se
apresentou como residente de segundo ano.
 Ele parece mais jovem que voc e mais doente que eu  resmungou meu pai.
O residente nos mandou ao trreo para fazer um raio-X do trax. Quando a
enfermeira nos trouxe de volta, ele estava preenchendo um formulrio.
 Leve isso ao balco de recepo  disse ele fazendo rabiscos apressados.
 O que  isso?  perguntei.
 Um formulrio de encaminhamento.  Rabisca, rabisca.
 Para qu?
 Setor de pneumologia.
 O que  isso?
Ele me olhou de relance. Ajeitou os culos. Recomeou a rabiscar.
 Ele tem uma mancha no pulmo direito. Quero que examinem para ver o que
.
 Uma mancha?  perguntei, e, de repente, a sala tinha ficado pequena demais.
 Cncer?  indagou baba como quem no quer nada.
  possvel. Seja como for,  suspeito  murmurou o mdico.
 O senhor no pode nos explicar melhor?  indaguei.
 Na verdade, no. Primeiro,  preciso fazer a tomografia computadorizada e,
depois, ir ver o pneumologista.  Estendeu para mim o tal formulrio de
encaminhamento.  Voc disse que seu pai fuma, no ?
 
Ele assentiu com a cabea. Olhou para mim, para baba e para mim de novo.
 Vo lhes telefonar em duas semanas.
Quis lhe perguntar como ele achava que eu poderia conviver com aquela palavra,
"suspeito", por duas semanas inteiras. Como eu poderia comer, trabalhar, estudar?
Como  que ele podia me mandar para casa com aquela palavra?
Mas peguei o formulrio e o entreguei onde ele tinha mandado. Naquela noite,
esperei at meu pai ir dormir e, ento, dobrei um cobertor para usar como tapete de
orao. Inclinando a cabea at o cho, recitei os versculos j meio esquecidos do
Coro  versculos que o mul tinha nos feito decorar l em Cabul , e pedi a
misericrdia de um Deus que nem sabia ao certo se existia. Nesse momento, fiquei com
inveja do mul; com inveja da sua f e da sua certeza.
Duas semanas se passaram e ningum telefonou. E, quando eu liguei para l,
disseram-me que tinham perdido o tal formulrio. Ser que eu tinha mesmo entregado
o papel? Telefonariam, ento, em trs semanas. Fiz o maior escarcu e acabei
conseguindo reduzir os prazos: uma semana para fazer a tomografia e duas para a
consulta com o mdico.
Tudo estava indo bem com o pneumologista, dr. Schneider, at que meu pai lhe
perguntou de onde ele era. Quando ele disse que era da Rssia, baba perdeu as
estribeiras.
 Desculpe-nos, doutor  disse eu, empurrando baba, tentando afast-lo dali. O
dr. Schneider sorriu e recuou, ainda com o estetoscpio na mo.
 Baba, li a biografia do dr. Schneider na sala de espera. Ele nasceu em
Michigan. Michigan! Nos Estados Unidos.  muito mais americano do que voc e eu
jamais seremos...
 No quero saber onde ele nasceu. Ele  roussi!  esbravejou baba fazendo
uma careta como se tivesse dito um palavro.  Os pais dele eram roussi. Os avs eram

roussi. Juro pela memria de sua me que vou lhe quebrar o brao se ele tentar
encostar a mo em mim!
 Os pais do dr. Schneider fugiram dos shorawi. Voc no est entendendo?
Eles eram refugiados!
Mas baba no queria nem saber. s vezes acho que a nica coisa que ele amava
tanto quanto sua falecida esposa era o Afeganisto, seu falecido pas. Quase gritei,
tamanha a frustrao que sentia. Em vez disso, suspirei e voltei ao consultrio do dr.
Schneider.
 Sinto muito, doutor. No vai dar.
O outro pneumologista, dr. Amani, era iraniano e meu pai o aprovou. O dr. Amani,
um homem de fala macia, com um bigode recurvado e uma basta cabeleira grisalha,
disse que tinha examinado a tomografia e que seria preciso fazer um procedimento
chamado broncoscopia, para colher massa pulmonar para um exame patolgico.
Marcou o tal exame para a semana seguinte. Agradeci e ajudei baba a sair do
consultrio pensando que teria de passar uma semana inteira convivendo com essa
palavra nova, "massa", que ainda era mais sinistra do que "suspeito". Adoraria que
Soraya estivesse ali comigo.
Acontece que, como Sat, o cncer tem muitos nomes. O de baba se chamava
"carcinoma aveno-celular". Em estado avanado. Inopervel. Ele pediu ao dr. Amani
que fizesse um prognstico. O mdico mordeu o lbio e usou a palavra "grave".
 Por certo, h a quimioterapia  acrescentou ele.  Mas ser apenas um
paliativo.
 O que significa isso?  perguntou meu pai.
Significa que no vai alterar em nada o desfecho. Vai apenas retard-lo 
respondeu o mdico com um suspiro.
 A est uma resposta franca, dr. Amani. E lhe agradeo por isso  disse
baba.  Mas no quero saber desse tratamento.
O seu rosto tinha o mesmo ar decidido que vi naquele dia em que botou os
tquetes-alimentao em cima da escrivaninha da sra. Dobbins.
 Mas, baba...
 No me conteste na frente dos outros, Amir. No faa isso nunca. Quem
voc pensa que ?
A CHUVA MENCIONADA PELO GENERAL TAHERI, na feirinha de antiguidades, s foi aparecer
algumas semanas mais tarde, mas, quando samos do consultrio do dr. Amani, os
carros que passavam respingavam gua suja nas caladas. Meu pai acendeu um cigarro.
Fumou at chegarmos ao carro e, depois, durante todo o trajeto para casa.
Quando estava enfiando a chave na fechadura da porta do prdio, eu lhe disse:
 Gostaria que voc pensasse na possibilidade da quimioterapia, baba.
Ele ps as chaves no bolso, tirou-me da chuva puxando-me para debaixo do toldo
listrado da portaria. Me apertou contra o peito com a mo que segurava o cigarro.
 Bas!  exclamou. J tomei minha deciso.
 E quanto a mim, baba? O que  que eu vou fazer?  indaguei, com os olhos
cheios de lgrimas.
O seu rosto molhado de chuva mostrou uma expresso de desagrado. Era a
mesma cara que fazia quando, em criana, eu caa, esfolava os joelhos e chorava.

Naquela poca, ficava assim porque eu chorava; agora, ficou assim porque eu estava
chorando.
 Voc est com vinte e dois anos, Amir! J  adulto! Voc...  abriu a
boca, fechou-a, voltou a abri-la, reconsiderou. Sobre as nossas cabeas, a chuva
tamborilava no toldo de lona.  Est querendo saber o que vai acontecer com voc. 
isso que venho tentando lhe ensinar durante todos esses anos: a nunca precisar fazer
essa pergunta.
Abriu a porta. Voltou-se novamente para mim.
 E tem mais uma coisa. Que ningum fique sabendo disso, est me ouvindo?
Ningum. No quero piedade de quem quer que seja.
Dizendo isto, desapareceu no vestbulo mal iluminado. Passou o resto do dia
fumando um cigarro atrs do outro diante da TV. No conseguia saber o que ou quem
ele estava desafiando. A mim? O dr. Amani? Ou quem sabe esse Deus em quem nunca
acreditou?
POR ALGUM TEMPO, NEM O CNCER conseguiu afastar baba da feirinha de antiguidades.
Aos sbados fazamos a nossa peregrinao pelas "vendas de garagem": ele como
motorista; eu como co-piloto. E armvamos a nossa barraca aos domingos. Lmpadas
de lato. Luvas de beisebol. Casacos de esqui com o fecho ecler quebrado. Meu pai
cumprimentava os conhecidos l da nossa terra e discutia com os compradores por
coisa de um ou dois dlares. Como se esses detalhes tivessem alguma importncia.
Como se o dia em que eu ia ficar rfo no estivesse se aproximando mais e mais a
cada vez que desmontvamos a barraca.
s vezes o general Taheri e sua esposa passavam por l. O general, sempre um
diplomata, me saudava com um sorriso e estendia ambas as mos para me
cumprimentar. Mas havia uma nova reserva na atitude de khanum Taheri. Uma
reserva que s era quebrada pelos sorrisos meio tortos e dissimulados, e os olhares
furtivos como que pedindo desculpas que ela me lanava quando o general estava
prestando ateno em outra coisa.
Lembro desse tempo como um perodo de vrias "primeiras vezes". A primeira
vez que ouvi meu pai gemer no banheiro. A primeira vez que vi sangue no seu
travesseiro. Em cerca de trs anos na gerncia do posto de gasolina, ele nunca tinha
ligado avisando que estava doente. Esta foi mais uma das tais primeiras vezes.
Esse ano, na poca da festa de Halloween, baba ia ficando to cansado l pelo
meio das tardes de sbado que permanecia ao volante enquanto eu saa do carro e
regateava para comprar algum traste. Quando o Dia de Ao de Graas estava se
aproximando, ele j estava exausto antes do meio-dia. Quando comearam a aparecer
os trens nos gramados diante das casas e a neve falsa nos pinheiros verdes, baba
passou a ficar em casa e eu saa dirigindo a Kombi para cima e para baixo na
pennsula.
s vezes, na feirinha de domingo, alguns afegos conhecidos nossos comentavam
que ele estava emagrecendo. No incio, essas observaes eram elogiosas. Alguns
chegaram at a lhe perguntar qual o segredo da sua dieta. Mas as perguntas e os
elogios pararam quando a perda de peso no parou. Quando os quilos foram
diminuindo e diminuindo. Quando o seu rosto ficou encovado. As suas tmporas
murcharam. E os seus olhos afundaram nas rbitas.

Ento, em um domingo frio, pouco depois do Ano-Novo, baba estava vendendo
um abajur a um filipino atarracado enquanto eu revirava a Kombi  procura de uma
manta para cobrir as suas pernas.
 Ei, algum! Esse homem est precisando de ajuda!  gritou o filipino
alarmado.
Virei e vi meu pai cado no cho. Os seus braos e as suas pernas se debatiam.
 Komak!  gritei.  Algum me ajude!  E corri at l. Baba estava
espumando e a sua barba j estava encharcada. Os seus olhos estavam revirados,
inteiramente brancos.
Vrias pessoas correram na nossa direo. Ouvi algum dizer a palavra "ataque".
Algum mais gritou: "Chamem uma ambulncia!" Ouvi passos apressados. O cu
escureceu quando uma multido nos cercou.
De repente, aquela espuma foi ficando vermelha. Ele estava mordendo a lngua.
Ajoelhei ao seu lado, segurei os seus braos e disse:
 Estou aqui, baba. Estou aqui. Voc vai ficar bem. Estou aqui do seu lado. 
Como se pudesse livr-lo daquelas convulses. Mandar que elas deixassem o meu baba
em paz. Senti alguma coisa molhada nos meus joelhos. Vi que ele tinha urinado. 
Shhh, baba jan, estou aqui. O seu filho est bem aqui.
O MDICO, UM HOMEM DE BARBA BRANCA e inteiramente careca, me fez sair do quarto.
 Quero examinar as tomografias de seu pai junto com voc  disse ele. Ps
as chapas em um visor que ficava no corredor e, com a borracha da ponta do seu lpis,
foi mostrando as imagens do cncer de baba, como um policial que mostra o retrato
falado do assassino  famlia da vtima. Naquelas imagens, o crebro de meu pai
parecia uma srie de cortes transversais feitos em uma noz enorme crivada de umas
coisas cinzentas que mais pareciam bolas de tnis.
 Como pode ver, j houve metstase  disse o doutor.  Ele ter de tomar
esterides para reduzir a dilatao do crebro e medicamentos anticonvulsivos.
Particularmente, recomendo radiao paliativa. Sabe o que significa?
Respondi que sim. Estava ficando entendido em assuntos relativos ao cncer.
 Ento, est tudo certo  disse ele. Checou o bipe.  Agora, preciso ir, mas,
se tiver qualquer dvida,  s bipar para entrar em contato comigo.
 Obrigado.
Passei a noite toda sentado em uma cadeira junto da cama de baba.
NA MANH SEGUINTE, A SALA DE ESPERA perto do saguo de entrada estava repleta de
afegos. O aougueiro de Newark. Um engenheiro que tinha trabalhado com meu pai
na construo do orfanato. Um a um, foram entrando no quarto e cumprimentando
baba, todos falando bem baixinho. Desejavam que se recuperasse logo. Nesse
momento, ele estava acordado. Meio grogue e exausto, mas acordado.
Um pouco mais tarde, na mesma manh, chegaram o general Taheri e sua
esposa. Soraya vinha logo atrs. Nossos olhos se encontraram e se desviaram ao
mesmo tempo.
 Como est, meu amigo?  disse o general Taheri segurando a mo de meu
pai.
Baba fez um gesto indicando o soro que pendia do seu brao. Esboou um
ligeiro sorriso. O general lhe sorriu tambm.

 No deviam ter se incomodado. Todos vocs  disse ele com voz rouca.
 No  incmodo nenhum  retrucou khanum Taheri.
 No  mesmo. O mais importante agora  saber se esto precisando de algo
 disse o general.  De nada mesmo? Podem me pedir o que for necessrio, como
se eu fosse um irmo.
Lembrei de algo que meu pai tinha dito uma vez sobre os pashtuns. "Podemos ser
cabeas-duras, e sei muito bem que somos orgulhosos demais. Na hora da necessidade,
porm, pode acreditar: no h ningum melhor para se ter ao nosso lado que um
pashtun."
Baba fez que no com a cabea deitada no travesseiro.
 S o fato de terem vindo at aqui j me deixa muito feliz  disse ele.
O general sorriu e apertou a sua mo.
 E voc, como vai, Amir jan? Est precisando de alguma coisa?
O jeito que ele me olhava, o carinho que havia em seus olhos...
 No, obrigado, general sahib. Estou...
Senti um n na garganta e os meus olhos se encheram de lgrimas. Sa do quarto
quase correndo.
Fui chorar no corredor, perto daquele visor luminoso onde, na vspera, tinha
visto o rosto do assassino.
A porta se abriu e Soraya saiu do quarto. Parou perto de mim. Usava um
moletom verde e cala jeans. E estava de cabelo solto. Quis encontrar algum consolo em
seus braos.
 Sinto muito, Amir  disse ela.  Todos ns estvamos sabendo que havia algo
errado, mas no podamos imaginar que fosse isso.
Enxuguei os olhos com as mangas da camisa.
 Ele no queria que ningum soubesse.
 Est precisando de alguma coisa?
 No  respondi, tentando sorrir.
Ela ps a mo sobre a minha. Era a primeira vez que nos tocvamos. Segurei
aquela mo. Trouxe para o meu rosto. At os meus olhos. E, depois, a soltei.
  melhor voc voltar l para dentro  disse.  Seno, seu pai vai acabar
vindo atrs de mim.
Ela sorriu e concordou.
  melhor mesmo.  E se virou para entrar no quarto.
 Soraya!
 O qu?
 Estou feliz por voc ter vindo. Significa... tudo para mim.
BABA TEVE ALTA DOIS DIAS DEPOIS. Trouxeram um especialista em radiao oncolgica
para conversar sobre as possibilidades de um tratamento com essa tcnica. Ele
recusou. Vieram me pedir que tentasse falar com ele para convenc-lo. Mas vi a
expresso que havia em seu rosto. Agradeci, assinei os formulrios e levei baba para
casa no meu Ford Torino,
Naquela mesma noite, ele estava deitado no sof, coberto com uma manta de l.
Trouxe-lhe ch quente e amndoas torradas. Passei os braos por suas costas e ergui o
seu tronco com a maior facilidade. Os ossos dos seus ombros pareciam asas de pssaro
sob os meus dedos. Puxei o cobertor de volta para cobri-lo at o peito, onde se viam as
costelas desenhadas sob a pele fina e macilenta.

 Quer mais alguma coisa, baba?
 No, bachem. Muito obrigado. Sentei ao seu lado.
 Ento, quem sabe voc no faria uma coisa para mim? Se no estiver cansado
demais.
 O que ?
 Queria que voc fosse khastegari. Que pedisse ao general Taheri a mo da filha
dele em casamento.
Os seus lbios ressecados se entreabriram em um sorriso. Um pontinho de verde
em uma folha murcha.
 Tem certeza?  indagou ele.
 Como nunca tive em toda a minha vida.
 J pensou bastante sobre o assunto?
 Balay, baba.
 Ento, passe o telefone. E traga tambm o meu caderninho.
 Agora?  perguntei espantado.
 Quando seria, ento?
 Tudo bem  disse eu sorrindo. Fui apanhar o telefone e o caderninho preto
onde baba tinha anotado os nmeros dos seus amigos afegos. Ele procurou o dos
Taheri. Discou. Levou o fone ao ouvido. E o meu corao fazia piruetas dentro do
peito.
 Jamila jan? Salaam alaykum  disse ele. Identificou-se. Fez uma pausa. 
Bem melhor, obrigado. Foi to gentil terem vindo me ver...  Ficou ouvindo. Assentiu
com a cabea.  No vou esquecer, obrigado. O general sahib est?  Pausa. 
Obrigado.
Piscou o olho para mim. Por alguma razo, eu estava com vontade de rir. Ou de
gritar. Levei a mo  boca e a mordi. Baba riu baixinho, pelo nariz.
 General sahib, salaam alaykum... Estou, sim, muito melhor... Balay... Muita
gentileza sua. Estou ligando, general sahib, para saber se posso fazer uma visita ao
senhor e a khanum Taheri amanh de manh.  um assunto importante... ... s
onze horas est timo. At l, ento. Khoda hafez.
Desligou. Olhamos um para o outro. Ca na risada. E baba tambm.
BABA MOLHOU O CABELO, PENTEANDO-O todo para trs. Ajudei-o a vestir uma camisa
branca e, quando dei o n da sua gravata, reparei o espao sobrando entre o boto do
colarinho e o seu pescoo. Pensei em todos os espaos vazios que baba ia deixar atrs
de si depois que se fosse, e fiz um esforo enorme para pensar em outra coisa. Ele
no tinha ido embora. Ainda no. E esse era um dia para pensar em coisas boas. O
palet do terno marrom, aquele mesmo que ele tinha usado na minha formatura, ficou
danando no seu corpo  baba j no conseguia preench-lo todo. Tive de dobrar as
mangas. Depois, me agachei e amarrei os cadaros dos seus sapatos.
Os Taheri moravam em uma casa trrea de uma das reas residenciais de Fremont,
conhecida por abrigar uma grande quantidade de afegos. Tinha aquelas janelas
salientes, telhado pontudo e a porta da frente dando para uma varandinha onde vi
vasos plantados com gernios. A caminhonete cinzenta do general estava estacionada
na entrada.
Ajudei meu pai a sair do carro e voltei para o volante. Ele se inclinou na janela
do lado do carona.

 Fique em casa  disse.  Telefono para voc daqui a uma hora.
 Est certo, baba  respondi.  Boa sorte.
Ele sorriu.
Eu fui embora. Pelo retrovisor, vi baba caminhando um tanto trpego at a
porta da casa para cumprir uma ltima obrigao paterna.
FIQUEI ANDANDO DE UM LADO PARA O OUTRO da sala l de casa, esperando pelo telefonema de
meu pai. Quinze passos no comprimento. Dez e meio na largura. E se o general
dissesse que no? E se me detestasse? Vira-e-mexe, ia at a cozinha para olhar as
horas no relgio do forno.
Pouco antes do meio-dia, o telefone tocou. Era baba.
 E a?
 O general concordou.
Soltei uma baforada de ar. Sentei. Minhas mos estavam tremendo.
 Concordou?
 , mas Soraya jan est l em cima, no quarto. Quer falar com voc antes.
 Tudo bem.
Baba disse alguma coisa para algum e, depois, veio o clique indicando que ele
tinha posto o fone no gancho.
 Amir?  disse a voz de Soraya.
 Salaam.
 Meu pai disse que sim.
 Eu sei  respondi. Sacudi as mos. Estava sorrindo.  Estou to feliz que
nem sei o que dizer.
 Tambm estou feliz, Amir... Mal posso acreditar que isso esteja acontecendo.
 Eu sei  exclamei, rindo.
 Oua...  disse ela.  Quero lhe contar uma coisa. Uma coisa que voc
precisa saber antes de...
 Seja l o que for, no me importa.
 Voc precisa saber. No quero comear algo j com segredos. E  melhor que
fique sabendo por mim mesma.
 Se vai se sentir melhor assim, ento conte. Mas saiba que isso no vai alterar
nada.
Houve uma longa pausa do outro lado da linha.
 Quando morvamos na Virgnia, fugi com um afego. Tinha dezoito anos
nessa poca... era rebelde... uma idiota, e... ele estava metido com drogas... Vivemos
juntos por quase um ms. Todos os afegos da Virgnia comentavam o assunto.
"Padar acabou nos encontrando. Apareceu na nossa porta e me mandou voltar
para casa. Eu estava histrica. Gritando. Berrando. Dizendo que o odiava...
"Mas voltei para casa e...  ela estava chorando.  Desculpe.  Ouvi quando
ps o fone em algum lugar. Assoou o nariz.  Desculpe  disse ela ao voltar, com a
voz rouca.  Quando cheguei em casa, vi que minha me tinha tido um AVC, que o
lado direito do seu rosto tinha ficado paralisado e... me senti to culpada... Ela no
merecia isso.
"Logo depois, padar decidiu que nos mudaramos para a Califrnia."  Ela se
calou.
 Como  o seu relacionamento com seu pai agora?  perguntei.

 Sempre tivemos as nossas diferenas, e continuamos tendo, mas sou muito grata
a ele por ter ido me buscar naquele dia. Acredito mesmo que ele me salvou. 
Voltou a se calar.  E ento, no est aborrecido com o que lhe contei?
 Um pouco  respondi. Eu lhe devia a verdade. No podia mentir para ela,
dizendo que o meu amor-prprio, meu iftikhar, no estava ferido pelo fato de ela ter
vivido com um homem ao passo que eu jamais tinha levado uma mulher para a cama.
Aquilo me incomodava um pouco, mas tinha pensado muito a este respeito durante
semanas, antes de pedir que baba fosse khastegari. E, no final das contas, a pergunta
que acabava sempre se impondo era: como  que eu, entre todas as pessoas, poderia
punir algum pelo seu passado?
 Incomoda o suficiente para fazer voc mudar de idia?  perguntou ela.
 No, Soraya. Nem de longe  respondi.  Nada do que voc disse muda
coisa alguma. Quero me casar com voc.
Ela comeou a chorar.
Fiquei com inveja. O seu segredo no existia mais. Tinha sido dito. Era coisa
resolvida. Abri a boca e quase lhe contei como tinha trado Hassan, mentido, mandado
ele embora e destrudo a relao de quarenta anos que existia entre baba e Ali. Mas
no disse nada. Comecei a achar que, em muitos aspectos, Soraya Taheri era uma
pessoa melhor que eu. Coragem era apenas um deles.

TREZE
NA NOITE SEGUINTE, QUANDO CHEGAMOS  casa dos Taheri para o lafz, a cerimnia em
que os pais dos noivos empenham a palavra, tive de estacionar o Ford do outro lado
da rua, pois tudo por ali j estava abarrotado de carros. Estava usando um terno
azul-marinho que comprei na vspera, depois de deixar meu pai em casa aps o
khastegari. Verifiquei a gravata no retrovisor.
 Voc est khoshteep  disse ele. Lindo.
 Obrigado, baba. Voc est bem? Acha que est em condies de enfrentar o
que temos pela frente?
 Se estou em condies? Hoje  o dia mais feliz da minha vida, Amir 
respondeu ele com um sorriso cansado.
ATRAVS DA PORTA FECHADA, podamos ouvir gente falando, rindo, e msica afeg
tocando baixinho  parecia um ghazal clssico, executado por Ustad Sarahang. Toquei
a campainha. Por detrs das cortinas da janela do vestbulo surgiu um rosto que logo
desapareceu. Ouvi uma voz de mulher dizendo "Eles chegaram!". Pararam as conversas.
Algum desligou o som.
Khanum Taheri veio abrir a porta.
 Salaam alaykum  disse ela, radiante. Percebi que tinha feito permanente no
cabelo e estava usando um vestido preto, longo e muito elegante. Quando entrei no
vestbulo, os seus olhos se encheram de lgrimas.
 Nem bem voc ps os ps aqui em casa, Amir jan, e eu j estou chorando... 
disse ela.
Beijei a sua mo, seguindo  risca as instrues que baba tinha me dado na
vspera.
Pelo corredor todo iluminado, ela nos conduziu at a sala de visitas. Nas paredes
revestidas com lambris de madeira, vi retratos das pessoas que passariam a ser a minha
nova famlia. Khanum Taheri bem jovem, com o cabelo todo armado, e o general 
como pano de fundo, as cataratas do Nigara; khanum Taheri usando uma espcie de
cafet e o general, sem a calvcie e de cabelo preto, vestindo um palet de lapela estreita
e gravata bem fininha; Soraya prestes a entrar em uma montanha-russa de madeira,
acenando e sorrindo, e o sol refletindo nos aros metlicos do aparelho em seus
dentes. Uma foto do general, envergando o seu uniforme de gala, e apertando a mo do
rei Hussein, da Jordnia. Um retrato de Zahir Shah.
A sala de visitas estava cheia, com uns vinte e tantos convidados sentados em
cadeiras dispostas ao longo das paredes. Quando meu pai entrou, todos se
levantaram. Demos a volta na sala  ele na frente, andando bem devagarinho; eu,
atrs  para cumprimentar todo mundo. O general  com o indefectvel terno cinza 
e baba se abraaram, dando tapinhas nas costas um do outro. Ambos disseram
"'salaam''' em voz baixa, em um tom respeitoso.
O general estendeu os braos e me segurou pelos ombros, com um sorriso
decidido, como que dizendo "Agora, sim! Esse  o jeito certo  o jeito afego  de se
fazerem essas coisas, bachem". E nos beijamos trs vezes no rosto.
Meu pai e eu nos sentamos naquela sala lotada, um ao lado do outro, defronte
do general e de sua esposa. A respirao de baba estava um tanto ofegante e ele
ficou enxugando o suor da testa e da cabea com o leno. Quando viu que eu estava
olhando, deu um sorriso forado.
 Estou timo  declarou.
Como manda a tradio, Soraya no estava presente.
Por alguns minutos, todos continuaram conversando, at que o general
pigarreou. A sala ficou em silncio e todos baixaram os olhos, fitando as prprias mos,
em uma atitude respeitosa. O general acenou ento com a cabea na direo de meu
pai.
Baba tambm limpou a garganta. Quando comeou a falar, no conseguia dizer
uma frase completa sem fazer uma pausa para tomar flego.
 General sahib, khanum Jamila jan...  com toda humildade que meu filho e eu...
estamos aqui em sua casa hoje. Vocs so... pessoas de bem... de famlias conhecidas e
respeitveis, e... de ascendncia honrosa. Estou aqui apenas com o maior ihtiram... e o
mais profundo respeito por vocs, pelo nome de sua famlia e pela memria... dos seus
antepassados.  Fez uma pausa. Tomou flego. Enxugou a testa.  Amir jan  o meu
nico filho... meu filho nico, e tem sido muito bom para mim. Espero que se mostre...
merecedor da sua bondade. Peo-lhes que concedam a Amir jan e a mim mesmo... a
honra de aceitarem o meu filho em sua famlia. O general assentiu com gentileza.
 Ns  que nos sentimos honrados em acolher o filho de um homem como
voc em nossa famlia  disse ele.  A sua reputao  bem conhecida por todos
ns. Eu era um humilde admirador seu j em Cabul, e continuo sendo hoje em dia. 
uma honra para ns podermos unir sua famlia com a nossa.
"Quanto a voc, Amir jan, eu o recebo de braos abertos em minha casa, como
um filho, como o marido de minha filha que  a luz, a noor dos meus olhos. A sua dor
ser a nossa dor; a sua alegria, a nossa alegria. Espero que possa vir a considerar sua
khala Jamila e eu mesmo como seus segundos pais, e rezo para que voc e nossa
querida filha Soraya jan sejam muito felizes. Vocs dois tm a nossa bno."
 Todos aplaudiram e, a este sinal, as cabeas se voltaram para o corredor. Era o
momento que eu estava esperando ansiosamente.
Soraya apareceu, vestindo um magnfico traje tradicional afego de mangas
longas, cor de vinho enfeitado de dourado. Baba segurou a minha mo e a apertou.
Khanum Taheri comeou a chorar. Lentamente, Soraya veio at onde ns estvamos,
seguida por um cortejo de jovens parentas.
Beijou as mos de meu pai. Finalmente, sentou ao meu lado, com os olhos baixos.

Os aplausos se tornaram ainda mais fortes.
DE ACORDO COM A TRADIO, A FAMLIA de Soraya ficava encarregada de organizar a festa
de noivado, a shirini-khori, ou a cerimnia do "comer os doces". Depois, viria um
perodo de noivado, que devia durar alguns meses. S ento haveria o casamento, que
ficaria por conta de meu pai.
Todos concordamos que Soraya e eu amos dispensar a shirini-khori. Como
todo mundo sabia muito bem por qu, ningum precisou efetivamente expor os
motivos: baba no teria alguns meses de vida.
Enquanto se faziam os preparativos para o casamento, Soraya e eu nunca
saamos sozinhos, pois, j que ainda no estvamos casados, e nem mesmo tnhamos
tido uma shirini-khori, isso no era considerado adequado. Tinha que me contentar
ento em ir jantar na casa dos Taheri, com baba. Sentar defronte de Soraya  mesa e
ficar imaginando como seria sentir a cabea dela no meu peito, o perfume do seu
cabelo, beij-la, fazer amor com ela...
Baba gastou trinta e cinco mil dlares, praticamente a totalidade das suas
economias, no awroussi, a cerimnia do casamento. Alugou um grande salo de
banquetes em Fremont  o proprietrio era um afego conhecido seu de Cabul, que
lhe deu um desconto considervel. Tambm foi ele quem comprou as chilas, as
nossas alianas de casamento, e o anel de brilhantes que escolhi. Comprou ainda o
meu smoking e o tradicional terno verde para o nika, a cerimnia do juramento.
De toda aquela loucura dos preparativos para a noite do casamento  felizmente
khanum Taheri e suas amigas se encarregaram de quase tudo , s me lembro de
uns poucos momentos aqui e ali.
Lembro de nosso nika. Soraya e eu estvamos sentados em volta da mesa, ambos
vestidos de verde  a cor do isl, mas tambm a cor da primavera e dos novos
comeos. Eu estava de terno e Soraya (a nica mulher naquela mesa) usava um vestido
de mangas compridas, com um vu. Meu pai, o general Taheri (desta vez de smoking)
e vrios tios de Soraya tambm estavam sentados ali junto conosco. Soraya e eu
mantnhamos os olhos baixos, em uma atitude solene de respeito. Mas, de vez em
quando, olhvamos um para o outro disfaradamente. O mul fez perguntas s
testemunhas e leu passagens do Coro. Pronunciamos os nossos juramentos.
Assinamos as certides. Um dos tios de Soraya, l da Virgnia, Sharif jan, irmo de
khanum Taheri, se levantou e pigarreou. Soraya j tinha me dito que ele morava nos
Estados Unidos h mais de vinte anos, trabalhava no servio de imigrao e era casado
com uma americana. Mas tambm era poeta. O homenzinho franzino, com cara de
pssaro e uma basta cabeleira, leu um imenso poema dedicado a Soraya que tinha sido
escrito em um daqueles papis de carta de hotel.
 Wah wah, Sharif jan\  exclamaram todos quando ele terminou.
Lembro de ir andando at o palco, agora de smoking, e Soraya usando um pari
branco, com um vu. Estvamos de mos dadas. Baba ia caminhando ao meu lado,
um tanto trpego, enquanto o general e a esposa iam ao lado de Soraya. Um cortejo
de tios, tias e primos nos acompanhou no trajeto at o salo, atravessando um mar
de convidados que batiam palmas, e piscando diante do flash das mquinas
fotogrficas. Um dos primos de Soraya, filho de Sharif jan, ficou segurando um Coro
acima das nossas cabeas enquanto amos avanando devagar. Dos alto-falantes vinha

o som da cantiga nupcial, "Ahesta boro", a mesma que aquele soldado russo tinha
cantado l no posto de controle de Mahipar, na noite em que baba e eu samos de
Cabul:
Transforme a manh em uma chave e atire-a no poo
V devagar, minha linda lua, v devagar.
Deixe que o sol da manh esquea de se erguer a leste
V devagar, minha linda lua, v devagar.
Lembro que sentei no sof instalado no palco como se fosse um trono,
segurando a mo de Soraya, diante de uns trezentos rostos ou quase isso, todos
olhando para ns. Fizemos ayena masshaf, que  quando nos entregam um espelho e
pem um vu sobre as nossas cabeas para que, sozinhos, possamos contemplar a
imagem um do outro. Olhando o rosto sorridente de Soraya naquele espelho, na
privacidade momentnea que o vu nos proporcionava, sussurrei para ela, pela primeira
vez, que a amava. E o seu rosto ficou vermelho, como se tivesse sido tingido com
hena.
Tenho uma vaga lembrana das travessas coloridas com chopan kabob, sholehgoshti
e arroz com laranja azeda. Vejo baba sentado no sof, entre ns dois, sorrindo.
Lembro de homens, encharcados de suor, danando a tradicional attan, formando uma
roda, pulando, girando cada vez mais rpido ao ritmo febril da tabla, at que a grande
maioria no agentava mais e acabava saindo da roda. Lembro de ter desejado que
Rahim Khan estivesse l.
E lembro de ter me perguntado se Hassan tambm teria se casado. E se tivesse,
que rosto teria contemplado no espelho por baixo do vu. Que mos pintadas de hena
teria segurado.
POR VOLTA DAS DUAS HORAS DA MANH, a festa se transferiu do salo de banquetes para o
apartamento de meu pai. O ch voltou a rolar e a msica tocou at que os vizinhos
chamaram a polcia. Mais tarde, naquela mesma noite, menos de uma hora antes do
nascer do sol, e depois que os convidados tinham finalmente ido embora, Soraya e eu
nos deitamos juntos pela primeira vez. A vida toda, tinha estado cercado de homens.
Nessa noite, descobri a ternura de uma mulher.
FOI SORAYA QUE SUGERIU QUE ELA viesse morar com baba e comigo.
 Pensei que voc preferisse que tivssemos uma casa s para ns  disse eu.
 Com kaka jan doente como est?  retrucou ela. Seus olhos me diziam que
aquela no era a maneira ideal de se comear um casamento. Eu a beijei.
 Obrigado  disse.
Soraya passou a cuidar de meu pai com a maior dedicao. Preparava o ch e as
torradas para ele de manh, e o ajudava a se levantar e a se deitar. Dava-lhe os
remdios para dor, lavava as suas roupas, e, toda tarde, lia para ele a seo
internacional do jornal. Fazia o seu prato favorito, shorwa de batata, embora ele mal
conseguisse comer algumas colheradas, e o levava para dar uma voltinha no
quarteiro todos os dias, E, quando ele no pde mais se levantar da cama, tomava
o cuidado de vir-lo de hora em hora, para evitar que se formassem escaras.
Um dia, cheguei da farmcia com as plulas de morfina. Assim que fechei a
porta, vi de relance Soraya tratando de esconder algo bem depressa debaixo do
cobertor de baba.
 Ei, eu vi! O que  que vocs dois estavam fazendo?  perguntei.
 Nada  respondeu Soraya sorrindo.
 Mentirosa.  Levantei o cobertor.  O que  isso?  indaguei, muito embora
tivesse entendido tudo desde o instante em que pus as mos no caderno encapado de
couro. Passei os dedos por aquelas bordas debruadas de dourado. Lembrei dos fogos de
artifcio na noite em que Rahim Khan me deu esse caderno de presente, na noite da
festa do meu aniversrio de treze anos; lembrei dos clares zumbindo e explodindo em
buqus vermelhos, verdes e amarelos.
 No consigo acreditar que voc possa escrever assim...  disse Soraya.
Meu pai fez um esforo para erguer a cabea do travesseiro.
 A idia foi minha. Espero que voc no se importe.
Devolvi o caderno a Soraya e sa do quarto. Baba detestava me ver chorando.
QUANDO ESTVAMOS FAZENDO UM MS de casados, os Taheri, Sharif, sua mulher, Suzy, e
vrias tias de Soraya vieram jantar em nosso apartamento. Soraya preparou sabzi
challow, arroz branco com espinafre e carneiro. Depois do jantar, todos ns tomamos
ch verde e fomos jogar cartas divididos em grupos de quatro. Soraya e eu jogamos com
Sharif e Suzy na mesinha de centro, perto do sof onde baba estava deitado e coberto
com uma manta de l. Ele ficou olhando e me viu brincar com Sharif, viu que Soraya
e eu estvamos de mos dadas viu quando ajeitei uma mecha do seu cabelo que tinha
se soltado. Eu podia perceber que ele sorria por dentro, um sorriso to grande quanto
os cus de Cabul nas noites em que os choupos farfalhavam e o barulho dos grilos se
espalhava pelos jardins.
Pouco antes da meia-noite, ele nos pediu para lev-lo para a cama. Soraya e eu
passamos seus braos em nossos ombros e, com os nossos, envolvemos suas costas.
Depois que o deitamos, Soraya apagou a lmpada da mesinha de cabeceira. Ele pediu
que nos abaixssemos e deu um beijo em cada um.
 Volto logo com a sua morfina e um copo de gua, kaka jan  disse
Soraya.
 Essa noite no precisa  disse ele.  No estou com dor hoje.
 Ento, est bem  respondeu ela. Cobriu-o com o cobertor.
Fechamos a porta.
Baba nunca mais acordou.
TODAS AS VAGAS DO ESTACIONAMENTO da mesquita de Hayward estavam ocupadas. No
gramado um tanto falhado que ficava nos fundos do prdio, vrios carros e furges
tinham parado onde quer que houvesse uma vaga. As pessoas tinham que ir trs ou
quatro quarteires adiante da mesquita para conseguir um lugar para estacionar.
O setor masculino da mesquita era um amplo salo quadrado, recoberto de
tapetes afegos e colches bem fininhos dispostos em linhas paralelas. Filas de
homens entravam ali, deixando os sapatos na porta, e vinham se sentar de pernas
cruzadas sobre os colchonetes. Um mul cantava surrahs do Coro ao microfone. Eu me
sentei perto da entrada, no lugar tradicionalmente reservado  famlia do morto. O
general Taheri se sentou ao meu lado.
Pela porta aberta, podia ver filas de carros chegando, com o sol refletindo nos
pra-brisas. As pessoas iam descendo dos carros: homens usando ternos escuros,
mulheres trajando vestidos pretos, e todas elas com a cabea coberta com o
tradicional hijab branco.
Enquanto as palavras do Coro ressoavam pela sala, lembrei da velha histria de
baba enfrentando um urso negro l no Baluquisto.
Meu pai passou a vida inteira enfrentando ursos. Perdeu a jovem esposa. Teve de
criar um filho sozinho. Precisou abandonar a sua querida terra natal, o seu watan.
Conheceu a pobreza. A indignidade. At que, afinal, apareceu um urso que ele no
conseguiu derrotar. Mas, mesmo ento, perdeu sem deixar de ditar as regras.
Depois de cada seqncia de oraes, grupos de pessoas faziam fila e vinham me
cumprimentar antes de sair. Apertei todas aquelas mos, como era de praxe. Muitos
deles eu mal conhecia. Sorria educadamente, agradecia a todos por suas palavras,
ouvia o que quer que tivessem a dizer sobre baba,
 ...me ajudou a construir minha casa em Taimani...
 ...o abenoe...
 ...ningum mais a quem recorrer e ele me emprestou...
 ...me arranjou um emprego... mal me conhecia...
 ...como um irmo para mim...
Ouvindo-os falar, percebi como boa parte de quem eu era, boa parte do que eu
era tinha sido definido por baba e pelas marcas que ele deixou na vida das pessoas.
Durante toda a minha vida, fui "o filho de baba". Agora, ele tinha ido embora. Nunca
mais poderia me mostrar o caminho a seguir. E eu ia ter que descobrir isso sozinho.
Essa idia me deixou aterrorizado.
Um pouco mais cedo, durante o sepultamento, no pequeno setor muulmano do
cemitrio, fiquei olhando enquanto baixavam o corpo de baba no tmulo. O mul e
um outro homem comearam a discutir sobre qual seria o ayat do Coro mais
adequado para se recitar naquela ocasio. A coisa podia ter ficado feia se o general
Taheri no houvesse interferido. O mul acabou escolhendo um ayat e o recitou
lanando olhares furiosos ao outro indivduo. Vi quando atiraram a primeira p de
terra na sepultura. Ento, fui embora. Sa andando para o outro lado do cemitrio.
Sentei  sombra de um bordo vermelho.
Agora, as ltimas pessoas presentes j tinham vindo me dar os psames e no
havia mais ningum na mesquita, a no ser o mul desligando o microfone e
embrulhando o Coro em um pano verde. O general e eu samos ao sol do fim de
tarde. Descemos a escada, passando por grupos de homens que fumavam. Ouvi trechos
das suas conversas, um jogo de futebol em Union City na semana que vem, um novo
restaurante afego em Santa Clara. Era a vida que continuava deixando baba para
trs.
 Como voc est, bachem?  perguntou o general Taheri.
Cerrei os dentes. Engoli as lgrimas que tinham me ameaado durante todo o
dia.
 Vou procurar Soraya  respondi.
 Est bem.

Fui andando para o lado feminino da mesquita. Soraya estava de p na escada,
junto com a me e duas outras senhoras que lembrava de ter visto no dia do nosso
casamento. Acenei. Ela disse alguma coisa  me e veio ao meu encontro.
 Podemos andar um pouco?  perguntei.
 Claro  disse ela, pegando a minha mo.
Samos andando em silncio por um caminho de cascalho sinuoso cercado de
arbustos. Sentamos em um banco e ficamos olhando para um casal mais idoso que se
ajoelhou diante de um tmulo, pouco mais adiante, e depositou um buqu de
margaridas perto da lpide.
 Soraya?
 O qu?
 Vou sentir falta dele.
Ela ps a mo no meu colo. A chila comprada por baba reluziu no seu dedo
anular. Por trs de Soraya, vi as pessoas que tinham vindo para o enterro dele indo
embora pelo Mission Boulevard. Logo, logo ns tambm iramos embora e, pela
primeira vez na vida, baba ficaria inteiramente s.
Soraya me puxou para si e, finalmente, as lgrimas vieram.
J QUE SORAYA E EU NO TNHAMOS TIDO um perodo de noivado, foi s depois de entrar
para a famlia que passei a conhecer os Taheri. Por exemplo, fiquei sabendo que, uma
vez por ms, o general tinha umas enxaquecas, com perturbao de viso, que
duravam quase uma semana. Quando isso acontecia, ele ia para o quarto, tirava a
roupa, apagava as luzes, trancava a porta e s saa de l depois que a dor tivesse
passado. Ningum podia entrar naquele quarto; ningum podia bater naquela porta.
Finalmente, o general aparecia, novamente com o terno cinzento, com cheiro de sono e
roupa de cama, e os olhos vermelhos e inchados. Fiquei sabendo, por Soraya, que ele e
khanum Taheri dormiam em quartos separados desde que ela se entendia por gente.
Fiquei sabendo que o general podia ser bem ranheta, fazendo coisas como, por
exemplo, provar a qurma que a esposa punha  sua frente, dar um suspiro e empurrar o
prato. "Vou preparar outra coisa para voc", dizia ento khanum Taheri. Ele, porm, a
ignorava, fazia uma cara amuada e comia po com cebola. Aquilo deixava Soraya
furiosa e fazia sua me chorar. Ela me disse que o pai tomava anti-depressivos. Fiquei
sabendo ainda que ele mantinha a famlia graas  seguridade social e nunca tentou
arranjar emprego nos Estados Unidos, pois preferia embolsar os cheques emitidos
pelo governo a se degradar trabalhando em coisas que no estivessem  altura de
um homem como ele  considerava a feirinha de antiguidades apenas um bobby,
uma oportunidade de ter contato com os seus compatriotas afegos. O general
acreditava que, mais cedo ou mais tarde, o Afeganisto seria libertado, a monarquia,
restaurada, e os seus servios voltariam a ser requisitados. Portanto, todos os dias
vestia o terno cinzento, dava corda no relgio de bolso, e ficava esperando.
Soube tambm que khanum Taheri  que eu agora chamava de khala Jamila
 tinha sido famosa em Cabul por sua magnfica voz. Embora nunca tenha cantado
profissionalmente, tinha talento para isso  fiquei sabendo que cantava msica
folclrica, ghazals e at mesmo raga, que  geralmente reservada aos homens. Mas,
assim como apreciava ouvir msica  e possua efetivamente uma coleo
considervel de fitas de ghazals clssicos, interpretados por cantores afegos e
indianos , o general acreditava que mais valia deixar sua interpretao por conta de
gente menos respeitvel. Que khanum Taheri jamais se apresentasse em pblico
tinha sido uma das condies impostas pelo general quando eles se casaram. Soraya me
disse que a me queria cantar no dia do casamento, nem que fosse uma nica
cano, mas o general lhe lanou um daqueles seus olhares e deu o assunto por
encerrado. Khala Jamila jogava na loto uma vez por semana e assistia ao programa de
Johnny Carson toda noite. Passava os dias no jardim, cuidando das suas rosas, dos
seus gernios, das suas trepadeiras e das suas orqudeas.
Quando me casei com Soraya, as flores e Johnny Carson passaram para o
segundo plano. Eu virei a nova curtio da vida de khala Jamila.  diferena do
general, que mantinha o seu jeito contido e diplomtico  nem me corrigiu quando
continuei a cham-lo "general sahib" , khala Jamila sequer tentava disfarar o
quanto me adorava. E por uma razo muito simples: eu a ouvia desfiar a sua incrvel
lista de doenas, ao passo que o general j no dava ateno a isso h muito tempo.
Soraya me disse que, desde que a me tinha tido o AVC, cada palpitao que tivesse era
um ataque cardaco; cada dor nas articulaes, uma crise de artrite reumatide; e cada
espasmo no olho, um novo AVC. Lembro da primeira vez que khala Jamila me falou
de um caroo que tinha aparecido em seu pescoo.
 Vou faltar  aula amanh e lev-la ao mdico  disse eu.
Ao ouvir isso, o general sorriu e comentou:
 Ento talvez voc devesse deixar os livros de lado de uma vez por todas,
bachem. O histrico das consultas de sua khala ao mdico  como a obra de Rumi: se
apresenta em vrios volumes.
Mas no era s porque tinha conseguido uma platia para os seus monlogos
sobre doenas que ela me tratava daquele jeito. Estava convencido de que, se eu
pegasse um rifle e comeasse uma escalada assassina, ainda assim continuaria a contar
com o amor incondicional de khala Jamila. Porque tinha livrado o seu corao da mais
grave das doenas. Tinha eliminado o maior medo de todas as mes afegs: o de que
nenhum khastegar respeitvel viesse pedir a mo de sua filha em casamento. Que a sua
filha fosse envelhecer sozinha, sem marido, sem filhos. E toda mulher precisa de um
marido. Mesmo que ele faa calar a cano que existe nela.
Foi tambm pela prpria Soraya que fiquei sabendo dos detalhes do que tinha
acontecido na Virgnia.
Estvamos em um casamento. O tio dela, Sharif, aquele que trabalhava para o
servio de imigrao, estava casando o filho com uma moa afeg de Newark. A
cerimnia foi no mesmo salo de festas onde, seis meses antes, Soraya e eu tivemos
nosso awrouss. Estvamos no meio de um monte de convidados, vendo a noiva
aceitar o anel da famlia do noivo, quando ouvimos duas mulheres de meia-idade
conversando atrs de ns.
 Que noiva linda!  disse uma delas.  Olhe s para ela. To maghbool,
parece at a lua.
  mesmo  concordou a outra.  E pura tambm. Virtuosa. Nunca teve
sequer um namorado.
 Eu sei. E acho que esse rapaz fez muito bem em no se casar com a prima.
Soraya desabou no caminho de volta para casa. Aproximei o Ford do meio-fio e
estacionei junto a um poste, no Fremont Boulevard.

 Est tudo bem  disse eu pondo o seu cabelo para trs.  Por que dar
importncia a isso?
 Mas que merda!  to injusto!  exclamou ela quase gritando.
 Esquea.
 Os filhos delas vo para as boates  procura de carne fresca e engravidam as
namoradas; tm filhos fora do casamento e ningum faz nenhum maldito comentrio.
Ah! so apenas homens se divertindo! J eu cometo um erro e, de repente, todo mundo
est falando de nang e namoos, e tenho que passar o resto da vida ouvindo jogarem
isso na minha cara!
Com o polegar, enxuguei uma lgrima que vinha rolando pelo seu rosto, logo
acima daquela marca de nascena.
 No lhe contei  disse Soraya dando umas batidinhas nos olhos , mas,
naquela noite, meu pai apareceu l com um revlver. Disse... a ele... que tinha duas
balas no tambor, uma para mat-lo e a outra para si mesmo, caso eu no voltasse para
casa. Fiquei gritando, xingando meu pai de tudo que  palavro, dizendo que ele no
podia me manter trancafiada para sempre, que adoraria v-lo morto.  As lgrimas
escorriam por entre as suas plpebras.  Disse isso, assim mesmo, que queria que ele
morresse.
"Quando me trouxe de volta para casa, minha me veio me abraar e estava
chorando tambm. Ficou dizendo uma poro de coisas mas eu no consegui entender
nada, porque ela estava articulando as palavras com muita dificuldade. Ento, meu
pai me levou para o meu quarto e me fez sentar diante do espelho grande. Pegou uma
tesoura e, com toda calma, me mandou cortar o cabelo. Ficou olhando enquanto eu
fazia o que ele tinha mandado.
"Passei vrias semanas trancada em casa. E, quando voltei a sair ouvia as pessoas
murmurando coisas ou imaginava esses murmrios por onde quer que passasse. Isso
aconteceu h quatro anos, e a quase cinco mil quilmetros daqui, mas ainda continuo
a ouvir esses murmrios."
 Que se fodam!  exclamei eu.
Ela fez um barulho estranho, que parecia um soluo misturado com riso.
 Quando lhe contei essa histria pelo telefone, na noite do khastegari,
tinha certeza de que voc ia desistir.
 Impossvel, Soraya.
Ela sorriu e pegou minha mo.
 Que sorte que tive de encontrar voc. Algum to diferente de todos os
afegos que jamais conheci.
 No vamos mais voltar a falar disso, est bem?
 Est.
Dei-lhe um beijo no rosto e sa com o carro. Enquanto dirigia, fiquei me
perguntando por que eu seria diferente. Talvez porque tivesse sido criado por
homens; no cresci rodeado de mulheres e nunca tive de conviver diretamente com
aquele padro de dois pesos, duas medidas com que a sociedade afeg trata os sexos
masculino e feminino. Talvez fosse tambm porque baba nunca tenha sido nem de
longe um pai afego tpico; era um liberal que sempre viveu de acordo com as
prprias regras, um insubmisso que desconsiderava ou adotava os costumes da
sociedade quando bem entendia.

Mas acho que boa parte da razo pela qual no me importava com o passado de
Soraya era o fato de eu tambm ter o meu. Arrependimento era um assunto que
conhecia muito bem...
POUCO DEPOIS DA MORTE DE BABA, Soraya e eu mudamos para um apartamento de quarto-e-sala
em Fremont, a umas poucas quadras da casa do general e de khala Jamila. Os
pais de Soraya compraram um sof de couro marrom e um aparelho de jantar Mikasa,
como presente de inaugurao para a casa nova. Mas o general me deu um presente
adicional, uma mquina de escrever IBM, novinha em folha. Na caixa, ele ps um
carto escrito em farsi:
Amir jan,
espero que voc encontre muitas histrias nessas teclas.
General Iqbal Taheri
Vendi a Kombi de baba e, desse dia em diante, nunca mais fui  feirinha de
antiguidades. Toda sexta-feira, ia de carro at o cemitrio e s vezes, ao chegar,
encontrava um buqu de frsias frescas no tmulo dele. Ficava sabendo ento que
Soraya tambm tinha passado por l.
Ns dois estvamos comeando a viver a rotina  e as pequenas maravilhas 
da vida de casados. Compartilhvamos escovas de dentes e meias, e trocvamos as
sees do jornal da manh. Ela dormia do lado direito da cama; eu preferia o esquerdo.
Ela preferia travesseiros bem fofos; eu gostava dos mais duros. Ela comia os cereais
secos, como se fossem salgadinhos; eu tinha praticamente que pesc-los no leite.
Naquele vero, fui aceito pela San Jose State para me matricular na graduao em
ingls. Arranjei um emprego de segurana no depsito de uma loja de mveis em
Sunnyvale, para o turno da noite. O trabalho era incrivelmente chato, mas tinha uma
vantagem considervel: s seis da tarde, depois que todo mundo ia embora e as
sombras comeavam a se espalhar por entre as fileiras de sofs cobertos de plstico
empilhados at o teto, eu pegava os meus livros e ia estudar. Foi no escritrio com
cheiro de Pinho Sol daquele depsito de mveis que comecei a escrever o meu primeiro
romance.
No ano seguinte, Soraya tambm foi estudar na San Jose State e, para tristeza
do pai, se matriculou na habilitao para o magistrio.
 No sei por que voc fica desperdiando os seus talentos desse jeito...  disse o
general, certa noite, durante o jantar.  Voc sabia, Amir jan, que ela s tirou conceito
"A" durante todo o segundo grau?  Depois, voltou-se novamente para ela.  Uma
garota inteligente como voc podia vir a ser advogada, cientista poltica. E, Inshallah,
quando o Afeganisto for libertado, colaborar no sentido de escrever a nova
constituio. Vamos precisar muito de jovens afegos talentosos como voc. Podem
at lhe oferecer um cargo de ministra, em funo do seu sobrenome.
Percebi que Soraya estava se contendo e que o seu rosto tinha se contrado.
 No sou mais uma garota, padar. Sou uma mulher casada. E,
alm do mais, tambm vo precisar de professores.
 Mas ensinar  coisa que qualquer um pode fazer.
 Tem mais arroz, madar?  perguntou Soraya.

Depois que o general se desculpou, dizendo que tinha de sair para encontrar uns
amigos em Hayward, khala Jamila tentou consolar a filha.
 Ele no faz isso por mal  disse ela.  S quer que voc seja uma pessoa
bem-sucedida.
 Porque, assim, ele vai poder se vangloriar da filha advogada para os amigos.
Mais uma medalha para o general  retrucou Soraya.
 Que bobagem que voc est dizendo!
 Bem-sucedida...  sussurrou Soraya.  Pelo menos no sou como ele, que
fica aqui sentado, enquanto outras pessoas combatem os shorawi, s esperando a
poeira assentar para chegar l e reclamar o seu cargo importantssimo no governo. Os
professores no ganham bem, mas  a profisso que eu amo. E o que quero fazer, e,
alis,  mil vezes melhor do que ficar vivendo da assistncia pblica.
Khala Jamila engoliu em seco.
 Se por acaso ele ouvir voc dizendo isso, nunca mais vai falar com voc.
 No se preocupe  respondeu Soraya rispidamente, atirando o guardanapo
no prato.  No vou ferir o precioso ego dele.
NO VERO DE 1988, CERCA DE SEIS MESES antes de os soviticos se retirarem do
Afeganisto, terminei o meu primeiro romance, uma histria entre pai e filho,
passada em Cabul, quase toda ela escrita na mquina de escrever que o general tinha
me dado. Mandei cartas para uma dezena de agncias e fiquei espantadssimo
quando, em um dia de agosto, abri a nossa caixa de correio e encontrei uma resposta
de uma agncia de Nova York solicitando o manuscrito integral. Pus tudo no correio
logo no dia seguinte. Soraya beijou o texto cuidadosamente embalado e khala
Jamila insistiu para que o pusssemos debaixo do Coro. Disse que ia fazer nazr para
mim: ia prometer mandar matar um carneiro e dar a carne para os pobres se o meu
livro fosse aceito.
 Por favor, nada de fazer nazr, khala jan  disse eu, beijando-a no rosto. 
Faa apenas zakat, dando dinheiro para algum que esteja precisando, est bem?
Nada de ficar matando carneiros...
Seis semanas depois, um homem chamado Martin Greenwalt telefonou de Nova
York oferecendo-se para me representar. A nica pessoa a quem contei isso foi Soraya.
 O simples fato de eu ter arranjado um agente no significa que o livro v ser
publicado. Se Martin conseguir vender o romance, a, sim, vamos comemorar.
Um ms mais tarde, Martin ligou para me informar que eu ia ser um romancista
publicado. Quando falei com Soraya, ela comeou a gritar.
Naquela noite, tivemos um jantar de comemorao com os pais dela. Khala
Jamila fez kofta  bolinhos de carne com arroz  e ferni branco. O general Taheri, com
um brilho de lgrimas nos olhos, disse que estava orgulhoso de mim. Depois que os dois
foram embora, Soraya e eu fizemos a nossa comemorao particular com uma garrafa
de Merlot bem cara que tinha comprado voltando para casa  o general no aprovava
mulheres tomando bebidas alcolicas e Soraya no bebia na frente dele.
 Estou to orgulhosa de voc...  disse ela erguendo a taa em um brinde. 
Kaka tambm teria ficado muito orgulhoso.
 Sei disso  respondi, pensando em baba e em como seria bom que ele tivesse
podido ver isso.

Mais tarde, depois que Soraya pegou no sono  o vinho sempre a deixava
sonolenta , fui para a varanda e fiquei respirando aquele ar fresco do vero. Lembrei
de Rahim Khan e do bilhetinho de estmulo que tinha escrito depois de ler minha
primeira histria. E lembrei de Hassan. "Algum dia, Inshallah" voc vai ser um grande
escritor," foi o que ele me disse certa vez, "e gente do mundo todo vai ler as suas
histrias". Tinha tanta coisa boa acontecendo na minha vida... Tanta felicidade... E
fiquei me perguntando se eu merecia isso.
O romance foi lanado no vero do ano seguinte, 1989, e a editora organizou
uma viagem de lanamento por cinco cidades. Passei a ser uma pequena celebridade na
comunidade afeg. E foi nesse ano que os shorawi completaram a sua retirada do
Afeganisto. Era para ter sido um momento de glria para o povo. Em vez disso,
porm veio a guerra, agora entre afegos, os mujahedin contra o governo de
Najibullah, fantoche dos soviticos, e refugiados continuaram a afluir em massa ao
Paquisto. Esse foi tambm o ano em que terminou a Guerra Fria, o ano em que veio
abaixo o Muro de Berlim. Foi o ano da praa da Paz Celestial. No meio disso tudo, o
Afeganisto ficou esquecido. E o general Taheri, cujas esperanas tinham ganhado vida
nova depois da retirada dos soviticos, voltou a dar corda no relgio de bolso.
Foi tambm o ano em que Soraya e eu comeamos a tentar ter um filho.
A IDIA DE SER PAI DESENCADEOU em mim um turbilho de emoes. Achava a perspectiva
assustadora, fortalecedora, desanimadora e estimulante, tudo ao mesmo tempo. Que
tipo de pai eu seria, ficava imaginando. Queria ser exatamente como baba e ser
inteiramente diferente dele.
Mas um ano se passou e nada aconteceu. A cada menstruao, Soraya ia ficando
mais frustrada, mais impaciente, mais irritadia. A essa altura, khala Jamila que, de
incio, se limitava a insinuaes sutis, comeou a perguntar abertamente: "Kho
dega?", "E ento? Quando  que vou poder cantar alahoo para o meu nawasa?" O
general, sempre o tpico pashtun, nunca perguntava nada  fazer isso equivalia a
aludir ao ato sexual entre sua filha e um homem, mesmo que o homem em questo
fosse casado com ela h cerca de quatro anos. Mas os seus olhos se animavam
quando khala Jamila vinha com essa histria de beb.
 s vezes demora um pouquinho  disse eu a Soraya certa noite.
 Um ano no  um pouquinho, Amir!  exclamou ela em um tom rspido que
no era do seu feitio.  Eu sei que tem alguma coisa errada.
Ento, vamos ao mdico.
O DR. ROSEN, UM HOMEM BARRIGUDO, com uma cara redonda e dentes midos e
certinhos, falava com um leve sotaque da Europa oriental, algo remotamente eslavo.
Tinha mania de trens  seu consultrio era entulhado de livros sobre a histria das
ferrovias, miniaturas de locomotivas, quadros de trens correndo sobre trilhos,
passando por colinas verdejantes ou atravessando pontes. Sobre a mesa, uma
plaquinha afirmava: "A VIDA  UM TREM. SUBA A BORDO."
Exps o seu plano de ao. Eu seria examinado primeiro. .
 Com os homens,  mais fcil  disse ele, tamborilando na escrivaninha de
mogno.  O encanamento de um homem  como o seu crebro: simples, com muito
poucas surpresas. Por outro lado, vocs, mulheres... bem, Deus pensou e repensou
muito para faz-las.
Fiquei me perguntando se ele empurrava essa histria de encanamento para todos
os casais que vinham procur-lo.
 Sorte a nossa...  disse Soraya.
O dr. Rosen riu. Um riso que no me pareceu l muito convincente. Entregoume
um formulrio de laboratrio e um frasco de plstico, e deu a Soraya uma
requisio para exames de sangue de rotina. Despedimo-nos.
 Bem-vindos a bordo  disse ele ao nos levar at a porta.
MEUS RESULTADOS DERAM TODOS BONS.
Durante os meses seguintes, Soraya teve que passar por uma batelada de exames:
temperatura basal, exames de sangue para verificar as taxas de todos os hormnios
possveis e imaginveis, exame de urina, um negcio chamado "exame de muco
cervical", ultrassonografias, mais exames de sangue e de urina. Ela foi submetida a
uma tal de histeroscopia  o dr. Rosen introduziu um instrumento chamado
histeroscpio no tero de Soraya e examinou tudo l dentro. No encontrou nada.
 Os encanamentos esto desobstrudos  anunciou ele retirando as luvas de
ltex.
Adoraria que o dr. Rosen parasse de usar esse termo. Afinal de contas, no
ramos banheiros.
Depois de todos esses exames, ele nos informou que no sabia explicar por que
no conseguamos ter filhos. E, aparentemente, isso no era to raro assim. Era
chamado de "infertilidade sem causa aparente".
Veio, ento, a fase dos tratamentos. Experimentamos um medica mento chamado
Clomifeno e hMG, uma srie de injees que Soraya aplicava em si mesma. Como
esses recursos no deram resultado, o dr. Rosen recomendou a fertilizao in vitro.
Recebemos uma carta do nosso seguro mdico nos desejando muito boa sorte, mas
informando que, lamentavelmente, no podiam cobrir as despesas com o processo.
Usamos o adiantamento que eu tinha recebido pelo romance para pagar o
tratamento. Este acabou se revelando demorado, meticuloso frustrante e, finalmente,
infrutfero. Depois de meses e meses em salas de espera, lendo revistas como Good
Housekeeping e Reader's Digest; depois de inmeros aventais descartveis e saletas de
exames frias e esterilizadas, iluminadas com lmpadas fluorescentes; da invarivel
humilhao de falar de cada detalhe de nossa vida sexual com um completo
desconhecido; das injees, das sondas e das coletas de amostras, voltamos para o dr.
Rosen e seus trens.
Sentado defronte de ns, tamborilando na escrivaninha, ele mencionou a palavra
"adoo" pela primeira vez. Soraya chorou durante todo o trajeto de volta para casa.
No fim de semana que se seguiu  nossa ltima visita ao consultrio do dr. Rosen,
Soraya deu a notcia aos pais. Estvamos sentados em cadeiras de armar no quintal
dos fundos da casa dos Taheri, assando trutas na grelha e tomando dogh de iogurte.
Era um fim de tarde do ms de maro de 1991. Khala Jamila tinha regado as rosas e
as suas madressilvas novas, e o perfume dessas plantas se misturava com o cheiro do
peixe grelhado. Pela segunda vez, ela esticou o brao para acariciar o cabelo de Soraya,
dizendo:

 Deus sabe o que faz, bachem. Quem sabe  porque no era mesmo para
ser?
Soraya continuava olhando as prprias mos. Eu sabia que ela estava cansada,
cansada de tudo isso.
 O doutor disse que poderamos adotar...  murmurou.
Ao ouvir isso, o general levantou a cabea. Chegou mais perto da
churrasqueira.
 Disse?  indagou ele.
 Disse que seria uma opo  respondeu Soraya.
Em casa, tnhamos conversado sobre o assunto. Na melhor das hipteses, diria
que Soraya era ambivalente.
 Sei que  bobagem, e talvez at intil  disse ela quando estvamos indo para a
casa de seus pais , mas no consigo evitar. Sempre sonhei que ia segurar um beb
nos braos e saber que o meu sangue o tinha alimentado por nove meses; que, um dia,
ia olhar nos olhos dele e tomar um susto vendo voc ou eu ali; que o beb ia crescer e
ter o seu sorriso ou o meu. No sendo assim...  errado isso?
 No  disse eu.
 Estou sendo egosta?
 No, Soraya.
 Porque, se voc quiser mesmo...
 No  disse eu.  Se formos fazer isso, no devemos ter nenhuma dvida
a respeito, e ambos temos de estar de acordo. Caso contrrio, no seria justo para com
o beb.
Ela encostou a cabea na janela e no disse mais nada pelo resto do trajeto.
Agora, o general estava ao seu lado.
 Bachem, essa histria de... adoo, no sei se  uma boa coisa para ns,
afegos.
Soraya me olhou com ar cansado, e suspirou.
 Por um motivo: eles crescem e querem saber quem so os seus pais biolgicos
 prosseguiu ele.  E nem se pode censur-los por isso. s vezes, vo embora da
casa onde vocs tiveram anos e anos de trabalho para cri-los, para tentar encontrar
as pessoas que lhes deram a vida. O sangue  uma coisa poderosa, bachem. Nunca
se esquea disso.
 No quero mais falar sobre esse assunto  disse Soraya.
 S vou lhe dizer mais uma coisa  acrescentou ele. Pude perceber que o
general estava ficando animado e que estvamos prestes a ter que agentar um dos seus
pequenos discursos.  Veja Amir jan, por exemplo. Todos sabamos quem era o seu
pai; eu sei quem foi o seu av l em Cabul e, antes dele, o seu bisav. Se voc quiser,
posso me sentar aqui e listar vrias geraes dos seus antepassados. Foi por isso que,
quando o pai dele (que Deus o tenha) veio khastegari, no hesitei. E acredite, ele
tampouco teria concordado em pedir a sua mo se no soubesse qual  a sua
ascendncia. O sangue  uma coisa poderosa, bachem, e, quando voc adota uma
criana, no sabe que sangue  esse que est trazendo para dentro da sua casa.
"J se voc tivesse nascido neste pas, isso no teria a menor importncia.
Aqui, as pessoas se casam por amor; sobrenome genealogia nunca fazem parte dessa
equao. E  desse jeito tambm que adotam crianas. Todos ficam felizes, contanto
que o beb seja saudvel. Mas ns somos afegos, bachem"

 O peixe j deve estar quase pronto  disse Soraya. O general a fitou
detidamente. Deu um tapinha em seu joelho.
 Fique feliz por ter sade e um bom marido.
 O que voc acha, Amir jan?  perguntou khala Jamila.
Pus o copo em uma prateleira onde uma fileira de vasos com gernios gotejava
gua.
 Acho que concordo com o general sahib.
Mais tranqilo, ele assentiu com um gesto e voltou para perto da churrasqueira.
Todos tnhamos os nossos motivos para no adotar um filho. Soraya tinha os
seus; o general, os dele, e o meu era este: que talvez algo ou algum, em algum lugar,
tivesse decidido me negar a paternidade por causa das coisas que eu tinha feito. Talvez
esse fosse o meu castigo, e talvez um castigo merecido. "No era mesmo para ser",
como tinha dito khala Jamila. Ou, quem sabe, era para no ser.
ALGUNS MESES DEPOIS, USAMOS O adiantamento que recebi por meu segundo romance
para dar entrada na compra de uma linda casa vitoriana, com dois quartos, no bairro
de Bernal Heights, em San Francisco. Ela tinha o telhado do tipo duas guas, assoalho
de madeira e, nos fundos, um jardinzinho que terminava em um terrao com uma
churrasqueira. O general me ajudou a restaurar o terrao e a pintar as paredes. Khala
Jamila ficou se lamentando porque amos morar em um lugar a uma hora de distncia
da casa deles, especialmente agora, quando achava que Soraya estava precisando de
todo amor e conforto possveis. Mal sabia ela que era justamente essa sua dedicao,
bem-intencionada, mas dominadora, que estava levando Soraya a se mudar.
S VEZES, ENQUANTO SORAYA DORMIA ao meu lado, eu ficava na cama ouvindo a porta de
tela que abria e fechava por causa do vento, e os grilos cantando no jardim. E quase
podia sentir o vazio do tero de Soraya, como se fosse uma coisa viva que respira.
Esse vazio tinha se infiltrado no nosso casamento, nos nossos risos, na nossa vida
sexual. Tarde da noite, no escuro do quarto, sentia ele saindo de Soraya e vindo se
instalar entre ns. Vindo dormir entre ns. Como uma criana recm-nascida.

QUATORZE
Junho de 2001
PUS O FONE NO GANCHO E FIQUEI OLHANDO para o aparelho durante um bom tempo. Foi s
depois que o Aflatoon latiu, me dando um susto, que percebi como a sala estava
silenciosa. Soraya tinha tirado o som da televiso.
 Voc ficou plido, Amir  disse ela, l do sof, aquele mesmo que os seus pais
tinham nos dado de presente para inaugurar o nosso primeiro apartamento. Estava
deitada ali, com a cabea do Aflatoon aninhada no peito e as pernas enfiadas debaixo
das almofadas velhas. Estava vendo um especial do canal PBS sobre as dificuldades
dos lobos em Minnesota enquanto corrigia uns trabalhos de sua turma dos cursos de
vero  j fazia seis anos que ela estava dando aulas na mesma escola. Sentou-se e
Aflatoon pulou do sof. Foi o general quem batizou o nosso cocker spaniel, dando-lhe
o nome de "Plato" em farsi, porque, segundo dizia, se a gente passasse algum
tempo olhando bem para os olhos negros e translcidos daquele cachorro, poderia
jurar que ele estava pensando coisas da maior sabedoria.
Hoje em dia, h uma camada de gordura, uma coisinha de nada, sob o queixo de
Soraya. Os ltimos dez anos acrescentaram algum volume s curvas dos seus quadris e
introduziram uns poucos veios de cinza no seu cabelo negro como carvo. Mas ela ainda
tinha aquele rosto de uma princesa em noite de gala, com as sobrancelhas como asas
de pssaros em pleno vo e o nariz elegantemente recurvado, como uma letra da
antiga escrita rabe.
 Voc ficou plido  repetiu Soraya, pondo a pilha de trabalhos sobre a mesa.
 Tenho que ir para o Paquisto.
 Paquisto?  perguntou ela se pondo de p.
 Rahim Khan est muito doente.
Senti um aperto por dentro ao dizer essas palavras.
 O antigo scio de kaka?
Ela no conhecia Rahim Khan, mas eu tinha lhe falado muito sobre ele. Fiz que
sim com a cabea.
 Ah!  exclamou ela.  Sinto muitssimo, Amir.
 Ns ramos muito ligados um ao outro  disse eu.  Quando eu era criana,
ele era o nico adulto que considerava meu amigo.
Falei dele tomando ch com baba no escritrio, e, depois, fumando perto da
janela, com um cheirinho de rosas vindo l do jardim e fazendo as colunas gmeas de
fumaa ondularem.
 Lembro de voc me contando isso  disse Soraya. Calou-se por um
instante.  E quanto tempo vai ficar fora?
 No sei. Ele quer me ver.

 ...?
  seguro, sim. No vou ter problema algum, Soraya.  Sabia que era isso
que ela estava querendo perguntar. Os quinze anos de casados tinham nos tornado
capazes de ler os pensamentos um do outro.  Vou dar uma volta.
 Quer que eu v com voc?
 No. Prefiro ficar sozinho.
FUI DE CARRO AT O PARQUE DA GOLDEN GATE e fiquei passeando perto do lago Spreckels,
na orla norte do parque. Era uma linda tarde de domingo; o sol cintilava na gua onde
navegavam dezenas de barcos em miniatura, impulsionados pela brisa forte de San
Francisco. Sentei em um banco do parque, vi uma me jogar uma bola de futebol para
o filho, dizendo-lhe que no abrisse tanto o brao para atir-la que tentasse arremessla
por cima do ombro. Ergui os olhos e vi um par de pipas vermelhas, com rabiolas
azuis bem compridas. Estavam voando l no alto, acima das rvores que ficam mais a
oeste, por sobre os moinhos de vento.
Lembrei de um comentrio que Rahim Khan fez logo antes de desligarmos.
Disse aquilo como quem no quer nada, quase como se falasse consigo mesmo. Fechei
os olhos e o vi do outro lado daquele telefonema internacional cheio de rudos; pude
v-lo com os lbios entreabertos, a cabea ligeiramente inclinada para o lado. E mais
uma vez, nos seus olhos negros profundos, havia algo que sugeria a existncia, entre
ns, de um segredo que tinha sido calado. S que agora eu sabia que ele sabia. A
suspeita que tive durante todos esses anos se confirmou. Ele sabia sobre Assef, sobre a
pipa, o dinheiro, o relgio com os ponteiros que pareciam relmpagos. Sempre soube.
"Venha at aqui. H um jeito de ser bom de novo" foi o que me disse Rahim Khan
pouco antes de desligar o telefone. Disse isso como quem no quer nada, quase como se
falasse consigo mesmo.
Um jeito de ser bom de novo.
QUANDO CHEGUEI EM CASA, Soraya estava no telefone com a me.
 Ele no vai demorar muito, madar jan. Uma semana; duas, talvez... Claro.
Voc e padar podem vir ficar comigo...
Dois anos atrs, o general tinha fraturado a bacia. Tinha tido mais uma
daquelas suas enxaquecas e, ao sair do quarto, com a vista ainda turva, e meio
atordoado, tropeou na ponta de um tapete. O grito que deu fez khala Jamila sair
correndo da cozinha.
 Parecia at um jaroo, um cabo de vassoura se partindo no meio  repetia
sempre, embora o mdico tenha garantido que era muito pouco provvel que ela
pudesse ter ouvido algo semelhante.
A bacia fraturada e todas as complicaes que o general teve por conta disso 
como pneumonia, septicemia, a estada prolongada em uma clnica  acabaram com
os interminveis solilquios de khala Jamila sobre a sua prpria sade. E deram
incio a outros tantos sobre a do general. Contava, para quem quisesse ouvir, que os
mdicos tinham dito que os rins de seu marido no estavam funcionando bem.
 Mas  que eles nunca tinham visto rins afegos, no  mesmo?  dizia ela,
orgulhosa. De todo o tempo em que o general esteve no hospital, o que mais me lembro
 como khala Jamila sempre esperava o marido pegar no sono e, ento, cantava para
ele canes que eu j tinha ouvido l em Cabul, no velho transistor de baba que
tanto chiava.
A fragilidade do general  e tambm o tempo  tinham abrandado as coisas
entre ele e Soraya. Agora, os dois passeavam juntos, iam almoar aos sbados, e, s
vezes, ele ia assistir a uma de suas aulas. Sentava no fundo da sala, usando o velho
terno cinza lustroso, com a bengala pousada no colo, sorrindo. De quando em quando,
chegava at a tomar notas.
NAQUELA NOITE, SORAYA E EU estvamos deitados, com as costas dela apertadas contra
o meu peito e o meu rosto mergulhado nos seus cabelos. Lembrei da poca em
que ficvamos um de frente para o outro, testa encostada em testa, trocando beijos
depois de fazer amor, sussurrando coisas sobre dedinhos midos e dobrados,
primeiros sorrisos, primeiras palavras, primeiros passos. De vez em quando ainda
fazamos isso, mas os sussurros eram sobre aulas ou meu novo livro, e os risos eram
por causa de um vestido ridculo que tnhamos visto em uma festa. Continuava sendo
bom quando fazamos amor; s vezes at mais que bom. Algumas noites, porm,
eu me sentia aliviado por ter terminado, e porque estava livre para me afastar e
esquecer, ao menos por algum tempo, a inutilidade do que tnhamos acabado de fazer.
Ela nunca disse nada disso, mas eu sabia que, por vezes, Soraya sentia a mesma
coisa. Nessas noites, cada um virava para o seu lado e se deixava levar pelo seu
prprio salvador. O de Soraya era o sono. O meu, como sempre, um livro.
Naquele dia em que Rahim Khan telefonou, fiquei deitado na cama
acompanhando com os olhos as linhas paralelas e prateadas que a lua traava na
parede passando atravs das venezianas. A certa altura, talvez pouco antes do
amanhecer, acabei pegando no sono. E sonhei com Hassan correndo na neve, a ponta
do seu chapan verde arrastando no cho, a neve rangendo sob suas galochas pretas.
Ele olhava para trs e gritava: "Por voc, faria isso mil vezes!"
UMA SEMANA DEPOIS, ESTAVA SENTADO junto da janela de um avio da Pakistani
International Airlines, vendo uns dois funcionrios uniformizados retirarem os calos
das rodas. O avio taxiou, foi se afastando do terminal de embarque, e, em pouco
tempo, estvamos voando, passando por entre as nuvens. Recostei a cabea na janela.
E fiquei esperando em vo que o sono viesse.

QUINZE
TRS HORAS DEPOIS DE O MEU AVIO ter aterrissado em Peshawar, eu estava sentado no
estofamento esmolambado do banco traseiro de um txi todo enfumaado. O
motorista, que fumava um cigarro atrs do outro, era um homenzinho suarento que
disse se chamar Gholam e que ia dirigindo com displicncia e imprudncia, tirando
finos incrveis dos outros veculos. E tudo isso sem fazer praticamente nenhuma pausa
na interminvel avalanche de palavras que jorrava de sua boca.
 ... terrvel o que est acontecendo no seu pas, yar. O povo afego e o povo
paquistans so como irmos, no tenha dvida. Os muulmanos devem ajudar outros
muulmanos, por isso...
Para faz-lo calar, adotei uma atitude educada, mas fria, apenas assentindo com
a cabea. Lembrava bastante bem de Peshawar, por causa daqueles poucos meses que
baba e eu tnhamos passado aqui em 1981. Estvamos agora rumando para oeste, pela
avenida Jammud deixando para trs o Cantonment do tempo dos ingleses, com a sua
profuso de casas cercadas de muros altos. O tumulto da cidade que passava correndo
por mim parecia uma verso mais populosa e movimentada da Cabul que eu conhecia,
especialmente o Kocheh-Morgha ou mercado de galinhas, onde Hassan e eu amos
comprar batatas ao chutney e gua-de-cerejas. As ruas eram atravancadas por ciclistas
pedestres que iam e vinham, e riquixs que soltavam uma fumaa azulada, todos
zanzando por um labirinto de becos e ruelas estreitos. Mercadores barbudos, envoltos
em mantas leves, vendiam abajures de pele, tapetes, xales bordados e utenslios de
cobre em fileiras de barracas midas, todas elas bem coladas umas s outras. A cidade
era extremamente barulhenta: os gritos dos mercadores retiniam nos meus ouvidos,
misturando-se com os sons da msica indiana, dos motores dos riquixs e das sinetas
das carroas puxadas por cavalos. Odores fortes, tanto agradveis quanto ruins,
chegavam at mim pela janela do txi; o aroma picante do pakora e dos nihari, que baba
teria adorado, se fundiam com o cheiro de diesel, com o fedor de lixo, de coisas podres
e de fezes.
Um pouco depois de passarmos pelos prdios de tijolos vermelhos da Universidade
de Peshawar, penetramos em um setor que o meu motorista tagarela chamou de
"Cidade Afeg". Vi confeitarias e vendedores de tapetes, barracas de kabob, crianas
com mos imundas vendendo cigarros, minsculos restaurantes  com mapas do
Afeganisto pintados nas janelas  e, no meio disso tudo, agncias humanitrias de
fundo de quintal.
 H muitos de seus irmos nessa regio, yar. Esto abrindo alguns negcios,
mas a maioria deles  bem pobre.  Fez um "tsc" com a lngua e suspirou.  Bom,
mas estamos quase chegando...

Pensei na ltima vez que tinha visto Rahim Khan, em 1981. Ele veio se despedir
na noite em que meu pai e eu fugimos de Cabul. Lembro que baba e ele se abraaram
no saguo, chorando baixinho. Depois que chegamos aos Estados Unidos, eles
mantiveram contato. Falavam-se umas quatro ou cinco vezes por ano, e, s vezes,
baba me passava o telefone. A ltima vez que falei com Rahim Khan foi pouco depois
da morte de baba. A notcia tinha chegado a Cabul e ele me telefonou. S
conseguimos falar por alguns minutos e, depois, a ligao caiu.
O motorista encostou diante de um edifcio estreito, em uma esquina
movimentada onde duas ruas sinuosas se cruzavam. Paguei a corrida, apanhei a minha
nica mala e entrei pela porta toda esculpida. O prdio tinha umas varandas de madeira,
com venezianas abertas, e, em vrias delas, havia roupas penduradas secando ao sol.
Subi at o segundo andar, pelas escadas que rangiam, e percorri um corredor meio
escuro at chegar  ltima porta  direita. Verifiquei o endereo anotado no papel de
carta que tinha nas mos. Bati.
Ento, uma coisa feita de ossos e pele que dizia ser Rahim Khan veio abrir a
porta.
UM PROFESSOR DE REDAO LITERRIA que tive na San Jose State sempre dizia, referindo-se
aos clichs: "Tratem de evit-los como se evita uma praga." E ria da prpria piada. A
turma toda ria junto com ele, mas sempre achei que aquilo era uma tremenda injustia.
Porque, muitas vezes, eles so de uma preciso impressionante. O problema  que a
adequao das expresses-clichs  ofuscada pela natureza da expresso enquanto
clich. Por exemplo, aquela histria do "esqueleto no armrio". Nada melhor para
descrever os momentos iniciais do meu encontro com Rahim Khan.
Sentamos em um colcho fininho encostado  parede, defronte da janela que dava
para a rua barulhenta logo abaixo. O sol penetrava no aposento, desenhando um
tringulo de luz no tapete afego que recobria o assoalho. Havia duas cadeiras
dobrveis apoiadas em uma das paredes e um pequeno samovar de cobre no canto
oposto. Servi ch para ns dois.
 Como foi que voc me encontrou?  perguntei.
 No  difcil localizar pessoas nos Estados Unidos. Comprei um mapa e
telefonei pedindo informaes para as cidades do norte da Califrnia  disse ele. 
 maravilhosamente estranho ver voc como um adulto.
Sorri e pus trs cubinhos de acar no meu ch. Lembrei que ele gostava do seu
forte e amargo.
 Baba no teve oportunidade de lhe contar, mas me casei h quinze anos. 
Na verdade, naquela poca, o cncer no crebro tinha deixado baba esquecido,
desligado.
 Voc est casado? Com quem?
 O nome dela  Soraya Taheri.  Pensei nela, l em casa, preocupada comigo.
Era bom saber que no estava sozinha.
 Taheri...  filha de quem?
Quando eu lhe disse, seus olhos brilharam.
 Ah, sim. Agora estou me lembrando. O general Taheri no  casado com a
irm de Sharif jan? Como era mesmo o nome dela...?
 Jamila jan.

 Balay!  exclamou ele sorrindo.  Conheci Sharif jan em Cabul, h muito
tempo, antes de ele ir morar nos Estados Unidos.
 Ele trabalha h anos no servio de imigrao, tratando de inmeros casos
de afegos.
 Haiii!  suspirou Rahim Khan.  Voc e Soraya jan tm filhos?
 No.
Ah!
Tomou um gole do seu ch e no fez mais nenhuma pergunta. Rahim Khan
sempre foi uma das pessoas mais intuitivas que conheci.
Falei muito sobre baba, o seu emprego, a feirinha de antiguidades e contei como,
no final, ele morreu feliz. Falei dos meus estudos, dos meus livros  a essa altura, j
tinha quatro romances publicados. Ele sorriu ao ouvir isso e disse que jamais tivera
dvida alguma a este respeito. Contei tambm que tinha escrito contos no caderno
encapado de couro que ele tinha me dado, mas ele j no se lembrava do tal caderno.
Como seria de se esperar, a conversa acabou descambando para o Talib.
  mesmo to ruim quanto se diz?  perguntei.
 No.  pior. Muito pior  respondeu ele.  Eles no permitem que a gente
seja humano.  Apontou para uma cicatriz acima do seu olho direito, que abria uma
trilha sinuosa nas suas espessas sobrancelhas.  Eu estava assistindo a um jogo de
futebol, no estdio Ghazi, em 1998. Acho que era Cabul contra Mazar-i-Sharif, e,
diga-se de passagem, os jogadores eram proibidos de usar cales. Trajes indecentes,
acho eu.  Deu uma risada cansada.  L pelas tantas, Cabul marcou um gol e o
homem que estava ao meu lado comemorou aos berros. De repente, um rapaz barbado
que patrulhava a arquibancada, e que no aparentava ter mais de dezoito anos, veio
na minha direo e me acertou na testa com a coronha do seu Kalashnikov. "Se fizer
isso outra vez, corto a sua lngua fora, seu burro velho!", esbravejou ele.  Rahim
Khan esfregou a cicatriz com o dedo retorcido.  Eu tinha idade para ser av dele e,
de repente, estava sentado ali, com o sangue escorrendo pelo rosto, pedindo desculpas
quele filho-da-me.
Fui apanhar mais ch para ele. Rahim Khan ainda falou por algum tempo. A maior
parte do que contou eu j sabia; outras coisas, no. Disse que, como tinham
combinado, ele ficou morando em nossa casa desde 1981.  Isso eu sabia. Baba tinha
"vendido" a casa para Rahim Khan pouco antes de fugirmos de Cabul. Naquela
poca, meu pai achava que os problemas do Afeganisto eram apenas uma interrupo
temporria na vida que levvamos  os dias de festa na casa de Wazir Akbar Khan e
os piqueniques em Paghman voltariam a existir, com toda certeza. Entregou ento a
casa a Rahim Khan, para que ele cuidasse de tudo at que esse dia chegasse.
Rahim Khan me contou que, quando a Aliana do Norte assumiu o controle de
Cabul, entre 1992 e 1996, as diversas faces reivindicaram diferentes reas da cidade.
 Se voc sasse de Shar-e-Nau e fosse a Kerteh-Parwan para comprar um
tapete, corria o risco de ser atingido por um atirador escondido em algum lugar, ou
ento de ser morto por um mssil. Isso,  claro, se conseguisse passar por todos os
postos de controle  acrescentou.  Precisvamos praticamente de um visto para ir
de um bairro a outro. Por isso, todo mundo acabava simplesmente ficando quieto,
rezando para que o prximo mssil no casse em cima da sua casa.
Contou tambm que as pessoas foram abrindo buracos nas paredes de suas casas
para evitar as ruas to perigosas e poder circular pelo quarteiro passando de buraco

em buraco. Em outros locais, tinha gente que circulava atravs de tneis
subterrneos.
 Por que voc no foi embora de l?  perguntei.
 Cabul era o meu lar. E continua sendo  disse ele com um risinho. 
Lembra daquela rua que ia de sua casa at o Qishla acampamento militar perto da
escola Istiqlal?
 Claro.  Era o atalho para chegar  escola. Lembrei daquele dia em que
Hassan e eu passamos por ali e os soldados ficaram debochando da me dele. Mais
tarde, no cinema, Hassan chorou, e eu passei o brao em seus ombros.
 Quando o Talib entrou em Cabul e expulsou a Aliana do Norte, cheguei
a danar no meio da rua  disse Rahim Khan.  E, acredite, no fui o nico. As
pessoas comemoravam em Chaman, em Deh-Mazang, saudando os talib pelas ruas,
subindo nos seus tanques e posando com eles para fotografias. Todos estavam to
cansados da luta incessante; to cansados dos msseis, dos tiroteios, das exploses;
cansados de ver Gulbuddin e seus asseclas atirando em qualquer coisa que se
mexesse... E, afinal, a Aliana causou mais danos a Cabul do que os shorawi. Ela
destruiu o orfanato de seu pai, sabia disso?
 Por qu?  perguntei eu.  Por que destruir um orfanato?  Lembrei de
ter ficado sentado atrs de baba no dia da inaugurao. O vento tinha tirado seu barrete
e todo mundo riu. Depois, quando terminou o seu discurso, todos aplaudiram de p.
E, agora, aquilo tudo era apenas mais um monte de escombros. Todo o dinheiro que
baba gastou, todas as noites em que suou debruado sobre as plantas baixas, todas as
visitas ao canteiro de obras para se assegurar de que cada tijolo, cada viga, cada pedra
estavam sendo postos direito...
 Danos colaterais  disse Rahim Khan.  No queira saber, Amir jan, o que
foi circular pelos destroos do orfanato. Havia pedaos de corpos de crianas...
 Ento, quando o Talib chegou...
 Eles foram considerados heris  retomou ele.
 Finalmente, a paz.
 . A esperana  uma coisa estranha. Finalmente, a paz. Mas a que preo?
 Rahim Khan teve um violento acesso de tosse que sacudiu o seu corpo esqulido
para frente e para trs. Quando cuspiu no leno, este se tingiu imediatamente de
vermelho. Achei que o momento no podia ser melhor para me referir ao tal esqueleto
que j estava suando entre ns dentro daquele quarto minsculo.  Como voc est?
 perguntei.  Como est mesmo?
 Na verdade, morrendo  respondeu ele, com a voz embargada. Mais um acesso
de tosse. Mais sangue no leno. Ele enxugou a boca, secou a testa magrrima com a
manga da camisa e me deu uma rpida olhadela. Quando assentiu com a cabea, vi que
tinha lido no meu rosto a prxima pergunta que eu pretendia fazer.  No vai tardar
 acrescentou, em um sussurro.
 Quanto tempo?
Ele deu de ombros. Tossiu de novo.
 No acredito que v chegar a ver o final deste vero  disse ele.
 Deixe que eu o leve comigo para casa. Posso procurar um bom mdico. Eles
esto sempre descobrindo novos tratamentos. H novas drogas e terapias
experimentais. Podemos inscrev-lo em um desses programas...  Estava
divagando, e sabia disso. Mas era melhor do que cair no choro, coisa que
provavelmente acabaria fazendo de qualquer maneira.
Rahim Khan deu uma risadinha, mostrando a falta dos incisivos inferiores. Foi
o riso mais cansado que jamais ouvi.
 Pelo que vejo, os Estados Unidos infundiram em voc o otimismo que fez
deles um grande pas. Isso  timo. Ns, os afegos, somos um povo melanclico,
no somos? Quase sempre ficamos chafurdando em ghamkhori e autopiedade.
Damo-nos por vencidos diante das perdas, do sofrimento; aceitamos tudo isso como
um fato da vida ou chegamos at a consider-lo algo necessrio. Zendagi migzara,
como dizemos, a vida continua... Mas, agora, no estou me rendendo ao destino; estou
sendo pragmtico. J consultei vrios bons mdicos por aqui, e todos me deram a
mesma resposta. Confio neles e acredito no que disseram. A vontade de Deus existe
mesmo.
 S existe o que voc faz e o que deixa de fazer  disse eu.
Rahim Khan riu.
 Parece at seu pai falando. Sinto tanta falta dele... Mas  a vontade de Deus
mesmo, Amir jan. De verdade.  Calou-se por um instante.  Alm disso, no foi s
por este motivo que pedi a voc que viesse at aqui.  claro que queria v-lo antes de
partir, mas h ainda outra coisa.
 O que voc quiser.
 Sabe esses anos que morei na casa de seu pai depois que vocs foram embora?
 Sei.
 No fiquei sozinho durante todo esse tempo. Hassan estava morando l
comigo.
 Hassan...  disse eu. Quando foi a ltima vez que pronunciei o nome dele?
Aquelas velhas farpas pontiagudas de culpa surgiram novamente dentro de mim,
como se a simples meno quele nome houvesse quebrado o encanto, deixando-as
livres para me atormentarem outra vez. De repente, o ar no pequeno apartamento de
Rahim Khan ficou pesado demais, quente demais, impregnado demais pelos
cheiros da rua.
 Pensei em escrever para voc contando tudo isso antes, mas achei que talvez
preferisse no ficar sabendo. Estava enganado?
A resposta verdadeira era no. A mentirosa era sim. Procurei ficar no meio-termo.
 No sei.
Ele tossiu, cuspindo mais uma placa de sangue no leno. Quando baixou a
cabea, vi feridinhas com crostas escuras em seu couro cabeludo.
 Trouxe voc aqui porque tenho uma coisa a lhe pedir. Quero que faa algo
por mim. Antes disso, porm, queria lhe falar sobre Hassan. Entende?
 Entendo.
 Quero lhe falar dele. Quero contar tudo. Vai me ouvir?
Fiz que sim com a cabea.
Ento, Rahim Khan tomou mais um gole de ch. Recostou a cabea na parede e
comeou a falar.

DEZESSEIS
 FORAM INMEROS OS MOTIVOS que me levaram a Hazarajat, em 1986, para procurar por
Hassan. O maior de todos, que Allah me perdoe, era que estava me sentindo muito
sozinho. Nessa poca, quase todos os meus amigos e parentes tinham sido mortos ou
tinham fugido do pas, vindo para o Paquisto ou indo para o Ir. J no conhecia
praticamente ningum em Cabul, a cidade onde tinha passado a minha vida inteira.
Todo mundo tinha ido embora. Se ia dar uma volta no bairro Karteh-Parwan  onde
antigamente os vendedores de melo costumavam fazer ponto, lembra do lugar? ,
no reconhecia ningum por l. No tinha ningum a quem cumprimentar, ningum
com quem sentar para tomar um chai, ningum que conhecesse as mesmas histrias que
eu. S os soldados roussi patrulhando as ruas. Acabei, ento, deixando de ir  cidade.
Passava os dias na casa de seu pai, l em cima, no escritrio, lendo os velhos livros de
sua me, ouvindo as notcias, vendo propaganda comunista na televiso. Depois, fazia
a namaz, cozinhava alguma coisa, comia, lia um pouco mais, voltava a rezar, e ia para
a cama. Levantava de manh, rezava, e comeava tudo de novo.
"E, por causa da minha artrite, estava ficando cada vez mais difcil cuidar da casa.
Vivia com dores nos joelhos e nas costas. Quando acordava de manh levava pelo
menos uma hora para conseguir desenrijecer as articulaes, principalmente no
inverno. No queria deixar que a casa de seu pai ficasse caindo aos pedaos; tnhamos
passado tantas horas felizes ali, havia tantas recordaes, Amir jan... No era certo. Foi
seu pai mesmo quem projetou aquela casa; sei que significava muito para ele, e, alm
de tudo, eu tinha lhe prometido que zelaria por ela quando vocs vieram para o
Paquisto. Agora, era s eu e a casa e... fiz o mximo que pude. Tentava regar as
rvores com freqncia, aparar a grama, cuidar das flores, consertar o que precisasse
ser consertado, mas, afinal de contas, eu j no era mais jovem.
"Mesmo assim, poderia ter dado um jeito nisso tudo. Ao menos por mais algum
tempo. Mas, quando recebi a notcia da morte de seu pai... pela primeira vez senti
uma solido terrvel dentro daquela casa. Um vazio insuportvel.
"Ento, um dia, enchi o tanque do Buick e fui para Hazarajat. Lembrava que,
depois que Ali resolveu ir embora de sua casa, seu pai me disse que ele e Hassan
tinham se mudado para uma cidadezinha nos arredores de Bamiyan. Sabia tambm
que Ali tinha um primo morando l. No tinha a menor idia se Hassan ainda estaria
com ele, se algum o conhecia ou sabia do seu paradeiro. Afinal, j fazia dez anos que
Ali e Hassan tinham deixado a casa de seu pai. Ele j seria um homem em 1986, com
vinte e dois ou vinte e trs anos. Se  que estava vivo, pois os shorawi  que
apodream no inferno por tudo o que fizeram ao nosso watan  mataram tantos dos
nossos jovens... Bom, mas no preciso lhe dizer isso.
"Com a graa de Deus, porm, consegui encontr-lo. Nem foi preciso procurar
muito, bastou fazer algumas perguntas em Bamiyan e as pessoas me indicaram onde
ficava a tal aldeia. Nem sei como se chamava; sequer sei dizer se tinha um nome.
Mas lembro que era um dia de vero escaldante e eu estava dirigindo por uma
estradinha de terra. De ambos os lados, s se viam arbustos estorricados e
retorcidos, troncos de rvores cheios de espinhos e mato que mais parecia palha de
to ressecado. Passei por uma carcaa de burro que apodrecia na beira da estrada.
Logo depois, fiz uma curva e, bem no meio daquela tenra rida, avistei um punhado
de casebres de pau-a-pique. Mais alm, s o cu imenso e umas montanhas que
pareciam dentes pontiagudos.
"As pessoas de Bamiyan tinham me dito que seria fcil encontr-lo, pois ele
morava na nica casa da aldeia que possua um jardim cercado. O muro de barro,
baixo e repleto de furos, contornava a casa minscula que, na verdade, no passava
de um casebre bem apresentado. Crianas descalas brincavam na rua, rebatendo
uma velha bola de tnis com um pedao de pau, e ficaram olhando quando encostei o
carro e desliguei o motor. Bati no porto de madeira e entrei em um quintal que
no tinha quase nada, a no ser um canteirinho de morangos ressecado e um limoeiro
sem folhas. No canto, havia um tandoor,  sombra de uma accia, e vi um homem
agachado junto dele. Estava pondo massa em uma grande esptula de madeira e
atirando-a com fora nas paredes do tandoor. Quando me viu, deixou cair a massa.
Tive de cont-lo para que parasse de beijar as minhas mos.
'"Deixe-me olhar para voc', disse eu. Ele deu um passo atrs. Tinha ficado to
alto que, mesmo na ponta dos ps, eu s batia na altura do seu queixo. O sol de
Bamiyan tinha enrijecido a sua pele e, pelo que me lembrava, ele no era to moreno
assim antes. Alm do mais, tinha perdido alguns dentes da frente e havia uns plos
esparsos no seu queixo. Afora isso, eram os mesmos olhos verdes puxados, aquela
cicatriz acima do lbio superior, o rosto redondo, o sorriso afvel. Voc o teria
reconhecido, Amir jan. Tenho certeza que sim.
"Fomos para dentro. Havia uma jovem hazara de pele clara costurando um xale
em um canto da sala. Via-se nitidamente que estava grvida. 'Esta  minha mulher,
Rahim Khan', disse Hassan todo orgulhoso. 'Ela se chama Farzana jan.' A moa era
tmida, mas muito gentil. Falou em tom pouco mais alto que um sussurro e no
ergueu os belos olhos castanho-claros para me encarar. No entanto pelo seu jeito de
fitar Hassan, era como se ele estivesse sentado no trono do Arg.
"'E para quando, o beb?', perguntei, depois que j tnhamos nos sentado na sala
de cho de terra batida. No havia nada ali, a no ser um tapete gasto, uns poucos
pratos, um par de colches e uma lamparina.
"'Inshallah, no prximo inverno', disse Hassan. 'Estou rezando para que seja um
menino, pois lhe darei o nome de meu pai.'
"'Por falar em Ali, onde est ele?', indaguei.
"Hassan baixou os olhos. Disse que Ali e o primo deles  o dono daquela casa 
tinham morrido na exploso de uma mina terrestre, dois anos antes, nos arredores de
Bamiyan. Uma mina terrestre. Existe jeito mais afego de morrer, Amir jan? E, por
algum motivo meio louco, tive de imediato a certeza de que havia sido a perna
direita de Ali, a perna deformada pela plio, que o tinha finalmente trado, fazendo-o
pisar na tal mina. Fiquei tristssimo ao saber que Ali estava morto. Seu pai e eu
crescemos juntos, como sabe, e, desde que me entendo por gente, Ali sempre esteve
conosco. Lembro, quando ramos todos pequenos, do ano em que Ali pegou a plio e
quase morreu. Seu pai passava o dia inteiro rodando pela casa, chorando.
"Farzana preparou shorwa com feijo, nabo e batata. Lavamos as mos e
mergulhamos naan fresquinho, sado do tandoor, naquela shorwa, e foi a melhor
refeio que comi em vrios meses. Foi ento que pedi a Hassan que viesse comigo
para Cabul. Falei da casa, disse-lhe que no estava mais agentando cuidar dela
sozinho. Disse tambm que lhe pagaria bem, que ele e a sua khanum ficariam bem
instalados. Os dois se entreolharam e no disseram nada. Mais tarde, depois que
lavamos as mos e Farzana nos serviu umas uvas, Hassan disse que, agora, aquela
aldeia era o seu lar; que ele e Farzana tinham construdo uma vida ali.
"'E Bamiyan fica bem perto. Conhecemos muita gente l. Perdoe-me, Rahim
Khan. Entenda, por favor.'
"'Claro que sim', disse eu. 'No precisa se desculpar. Eu compreendo.'
"Estvamos tomando ch, depois da shorwa, quando Hassan perguntou por
voc. Disse-lhe que estava vivendo nos Estados Unidos, mas que no sabia muito mais
que isso. Hassan queria saber muitas coisas. Se voc estava casado. Se tinha filhos. Que
altura tinha. Se ainda empinava pipas e ia ao cinema. Se era feliz. Disse tambm que tinha
ficado amigo de um velho professor de farsi em Bamiyan, e que este tinha lhe ensinado a
ler e a escrever. Queria saber se lhe escrevesse uma carta eu a faria chegar at voc. E se
achava que voc responderia. Disse a ele que tudo o que sabia a seu respeito vinha das
conversas por telefone com seu pai, mas que no podia responder  maioria das
perguntas que estava me fazendo. Ele quis saber ento de seu pai. Quando lhe contei,
Hassan enfiou o rosto entre as mos e caiu no choro. Chorou como uma criana pelo
resto da noite.
"Os dois insistiram para que eu ficasse para dormir. Farzana arrumou uma cama
para mim e deixou um copo com gua para o caso de eu ficar com sede. Durante a
noite toda, ouvi que ela lhe falava baixinho e ele soluava.
"Pela manh, Hassan me disse que Farzana e ele tinham decidido ir comigo para
Cabul.
"'Eu no devia ter vindo at aqui', afirmei. 'Vocs estavam bem, Hassan jan.
Tinham uma zendagi, uma vida neste lugar. Fui muito presunoso aparecendo assim,
de repente, e pedindo que vocs abandonassem tudo. Eu  que preciso ser perdoado.'
"'No temos muita coisa para abandonar, Rahim Khan', retrucou Hassan. Seus
olhos ainda estavam vermelhos e inchados. 'Vamos com voc. Vamos ajud-lo a cuidar
da casa.'
"'Tm certeza de que  o que querem fazer?' "Ele assentiu e baixou a cabea.
'Agha sahib era como meu segundo pai... Que Deus o tenha.'
"Empilharam os seus pertences no meio de uns poucos pedaos de pano e
amarraram os cantos para fazer umas trouxas. Pusemos tudo aquilo no Buick. Hassan
ficou parado na porta da casa, segurando o Coro para ns o beijarmos e passarmos
por baixo dele. Depois seguimos viagem para Cabul. Lembro que, enquanto saa com o
carro, Hassan se virou para ver a casa pela ltima vez.

"Quando chegamos em Cabul, descobri que Hassan no tinha a menor inteno
de ir morar dentro da casa. 'Mas todos esses quartos esto vazios, Hassan jan.
Ningum vai vir morar aqui', disse eu.
"Ele, porm, no quis de jeito nenhum. Disse que era uma questo de ihtiram,
uma questo de respeito. Farzana e ele levaram as suas coisas para o casebre do
quintal, onde ele nasceu. Implorei que viessem para um dos quartos de hspedes, no
andar de cima, mas no houve meios de convenc-lo. 'O que Amir agha vai pensar?'
perguntou ele. 'O que vai pensar quando voltar para Cabul depois da guerra e
descobrir que assumi o lugar dele nesta casa?' Ento, em sinal de luto por seu pai, ele
se vestiu de preto durante os quarenta dias que se seguiram  nossa chegada.
"No queria que fosse assim, mas os dois se encarregaram da cozinha e da
limpeza. Hassan passou a cuidar das flores do jardim: regava as razes, cortava as
folhas amareladas, e plantou roseiras. Pintou tambm as paredes. Dentro da casa,
varreu os quartos onde ningum dormia h tantos anos e limpou os banheiros que
ningum mais usava. Era como se estivesse preparando a casa para o retorno de
algum. Lembra daquele muro perto do canteiro de milho que seu pai tinha plantado,
Amir jan? Aquele que vocs chamavam de 'muro do milho doente'? Um mssil destruiu
boa parte dele no meio da noite, em princpios do outono. Hassan refez o muro com as
prprias mos, tijolo a tijolo, at que ele ficasse intacto novamente. No sei o que teria
feito se ele no estivesse ali comigo.
"Ento, em fins do outono, Farzana deu  luz uma menina que nasceu morta.
Hassan beijou o rosto sem vida do beb e ns a enterramos no quintal, perto das rosas
amarelas. Cobrimos aquele montinho de terra com folhas de choupo. Rezei uma
prece por ela. Farzana ficou o dia inteiro na cabana, se lamentando.  de cortar o
corao, Amir jan, ouvir os lamentos de uma me. Rogo a Allah que voc nunca venha
a ouvi-los.
"Do outro lado do muro daquela casa, a guerra devastava tudo. Ns trs, porm,
ali na casa de seu pai, tnhamos criado um pequeno porto seguro para nos proteger
dela. Comecei a perder a viso em fins de 1980 e, assim, Hassan passou a ler para mim
os livros de sua me. Sentvamos no saguo, perto do fogareiro, e ele lia trechos do
Masnawi ou de Khayyam, enquanto Farzana preparava a comida na cozinha. E, toda
manh, Hassan punha uma flor na pequena cova perto das rosas amarelas.
"Em princpios de 1990, Farzana engravidou novamente. Naquele mesmo ano, em
meados do vero, uma mulher usando uma burqa azul-clara bateu no porto da frente
certa manh. Quando fui at l, vi que ela cambaleava, como se estivesse fraca demais
para se manter de p. Perguntei-lhe o que queria, mas ela no respondeu.
'Quem  voc?', indaguei. Ela, porm, caiu ali mesmo, na calada. Gritei por
Hassan e ele veio me ajudar a carreg-la para dentro da casa, at a sala de visitas.
Deitamos a desconhecida no sof e tiramos a sua burqa. O que descobrimos foi uma
mulher desdentada, com cabelos sujos que comeavam a ficar grisalhos, e feridas nos
braos. Parecia no comer h dias. Mas o pior de tudo era o seu rosto. Algum tinha lhe
dado uma facada e... Amir jan, os talhos atravessavam aquele rosto de um lado a outro.
Um deles subia do maxilar at a raiz dos cabelos, e, no caminho, no poupou o olho
esquerdo. Era grotesco. Molhei a sua testa com um pano mido e ela abriu os olhos.
'Onde est Hassan?', perguntou com um fio de voz.
"'Bem aqui', disse ele. Pegou a mo dela e a apertou.

"O olho vlido da mulher o fitou. 'Andei muito, vindo de bem longe, s para ver
se voc era to bonito pessoalmente quanto nos meus sonhos. E . At mais', e levou a
mo dele at o rosto desfigurado. 'Sorria para mim. Por favor.'
"Hassan sorriu e a mulher comeou a chorar. 'Voc sorriu quando saiu de mim,
algum lhe contou isso? E eu nem sequer o segurei nos braos. Que Allah me perdoe,
mas eu nem sequer o segurei nos braos.'
"Nenhum de ns tinha voltado a ver Sanaubar desde que ela fugiu com uma trupe
de cantores e bailarinos, em 1964, logo depois de dar  luz Hassan. Voc no chegou
a conhec-la, Amir jan, mas, em jovem, ela era deslumbrante. Tinha covinhas quando
ria e um jeito de andar que deixava os homens enlouquecidos. Ningum passava por
ela na rua, fosse homem ou mulher, sem se virar para v-la de novo. E, agora...
"Hassan soltou a mo da mulher e saiu correndo porta afora. Fui atrs dele,
mas no consegui alcan-lo. Vi que estava subindo aquela colina onde vocs iam
brincar, e os seus ps levantavam nuvens de poeira do cho. Deixei que se fosse. Fiquei o
dia inteiro sentado junto de Sanaubar, enquanto o cu ia passando de azul brilhante a
arroxeado. Quando anoiteceu, e a lua veio banhar as nuvens, Hassan ainda no tinha
voltado. Sanaubar chorava dizendo que aparecer ali tinha sido um erro, talvez pior at
do que ir embora. Mas consegui convenc-la a ficar. Sabia que Hassan ia acabar
voltando.
"Ele voltou na manh seguinte, com um ar cansado e abatido como se tivesse
passado a noite em claro. Pegou a mo de Sanaubar entre as suas e disse que ela podia
chorar, se quisesse, mas que no precisava mais fazer isso porque, agora, estava em
casa, em casa com a sua famlia. Tocou as cicatrizes em seu rosto e afagou os seus
cabelos.
"Hassan e Farzana cuidaram dela at que se recuperasse. Davam-lhe comida e
lavavam as suas roupas. Mandei que ela se instalasse em um dos quartos de hspedes
do andar de cima. s vezes, olhando pela janela, via Hassan e a me juntos no quintal,
ajoelhados, colhendo tomates ou ajeitando uma roseira, e conversando. Estavam
recuperando todos aqueles anos perdidos, suponho eu. Pelo que sei, ele nunca
perguntou por onde ela tinha andado ou por que tinha ido embora, e ela nunca contou.
Acho que certas histrias no precisam ser contadas.
"Foi Sanaubar que fez o parto do filho de Hassan, naquele inverno de 1990. Ainda
no tinha comeado a nevar, mas os ventos gelados j sopravam pelos quintais,
agitando as flores nos canteiros e fazendo as folhas farfalharem. Lembro de Sanaubar
saindo do casebre com o neto nos braos, todo enrolado em um cobertor de l. Ficou
ali parada, radiante, sob aquele cu cinzento e carregado, com as lgrimas rolando pelo
rosto, com o vento cortante desmanchando o seu cabelo, e segurando aquele beb nos
braos como se jamais fosse deix-lo. No dessa vez. Entregou a criana a Hassan, que
o passou para mim, e cantei a orao do Ayat-ul-kursi nos seus ouvidos.
"Deram-lhe o nome de Sohrab, que, como voc bem sabe, Amir jan,  o heri
favorito de Hassan do Shahnamah. Era um garotinho lindo, doce como acar, e tinha
o mesmo gnio do pai. Voc precisava ver Sanaubar com o neto, Amir jan. Ele se
tornou o centro da sua existncia. Ela costurava para ele; fazia brinquedos com pedaos
de pau, retalhos e capim seco. Certa vez, quando ele teve febre, a av passou a noite
inteira acordada, e jejuou por trs dias. Queimou isfand para ele, em uma frigideira,
para espantar o nazar, o mau-olhado. Nessa poca Sohrab tinha dois anos, e a
chamava 'Sasa'. Os dois eram inseparveis.

"Ela chegou a v-lo fazer quatro anos e, ento, certa manh, simplesmente no
acordou mais. Parecia calma, em paz, como se no se importasse de morrer naquele
momento. Ns a enterramos no cemitrio da colina, aquele, perto do p de rom, e
rezei uma orao por ela tambm. Foi uma dura perda para Hassan; sempre di mais
ter algo e perd-lo do que no ter aquilo desde o comeo. Entretanto, foi ainda mais
difcil para o pequeno Sohrab. Ele ficava rodando pela casa, procurando por 'Sasa'.
Mas, sabe como so as crianas: em pouco tempo j esqueceram.
"Por essa poca, deve ter sido em 1995, os shorawi tinham sido derrotados e
deixado Cabul, e a cidade estava nas mos de Massoud, de Rabbani e dos mujahedin.
Os combates entre as faces eram acirrados e ningum poderia dizer se aquela
gente viveria para ver o fim de um dia. Acabamos nos habituando a ouvir o assobio
das bombas que caam, a barulheira da artilharia, e nossos olhos ficaram familiarizados
com a viso de homens retirando corpos de pilhas de escombros. Naqueles dias, Amir
jan, Cabul era o mais prximo que se pode chegar da clebre expresso 'inferno na
terra1. Entretanto Allah foi bondoso conosco. A regio de Wazir Akbar Khan no foi
muito atacada e, por isso, no sofremos tanto quanto alguns outros bairros.
"Quando no havia muitos msseis e os tiroteios eram menos cerrados, Hassan
levava Sohrab ao zoolgico, para ver Marjan, o leo, ou ento ao cinema. Ele lhe
ensinou a atirar com o estilingue e, mais tarde, por volta dos oito anos, Sohrab j era
fantstico com aquela arma: podia ficar no terrao e acertar uma pinha apoiada em um
balde l na metade do quintal. Hassan tambm lhe ensinou a ler e a escrever, seu filho
no ia crescer analfabeto como ele prprio. Fiquei muito apegado quele menino, vi ele
dar seus primeiros passos, ouvi quando pronunciou sua primeira palavra. Comprava
livros de histrias na livraria perto do cinema Park, que, agora, tambm foi destruda,
e Sohrab devorava tantos quantos eu lhe trouxesse. Ele me lembrava muito voc, que
tambm adorava ler quando era pequeno Amir jan. s vezes, lia para ele  noite,
brincava de adivinhaes, ensinava-lhe truques com as cartas. Sinto muita saudade
dele.
"No inverno, Hassan levou o filho para correr atrs de pipas. Tnhamos muito
menos campeonatos do que antigamente, pois ningum se sentia em segurana para ficar
nas ruas por muito tempo, mas havia alguns deles, em um ou outro ponto da cidade.
Hassan encarapitava Sohrab nos ombros e l iam eles pelas ruas, correndo atrs das
pipas trepando em rvores para pegar uma que tivesse cado ali. Lembra Amir jan,
como Hassan era bom nisso? E continuava sendo. No final do inverno, Hassan e
Sohrab penduravam nas paredes do corredor principal as pipas que tinham
conseguido apanhar durante todos aqueles meses. E elas ficavam ali, como quadros.
"J lhe disse que, em 1996, todos ns comemoramos quando os talibs
entraram em Cabul e acabaram com aqueles combates dirios. Lembro que, naquela
noite, cheguei em casa e vi Hassan na cozinha, ouvindo rdio. Seus olhos tinham um
ar grave. Perguntei-lhe qual era o problema e ele apenas abanou a cabea. 'Que Deus
ajude os hazaras agora, Rahim Khan sahib\ disse ele.
"'A guerra acabou, Hassan', retruquei. 'Vamos ter paz, Insballah! E felicidade, e
calma. Acabaram-se os msseis, acabaram-se as matanas, acabaram-se os funerais!' Ele,
porm, se limitou a desligar o rdio e me perguntar se eu precisava de algo antes que
fosse se deitar.
"Algumas semanas depois, o Talib proibiu as competies com as pipas. E, dois
anos mais tarde, em 1998, eles massacraram os hazaras em Mazar-i-Sharif."

DEZESSETE
RAHIM KHAN DESCRUZOU AS PERNAS lentamente e recostou a cabea na parede nua, com
aquele cuidado caracterstico das pessoas para quem o mnimo movimento pode
provocar pontadas de dor. L fora um burro zurrava, e algum gritou algo em urdu. O
sol estava comeando a se pr, lanando um brilho avermelhado pelas frestas
existentes entre aqueles prdios caindo aos pedaos.
Voltei a sentir em cheio o impacto da enormidade do que eu tinha feito naquele
inverno e no vero seguinte. Os nomes ressoavam na minha cabea: Hassan, Sohrab,
Ali, Farzana e Sanaubar. Ouvir Rahim Khan mencionar o nome de Ali foi como encontrar
uma velha caixinha de msica empoeirada, que no era aberta h muitos anos; a melodia
comeou a tocar imediatamente. "Quem voc comeu hoje, Babalu? Quem voc comeu,
seu Babalu de olhos puxados?" Tentei evocar o rosto congelado de Ali, ver
efetivamente os seus olhos tranqilos. Mas o tempo pode ser uma coisa bem voraz
 s vezes se apodera de todos os detalhes s para si mesmo.
 Hassan ainda est naquela casa?  perguntei eu.
Rahim Khan levou a xcara aos lbios ressecados e tomou um gole do seu ch.
Depois, apanhou um envelope no bolso do palet e o estendeu na minha direo.
 Tome.  para voc.
Rasguei o envelope lacrado. Dentro dele, encontrei uma foto Polaroid e uma
carta dobrada. Fiquei olhando a foto por um instante.
Um homem alto, usando um turbante branco e um chapan de listras verdes,
estava de p diante de um porto de ferro fundido, tendo, ao seu lado, um menino. O
sol, batendo enviesado pela esquerda, deixava na sombra parte do seu rosto redondo.
Ele fitava a cmera com os olhos apertados e um sorriso que revelava a falta de uns
dois dentes na frente. Mesmo naquela foto um tanto turva, o homem de chapan
transpirava segurana, desenvoltura. Pelo seu jeito de parar, com os ps ligeiramente
afastados, os braos confortavelmente cruzados sobre o peito, a cabea meio inclinada
na direo do sol. Mas, principalmente, pelo seu jeito de sorrir. Olhando para essa
foto, era possvel concluir que aquele homem achava que o mundo tinha sido generoso
para com ele. Rahim Khan tinha razo: eu o teria reconhecido se topasse com ele na
rua. J o menininho estava descalo, com um brao passado na coxa do pai e a cabea
raspada apoiada no seu quadril. Ele tambm sorria e apertava os olhos.

Desdobrei a carta. Estava escrita em farsi. Nenhum ponto tinha sido omitido,
nenhum trao esquecido, nenhuma palavra se misturava com outra  a letra parecia
at infantil de to ntida que era. Comecei a ler:
Em nome de Allah, o mais clemente,
o mais misericordioso,
Amir agha, com os meus mais profundos respeitos,
Farzana jan, Sohrab e eu rezamos para que esta carta mais recente v encontr-lo
com sade e na luz das boas graas de Allah. For favor, transmita os meus melhores
agradecimentos a Rahim Khan sahib por lev-la at voc. Tenho esperanas de poder,
um dia, ter nas mos uma carta sua e ler as notcias da sua vida nos Estados Unidos.
Talvez at uma fotografia sua possa honrar os nossos olhos. Falei muito de voc para
Farzana jan e para Sohrab. Contei-lhes como crescemos juntos, como brincvamos e
corramos pelas ruas. Eles riram muito de todas as travessuras que ns dois
aprontvamos!
Amir agha,
infelizmente, o Afeganisto da nossa infncia j morreu h muito tempo. A
bondade abandonou esta terra e no se pode escapar s matanas. As matanas
constantes. Em Cabul, o medo est por todo lado: pelas ruas, no estdio, nos
mercados. Ele faz parte da nossa vida aqui, Amir agha. Esses selvagens que governam o
nosso watan no tm a mnima noo do que seja decncia humana. Outro dia, fui
com Farzana jan ao mercado para comprar batatas e naan. Ela perguntou ao vendedor
quanto custavam as batatas, mas ele no ouviu. Acho que  um tanto surdo. Ento
Farzana jan falou um pouco mais alto e, de repente, um jovem talib veio correndo e bateu
nas coxas dela com o basto que carregava consigo. A pancada foi to forte que ela
caiu no cho. E ele ficou gritando, xingando e dizendo que o Ministrio do Vcio e da
Virtude no permite que as mulheres falem alto. Ela ficou com uma grande mancha roxa
na perna por vrios dias, mas o que eu poderia fazer, a no ser ficar parado ali, vendo
minha mulher ser espancada? Se brigasse, aquele cachorro certamente me meteria uma
bala, e na maior felicidade! E, depois, o que seria feito de meu Sohrab? As ruas j esto
lotadas de rfos famintos e agradeo diariamente a Allah por estar vivo, no porque
tenha medo de morrer, mas porque, assim, minha mulher tem marido e meu filho no
 rfo.
Gostaria que voc pudesse conhecer Sohrab. Ele  um timo menino. Rahim Khan
sahib e eu lhe ensinamos a ler e a escrever, para que ele no cresa burro como o pai.
E como  bom com aquele estilingue! Levei Sohrab para passear em Cabul algumas
vezes e comprei balas para ele. Ainda existe aquele homem do macaco em Sbar-e-Nau e,
quando o encontramos, pago para que o macaco dance para Sohrab. Voc precisava ver
como ele ri! Vamos quase sempre at o cemitrio da colina. Lembra que sentvamos
debaixo do p de rom para ler histrias do Shahnamah? As secas afetaram muito a
colina e h anos que aquela rvore no d frutos, mas Sohrab e eu ainda nos sentamos
 sua sombra e eu leio para ele histrias do Shahnamah. No preciso lhe dizer que a
sua parte favorita  aquela em que aparece o seu xar, o episdio de Rostam e Sohrab.
Em pouco tempo, j poder ler sozinho. Sou um pai muito orgulhoso e de muita
sorte.
Amir agha,

Rahim Khan sahib est muito doente. Passa o dia inteiro tossindo e tenho visto
sangue na manga da sua camisa quando ele enxuga a boca. Emagreceu bastante e
gostaria que comesse um pouco da shorwa com arroz que Farzana jan prepara para ele.
Mas nunca toma mais que uma ou duas colheradas, e acho at que s faz isso para ser
gentil com Farzana jan. Estou preocupadssimo com esse homem to querido, e rezo por
ele diariamente. Dentro de poucos dias, vai embarcar para o Paquisto, para consultar
alguns mdicos por l e, Inshallah, voltar com boas notcias. Mas, no fundo do meu
corao, temo muito por ele. Farzana jan e eu dissemos ao pequeno Sohrab que Rahim
Khan vai ficar bom. O que podemos fazer? Ele s tem dez anos e adora Rahim Khan
sahib. Os dois so muito apegados um ao outro. Rahim Khan sahib o levava consigo ao
bazaar para comprar bales e biscoitos, mas, agora, est fraco demais para fazer isso.
Tenho sonhado muito ultimamente, Amir agha. De vez em quando, so
pesadelos, como corpos enforcados em campos de futebol, com a grama tingida de
sangue. Acordo sem flego e suando em bicas. No entanto, a maior parte das vezes,
sonho com coisas boas e Allah seja louvado por isso. Sonho que Rahim Khan sahib vai
ficar bom. Sonho que o meu filho cresce e se torna uma pessoa de bem, uma pessoa livre
e importante. Sonho que flores de lawla florescem novamente pelas ruas de Cabul, que a
msica do rubab volta a tocar nas casas de ch e as pipas voam outra vez pelo cu. E
sonho que, um dia, voc vai voltar a Cabul para rever a terra da sua infncia. Se
voltar, encontrar um velho amigo fiel  sua espera.
Que Allah esteja sempre com voc.
Hassan
Li a carta duas vezes. Dobrei o papel e fiquei mais um momento olhando para a
foto. Guardei as duas no bolso.
 Como vai ele?  perguntei.
 Essa carta foi escrita h seis meses, alguns dias antes de eu embarcar para
Peshawar  disse Rahim Khan.  Tirei a foto na vspera da viagem. Fazia um ms
que estava aqui quando recebi um telefonema de um dos meus vizinhos em Cabul,
que me contou a seguinte histria: pouco depois que viajei, comeou a circular o boa
to de que uma famlia hazara estava vivendo sozinha em uma casa enorme de Wazir
Akbar Khan, ou, pelo menos, era o que alegava o Talib. Uns dois oficiais talib vieram
investigar o caso e interrogaram Hassan. Quando ele disse que morava comigo,
acusaram-no de estar mentindo, apesar de vrios vizinhos, inclusive o que me
telefonou, terem confirmado a sua histria. Os talib disseram que ele era um
mentiroso e um ladro, como todos os hazaras, e mandaram que deixasse a casa,
juntamente com sua famlia, antes do anoitecer. Hassan protestou. Mas meu vizinho
disse que os talib olhavam aquela casa enorme... qual foi mesmo a expresso que ele
usou?... ah, sim, "como lobos fitando um rebanho de ovelhas". Disseram a Hassan que
iam se instalar na casa, supostamente para garantir a sua segurana at que eu
estivesse de volta. Hassan protestou novamente. Ento, levaram-no para a rua...  No!  sussurrei eu.
 ...e mandaram que se ajoelhasse...
 No. Oh, Deus, no.
 ...e deram-lhe um tiro na nuca.
 No.

 Farzana veio gritando e os atacou...
 No.
 Mataram-na tambm. Legtima defesa, foi o que alegaram mais tarde...
Tudo o que eu conseguia fazer era ficar balbuciando "No. No No", milhares
de vezes.
FIQUEI PENSANDO NAQUELE DIA DE 1974, no quarto do hospital, pouco depois da cirurgia no
lbio leporino de Hassan. Baba, Rahim Khan, Ali e eu nos amontoamos em volta da
cama, loucos para v-lo examinar o lbio novo no espelho de cabo. Agora, todos os que
estavam naquele quarto j tinham morrido, ou estavam morrendo. Exceto eu.
Ento vi mais alguma coisa: um homem usando uma tnica de tecido espinha-depeixe
pressionando o cano do seu Kalashnikov contra a nuca de Hassan. O disparo
ecoa pela rua onde ficava a casa de meu pai. Hassan desaba no asfalto, com a vida de
lealdade no-correspondida se esvaindo do seu corpo como as pipas levadas pelo vento
que perseguamos.
 O Talib se instalou na casa  prosseguiu Rahim Khan.  A pretexto de
terem expulsado um invasor. Os assassinatos de Hassan e Farzana foram relegados 
condio de caso de legtima defesa. Ningum disse uma palavra a respeito deles. A
maioria por medo do Talib, acho eu. Mas quem  que ia querer se arriscar por um
casal de criados hazaras?
 E o que fizeram com Sohrab?  perguntei. Estava me sentindo cansado,
exaurido. Rahim Khan teve um acesso de tosse que durou um bom tempo. Quando
finalmente ergueu a cabea, tinha o rosto afogueado e os olhos injetados.
 Ouvi dizer que foi levado para um orfanato, em algum ponto de Karteh-Seh.
Amir jan...  E recomeou a tossir. Quando parou parecia mais velho do que h
alguns instantes, como se estivesse envelhecendo a cada acesso de tosse.  Amir jan, eu
lhe pedi que viesse at aqui porque queria v-lo antes de morrer, mas no  s.
Fiquei calado. Acho que j sabia o que ele ia dizer.
 Quero que v a Cabul. Quero que traga Sohrab para c  disse ele.
Fiz um esforo enorme para encontrar as palavras certas. Mal tive tempo de lidar
com o fato de que Hassan estava morto.
 Escute, por favor  prosseguiu ele.  Conheo um casal americano aqui em
Peshawar. Eles se chamam Thomas e Betty Caldwell. So cristos e dirigem uma
pequena organizao beneficente que mantm graas a doaes de particulares.
Tratam, principalmente, de abrigar e alimentar crianas afegs que perderam os pais.
Fui at l. O lugar  limpo e seguro, as crianas so bem tratadas e o sr. e a sra.
Caldwell so muito gentis. J me disseram que Sohrab seria bem-vindo  casa deles e...
 Voc no pode estar falando srio, Rahim Khan.
 As crianas so frgeis, Amir jan. Cabul j est cheia de rfos desamparados,
e no quero que Sohrab venha a se tornar mais um deles.
 No quero ir a Cabul, Rahim Khan. No posso!  exclamei.
 Sohrab  um garotinho talentoso. Aqui, podemos lhe dar uma nova vida, novas
esperanas, com gente que vai gostar dele. Thomas agha  um bom homem e Betty
khanum  to delicada... Voc devia ver como trata aqueles rfos.
 Por que eu? Por que voc no paga algum daqui para fazer isso? Eu pago,
se for uma questo de dinheiro.

 No se trata de dinheiro, Amir!  vociferou Rahim Khan.  Estou 
morte e no vou admitir ser insultado! Comigo a questo nunca foi dinheiro, voc sabe
disso. E por que voc? Acho que ns dois sabemos por que tem que ser voc, no ?
No queria ter compreendido aquele comentrio, mas compreendi. Compreendi
muito bem o que ele estava dizendo.
 Tenho uma esposa nos Estados Unidos. Tenho um lar, uma carreira, uma
famlia. Cabul  um lugar perigoso, como voc bem sabe, e quer que eu arrisque
tudo por...  Parei de falar.
 Sabe...  disse Rahim Khan.  Uma vez, quando voc no estava por perto,
seu pai e eu tivemos uma Conversa. E voc no ignora como, naquela poca, ele vivia
preocupado a seu respeito. Lembro que ele me disse: "Rahim, um menino que no
sabe se defender vai se tornar um homem incapaz de enfrentar o que quer que seja."
Fico me perguntando se no foi exatamente isso que aconteceu.
Baixei os olhos.
 O que estou lhe pedindo  que conceda a um velho o seu ltimo desejo 
acrescentou ele com gravidade.
Rahim Khan tinha apostado tudo naquela frase. Jogado a sua cartada
decisiva. Ou, pelo menos, foi o que pensei na ocasio. As suas palavras ficaram
pairando no limbo entre ns, mas ele ao menos soube o que dizer. J eu continuava
procurando as palavras certas e, ali dentro, o escritor era eu. Afinal, me decidi por
isto:
 Talvez baba tivesse razo.
 Lamento que pense assim, Amir.
No conseguia olhar para ele.
 E voc no?  indaguei.
 Se pensasse no teria lhe pedido para vir at aqui.
Fiquei brincando com a aliana.
 Voc sempre me teve em alta conta, Rahim Khan. Alta demais.
 E voc sempre foi excessivamente duro consigo mesmo.  Hesitou um
instante e, depois, prosseguiu.  Tem mais uma coisa, porm. Uma coisa que voc
no sabe.
 Por favor, Rahim Khan...
 Sanaubar no foi a primeira mulher de Ali.
A eu levantei os olhos.
 Ele j tinha sido casado antes, com uma hazara da regio de Jaghori. Isso
aconteceu muito antes de voc nascer. Ficaram casados por trs anos.
 E o que isso tem a ver com o resto?
 No final desses trs anos, ela o deixou, sem filhos, e se casou com um
homem em Khost. E deu trs filhas a esse segundo marido.  isto que estou tentando
lhe dizer.
Comecei a perceber o rumo que as coisas estavam tomando. Mas no queria
ouvir o resto da histria. Tinha uma vida boa na Califrnia, uma linda casa vitoriana
com telhado de duas guas, um bom casamento, uma carreira promissora como escritor,
a famlia de minha mulher me adorava. No precisava mesmo dessa merda toda.
 Ali era estril  disse Rahim Khan.
 No era no. Ele e Sanaubar tiveram Hassan, no foi? Tiveram Hassan...

 No tiveram, no  atalhou ele.
 Tiveram, sim!
 No tiveram, Amir.
Ento quem...?
 Acho que voc sabe.
Eu parecia um homem que despenca de um penhasco e tenta se agarrar a
arbustos e touceiras, mas se v de mos abanando. A sala subia e descia, balanava
para um lado e para o outro.
 Hassan sabia disso?  disse eu por uma boca que no sentia como se fosse
minha.
Rahim Khan fechou os olhos. Abanou a cabea.
 Seus filhos-da-puta!  murmurei. Fiquei de p.  Malditos filhos-da-puta!
 gritei.  Vocs todos so um bando de malditos filhos-da-puta mentirosos!
 Sente-se, por favor  disse Rahim Khan.
 Como puderam esconder isso de mim? E dele tambm?  esbravejei.
 Pense um pouco, Amir jan. Era uma situao embaraosa. As pessoas iam
comentar. Naquela poca, tudo o que um homem tinha era a sua honra, o seu nome.
Isso  que fazia de algum o que ele era. E se as pessoas comeassem a falar... No
podamos contar a ningum. Tenho certeza que voc  capaz de entender isso.
Estendeu a mo na minha direo, mas eu recuei. E me encaminhei para a
porta.
 No v embora, Amir jan. Por favor.
Abri a porta e me voltei para ele.
 Por qu? O que  que voc ainda pode ter a me dizer? Tenho trinta e oito
anos e acabo de descobrir que a minha vida inteira foi uma puta de uma mentira! O
que voc poderia dizer para amenizar isso? Nada. Nem uma maldita palavra!
Dizendo isso, sa do apartamento feito uma bala.

DEZOITO
O SOL J TINHA QUASE DESAPARECIDO, deixando o cu envolto em uma mescla de roxo e de
vermelho. Sa caminhando pela rua estreita e movimentada, me afastando do edifcio
de Rahim Khan. Aquele era um lugar barulhento, em meio a um labirinto de becos
abarrotados de pedestres, bicicletas e riquixs. Nas esquinas, cartazes faziam
propaganda de Coca-Cola e cigarros. Psteres de Lollywood, a indstria do cinema
paquistans, exibiam atrizes sensuais que danavam com belos homens morenos em
campos floridos.
Entrei em uma pequena casa de ch muito enfumaada e pedi uma xcara de
ch. Sentei em uma cadeira dobrvel, reclinando-a toda para trs, e esfreguei o rosto.
Aquela sensao de estar deslizando para um abismo comeava a desaparecer. Mas,
em vez disso, estava me sentindo como um homem que acorda na sua prpria casa
e v que todos os mveis mudaram de lugar. Por causa de tal mudana, cada canto e
cada fresta, antes to familiares, lhe parecem agora estranhos. Desnorteado, precisa
reavaliar tudo o que o cerca, reorientar-se.
Como pude ser to cego? As pistas estavam l o tempo todo, bem diante dos
meus olhos, e, neste momento, voltavam para mim voando: baba contratando o dr.
Kumar para operar o lbio leporino de Hassan. Baba que nunca esquecia o aniversrio
dele. Lembrei daquele dia em que estvamos plantando tulipas, quando perguntei a
baba se j tinha pensado em contratar novos empregados. "Hassan no vai a lugar
nenhum", gritou ele ento. "Vai continuar morando aqui conosco, pois esta  a casa
dele.  o seu lar e ns somos a sua famlia." E meu pai chorou, chorou quando Ali
anunciou que ele e Hassan estavam nos deixando.
O garom ps  minha frente a xcara de ch que eu havia pedido. No ponto em
que as pernas da mesa se cruzavam, fazendo um X, tinha uma argola com umas
bolotas de lato do tamanho de uma noz. Uma delas estava meio desatarraxada e me
abaixei para apert-la. Seria to bom se pudesse consertar a minha prpria vida com
a mesma facilidade... Tomei um gole daquele ch fortssimo, como no via h anos, e
tentei pensar em Soraya, no general e em khala Jamila, no romance que precisava
terminar. Tentei ficar olhando para o trnsito rpido da rua, para as pessoas que
circulavam, entrando e saindo das pequenas confeitarias. Tentei ficar ouvindo a
msica Qawali que vinha de um rdio transistor na mesa ao lado. Nada. Continuava
vendo baba, na noite da minha formatura, sentado no Ford que tinha acabado de me
dar de presente, cheirando a cerveja e dizendo: "Gostaria que Hassan estivesse aqui
conosco hoje."
Como pde mentir para mim durante todos esses anos? E tambm para Hassan?
Quando eu era pequeno, ele me ps no colo, olhou bem dentro dos meus olhos e
disse: "Existe apenas um pecado, um s. E esse pecado  roubar... Quando voc
mente, est roubando de algum o direito de saber a verdade." No foram essas as
palavras que ele me disse? E agora, quinze anos depois de eu o ter enterrado, acabo
descobrindo que baba era um ladro. Um ladro da pior espcie, porque as coisas que
roubou eram sagradas: de mim, o direito a ter um irmo; de Hassan, a prpria
identidade; e de Ali, a honra. Sua nang. Seu namoos.
As perguntas fervilhavam na minha cabea. Como baba conseguia olhar nos
olhos de Ali? Como Ali pde viver naquela casa por anos a fio, sabendo que tinha sido
desonrado pelo patro, e da pior maneira que um homem afego pode ser desonrado?
E como eu ia conseguir conciliar essa nova imagem de baba com aquela que tinha
estado gravada em minha mente por tanto tempo: ele, com o velho terno marrom,
andando meio trpego pela alameda de entrada da casa dos Taheri para pedir a mo
de Soraya em casamento?
H um outro clich de que o meu professor de redao literria certamente
debocharia: tal pai, tal filho. Mas era verdade, no era? O que acabei descobrindo 
que baba e eu ramos muito mais parecidos do que jamais poderia imaginar. Ns dois
tramos as pessoas que dariam a vida por ns. E, com isso, veio a compreenso: Rahim
Khan tinha me chamado at aqui para resgatar no apenas os meus pecados, mas
tambm os de meu pai.
Rahim Khan disse que sempre fui duro demais comigo mesmo. Ser?  claro que
no fiz Ali pisar na mina terrestre, nem trouxe o Talib at aquela casa para fuzilar
Hassan. Mas mandei Ali e Hassan embora de casa. Seria exagero imaginar que as coisas
poderiam ter tomado outro rumo se eu no tivesse feito o que fiz? Talvez baba tivesse
levado os dois conosco para os Estados Unidos. Talvez Hassan tivesse agora uma
casa, um emprego, uma famlia, uma vida em um pas onde ningum se importava
com o fato de ele ser um hazara; onde, na verdade, a maioria da populao nem
mesmo sabia o que vinha a ser um hazara. Talvez no. Mas talvez sim.
"No posso ir para Cabul", disse eu a Rahim Khan. "Tenho uma esposa nos
Estados Unidos, uma casa, uma carreira, uma famlia." Mas como  que poderia
simplesmente fazer as malas e voltar para casa sabendo que os meus prprios atos
tinham custado a Hassan a oportunidade de ter essas coisas tambm?
Adoraria que Rahim Khan no tivesse me chamado. Adoraria que tivesse me
deixado continuar vivendo na ignorncia. Mas ele tinha me chamado. E a revelao
que me fez modificou tudo. Ela me mostrou que toda a minha vida, bem antes do
inverno de 1975, j desde os tempos em que aquela moa hazara que cantava ainda
estava me amamentando, tinha sido um ciclo de mentiras, traies e segredos.
"H um jeito de ser bom de novo" foi o que disse Rahim Khan quando me
telefonou.
Um jeito de pr fim a esse ciclo.
Graas a um menininho. Um rfo. O filho de Hassan. Em algum lugar l em
Cabul.
No RIQUIX, VOLTANDO PARA O APARTAMENTO de Rahim Khan, lembrei de baba dizendo
que o meu problema era que sempre tive algum enfrentando as coisas por mim.

Estava com trinta e oito anos agora. O meu cabelo comeava a rarear nas tmporas e
j tinha alguns fios grisalhos, e, recentemente, notei pequenos ps-de-galinha nos
cantos dos meus olhos. Estava mais velho agora, mas talvez no fosse velho demais
para comear a enfrentar as situaes por conta prpria. Baba tinha mentido sobre
vrias coisas, como acabei de descobrir, mas no sobre isso.
Olhei de novo para aquele rosto redondo na foto Polaroid, com o sol batendo de
lado. O rosto do meu irmo. Hassan tinha me amado antigamente, e de um jeito que
ningum jamais me amou ou viria a me amar. Agora, estava morto, mas uma pequena
parte dele ainda vivia. E estava em Cabul.
Esperando.
Fui ENCONTRAR RAHIM KHAN fazendo a sua namaz em um canto da sala. Era apenas um
vulto inclinado na direo do oeste, recortado sobre o pano de fundo de um cu cor
de sangue. Esperei que acabasse.
Disse-lhe, ento, que estava indo para Cabul. Pedi que telefonasse para os
Caldwell pela manh.
 Vou rezar por voc, Amir jan  disse ele.

DEZENOVE
MAIS UMA VEZ, A VIAGEM DE CARRO me deixou enjoado. Quando estvamos passando pela
placa crivada de balas, onde se lia "BEM-VINDO AO PASSO KHYBER", a minha boca ficou
cheia de gua. Algo no meu estmago se remexia e se retorcia. Farid, o motorista, me
lanou um olhar glacial. No havia qualquer empatia naqueles olhos.
 Ser que posso baixar o vidro?  indaguei.
Ele acendeu um cigarro e o segurou com os dois dedos que lhe restavam na mo
esquerda, a que estava apoiada no volante. Mantendo os olhos negros na estrada,
inclinou-se para a frente, pegou uma chave de fenda que estava no cho, entre os seus
ps, e estendeu-a para mim. Enfiei a ferramenta no buraco da porta, onde deveria haver
uma manivela, e girei-a para baixar o vidro da minha janela.
Farid me lanou outro olhar de desprezo, desta vez com uma ponta de
animosidade mal disfarada, e recomeou a fumar o seu cigarro. No disse mais que
umas dez palavras desde que tnhamos sado de forte Jamrud.
 Tashakor  murmurei.
Inclinei a cabea pela janela e deixei que o ar frio do meio da tarde me batesse
no rosto. A estrada que atravessava os territrios tribais do Passo Khyber, serpenteando
por entre penhascos de xisto e calcrio, era exatamente como nas minhas recordaes
 baba e eu tnhamos passado por aquela regio de relevo acidentado em 1974. As
montanhas ridas e imponentes margeavam profundos desfiladeiros e se erguiam em
picos pontiagudos. No topo dos rochedos, havia velhas fortalezas, com muralhas de
adobe j desmoronadas. Tentei manter os olhos fixos nos cumes nevados da
cordilheira do Hindu Kush, ao norte, mas, cada vez que o meu estmago se acalmava
um pouco que fosse, o furgo fazia outra curva e provocava uma nova onda de enjo.
 Experimente limo.
 O qu?
 Limo.  bom para enjo  disse Farid.  Sempre trago um quando vou
pegar essa estrada.
 No, obrigado  retruquei. S de pensar em acrescentar acidez ao meu
estmago fiquei ainda mais enjoado.
 Sei que no  um negcio todo caprichado como aqueles remdios que vocs
tm por l.  s uma antiga mezinha que a minha me me ensinou.
Lamentei ter perdido a oportunidade de ser um pouco mais agradvel.

 Nesse caso, talvez fosse bom eu experimentar  emendei. Ele apanhou um
saco de papel no banco de trs e tirou dali a metade de um limo. Dei uma mordida
e esperei alguns minutos.
 No  que voc tinha razo... Estou me sentindo melhor.  menti. Como
afego, sabia que mais valia ser infeliz do que grosseiro. E fiz um esforo para sorrir.
  um velho truque watani. No h necessidade desses remdios cheios de novehoras
 disse ele. O seu tom de voz beirava o mau humor. Bateu a cinza do cigarro e
deu uma olhada de auto-satisfao pelo espelho retrovisor. Farid era tadjique. Um
indivduo magro e moreno, com o rosto curtido, os ombros estreitos, o pescoo
comprido marcado por um pomo-de-ado saliente que s aparecia por trs da barba
quando ele virava a cabea. Estava usando roupas bem parecidas com as minhas
embora, creio eu, fosse exatamente o contrrio: uma manta de l grossa enrolada
sobre um pirhan-tumban cinza, e um palet. Na cabea, um pakol marrom
ligeiramente descado para um lado, como o heri de seu povo, Ahmad Shah Massoud
 a quem os tadjiques se referiam como "o Leo de Panjsher".
Foi Rahim Khan quem me apresentou Farid, em Peshawar. Disse-me que ele tinha
vinte e nove anos, embora o seu rosto desconfiado e marcado fosse de um homem
vinte anos mais velho. Nasceu em Mazar-i-Sharif, onde viveu at seu pai se mudar com
a famlia para Jalalabad. Nessa poca, Farid tinha dez anos. Quando ele tinha
quatorze, ingressou no jihad contra os skorawi, juntamente com seu pai. Ambos
combateram no vale Panjsher durante dois anos, e, em um ataque com helicpteros, o
mais velho dos dois foi estraalhado. Farid tem duas esposas e cinco filhos.
 Tinha sete  disse Rahim Khan com ar pesaroso. No entanto perdeu as duas
meninas menores alguns anos atrs, na exploso de uma mina terrestre nos arredores
de Jalalabad. Foi essa mesma exploso que lhe arrancou vrios dedos dos ps e trs
da mo esquerda. Depois disso, ele veio morar em Peshawar, com as esposas
e os filhos.
 Posto de controle  resmungou Farid. Afundei um pouco no assento, com os
braos cruzados sobre o peito, e, por um momento, esqueci o enjo. Mas no havia
motivo para preocupao. Dois milicianos paquistaneses se aproximaram do nosso
Land Cruiser caindo aos pedaos, olharam rapidamente para dentro do veculo e
fizeram sinal para que passssemos.
Farid era o primeiro nome da lista que Rahim Khan e eu fizemos, uma lista que
inclua trocar dlares por dinheiro kaldar e afego; providenciar os meus trajes e o meu
pakol  por ironia, coisa que nunca tinha usado, nem mesmo quando vivia
efetivamente no Afeganisto ; no esquecer a foto Polaroid de Hassan e Sohrab e,
finalmente, aquele que talvez fosse o item mais importante: arranjar uma barba
postia, negra, que me batia no peito, e me dava um ar discretamente Shari'a  ou, pelo
menos, a verso talib da Shari'a. Rahim Khan conhecia um indivduo em Peshawar
que era especialista em fabric-las, s vezes at mesmo para jornalistas ocidentais que
estavam por l fazendo a cobertura da guerra.
Rahim Khan queria que eu ficasse mais alguns dias com ele, para planejarmos
tudo minuciosamente. Mas eu sabia que tinha de partir o mais depressa possvel. Tinha
medo de mudar de idia. Tinha medo de comear a ponderar, ruminar, me angustiar,
racionalizar, e acabar me convencendo a no ir. Medo de que os atrativos da minha vida
nos Estados Unidos me fizessem recuar. Medo de que voltasse a penetrar naquele rio
imenso e acabasse me deixando cair no esquecimento, deixando que as coisas que
descobri nesses ltimos dias fossem levadas bem l para o fundo. Medo de deixar que as
guas me arrastassem para bem longe daquilo que tinha de fazer. Para longe de
Hassan. Do passado que tinha vindo bater  minha porta. E dessa ltima chance de
redeno. Ento, decidi viajar antes que surgisse qualquer possibilidade de isso
acontecer. Quanto a Soraya, no era uma boa idia lhe dizer que eu estava voltando
para o Afeganisto. Se fizesse isso, ela era bem capaz de comprar uma passagem no
primeiro vo para o Paquisto.
Cruzamos a fronteira e os sinais de pobreza estavam por toda parte. De ambos os
lados da estrada, viam-se diversas pequenas aldeias que surgiam aqui e ali, como
brinquedos que tivessem sido jogados fora entre os rochedos. Casas de pau-a-pique
quase em runas e choupanas que no passavam de quatro estacas de madeira com
um pano esfarrapado fazendo as vezes de telhado. Do lado de fora desses casebres, vi
crianas maltrapilhas correndo atrs de uma bola de futebol. Poucos quilmetros
adiante, avistei um punhado de homens acocorados, mais parecendo um bando de
corvos sobre a carcaa de um tanque sovitico destrudo, enquanto o vento erguia as
bordas das mantas espalhadas ao seu redor. Por trs deles, uma mulher vestindo uma
burqa marrom carregava nos ombros um grande cntaro de barro pela estrada de terra
que ia dar em um arruado de casinhas de pau-a-pique.
 Que estranho!  exclamei.
 O qu?
 Estou me sentindo um turista na minha prpria terra  respondi, olhando
para um pastor que ia andando pela beira da estrada conduzindo umas seis cabras
magrrimas.
Farid deu uma risadinha. Jogou fora o cigarro.
 Ainda considera esse lugar a sua terra?  perguntou ele.
 Acho que uma parte de mim vai sempre pensar assim  respondi, mais na
defensiva do que pretendia.
 Depois de vinte anos vivendo na Amrica...  disse ele desviando o furgo
para evitar um buraco do tamanho de uma daquelas bolas grandes e coloridas.
Assenti com um gesto.
 Cresci no Afeganisto  acrescentei.
Farid voltou a dar a tal risadinha.
 Por que est fazendo isso?  perguntei.
 Deixe para l  murmurou ele.
 No. Quero saber. Por que  que est fazendo isso?
Pelo retrovisor, vi algo brilhar em seus olhos.
 Quer saber mesmo?  indagou ele zombeteiro.  Deixe eu tentar imaginar,
agha sahib. Voc com certeza morava em uma casa grande, de dois ou trs andares,
com um belo quintal que o jardineiro cobria de flores e rvores frutferas. Tudo
cercado por grades,  claro. Seu pai tinha um carro americano. Vocs tinham
empregados, provavelmente hazaras. Seus pais contratavam operrios para decorar a
casa por ocasio das magnficas mehmanis que organizavam, para que os amigos
viessem beber e conversar sobre as viagens que faziam  Europa ou  Amrica. E
aposto os olhos do meu filho mais velho como esta  a primeira vez na vida em que
est usando um pakol,  Deu um sorriso irnico, revelando um punhado de dentes
prematuramente estragados.  Acertei?
 Por que  que est dizendo essas coisas?  indaguei.

 Porque voc queria saber  respondeu ele rispidamente. Apontou para um
velho maltrapilho que se arrastava por uma estradinha de terra, carregando um imenso
saco de aniagem repleto de forragem preso s costas.  Esse  o verdadeiro
Afeganisto, agha sahib. O Afeganisto que eu conheo. Voc? Voc sempre foi um
turista por aqui. S que no sabia disso.
Rahim Khan tinha me alertado, dizendo que no esperasse uma acolhida
calorosa no Afeganisto, por parte daqueles que tinham ficado l e lutado nas
guerras.
 Sinto muito por seu pai  disse eu.  Sinto muito por suas filhas, e por sua
mo.
 Isso no quer dizer nada para mim  disse ele, e abanou a cabea. 
Mas, afinal, por que  que est voltando para c? Para vender as terras de seu
baba? Embolsar o dinheiro e sair correndo para ir encontrar a sua me nos Estados
Unidos?
 Minha me morreu no parto, quando nasci  disse eu.
Ele suspirou e acendeu outro cigarro. No disse nada.
 Encoste o carro.
 O qu?
 Encoste o carro, que diabos!  exclamei.  Vou vomitar.
Pulei do furgo antes mesmo que ele parasse no cascalho da beira
da estrada.
MAIS PARA O FIM DA TARDE, a paisagem tinha mudado, passando dos picos banhados pelo
sol e dos penhascos ridos a um solo mais verde de uma regio rural. A estrada
principal descia de Landi Kotal at Landi Khana, atravessando o territrio Shinwari.
Penetramos no Afeganisto por Torkham. A estrada era margeada de pinheiros, embora
em menor quantidade do que me lembrava, e, alm disso, muitos deles estavam
desfolhados. Mas era bom voltar a ver rvores depois da rdua viagem pelo Passo
Khyber. Estvamos nos aproximando de Jalalabad, onde Farid tinha um irmo que
nos receberia em sua casa para passar a noite.
O sol ainda no tinha se posto inteiramente quando chegamos a Jalalabad,
capital do estado de Nangarhar, cidade antigamente famosa pelas suas frutas e o seu
clima ameno. Farid passou pelos prdios e casas de pedra do distrito central. No
havia tantas palmeiras como nas minhas recordaes, e algumas daquelas casas tinham
sido reduzidas a paredes sem teto e pilhas de barro revolvido.
Viramos em uma ruela estreita e sem calamento, e Farid estacionou o Land
Cruiser junto de um riacho seco. Sa do furgo, me estiquei todo e respirei fundo. Nos
velhos tempos, o vento atravessava as plancies irrigadas que cercavam Jalalabad, onde
fazendeiros cultivavam cana-de-acar, e impregnava o ar da cidade com aquele cheiro
adocicado. Fechei os olhos e procurei sentir aquela doura, mas no a encontrei.
 Vamos  disse Farid impaciente. Samos andando pela ruela de terra, deixando
para trs uns poucos choupos sem folhas e passando junto a uma fileira de muros de
barro desabados. Farid me levou at uma casa trrea caindo aos pedaos e bateu na
porta de tbuas.

Uma jovem, com olhos de um verde da cor do mar e a cabea coberta por uma
echarpe branca, veio espiar. Viu primeiro a mim e se assustou; depois, percebeu a
presena de Farid e os seus olhos brilharam.
 Salaam alaykum, kaka Farid!  exclamou ela.
 Salaam, Maryam jan  respondeu ele, dando-lhe algo que tinha me
negado o dia todo: um sorriso acolhedor. Beijou-a no alto da cabea. A jovem se
afastou para o lado e ficou me olhando com uma certa apreenso enquanto eu entrava
na pequena casa, seguindo Farid.
O teto de adobe era baixo, as paredes de terra inteiramente nuas e a nica
iluminao vinha de um par de lamparinas postas em um canto. Tiramos os sapatos e
fomos andando pela esteira de palha que cobria o cho. Junto a uma das paredes, havia
trs meninos sentados, de pernas cruzadas, sobre um colcho recoberto por uma manta
com as bordas esfiapadas. Um homem alto e barbado, de ombros largos, se levantou
para nos receber. Depois que os dois se abraaram e se beijaram de ambos os lados do
rosto, Farid me apresentou a Wahid, seu irmo mais velho.
 Ele  dos Estados Unidos  disse, apontando o polegar na minha direo.
E nos deixou sozinhos para ir cumprimentar os garotos.
Wahid sentou-se ao meu lado, defronte dos meninos que tinham atacado Farid e
lhe subiam pelos ombros. Apesar dos meus protestos, Wahid mandou que um dos
garotos fosse buscar outra manta para que eu ficasse mais confortvel ali no cho, e
pediu a Maryam que me trouxesse um ch. Perguntou como tinha sido a viagem de
Peshawar, passando pelo Passo Khyber.
 Espero que no tenham cruzado com nenhum dozd  disse ele. O Passo
Khyber era to clebre pelo seu relevo acidentado quanto pelos bandidos que se
aproveitavam dessas condies do terreno para assaltar os viajantes. Antes que eu
pudesse responder, ele piscou o olho e acrescentou, bem alto:
  claro que nenhum dozd ia perder tempo com um carro to feio quanto o de
meu irmo.
Farid derrubou o menino menor no cho e comeou a lhe fazer ccegas nas
costelas com a mo vlida. O menino esperneava e ria.
 Pelo menos tenho carro  disse ele arquejante.  Como tem passado o seu
burro?
 Meu burro  uma conduo melhor que o seu carro.
 Khar khara mishnassah  retrucou Farid. S mesmo um burro para avaliar
outro. Riram ambos, e eu tambm. Ouvi vozes femininas vindas do outro aposento. De
onde estava sentado, podia ver boa parte dele. Maryam e uma mulher mais velha,
que usava um hijab marrom, sua me, presumi, conversavam em voz baixa
despejando ch de uma chaleira para um bule.
 O que faz nos Estados Unidos, Amir agha?  indagou Wahid.
 Sou escritor  respondi. Julguei ter ouvido Farid dar uma risadinha
quando eu disse isso.
 Escritor?  exclamou Wahid nitidamente impressionado.  Escreve sobre
o Afeganisto?
 Bem, j escrevi. Mas no atualmente  disse eu. O meu ltimo romance, Uma
poca de cinzas, era sobre um professor universitrio que se juntou a um grupo de
ciganos depois de encontrar a mulher na cama com um dos seus alunos. No era um
mau livro. Algumas resenhas se referiram a ele como um "bom" livro, e uma delas
chegou a usar a expresso "cativante". De repente, porm, estava ficando
constrangido com aquilo. Torci para que Wahid no perguntasse do que se tratava.
 Talvez devesse escrever de novo sobre o Afeganisto  disse ele.  Para
contar ao resto do mundo o que o Talib est fazendo com o nosso pas.
Bem, no sou... no sou exatamente esse tipo de escritor.
 Ah!  exclamou Wahid assentindo com a cabea e corando ligeiramente. 
Voc  quem sabe,  claro. No tenho nada que ficar dando palpites...
Nesse exato momento, Maryam e a outra mulher entraram na sala trazendo
algumas xcaras e um bule de ch em uma pequena bandeja. Fiquei de p, em sinal de
respeito, levei a mo ao peito e inclinei a cabea.
 Salaam alaykum  disse eu.
A mulher, que tinha enrolado o hijab para esconder o rosto que mantinha
baixado, tambm fez um aceno de cabea.
 Salaam  respondeu ela com uma voz que mal se podia ouvir. No nos
olhamos nos olhos uma vez sequer. Fiquei de p enquanto ela servia o ch.
A mulher ps a xcara fumegante  minha frente e saiu da sala, sem que os seus
ps descalos fizessem qualquer rudo. Sentei e tomei um gole daquele ch preto bem
forte. Finalmente, Wahid quebrou o silncio desconfortvel que tinha se instalado.
 Ento... o que o traz de volta ao Afeganisto?  indagou Wahid.
 O que  que traz todos eles de volta ao Afeganisto, meu caro?
 perguntou Farid, dirigindo-se ao irmo, mas olhando diretamente para mim com ar
de desprezo.
 Bas!  exclamou Wahid.
  sempre a mesma coisa  prosseguiu Farid,  Vender essa terra aqui,
vender aquela casa ali, juntar o dinheiro, e sair correndo feito camundongo. Voltar
para a Amrica e gastar o dinheiro tirando frias com a famlia no Mxico.
 Farid!  esbravejou Wahid. Os meninos, e at mesmo Farid se assustaram. 
Esqueceu as boas maneiras? Estamos na minha casa! Amir agha  meu hspede por
esta noite, e no vou permitir que voc me desonre desse jeito!
Farid abriu a boca para dizer algo. Pensou melhor, porm, e acabou ficando
calado. Recostou-se na parede, resmungou alguma coisa bem baixinho e cruzou as
pernas, passando o p mutilado por sobre o outro. Mas no tirou de mim aqueles
olhos acusadores.
 Perdoe-nos, Amir agha  disse Wahid.  Desde criana, a lngua do meu
irmo sempre andou dois passos adiante da sua cabea.
 Na verdade, a culpa foi minha  disse eu, tentando sorrir sob o olhar intenso
de Farid.  No estou ofendido. Devia ter lhe explicado o que vim fazer no
Afeganisto. No estou aqui para vender nenhuma propriedade. Vou a Cabul para
procurar um menino.
 Um menino...  repetiu Wahid.
   respondi. Tirei a foto Polaroid do bolso da camisa. Ver novamente a
foto de Hassan reabriu a ferida recente causada por sua morte. Tive de desviar os
olhos. Passei a foto a Wahid. Ele a fitou atentamente. Olhou para mim e voltou a
olhar para a foto.
 Este menino aqui?

Fiz que sim com a cabea.
 Esse menino hazara?
 Isso mesmo  confirmei.
 O que ele representa para voc?
 O pai dele significava muito para mim.  esse homem a na foto. Est
morto.
Wahid piscou os olhos.
 Era seu amigo?
Instintivamente, ia dizer que sim, como se, em algum nvel mais profundo, eu
tambm quisesse proteger o segredo de baba. Mas j tinha havido mentiras demais.
 Era meu meio-irmo  disse. Engoli em seco. E acrescentei.  Meio-irmo
ilegtimo.  Virei a xcara de ch. Fiquei brincando com a sua asa.
 No tinha a inteno de ser intrometido  disse Wahid desculpando-se.
 No est sendo intrometido  retruquei.
 O que vai fazer com ele?
 Lev-lo para Peshawar. H umas pessoas l que vo cuidar dele.
Wahid me devolveu a foto e apoiou a mo calejada no meu ombro.
 Voc  um homem honrado, Amir agha. Um verdadeiro afego.
 Eu me encolhi por dentro.
  um orgulho para mim t-lo em nossa casa esta noite  acrescentou ele.
Agradeci e arrisquei uma olhadela para Farid. Ele agora estava de olhos
baixos, brincando com as bordas esfarrapadas da esteira de palha.
POUCO TEMPO DEPOIS MARYAM E A ME trouxeram duas tigelas fumegantes de shorwa
de legumes e duas formas de po.
 Sinto no poder lhe oferecer carne  disse Wahid.  Isso  algo que s o
Talib tem condies de comer atualmente.
 Parece timo  disse eu. E parecia mesmo. Perguntei a ele e aos meninos se no
queriam um pouco, mas Wahid disse que a famlia j tinha comido antes de ns
chegarmos. Farid e eu arregaamos as mangas, mergulhamos o po na shorwa e
comemos com as mos.
Enquanto comia, notei que os filhos de Wahid, todos os trs magrinhos, com a
cara suja e o cabelo castanho cortado bem rente por baixo do barrete, lanavam
olhares furtivos ao meu relgio digital. O mais moo cochichou alguma coisa no
ouvido do irmo. Este fez que sim com a cabea, sem tirar os olhos do meu relgio. O
mais velho dos trs  que parecia ter uns doze anos  balanava o corpo para frente
e para trs, com os olhos grudados no meu pulso. Quando acabamos de jantar, depois
que lavei as mos na gua que Maryam trouxe em um pote de barro, pedi permisso a
Wahid para dar um hadia, um presente aos garotos. Ele recusou, mas, quando insisti,
acabou concordando, embora com alguma relutncia. Tirei o relgio e o dei ao
menino menor. Ele murmurou um "tashakor" encabulado.
 Com ele, voc pode ver a hora em qualquer cidade do mundo disse eu. Os
meninos assentiram educadamente, passando o relgio de mo em mo, revezando-se
para experiment-lo. Mas acabaram perdendo o interesse e, em pouco tempo, o relgio
j estava abandonado sobre a esteira de palha.

 VOC PODIA TER ME CONTADO  disse Farid, mais tarde. Estvamos ambos deitados
nas esteiras que a mulher de Wahid tinha estendido no cho para ns.
 Contado o qu?  perguntei.
 Por que tinha vindo para o Afeganisto.  A sua voz tinha perdido a
aspereza que percebi nela desde o momento em que o conheci.
 Voc no perguntou  observei.
 Devia ter me contado.
 Voc no perguntou.
Virou o rosto para mim. Apoiou a cabea no brao dobrado.
 Talvez possa ajud-lo a encontrar esse menino.
 Obrigado, Farid  disse eu.
 Foi besteira minha ficar supondo coisas...
 No se preocupe. Estava mais certo do que imagina  retruquei, suspirando.
As MOS DELE ESTO AMARRADAS NAS COSTAS com uma corda grossa que lhe fere a carne dos
pulsos. Os seus olhos esto cobertos com uma venda preta. Ele est de joelhos na rua,
 beira de uma valeta cheia de gua parada, com a cabea pendida entre os ombros.
Os seus joelhos raspam no cho duro e sangram atravs das calas enquanto ele
balana o corpo, rezando. J  final de tarde e a sua sombra comprida oscila para frente
e para trs no cascalho. Est murmurando alguma coisa bem baixinho. Chego mais
perto. "Faria isso mil vezes", murmura ele. "Por voc, faria isso mil vezes." Balana o
corpo para frente e para trs. Ergue a cabea. Percebo uma ligeira cicatriz acima de seu
lbio superior.
No estamos sozinhos.
A primeira coisa que vejo  o cano da arma. Depois, o homem que est por trs
dela. Ele  alto, usa uma tnica em tecido espinha-de-peixe e um turbante preto. Olha
para o homem vendado  sua frente com olhos que no revelam nada, a no ser um
enorme vazio cavernoso. D um passo atrs e ergue a arma. Encosta o cano na nuca
do homem ajoelhado. Por um momento, os raios do sol poente batem no metal e
cintilam.
O rifle dispara com um estrondo ensurdecedor.
Acompanho com os olhos o cano da arma, desde a ponta at a culatra. Vejo o
rosto por detrs da fumaa que sai daquele orifcio. O homem com a tnica de tecido
espinha-de-peixe sou eu.
Acordo com um grito entalado na garganta.
FUI L PARA FORA. Fiquei parado sob a luz plida de uma lua crescente e ergui os olhos para
um cu crivado de estrelas. Havia grilos cantando na escurido cerrada e um vento que
soprava por entre as rvores. O cho estava frio sob meus ps descalos e, de repente, pela
primeira vez desde que tnhamos cruzado a fronteira, eu me senti como quem est de
volta. Depois de todos aqueles anos, estava novamente em casa, pisando o solo dos
meus antepassados. Foi aqui que o meu bisav se casou com a terceira mulher, um
ano antes de morrer na epidemia de clera que se abateu sobre Cabul em 1915. Ela
lhe deu algo que as duas primeiras esposas no conseguiram lhe dar, um filho, afinal.
Foi aqui que o meu av participou de uma caada com o rei Nadir Shah e matou um
veado. Foi aqui que a minha me morreu. E foi aqui que lutei pelo amor de meu pai.

Sentei junto a uma das paredes de barro da casa. A afinidade que senti
subitamente com relao quela velha terra... me surpreendeu. Tinha ido bem longe
para esquecer e ser esquecido. Tinha uma casa em um pas que bem poderia ficar em
uma outra galxia para as pessoas que estavam dormindo atrs dessa parede onde as
minhas costas estavam apoiadas. Pensei que tivesse esquecido tudo sobre esta terra. Mas
no tinha. E, sob a plida claridade da lua crescente, senti o Afeganisto sussurrando
debaixo dos meus ps. Talvez o Afeganisto tambm no tivesse me esquecido.
Olhei na direo do oeste e fiquei maravilhado s de pensar que, em algum lugar
para alm daquelas montanhas, Cabul ainda existia. Existia de verdade, e no apenas
como uma velha recordao, ou como o ttulo de uma matria de agncia de notcias
na pgina quinze do San Francisco Chronicle. Em algum lugar, para alm daquelas
montanhas a oeste, dormia a cidade onde o meu irmo de lbio leporino e eu tnhamos
corrido para apanhar pipas cortadas. Em algum lugar, l para aqueles lados, o homem
vendado do meu sonho tinha morrido da maneira mais estpida. Certa vez, para alm
daquelas montanhas, eu tinha feito uma escolha. E, agora, um quarto de sculo mais
tarde, essa escolha tinha me trazido de volta a essa terra.
Estava a ponto de voltar l para dentro quando ouvi umas vozes vindo da casa.
Reconheci uma delas como sendo a de Wahid.
 ...no sobrou nada para as crianas.
 Estamos com fome, mas no somos selvagens! Ele  nosso hspede! O que
acha que eu deveria fazer?  disse ele com a voz tensa.
 ...conseguir alguma coisa amanh.  Ela parecia estar quase chorando. 
Como  que vou alimentar...
Entrei p ante p. Agora compreendia por que os meninos no tinham
demonstrado nenhum interesse pelo relgio. No era para ele que estavam olhando.
Era para a minha comida.
DESPEDIMO-NOS PELA MANH, bem cedo. Um pouco antes de subir no Land Cruiser,
agradeci a Wahid pela sua hospitalidade. Ele apontou a casinha s suas costas.
 A casa  sua  disse. Os trs meninos ficaram parados na porta, olhando
para ns. O menorzinho estava usando o relgio, que danava no seu pulso magro.
Olhei pelo retrovisor lateral enquanto Farid arrancava com o carro. Wahid
continuava parado ali, cercado pelos garotos, em meio  nuvem de poeira que o
furgo tinha levantado. O que me passou pela cabea foi que, em um mundo
diferente, aqueles meninos no seriam to famintos a ponto de sequer ter nimo para
sair correndo atrs de um carro.
Mais cedo, depois de me certificar de que no havia ningum olhando, fiz algo
que j tinha feito uma vez, vinte e seis anos atrs: enfiei um punhado de notas
amarfanhadas debaixo de um colcho.

VINTE
FARID TINHA ME AVISADO. Tinha, sim. Mas, como pude constatar, no adiantou nada.
Estvamos descendo pela estrada esburacada que vai serpenteando de Jalalabad at
Cabul. A ltima vez que tinha passado por esse lugar foi sob a lona da carroceria de um
caminho, e no sentido contrrio. Meu pai quase levou um tiro de um oficial roussi
drogado, que cantava  naquela noite, baba me deixou furioso, apavorado e,
finalmente, orgulhosssimo. Esse caminho, que vai de Cabul a Jalalabad, um trajeto
acidentado, descendo como que na corda bamba pelas margens de um desfiladeiro, e
ziguezagueando por entre as rochas, tinha se tornado, agora, uma relquia, uma
relquia de duas guerras. H vinte anos, eu tinha visto um pouco da primeira delas com
os meus prprios olhos. E ainda havia soturnos vestgios dessa poca espalhados ao
longo da estrada: carcaas carbonizadas de velhos tanques soviticos, caminhes
militares derrubados, que ficaram ali enferrujando, um jipe russo destroado depois
de despencar do alto da montanha. A segunda dessas guerras, s vi pela televiso. E,
agora, voltava a v-la atravs dos olhos de Farid.
Desviando com toda facilidade das crateras que pululavam pela estrada, Farid
parecia inteiramente  vontade. Era um homem muito mais falante desde a noite que
passamos na casa de Wahid. Mandou que eu me sentasse no banco do carona e olhava
para mim quando falava. Chegou at a sorrir uma ou duas vezes. Manobrando o volante
com a mo mutilada, ia me mostrando aldeias de casebres de pau-a-pique onde, anos
atrs, moravam conhecidos seus. A maior parte dessa gente, segundo me disse, tinha
morrido ou estava vivendo em campos de refugiados no Paquisto.
 E, s vezes, os mortos tm muito mais sorte do que a gente  acrescentou
ele.
Apontou para os destroos carbonizados de um minsculo vilarejo que, agora, no
passava de um punhado de paredes enegrecidas. Vi um cachorro dormindo junto a
uma delas.
 Antigamente, tinha um amigo meu que morava aqui  disse Farid.  Era
muito bom consertando bicicletas. E tambm tocava tabla muito bem. O Talib o
matou, junto com toda a sua famlia, e tocou fogo no vilarejo.
Passamos pela aldeia incendiada e o cachorro nem se mexeu.

Nos VELHOS TEMPOS, A VIAGEM DE JALALABAD a Cabul durava duas horas, talvez um pouco
mais. Farid e eu levamos quatro horas para chegar a Cabul. E, quando chegamos...
Farid me avisou assim que passamos pela barragem de Mahipar.
 Cabul no  mais do jeito que voc deve se lembrar  disse ele.
 Foi o que ouvi contar.
Farid me lanou um olhar que dizia que ouvir no  a mesma coisa que ver. E tinha
toda razo. Porque, quando a cidade finalmente se mostrou  nossa frente, tive a
certeza, a certeza absoluta de que ele tinha tomado a direo errada em algum ponto da
estrada. Farid deve ter percebido o meu ar perplexo; nesse vaivm de gente que deixava
Cabul ou voltava para l, ele j devia ter se acostumado com essa expresso no rosto
daqueles que no viam a cidade h muito tempo.
Deu um tapinha no meu ombro.
 Seja bem-vindo  disse, ento, em tom sombrio.
ESCOMBROS E MENDIGOS. Para onde quer que eu olhasse, era s o que via. Lembro que
tambm havia mendigos antigamente  baba sempre andava com algum punhado
extra de notas de afeganes no bolso para dar a eles. Nunca o vi dizer no a um
vendedor ambulante, por exemplo. Agora, porm, eles estavam agachados em cada
esquina, vestidos com sacos de aniagem esfarrapados, estendendo as mos imundas
para pedir uma moeda. E, em sua grande maioria, esses pedintes eram crianas,
crianas magras e com ar acabrunhado, sendo que algumas delas no deviam ter mais
que cinco ou seis anos. Ficavam sentadas no colo de uma me trajando a burqa,
junto da sarjeta das esquinas mais movimentadas, repetindo a mesma cantilena:
"Bakhshesh, bakhshesh!" E havia mais alguma coisa, algo que no percebi de
imediato: praticamente nenhuma dessas crianas estava acompanhada por um homem
adulto  por causa das guerras, os pais tinham se tornado um artigo raro no
Afeganisto.
Estvamos seguindo para o lado oeste da cidade, na direo do bairro Karteh-
Seh, por aquela que, nas minhas lembranas, era a principal via pblica nos anos
setenta, a Jadeh Maywand. Um pouco mais ao norte, estava o leito do rio Cabul,
inteiramente seco. Nas colinas, ao sul, viam-se as muralhas da cidade antiga, em
runas. No longe de l, ficava o forte Bala Hissar  a velha cidadela que o comandante
Dostum ocupou em 1992 , nas montanhas da cordilheira Shirdarwaza, as
mesmas de onde as foras mujahedin despejaram uma chuva de msseis sobre Cabul,
entre 1992 e 1996, causando a maior parte dos estragos que eu estava vendo agora. A
cordilheira Shirdarwaza se estendia por todo o lado oeste da capital. Lembrava que
era dessas montanhas que o Topeh chasht, o "canho do meio-dia" era disparado.
Aqueles disparos regulares serviam para anunciar o meio-dia, mas tambm para
indicar o fim do jejum dirio durante o ms do Ramadan. Naquela poca, era possvel
ouvir o estrondo daquele canho por toda a cidade.
 Eu vinha muito a Jadeh Maywand, quando era criana  murmurei.  Havia
lojas e hotis por aqui. Anncios luminosos e restaurantes. Comprvamos pipas com um
velho chamado Saifo. Ele tinha uma lojinha perto do antigo quartel da polcia.
 O quartel da polcia ainda existe  disse Farid.  Alis, polcia  o que no
falta nesta cidade. Mas voc no vai conseguir encontrar pipas ou lojas de pipas, nem
em Jadeh Maywand, nem em qualquer outro lugar em Cabul. Esse tempo acabou.

Jadeh Maywand era agora um gigantesco castelo de areia. Os prdios que no
tinham desmoronado completamente mal se aguentavam em p, com os telhados
desabados e as paredes perfuradas pelos msseis. Quarteires inteiros tinham virado
montes de escombros. Vi um anncio atingido por um deles, com um dos cantos
parcialmente queimado, atirado em uma pilha de destroos. Ainda dava para ler BEBA
COCA-CO... Vi crianas brincando nas runas de um prdio sem janelas, por entre restos
de tijolos e pedras. Bicicletas e carroas puxadas por mulas iam e vinham em meio a
crianas, vira-latas e pilhas de entulho. Uma nuvem de poeira pairava sobre a cidade e,
do outro lado do rio, um nico filete de fumaa se erguia para o cu.
 Onde foram parar as rvores?  perguntei.
 Foram cortadas para servir de lenha no inverno  disse Farid.  E os shorawi
tambm derrubaram muitas delas.
 Por qu?
 Porque era comum haver atiradores escondidos atrs das rvores.
Senti uma onda de tristeza. Estar de volta a Cabul era como ir ao encontro de
um velho amigo que tnhamos esquecido, e ver que a vida no tinha sido boa para
com ele; que tinha se tornado um indigente, um sem-teto.
 Meu pai construiu um orfanato em Shar-e-Kohna, na cidade antiga, mais
para o sul  disse eu.
 Lembro dele  disse Farid.  Foi destrudo h poucos anos.
 D para encostar aqui?  perguntei.  Queria andar um pouco a p.
Ele estacionou junto ao meio-fio de uma ruela, prximo a um prdio
abandonado, caindo aos pedaos e sem porta.
 Aqui funcionava uma farmcia  murmurou Farid quando estvamos
saindo do furgo. Voltamos at a Jadeh Maywand e dobramos  direita, seguindo na
direo oeste.
 Que cheiro  esse?  perguntei. Havia algo no ar que estava fazendo os meus
olhos lacrimejarem.
  leo diesel  respondeu Farid.  Os geradores da cidade esto sempre
falhando, portanto, no d para confiar na eletricidade, e as pessoas tm usado leo
diesel.
 Diesel... Lembra qual era o cheiro dessa rua antigamente?
Farid sorriu.
 De kabob.
 Kabob de carneiro  disse eu.
 Carneiro...  repetiu Farid sentindo, na boca, o gosto daquela palavra. 
Agora, as nicas pessoas em Cabul que conseguem comer carneiro so os talibs. 
Deu um puxo na manga da minha camisa.  Por falar nisso...
Um veculo vinha se aproximando.
 A patrulha barbada  murmurou Farid.
Era a primeira vez que eu via os talibs. J os tinha visto pela TV, na internet, nas
capas das revistas e nos jornais. Agora, porm, aqui estava eu, a menos de vinte metros
de distncia deles, dizendo a mim mesmo que aquele gosto sbito na minha boca era
pura e simplesmente medo. Dizendo a mim mesmo que, de repente, a minha carne
tinha se encolhido e grudado nos ossos, e que o meu corao tinha disparado. L
vinham eles. Em toda a sua glria.

A picape Toyota vermelha passou por ns bem devagarinho. Na cabine, um
punhado de rapazes de cara amarrada, todos empertigados, com os seus
Kalashnikovs pendurados nos ombros. Usavam barba e turbantes pretos. Um deles,
um indivduo moreno, de uns vinte e poucos anos, com sobrancelhas espessas e
franzidas, estava brincando com um chicote, fazendo-o girar nas mos e dando
pancadas ritmadas na lateral do veculo. Os seus olhos encontraram os meus. Ele me
encarou. Nunca me senti to nu em toda a minha vida. Depois, ele deu uma cusparada
escura, por causa do tabaco, e virou para o outro lado. Respirei aliviado. A picape
prosseguiu pela Jadeh Maywand, deixando atrs de si uma nuvem de poeira.
 O que  que deu em voc?  exclamou Farid, entre dentes.
 O qu?
 Nunca encare essa gente, est me entendendo? Nunca!
 Mas no foi de propsito...  retruquei.
 O seu amigo tem toda razo, agha. Seria a mesma coisa que cutucar.um co
raivoso com um pedao de pau  disse algum. Essa outra voz vinha de um velho
mendigo descalo, sentado na escada de um prdio todo perfurado de balas. Usava um
chapan surradssimo e esfarrapado, e um turbante encardido. A sua plpebra
esquerda pendia sobre uma rbita vazia. Com uma mo deformada pela artrite,
apontava na direo que a picape tinha tomado.  Eles ficam rodando por a, s
observando. Observando e torcendo para que um pobre coitado os provoque.
Mais cedo ou mais tarde, algum acaba lhes fazendo esse favor. Ento, os cachorros
fazem a festa e o tdio do dia finalmente termina, e todos gritam "Allah-u-akbar!".
Nos dias em que ningum os ofende, bem, a violncia sempre pode ser gratuita, no
?
 Fique olhando para os seus prprios ps quando o Talib estiver por perto 
disse Farid.
 O seu amigo est lhe dando um bom conselho  prosseguiu o velho mendigo.
Teve um acesso de tosse seca e cuspiu em um leno todo manchado.  Desculpe, mas
no teria alguns afeganes sobrando?  murmurou.
 Bas. Vamos embora  disse Farid me puxando pelo brao.
Dei ao homem cem mil afeganes, ou o equivalente a uns trs dlares. Quando ele
se inclinou para frente, para pegar o dinheiro, o fedor que exalava  uma mistura de
leite azedo e cheiro de ps que no eram lavados h semanas  chegou s minhas
narinas e me deu nsia de vmito. O velho se apressou em enfiar o dinheiro na cintura,
olhando para um lado e para o outro com o olho vlido.
 Mil vezes obrigado pela sua benevolncia, agha sahib.
 Sabe onde fica o orfanato, em Karteh-Seh?  perguntei.
 No  difcil de achar. Fica bem perto do Darulaman Boulevard  disse ele. 
Levaram as crianas daqui para Karteh-Seh depois que o antigo orfanato foi atingido pelos
msseis. O que  mais ou menos como salvar algum da jaula do leo para atir-lo na
dos tigres.
 Obrigado, agha  disse eu, virando-me para ir embora.
 Foi a sua primeira vez, no foi?
 Como?
 A primeira vez que viu um talib.

No respondi. O velho mendigo acenou com a cabea e sorriu revelando uns
poucos dentes, todos tortos e amarelados.
 Lembro da primeira vez que os vi circulando por Cabul. Que dia feliz,
aquele!  prosseguiu.  O fim da matana! Wah wah! Mas, como diz o poeta:
"Quo perfeito parecia o amor, e, depois vieram os transtornos!"
Brotou um sorriso em meu rosto.
 Conhece esse ghazal?  de Hafez.
 Exatamente  replicou o velho.  E no  de espantar que eu o conhea.
Afinal, fui professor na universidade.
  mesmo?
O velho tossiu.
 De 1958 at 1996. Ensinava Hafez, Khayyam, Rumi, Beydel, Jami, Saadi.
Cheguei at a ir para Teer como conferencista convidado. Isso foi em 1971. Minha
conferncia foi sobre o mstico Beydel. Lembro que todos aplaudiram de p. Ah! 
Ele abanou a cabea. Mas o senhor viu aqueles rapazes na picape. Acha que do
algum valor ao sufismo?
 Minha me tambm lecionava na universidade  disse eu.
 E qual era o nome dela?
 Sofia Akrami.
O seu olho conseguiu brilhar por detrs do vu da catarata.
 "A erva daninha do deserto permanece viva, mas a flor da primavera, esta
desabrocha e fenece." Quanta graa, quanta dignidade, e que tragdia...
 Conheceu minha me?  perguntei, ajoelhando-me diante dele.
 E, conheci...  disse o velho mendigo.  Gostvamos de sentar para conversar
depois das aulas. A ltima vez que fizemos isso foi em um dia chuvoso, pouco antes
dos exames finais, quando comemos juntos uma deliciosa fatia de bolo de amndoas.
Bolo de amndoas com ch quente e mel. Por essa poca, j se via nitidamente que
estava grvida, o que a deixava ainda mais bonita. Nunca esquecerei o que
ela me disse naquele dia.
 O que foi? Conte-me, por favor.  Baba sempre descrevia minha me
com frmulas um tanto vagas, do gnero "ela era uma grande mulher". Mas sempre
tive loucura para saber de detalhes: como o seu cabelo brilhava ao sol; qual o seu
sorvete favorito; quais as canes que gostava de cantarolar; se roa as unhas. Baba
levou consigo para o tmulo as recordaes que tinha dela. Talvez pronunciar o seu
nome reavivasse a culpa que sentia, a lembrana do que tinha feito to pouco tempo
depois de sua morte. Ou, talvez, a perda tenha sido tamanha, a dor to profunda, que
ele no suportasse falar a respeito dela. Ou quem sabe at ambas as coisas.
 Ela disse: "Estou com tanto medo..." E eu perguntei: "Porqu?" A, ela
respondeu: "Porque estou me sentindo profundamente feliz, dr. Rasul. E uma
felicidade assim  assustadora." Voltei a perguntar por qu, e ela prosseguiu: "S
permitem que algum seja assim to feliz se esto se preparando para lhe tirar algo",
e eu disse: "Agora, chega. J basta dessas tolices".
Farid me pegou pelo brao.
 Temos que ir andando, Amir agha  disse ele gentilmente. Mas me
desvencilhei.
 O que mais? O que mais ela disse?
Os traos do velho se abrandaram.

 Quem dera conseguisse me lembrar. Mas no me lembro. Sua me faleceu h
muito tempo, e a minha memria est to estilhaada quanto esses prdios. Sinto
muito.
 Nem uma coisinha -toa? Nada, mesmo?
O mendigo sorriu.
 Vou tentar me lembrar, e isto  uma promessa. Volte a me procurar.
 Obrigado  disse eu.  Muito obrigado.  E estava sendo sincero. Agora
sabia que a minha me gostava de bolo de amndoas com mel e ch quente, que tinha
usado a palavra "profundamente", que se inquietava por causa da prpria
felicidade. Graas quele velho, na rua, tinha acabado de descobrir mais coisas
sobre minha me do que jamais pudera saber atravs de baba.
No trajeto de volta at o furgo, nenhum de ns comentou sobre aquilo que a
maioria dos no-afegos consideraria uma coincidncia improvvel: o fato de um
mendigo de rua ter conhecido a minha me.  que tanto ele quanto eu sabamos que, no
Afeganisto, e, especialmente em Cabul, um absurdo como esse era coisa corriqueira.
Meu pai costumava dizer: "Pegue dois afegos que nunca se viram antes; ponha-os em
uma sala por dez minutos, e eles vo acabar descobrindo que so aparentados."
Deixamos o velho na escada daquele prdio. Eu tinha a inteno de faz-lo
cumprir a sua promessa, de passar por ali novamente para ver se ele conseguia
desenterrar mais algumas histrias sobre a minha me. No entanto nunca mais voltei a
v-lo.
ENCONTRAMOS O NOVO ORFANATO no setor norte de Karteh-Seh, perto das margens do rio
Cabul inteiramente seco. Era uma construo baixa, mais parecendo um
acampamento militar, com as paredes lascadas e tbuas pregadas nas janelas. No
caminho, Farid me disse que Karteh-Seh tinha sido um dos bairros mais devastados de
Cabul, e, quando descemos do furgo, a evidncia era avassaladora. De ambos os
lados das ruas esburacadas, s havia algo que era pouco mais que runas de prdios
bombardeados e casas abandonadas. Passamos pelo esqueleto enferrujado de um
carro capotado, por um aparelho de TV sem tela e parcialmente queimado, por um muro
com as palavras "ZENDA BAD TALIBAN" (Vida longa ao Talib!) pichadas com tinta
preta.
Um homenzinho magro, baixo e calvo, com uma barba grisalha desgrenhada,
veio abrir a porta. Usava um palet de tweed bem surrado, um barrete e culos de lentes
rachadas, bem na ponta do nariz. Por detrs dos culos, olhos midos como ervilhas
negras moviam-se rapidamente olhando para Farid e para mim.
 Salaam alaykum  disse ele.
 Salaam alaykum  respondi. E lhe mostrei a foto Polaroid.  Estamos
procurando por esse menino.
Ele passou os olhos rapidamente pela foto.
 Sinto muito. Nunca o vi.
 Voc mal olhou para a foto, meu amigo  disse Farid.  Por que no tenta
reparar melhor?
 Lotfan  acrescentei. Por favor.
O homem do outro lado da porta pegou a foto. Fitou-a atentamente. E a
estendeu de volta para mim dizendo:

 No. Sinto muito. Conheo cada uma das crianas dessa instituio, e esta aqui
no me parece familiar. Agora, se me do licena, tenho trabalho a fazer.  Fechou a
porta. Passou o ferrolho.
Comecei a bater na porta com os ns dos dedos.
 Agha! Agha, por favor, abra a porta. No queremos fazer nenhum mal ao
menino.
 Eu j disse. Ele no est aqui  insistiu a voz vinda l de dentro.  Agora, por
favor, vo embora.
Farid chegou mais perto da porta e apoiou a testa ali.
 Amigo, no somos ligados ao Talib  disse ele em voz baixa, com toda
cautela.  O homem que est comigo quer levar esse menino para um lugar onde ele
estar a salvo.
 Estou vindo de Peshawar  disse eu.  Um grande amigo meu conhece um
casal de americanos que mantm um lar beneficente para crianas.  Podia sentir a
presena do homem do outro lado da porta. Percebia que estava ali, ouvindo,
hesitando, oscilando entre a desconfiana e a esperana.  Oua, conheci o pai de
Sohrab  acrescentei.  O seu nome era Hassan. E a me dele se chamava Farzana.
Ele chamava a av de "Sasa". Sohrab sabe ler e escrever. E  muito bom com o
estilingue. H uma esperana para esse menino, agha; h uma sada para ele. Por
favor, abra essa porta.
Do lado de l, s silncio.
 Sou seu tio  disse eu.  O pai dele era meu meio-irmo. Passou-se mais
um momento. Depois, ouvimos a chave girando na fechadura. O rosto fino do
homenzinho voltou a aparecer pela fresta da porta. Olhou para mim, para Farid e,
depois, para mim de novo.
 S tem uma coisa errada  disse ele.
 O que ?
 Ele  fantstico com o estilingue.
Sorri.
 Os dois so inseparveis. Aonde quer que ele v, l est a atiradeira enfiada
na sua cintura  acrescentou.
O HOMEM QUE ABRIU A PORTA para ns se apresentou como Zaman, o diretor do orfanato.
 Vou lev-los ao meu escritrio  disse ele.
Ns o seguimos atravs de um corredor soturno e mal iluminado por onde
circulavam crianas descalas usando suteres rasgadas. Passamos por quartos cujo
cho era coberto apenas por esteiras e, em vez de vidraas, o que havia nas janelas
eram folhas de plstico. Estrados de camas metlicas, em sua maioria sem colcho,
enchiam esses quartos.
 Quantos rfos vivem aqui?  perguntou Farid.
 Mais do que poderamos abrigar. Cerca de duzentos e cinqenta  disse
Zaman, virando a cabea para trs.  Mas nem todos so yateem. Muitos deles
perderam o pai na guerra, e as mes no tm condies de aliment-los porque o
Talib no permite que elas trabalhem. Acabam ento trazendo os filhos para c. 
Fez um gesto amplo com a mo e acrescentou, pesaroso:  Este lugar  melhor
que as ruas, mas nem tanto. O prdio no foi concebido para servir de moradia.

Antes, era um depsito para o estoque de uma fbrica de tapetes. Portanto no h
aquecedor para a gua e deixaram que o poo secasse.  Zaman baixou a voz.  J
nem sei mais quantas vezes pedi dinheiro ao Talib para escavar um outro poo, mas
eles ficam simplesmente desfiando as contas de orao e dizem que no
h dinheiro. No h dinheiro...  Deu um risinho abafado.
Apontou para uma fileira de camas encostadas na parede.
 No temos camas suficientes, e tampouco colches suficientes para as que
temos. E, o que  pior ainda, no temos cobertores suficientes.  Mostrou uma
garotinha pulando corda com duas outras crianas.  Esto vendo aquela menina
ali? No inverno passado, as crianas tinham que dividir os cobertores disponveis. O
irmo dela morreu de frio.  Continuamos andando.  Da ltima vez que fui
conferir, verifiquei que o estoque de arroz que tnhamos no depsito no daria para
um ms, e, quando acabar, as crianas vo ter que comer po com ch tanto no caf
da manh quanto no jantar.
 Reparei que ele no tinha mencionado o almoo.
Zaman parou e se virou para mim.
 Aqui tem pouco espao para abrigar as crianas, quase no tem mais
comida, roupas e gua limpa. S o que temos, e em grande quantidade, so crianas
que perderam a infncia. O mais trgico, porm,  que elas ainda tm sorte. J
estamos com lotao acima da nossa capacidade e, a cada dia, mando embora vrias
mes que trazem os seus filhos para c.  Deu um passo na minha direo. O senhor
disse que h uma esperana para Sohrab. Deus queira que no esteja mentindo, agha.
Mas...  bem possvel que tenha chegado tarde demais.
 O que quer dizer com isso?  perguntei.
Zaman desviou os olhos.
 Venham comigo  disse ele.
O APOSENTO QUE FAZIA AS VEZES DE ESCRITRIO do diretor se limitava a quatro paredes nuas,
uma esteira no cho, uma mesa e duas cadeiras dobrveis. Logo depois que Zaman e
eu nos sentamos, vi uma ratazana cinzenta enfiar a cabea por uma toca escavada na
parede e atravessar a sala correndo. Me encolhi quando ela veio cheirar os meus sapatos,
e, depois, os de Zaman, antes de fugir pela porta aberta.
 Por que o senhor disse que poderia ser tarde demais?  insisti.
 Quer um pouco de chai? Posso fazer mais.
 No, obrigado. Prefiro que me conte tudo de uma vez.
Ele se recostou na cadeira e cruzou os braos.
 O que tenho a lhe contar no  nada agradvel. Para no dizer que pode ser
muito perigoso.
 Para quem?
 Para o senhor. Para mim. E,  claro, para Sohrab, se j no for tarde
demais.
 Preciso saber do que se trata  exclamei.
Ele assentiu.
 Perfeitamente. Antes, porm, quero lhe fazer uma pergunta. At que ponto est
mesmo empenhado em encontrar o seu sobrinho?

Lembrei das brigas de rua em que nos metamos quando crianas, de todas aquelas
situaes em que Hassan enfrentou os outros meninos para me defender, sendo que,
s vezes, eram dois contra um, ou at mesmo trs contra um. Eu me encolhia e ficava
s olhando; pensava em participar, mas sempre acabava desistindo, sempre me
continha por um motivo qualquer.
Olhei para o corredor e vi um grupo de crianas brincando de roda. Uma menina,
com a perna esquerda amputada na altura do joelho, estava sentada em um colcho
pudo, olhando, sorrindo e batendo palmas junto com os outros. Vi que Farid tambm
estava observando aquelas crianas, com a mo igualmente amputada pendendo ao
longo do corpo. Lembrei dos filhos de Wahid... e me dei conta de uma coisa: no saio
do Afeganisto sem encontrar Sohrab.
 Diga-me onde ele est  exclamei.
Os olhos de Zaman se detiveram em mim. Depois, ele assentiu com um gesto de
cabea, pegou um lpis e comeou a brincar com ele entre os dedos.
 Mantenha o meu nome fora disso.
 Prometo.
Bateu na mesa com o lpis.
 Apesar da sua promessa, creio que vou viver para me arrepender do que estou
fazendo agora, mas acho que no faz mal. J estou perdido mesmo. No entanto se
houver algo que possa ser feito por Sohrab... Vou lhe dizer, porque acredito no
senhor. O seu olhar  de um homem desesperado.  Fiquei calado por um bom
tempo.  H um oficial talib  murmurou ele  que vem nos visitar
regularmente, a intervalos de um ou dois meses. E traz dinheiro em espcie. No
muito, mas  melhor que nada.  Ele me fitou furtivamente e desviou os olhos.  Em
geral, pega uma menina. Mas nem sempre.
 Como  que o senhor permite uma coisa dessas?  perguntou Farid s minhas
costas. Deu a volta na mesa, aproximando-se de Zaman.
 E eu l tenho escolha?  retrucou ele, afastando-se da escrivaninha.
 O senhor  o diretor desse lugar  disse Farid.  Seu trabalho
 zelar por essas crianas.
 No h nada que eu possa fazer para impedi-lo.
 O senhor est vendendo crianas!  gritou Farid.
 Sente-se, Farid! Deixe para l!  disse eu. Mas j era tarde. Em um piscar
de olhos, Farid estava pulando por cima da mesa. A cadeira de Zaman voou quando
Farid saltou sobre ele e o derrubou no cho. Esmagado sob o peso daquele corpo, o
diretor s conseguia soltar uns gritos abafados. Deu um chute em uma gaveta que
estava aberta e vrias folhas de papel se espalharam pela sala.
Corri at l e foi ento que vi por que os gritos de Zaman soavam abafados:
Farid o estava estrangulando. Agarrei Farid pelos ombros, com ambas as mos, e
puxei com toda fora. Ele conseguiu se desvencilhar.
 Pare com isso!  gritei. Mas, com o rosto escarlate, ele se limitou a
contrair os lbios soltando um grunhido.
 Vou mat-lo! No tente me impedir! Vou mat-lo!  esbravejou com
desprezo.
 Largue-o!  insisti.
 Vou mat-lo!

Algo em sua voz me disse que, se eu no fizesse alguma coisa bem depressa, ia
testemunhar o primeiro assassinato de minha vida.
 As crianas esto olhando, Farid. Esto vendo tudo  disse eu. Senti os
msculos de seus ombros se contrarem sob as minhas mos e, por um momento, achei
que continuasse apertando o pescoo de Zaman apesar de tudo. Mas ele se virou e
viu as crianas. Estavam paradas na porta, em silncio, de mos dadas, algumas at
chorando. Ento, os seus msculos se distenderam. Deixou cair as mos e se
levantou. Olhou para Zaman e cuspiu no seu rosto. Depois, foi at a porta e a
fechou.
Zaman se ps de p com dificuldade, enxugou os lbios ensanguentados com a
manga da camisa, limpou o cuspe do rosto. Tossindo e ofegando, ps o barrete, os
culos, mas viu que as duas lentes estavam quebradas e voltou a tir-los. Cobriu o rosto
com as mos. Por um bom tempo, nenhum de ns disse nada.
 O talib levou Sohrab h um ms  balbuciou ele afinal, com a voz rouca e as
mos ainda escondendo o rosto.
 E o senhor ainda se diz diretor!  exclamou Farid.
Zaman deixou cair os braos.
 H seis meses que no recebo um centavo. Estou falido, porque gastei todas as
minhas economias nesse orfanato. Tudo o que tinha comprado ou herdado foi
vendido para que esse lugar desamparado pudesse continuar funcionando. Acham que
no tenho famlia no Paquisto e no Ir? Poderia ter fugido, como todo mundo. Mas no
foi o que fiz. Fiquei aqui. Fiquei por causa delas  acrescentou, apontando para a porta.
 Se lhe negar uma criana, ele leva dez. Ento, consinto que pegue uma delas e
deixo o julgamento por conta de Allah. Engulo o orgulho e apanho aquele maldito
dinheiro sujo... imundo. Depois, vou ao bazaar e compro comida para esses meninos.
Farid baixou os olhos.
 O que acontece com as crianas que ele leva?  perguntei.
Zaman esfregou os olhos com o indicador e o polegar.
 s vezes elas voltam.
 Quem  ele? Como podemos encontr-lo?  indaguei.
 V ao estdio Ghazi amanh. Poder v-lo no intervalo da partida. Ele vai
estar de culos escuros.  Pegou os seus prprios culos, quebrados, e os fez girar
nas mos.  Gostaria que fossem embora agora. As crianas esto assustadas.
E nos acompanhou at a porta.
Quando arrancamos com o furgo, vi, pelo retrovisor lateral, que Zaman
estava de p na porta. Um grupo de crianas o cercava, agarradas na barra da sua
camisa para fora das calas. Vi tambm que tinha voltado a pr os culos quebrados.

VINTE E UM
CRUZAMOS O RIO E RUMAMOS PARA O NORTE, passando pela movimentadssima praa
Pashtunistan. Baba me trazia aqui para comer kabob no restaurante Khyber. O prdio
ainda estava de p, mas as portas estavam trancadas, as janelas, estilhaadas e, no
letreiro, estavam faltando as letras K e R do nome do restaurante.
Vi um cadver logo ali perto. Tinha sido enforcado. L estava um jovem,
pendurado por uma corda amarrada a uma viga, com o rosto inchado e azulado, e as
roupas que tinha usado em seu ltimo dia de vida estavam rasgadas e
ensangentadas. Praticamente ningum parecia reparar nele.
Passamos pela praa em silncio e nos dirigimos para o bairro de Wazir Akbar
Khan. Para qualquer lado que olhasse, via uma nuvem de poeira pairando sobre a
cidade com os seus prdios de tijolos secos ao sol. Poucos quarteires depois da praa
Pashtunistan, Farid apontou para dois homens que conversavam animadamente em
uma esquina movimentada. Um deles tentava se equilibrar em uma perna s, pois a
outra tinha sido amputada na altura do joelho. Carregava nos braos a perna
mecnica.
 Sabe o que esto fazendo? Acertando um preo para a perna  disse.
 Ele est vendendo a perna mecnica?  perguntei.
Farid fez que sim com a cabea.
 Ela vale um bom dinheiro no mercado negro. D para alimentar os filhos dele
por umas duas semanas.
PARA MINHA SURPRESA, A MAIORIA DAS CASAS de Wazir Akbar Khan continuava tendo telhados
e paredes de p. Na verdade, estavam em muito bom estado. Ainda se viam rvores por
detrs dos muros e as ruas estavam bem menos cheias de escombros que as de Karteh-
Seh. Placas de sinalizao desbotadas, algumas delas retorcidas e perfuradas de balas,
ainda indicavam o caminho.
 Aqui no est to mal assim  observei.
 No  de surpreender. A maioria das pessoas importantes mora nesse bairro
agora.
 O Talib?
 Tambm  disse Farid.
 Quem mais?

Ele entrou por uma rua larga, com caladas bastante limpas e que tinha, de ambos
os lados, casas cercadas por muros altos.
 As pessoas que ficam por trs do Talib. Os verdadeiros crebros deste
governo, se  que podemos chamar isso de governo: rabes, tchetchenos,
paquistaneses  disse Farid. E apontou na direo nordeste.  A rua 15, daquele
lado,  chamada Sarak-e-Mehmana. A "rua das Visitas". E assim que eles so
chamados por aqui, visitas. Acho que um dia desses essas tais visitas vo cagar o tapete
inteiro.
 Acho que  aqui!  exclamei.  Logo ali na frente!  Apontei para o ponto de
referncia que me ajudava a me localizar quando era criana. "Se alguma vez voc se
perder," dizia baba, "lembre que a nossa rua  a que tem a casa rosa na esquina". A
casa rosa, com o telhado bem inclinado, era a nica que tinha essa cor antigamente.
E continuava a ser.
Farid dobrou naquela rua. Vi a casa de meu pai pouco mais adiante.
ENCONTRAMOS A PEQUENA TARTARUGA por detrs de um emaranhado de roseiras no
jardim. No sabamos como ela tinha vindo parar ali e estvamos empolgados demais
para pensar nisso. Pintamos a carapaa dela de vermelho brilhante. Foi idia de
Hassan, e uma tima idia, alis. Assim, nunca poderamos perd-la no meio dos
arbustos. Fingimos ser uma dupla de exploradores audaciosos que tinha descoberto um
gigantesco monstro pr-histrico em alguma selva longnqua. E resolvemos traz-lo
conosco para que o mundo inteiro pudesse v-lo. Instalamos o animal em um carrinho
de madeira que Ali tinha construdo para Hassan no ltimo inverno, como presente de
aniversrio, fingindo que era uma imensa jaula de ao. Vejam que monstruosidade de
arrepiar! L fomos ns andando pela grama, puxando o carrinho s nossas costas,
rodando em volta das macieiras e cerejeiras, fazendo de conta que elas eram arranhacus
que batiam nas nuvens e que tinham milhares de janelas de onde surgiam cabeas
para ver o espetculo que acontecia l embaixo. Atravessamos a pequena ponte em
forma de meia-lua que baba tinha mandado construir perto de um punhado de
figueiras e que, para ns, passou a ser uma imensa ponte pnsil unindo duas cidades,
enquanto o laguinho debaixo dela tinha virado um oceano espumante. Fogos de
artifcio explodiram sobre os pilares macios da ponte e soldados armados nos
saudaram, formando alas, como gigantescos cabos de ao lanados para o cu. Fomos
arrastando o carrinho, com a pequena tartaruga sacolejando ali dentro, e seguimos
pela alameda de tijolinhos que j ficava fora dos portes de ferro fundido. Retribumos
 saudao dos lderes mundiais que nos aplaudiam de p. ramos os clebres
aventureiros Hassan e Amir, os maiores exploradores do mundo, indo receber a
medalha de honra ao mrito pelo nosso feito corajoso...
COM TODO CUIDADO, FUI ANDANDO pelo passeio onde tufos de capim cresciam por entre
os tijolos desbotados. Parei diante do porto da casa de meu pai, sentindo-me um
estranho. Pus as mos na grade enferrujada, lembrando quantas vezes tinha entrado e
sado por aquele mesmo porto quando era criana, por motivos que, agora, no
tinham a menor importncia, mas que, na poca, pareciam fundamentais. Espiei l
para dentro.

A alameda que levava das grades at o jardim, onde Hassan e eu tnhamos nos
revezado em levar tombos naquele vero em que aprendemos a andar de bicicleta, no
parecia to larga nem to comprida quanto imaginava. O calamento tinha rachado,
formando um desenho que lembrava relmpagos, e mais tufos de capim brotavam
daquelas fendas. A maioria dos choupos havia sido derrubada  aquelas rvores em
que Hassan e eu trepvamos para mandar reflexos de espelho para as casas dos
vizinhos. As que sobraram estavam quase sem folhas. O "muro do milho doente"
ainda estava intacto, embora no se visse mais nenhum p de milho, doente ou no,
perto dele. A tinta tinha comeado a descascar e, em vrios trechos, tinha se soltado
completamente. O gramado estava do mesmo tom de marrom que aquela nvoa de
poeira que pairava sobre a cidade, e salpicado de pontos de terra nua onde no
crescia mais nada.
Havia um jipe estacionado na alameda, e tive a ntida sensao de que estava
tudo errado: ali era o lugar do Mustang preto de baba. Durante anos a fio, o barulho
do motor de oito cilindros daquele carro me acordou toda manh. Vi que tinha cado
leo debaixo do jipe, deixando no cho uma marca que parecia uma grande mancha
de Rorschach. Mais alm, um carrinho de mo vazio estava deitado de lado. No vi
sinal das roseiras que baba e Ali tinham plantado  esquerda da alameda; s havia
terra que se espalhava, invadindo o calamento. E mato.
s minhas costas, Farid buzinou duas vezes.
 Temos que ir, agha. Vamos acabar chamando ateno  insistiu ele.
 S mais um minuto  retruquei.
A casa em si no tinha nada a ver com a manso branca e espaosa das minhas
lembranas de infncia. Parecia menor. O telhado estava cedendo e o reboco, rachado.
As janelas da sala de visitas, do saguo e do banheiro de hspedes, no andar de cima,
estavam quebradas e tinham sido remendadas, mal e porcamente, com pedaos de
plstico transparente ou com tbuas pregadas s esquadrias. A pintura, antigamente de
um branco brilhante, tinha virado um cinza duvidoso e estava estragada em alguns
pontos, deixando ver as fileiras de tijolos que havia por baixo da tinta. Os degraus da
porta da frente tinham se quebrado. Como tantas outras coisas em Cabul, a casa de
meu pai era o retrato de um esplendor decadente.
Localizei a janela do meu antigo quarto, no segundo andar, a terceira 
esquerda, a partir da porta de entrada. Fiquei na ponta dos ps, mas tudo o que vi
por detrs da vidraa foram sombras. H vinte e cinco anos, l estava eu, junto daquela
mesma janela, com a chuva grossa escorrendo na vidraa embaada pela minha
respirao. Parado naquele mesmo lugar, fiquei olhando Hassan e Ali porem as suas
coisas na mala do carro de meu pai.
 Amir agha  chamou Farid mais uma vez.
 J vou  respondi.
Era loucura, mas queria ir l dentro. Queria subir os degraus da entrada, onde
Ali mandava que Hassan e eu tirssemos as botas de neve. Queria entrar no saguo,
sentir o cheiro das cascas de laranja que Ali sempre jogava no fogareiro para queimar
junto com a serragem. Sentar  mesa da cozinha, tomar ch com uma fatia de naan,
ouvir Hassan cantando velhas cantigas hazara.
Outra vez a buzina. Voltei para o Land Cruiser estacionado junto ao meio-fio.
Farid estava fumando, sentado ao volante.
 Tenho que ver mais uma coisa  disse eu.

 D para se apressar?
 S mais dez minutos.
 V de uma vez.  Mas, quando me virei para ir, ele acrescentou:   melhor
voc deixar isso tudo para l. Fica mais fcil.
 Mais fcil para qu?
 Para seguir em frente  respondeu ele, e atirou o cigarro pela janela. 
Quantas coisas voc ainda vai querer ver? Pode deixar que vou lhe poupar esse trabalho:
nada do que voc se lembra sobreviveu.  melhor esquecer.
 No quero mais esquecer  disse eu.  S dez minutos, est bem?
HASSAN E EU PRATICAMENTE NO SUVAMOS quando subamos a colina que ficava perto da
casa de meu pai. L no alto, corramos, um atrs do outro, ou nos sentvamos em uma
espcie de lombada de onde se tinha uma vista fantstica do aeroporto  distncia.
Ficvamos olhando os avies decolando e aterrissando. E saamos correndo
novamente.
Agora, depois que cheguei ofegante ao topo daquela colina ngreme, cada vez que
respirava era como se estivesse inalando fogo. O suor me escorria em bicas pelo rosto.
Fiquei parado por um instante, tentando recuperar o flego, sentindo umas pontadas
do lado. Em seguida, fui procurar o cemitrio abandonado. No custei muito a
encontr-lo. Ainda estava l, bem como o velho p de rom.
Encostei no prtico de pedra cinzenta do cemitrio onde Hassan tinha enterrado
a me. O velho porto de grades meio despencado j no existia mais, e quase no se
viam as lpides no meio do matagal que tinha tomado conta do lugar. Dois corvos
estavam pousados na mureta que cerca o cemitrio.
Em sua carta, Hassan dizia que o p de rom no dava frutos h anos. Olhando
para aquela rvore murcha e desfolhada, duvidei que voltasse a faz-lo algum dia.
Parei debaixo dela, lembrei de todas as vezes que tnhamos trepado nos seus galhos
para nos encarapitar l em cima, com as pernas balanando no ar, salpicados pelos
raios do sol que passavam atravs da folhagem e desenhavam, em nosso rosto, um
mosaico de luz e sombra. O gosto acentuado da rom me veio  boca.
Me agachei e passei as mos pelo tronco daquela rvore. Encontrei o que estava
procurando. De to apagado, o entalhe tinha quase desaparecido inteiramente, mas
ainda estava ali: "Amir e Hassan, sultes de Cabul." Refiz o traado de cada letra com
os dedos e fui tirando pedacinhos de casca daqueles sulcos finos.
Sentei de pernas cruzadas, junto daquele tronco, e olhei para a cidade da minha
infncia. Naquela poca, havia rvores aparecendo por detrs dos muros de todas as
casas. O cu se espalhava, amplo e azul, e as roupas penduradas para secar reluziam ao
sol. Se prestasse bem ateno, poderia at ouvir os gritos do vendedor de frutas que
passava por Wazir Akbar Khan com seu jumento: "Cerejas! Abrics! Uvas!" De manh
bem cedo, poderia ouvir o azan, o chamado do mueszzin para as oraes na mesquita
de Shar-e-Nau.
Ouvi uma buzinada e vi que Farid acenava para mim. J era mais que hora de ir
embora.
SEGUIMOS NOVAMENTE EM DIREO AO SUL, de volta  praa Pashtunistan. Cruzamos com
vrias outras picapes vermelhas cheias de jovens armados e barbudos. Cada vez que
passvamos por uma delas, Farid praguejava bem baixinho.

Pedi um quarto em um pequeno hotel perto da praa. Trs menininhas, usando
vestidos pretos idnticos e echarpes brancas, cercaram o homem franzino e de culos
que estava atrs do balco. Ele cobrou setenta e cinco dlares, um preo absurdo
considerando-se o estado deplorvel do lugar, mas no me importei. Explorar os
outros para pagar uma casa de praia no Hava era uma coisa. Fazer isso para dar de
comer aos prprios filhos era outra bem diferente.
No havia gua quente nas torneiras e a descarga do vaso rachado no estava
funcionando. Tudo o que havia ali era uma cama metlica, com um colcho surrado, um
cobertor esfarrapado e uma cadeira de madeira em um canto. A janela que dava para a
praa tinha quebrado e no foi trocada. Quando ia pr a mala no cho, percebi uma
mancha de sangue, j seca, na parede atrs da cama.
Dei dinheiro a Farid para ele ir comprar comida. Quando voltou, com quatro
espetinhos de kabob fumegantes, naan fresco e uma tigela de arroz branco, sentamos
na cama e praticamente devoramos aquilo tudo. Afinal de contas, havia uma coisa que
no tinha mudado em Cabul: o kabob era to suculento e delicioso como nas minhas
lembranas.
De noite, fiquei com a cama para mim e Farid se deitou no cho, enrolado em um
cobertor extra pelo qual o dono do hotel cobrou uma taxa adicional. No penetrava
nenhuma luz no quarto, a no ser os raios da lua que passavam pela janela quebrada.
Farid me disse que o proprietrio tinha lhe contado que Cabul estava sem energia
eltrica h dois dias e o gerador do hotel tinha de ser consertado. Conversamos por
algum tempo. Ele me disse que tinha crescido em Mazar-i-Sharif e em Jalalabad.
Falou-me das coisas acontecidas pouco depois que ele e o pai foram se juntar ao
jihad para lutar contra os shorawi, no vale Panjsher. Contou que ficaram cercados,
sem comida, e comeram gafanhotos para sobreviver. Falou sobre o dia em que o
bombardeio dos helicpteros matou o seu pai e o dia em que a mina terrestre matou
as suas duas filhas. Perguntou sobre os Estados Unidos. Disse-lhe que, l, era possvel
entrar em uma mercearia e encontrar uns quinze ou vinte tipos diferentes de cereais
para comprar. Que a carne de carneiro era sempre fresca, e o leite era vendido
gelado. Que as frutas eram abundantes, e a gua, limpa. Que todas as casas tinham
TV, todos os aparelhos tinham controle remoto e quem quisesse podia comprar uma
antena parablica e, com ela, sintonizar mais de quinhentos canais.
 Quinhentos?  exclamou ele.
 Quinhentos  confirmei.
Ficamos calados por alguns minutos. Quando j estava certo de que Farid tinha
pegado no sono, ele deu uma risadinha.
 Agha, sabe o que o mul Nasruddin fez quando a filha dele chegou em casa se
queixando de que o marido tinha lhe batido?  Podia senti-lo sorrindo no escuro e um
sorriso tambm se formou em meu rosto. No havia um afego no mundo todo que no
conhecesse pelo menos algumas piadas sobre aquele mul presunoso.
 O que foi?
 Ele tambm lhe bateu e, depois, mandou que voltasse para casa, levando
um recado para o marido: devia lhe dizer que o mul no era idiota e que, se o cretino
achava que podia bater na sua filha, o mul se vingava batendo na mulher dele.
Ri. Em parte, por causa da piada; em parte por ver que o humor afego no
mudava nunca. Guerras foram travadas, a internet foi inventada e um rob tinha

circulado pela superfcie de Marte, mas, no Afeganisto, as pessoas continuavam a
contar piadas sobre o mul Nasruddin.
 Conhece aquela da vez em que o mul ps uma sacola pesada nas costas e
saiu montado no burro?  perguntei.
 No.
Algum na rua perguntou por que ele no punha a sacola no lombo do burro. E
ele respondeu: "Seria uma crueldade. J sou pesado o bastante para esse pobre
coitado."
Continuamos contando piadas sobre o mul Nasruddin at esgotarmos os nossos
estoques e, ento, ficamos calados novamente.
 Amir agha?  chamou Farid, quando eu j estava quase pegando no sono.
 O que foi?
 Por que veio at aqui? Quero dizer, qual o verdadeiro motivo?
 J lhe disse.
 Por causa do menino?  Por causa do menino.
Farid se remexeu no cho.
  difcil de acreditar.
 s vezes, eu mesmo mal posso acreditar que estou aqui.
 No... O que eu queria saber  por que esse menino? Voc veio l dos Estados
Unidos por causa de... um shi'a?
Aquela frase me tirou qualquer vontade de rir. E me tirou o sono tambm.
 Estou cansado  disse.  Vamos tentar dormir um pouco.
Logo, logo os roncos de Farid estavam ecoando pelo quarto vazio. Fiquei
acordado, com as mos cruzadas sobre o peito, fitando a noite estrelada atravs da
janela quebrada e pensando que talvez o que as pessoas diziam a respeito do
Afeganisto fosse verdade. Talvez aquilo ali no tivesse jeito mesmo.
UMA MULTIDO ALVOROADA LOTAVA O estdio Ghazi quando passamos pelos tneis de
acesso. Milhares de pessoas se movendo pelos patamares de concreto j apinhados de
gente. Crianas brincando pelas passagens entre os degraus da arquibancada e
correndo para cima e para baixo, umas atrs das outras. O cheiro de gro-de-bico
condimentado enchia o ar, misturado ao fedor de esterco e de suor. Farid e eu
passamos por ambulantes vendendo cigarros, pinhes e biscoitos.
Um menino esqueltico, com um palet de tweed, me pegou pelo cotovelo e
cochichou no meu ouvido, perguntando se eu no queria comprar umas "fotos
erticas".
 Muito sexy, agha  disse ele, com os olhos alertas indo de um lado para o
outro, sem parar. Lembrei da garota que, poucos anos antes, tinha tentado me
vender crack no bairro Tenderloin, em San Francisco. O menino abriu um pouco um
dos lados do palet, deixando-me entrever as tais fotos erticas: eram postais de
filmes indianos mostrando atrizes sensuais, de olhos meigos, inteiramente vestidas,
nos braos dos seus gals.   muito sexy  repetiu ele.
 No, obrigado  disse eu, seguindo adiante.
 Se for apanhado, vo lhe dar tantas chicotadas que o pai dele vai se revirar
no tmulo  murmurou Farid.

 claro que no havia lugar marcado. Nem algum para nos levar gentilmente at
o nosso setor, corredor, fileira e assento. Nunca houve mesmo, nem nos velhos
tempos da monarquia. Vimos um lugar decente onde se podia sentar,  esquerda do
meio do campo, embora tenham sido necessrios alguns encontres e cotoveladas por
parte de Farid.
Lembrei de como o gramado era verdinho nos anos 1970, quando baba me trazia
aqui para ver jogos de futebol. Agora, o campo era um caos. Havia buracos e crateras
por todo canto, com destaque para um ou dois bem profundos logo atrs das traves do
gol que ficava na direo sul. E no tinha grama nenhuma; s terra. Quando os dois
times finalmente entraram em campo  todos usando calas compridas, apesar do calor
 e o jogo comeou, ficou difcil acompanhar a bola no meio das nuvens de poeira
que os jogadores levantavam com os ps. Jovens talib, munidos de chicotes,
perambulavam pelos corredores batendo em qualquer um que torcesse alto demais.
Assim que o apito anunciou o fim do primeiro tempo, a encenao comeou.
Duas picapes vermelhas e empoeiradas, como aquelas que tinha visto circulando pela
cidade desde que cheguei, entraram pelos portes do estdio. A multido se levantou.
Na cabine de uma das picapes, havia uma mulher usando uma burqa verde, e, na
outra, um homem de olhos vendados. Os veculos deram a volta na pista,
lentamente, como se pretendessem deixar que a multido os visse bem. E produziram
o efeito esperado: as pessoas espichavam o pescoo, apontavam, ficavam na ponta
dos ps. Ao meu lado, o pomo-de-ado de Farid subia e descia enquanto ele
murmurava uma prece bem baixinho.
As picapes vermelhas entraram no campo, dirigiram-se para uma das suas
extremidades, erguendo duas nuvens de poeira e com o sol refletindo em suas calotas.
Um terceiro veculo foi ao seu encontro na ponta do campo. A cabine deste ltimo
estava cheia de alguma coisa e, de repente, compreendi a funo daqueles dois buracos
atrs do gol. Descarregaram o contedo da terceira picape. A multido murmurou por
antecipao.
 Quer ficar?  perguntou Farid muito srio.
 No  disse eu. Nunca na vida quis tanto estar longe de um lugar quanto
naquele momento.  Mas temos que ficar.
Dois talib, com os seus Kalashnikovs pendurados nos ombros, ajudaram o
homem de olhos vendados a descer da primeira picape e dois outros fizeram o
mesmo com a mulher de burqa verde. Os joelhos da mulher fraquejaram e ela
desabou no cho. Os soldados a ergueram, mas ela caiu de novo. Quando tentaram
ergu-la outra vez, ela comeou a gritar e a espernear. Enquanto viver, nunca vou me
esquecer do som daquele grito. Era o lamento de um animal selvagem tentando arrancar
a pata estraalhada de uma daquelas armadilhas para ursos. Mais dois talib
acorreram para for-la a entrar em um dos buracos, que lhe batia na altura do peito.
J o homem de olhos vendados deixou-se levar com toda calma para o buraco que lhe
era destinado. Agora, s se via o torso dos dois condenados.
Um clrigo gorducho, de barba branca, usando roupas cinzentas, parou junto s
traves e pigarreou, segurando um microfone. s suas costas, a mulher continuava a
gritar dentro do buraco. Ele recitou uma orao interminvel do Coro e a sua voz
nasalada ondulava em meio ao silncio repentino da multido. Lembrei de uma coisa
que baba tinha me dito muito tempo atrs: "Estou cagando para as barbas de todos
esses macacos hipcritas... Tudo o que sabem fazer  ficar desfiando aquelas contas de
orao e recitando um livro escrito em uma lngua que s vezes nem mesmo entendem.
Que Deus nos proteja se um dia o Afeganisto cair nas mos dessa gente."
Terminada a orao, o clrigo pigarreou.
 Irmos e irms!  bradou ele em farsi, e a sua voz ressoou por todo o estdio.
 Estamos aqui hoje para executar um ato de shari'a. Estamos aqui hoje para fazer
justia. Estamos aqui hoje porque a vontade de Allah e a palavra do profeta
Muhammad (que a paz esteja com ele) esto vivas e vigorosas no Afeganisto, nossa
ptria amada. Ouvimos o que Deus diz e obedecemos a Ele porque no passamos de
criaturas humildes e impotentes diante de Sua grandeza. E o que  que Ele diz? Estou
lhes perguntando. O QUE  QUE DEUS DIZ? Diz que todo pecador deve receber punio
condizente com o pecado que cometeu. Essas palavras no so minhas, nem tampouco
de meus irmos. So as palavras de DEUS!  bradou ele, apontando para o cu com a
mo livre.
Minha cabea latejava e o sol parecia ter ficado muito mais quente.
 Todo pecador deve receber punio condizente com o pecado que cometeu
 repetia o clrigo ao microfone, erguendo a voz e pronunciando cada palavra bem
devagar, de um jeito dramtico.  E que punio, irmos e irms,  condizente com o
adultrio? Como devemos punir aqueles que desonraram a santidade do casamento?
Como devemos tratar aqueles que cuspiram na face de Deus? Que resposta
devemos dar queles que atiraram pedras nas janelas da casa de Deus? DEVEMOS
DEVOLVER AS PEDRAS QUE FORAM ATIRADAS POR ELES!  Desligou o microfone. Um
murmrio surdo se espalhou pela multido.
Ao meu lado, Farid abanava a cabea.
 E eles se dizem muulmanos...  sussurrou.
Nesse momento, um homem alto, de ombros largos, desceu da picape. O seu
surgimento provocou gritos e aplausos de uns poucos espectadores. Desta vez, porm,
ningum recebeu chicotadas por gritar alto demais. Os trajes brancos do sujeito
grandalho reluziam ao sol da tarde. A bainha da sua tnica se agitava com o vento e
ele abriu os braos como Jesus na cruz. Saudou a multido virando-se lentamente,
fazendo um giro completo. Quando ficou de frente para o nosso setor, vi que estava
usando culos escuros redondos, como aqueles que John Lennon usava.
 Esse deve ser o nosso homem  disse Farid.
O talib alto, de culos escuros, foi se dirigindo para uma pilha de pedras que
tinham sido descarregadas da terceira picape. Pegou uma delas e exibiu-a para a
multido. O barulho praticamente cessou, sendo substitudo por uma espcie de
zumbido que foi se espalhando pelo estdio. Olhei  minha volta e vi que todos
estavam estalando a lngua, em sinal de desaprovao. Assumindo uma postura absurdamente
parecida com a de um arremessador de beisebol no seu montculo, o talib
atirou a pedra no homem de olhos vendados que estava em um dos buracos. Acertou
em um dos lados da cabea. A mulher recomeou a gritar. A multido fez um "Oh!"
assustado. Fechei os olhos e tapei o rosto com as mos. Os "Oh!" do pblico
acompanhavam cada pedra arremessada, e aquilo durou ainda algum tempo. Quando
os gritos cessaram, perguntei a Farid se tinha terminado. Ele disse que no. Supus que
as gargantas tivessem se cansado. No sei por quanto tempo ainda fiquei ali, com o
rosto coberto com as mos. S sei que, quando voltei a abrir os olhos, ouvi gente ao
meu redor perguntando "Mord? Mord? Ele morreu?"

O homem dentro do buraco no passava, agora, de uma massa disforme,
ensangentada e em frangalhos. Tinha a cabea pendida para frente, com o queixo
encostando no peito. O talib de culos como os de John Lennon estava olhando para
um outro homem agachado junto ao buraco, jogando uma pedra para cima e voltando
a apanh-la com a mo. O sujeito agachado tinha uma das extremidades de um
estetoscpio nos ouvidos e a outra encostada no peito do homem que estava no
buraco. Tirou o estetoscpio dos ouvidos e abanou a cabea para o talib de culos
escuros. A multido soltou um gemido.
John Lennon voltou para o seu montculo.
Quando estava tudo terminado, depois que os cadveres ensanguentados j
tinham sido atirados na traseira das picapes vermelhas sem a menor cerimnia  um
em cada veculo , uns poucos homens armados de ps apressaram-se em tapar os
buracos. Um deles tentou at encobrir as grandes manchas de sangue atirando terra
sobre elas. Alguns minutos mais tarde, os times voltaram a campo. E o segundo tempo
do jogo j estava em andamento.
Marcamos um encontro para as trs horas da tarde. A rapidez com que
conseguimos marc-lo me surpreendeu. Estava contando com alguma demora, no mnimo
todo um interrogatrio, ou que talvez at quisessem examinar os nossos documentos.
Mas tudo aquilo serviu para me lembrar como as coisas so inoficiais no Afeganisto,
mesmo quando se trata de questes oficiais. Tudo o que Farid precisou fazer foi dizer a
um dos talib munidos de chicotes que tnhamos assuntos pessoais a tratar com o
homem de branco. Farid e ele trocaram algumas palavras. Ento, o sujeito do chicote
fez que sim com a cabea e gritou algo em pashtu para um jovem que estava no
campo. Este correu at a baliza onde o talib de culos escuros estava conversando com
o clrigo gorducho que tinha feito o sermo. Os trs confabularam entre si. Vi o
indivduo de culos escuros olhar para cima. Ele assentiu com um gesto. Disse algo ao
ouvido do mensageiro. O jovem trouxe a mensagem para ns.
Estava combinado, ento. s trs horas.

VINTE E DOIS
FARID FOI ENTRANDO LENTAMENTE com o Land Cruiser pela alameda que levava a um
casaro em Wazir Akbar Khan. Estacionou  sombra dos salgueiros que se derramavam
por sobre os muros do condomnio situado  rua 15, a Sarak-e-Mehmana, a tal "rua
das Visitas". Desligou o motor e ficamos ali sentados por um minuto, sem dizer
absolutamente nada, s ouvindo o barulhinho daquela mquina que ia esfriando.
Farid se remexeu no banco e ficou brincando com as chaves ainda penduradas na
ignio. Percebi que estava se preparando para me dizer alguma coisa.
 Acho que vou ficar esperando no carro  disse ele afinal, com um tom de
quem estava pedindo desculpas. Nem olhou para mim.  Agora  com voc. Eu...
Dei um tapinha no seu brao.
 Voc j fez muito mais do que foi pago para fazer. No estou contando que v
comigo  afirmei. No entanto adoraria no ter que entrar l sozinho. Apesar do que
descobri a respeito de baba, queria que ele estivesse ao meu lado nesse instante. Ele
irromperia pela porta da frente e pediria para ser levado  presena do responsvel,
"cagando para as barbas" de qualquer um que se metesse em seu caminho. Mas baba
estava morto h um bom tempo; morto e enterrado no setor afego de um pequeno
cemitrio em Hayward. Ainda no ms passado, Soraya e eu tnhamos posto um buqu de
frsias e margaridas no seu tmulo. Agora, eu tinha que me virar sozinho.
Sa do carro e me encaminhei para o grande porto de madeira. Toquei a
campainha, mas no ouvi rudo algum  a luz ainda no havia voltado. Tive que
bater. Pouco depois, ouvi vozes abafadas vindo do lado de dentro, e dois homens
empunhando Kalashnikovs vieram abrir.
Olhei para Farid, que estava sentado no carro.
 Daqui a pouco estou de volta  murmurei, sem ter a mnima certeza de que
isso fosse realmente acontecer.
Os homens armados me revistaram da cabea aos ps, apalpando as minhas
pernas e as minhas virilhas. Um deles disse alguma coisa em pashtu e ambos deram
risadinhas. Finalmente entramos. Os dois guardas foram me escoltando atravs de um
gramado muito bem tratado, e passamos por gernios e arbustos baixos plantados
junto ao muro. No fundo do quintal, havia um velho poo. Lembrei que a casa de kaka

Homayoun, em Jalalabad, tinha um poo igualzinho a esse, e que as gmeas, Fazila e
Karima, e eu gostvamos de jogar pedras l dentro para ouvir o barulhinho que faziam
ao cair na gua.
Subimos alguns degraus e penetramos em uma casa espaosa, escassamente
decorada. Atravessamos o saguo  que tinha uma das paredes recoberta por uma
enorme bandeira do Afeganisto , e os dois homens me levaram ao andar de cima,
para uma sala com dois sofs idnticos, estofados de verde, e um grande aparelho de
televiso em um canto. Um tapete de oraes, mostrando um desenho ligeiramente
oblongo de Meca, estava pendurado em uma parede. O mais velho dos dois guardas
me indicou um dos sofs com o cano do fuzil. Sentei. Ambos saram da sala.
Cruzei e descruzei as pernas. Fiquei sentado com as mos suadas sobre os
joelhos. Ser que desse jeito ia parecer nervoso? Juntei as mos, mas decidi que era
ainda pior, e cruzei os braos. O sangue latejava nas minhas tmporas. Estava me
sentindo extremamente s. Os pensamentos me passavam pela cabea, mas, na
verdade, no queria pensar em nada, porque uma parte de mim, que tinha juzo, sabia
que isso em que eu havia me metido era uma insanidade. Estava a milhares de
quilmetros de distncia da minha mulher, sentado em um lugar que parecia at uma
daquelas salas reservadas dos tribunais, esperando por um homem que eu tinha visto
assassinar duas pessoas nesse mesmo dia. Era realmente uma insanidade. Pior ainda: era
uma irresponsabilidade. Havia uma chance muito plausvel de que, por minha culpa,
Soraya se tornasse uma biwa, uma viva, aos trinta e seis anos. "Esse no  voc,
Amir", dizia uma parte de mim. "Voc  um covarde.  isso que voc  de verdade. E
nem  to mau assim, j que o seu nico mrito  o de nunca ter mentido a si mesmo a
este respeito. No quanto a isto. No h nada de errado com a covardia, contanto que
ela esteja aliada  prudncia. Mas, quando um covarde se esquece de quem ele ... Que
Deus o proteja..."
Perto do sof, havia uma mesinha de centro. Os seus ps se cruzavam, formando
um "X", e, no ponto em que se encontravam, tinha uma argola metlica com umas
bolotas de lato do tamanho de uma noz. J tinha visto uma mesa assim antes. Mas
onde? Ento, me lembrei. Foi naquela casa de ch lotada, l em Peshawar, na noite em
que fui dar uma volta. Em cima da mesa, havia uma tigela com uvas rosadas. Peguei
uma delas e enfiei na boca. Tinha que me ocupar com alguma coisa, qualquer coisa,
para calar aquela voz dentro da minha cabea. A uva estava bem doce. Apanhei outra,
sem saber que seria o ltimo bocado de comida slida que ia comer por muito tempo.
A porta se abriu e os dois homens armados voltaram. Entre eles, o talib alto e
vestido de branco  que continuava usando os culos escuros como os de John Lennon
, mais parecendo um guru mstico, estilo new age, de ombros largos.
Ele se sentou defronte de mim e apoiou uma das mos no brao do sof. Durante
um bom tempo, no disse nada. S ficou sentado ali, me olhando, com uma das mos
tamborilando no estofado do mvel enquanto a outra desfiava as contas de um rosrio
azul-turquesa. Agora estava usando um palet preto sobre a tnica branca, e um
relgio de ouro. Vi uma mancha de sangue na sua manga esquerda. Achei
morbidamente fascinante que ele no tivesse trocado de roupa depois das execues
daquela manh.
De quando em quando, a mo desimpedida se erguia e os seus dedos grossos
batiam em alguma coisa no ar. Faziam movimentos lentos, para cima e para baixo,
para um lado e para o outro, como se o homem estivesse acariciando um animal de
estimao invisvel. Uma das suas mangas se arregaou e pude ver umas marcas no
seu brao  j tinha visto aquelas mesmas marcas entre os moradores de rua que
viviam nos becos sombrios de San Francisco.
A sua pele era muito mais clara que a dos dois outros homens, quase doentia, e
um punhado de minsculas gotas de suor reluzia em sua testa, logo abaixo da borda do
turbante negro. A sua barba, que lhe batia no peito como a dos demais, tambm era
mais clara.
 Salaam alaykum  disse ele.
 Salaam  respondi.
 Podemos nos livrar de voc agora mesmo, como sabe  prosseguiu ele.
 O que foi que disse?
Ele ergueu a mo e fez um gesto para um dos homens armados. "Rriss." De
repente, l estava eu sentindo fisgadas no rosto, e o guarda sacudia a minha barba para
cima e para baixo, dando risadinhas. O talib sorriu debochado.
 E uma das mais bem-feitas que vi nesses ltimos tempos. Mas, na verdade, acho
que fica muito melhor assim. No concorda?  Mexeu os dedos, estalou-os, abrindo e
fechando o punho.  Ento, Inshallab, gostou do espetculo de hoje?
 O que foi aquilo...?  indaguei, esfregando o rosto e torcendo para que a
minha voz no trasse o terror que estava sentindo por dentro.
 O exerccio pblico da justia  o maior de todos os espetculos, meu irmo. Tem
drama. Suspense. E, o que  melhor ainda, educao em massa.  Estalou os dedos. O
mais jovem dos guardas acendeu um cigarro para ele. O talib riu. Resmungou algo
consigo mesmo. As suas mos tremiam e ele quase deixou o cigarro cair.  Mas se
est querendo um espetculo de verdade, deveria ter estado comigo em Mazar. Foi em
agosto de 1998.
 Como?
 Deixamos eles l, jogados pelas ruas, feito lixo. Sabe como ...
Percebi onde ele estava querendo chegar.
Ficou de p, deu uma volta em torno do sof, e, depois, mais outra. Sentou
novamente. Comeou a falar depressa.
 Fomos de porta em porta, convocando os homens e os meninos. E os
fuzilamos bem ali, na frente de suas famlias. Para que todos vissem. Para que se
lembrassem de quem eram, qual era o seu lugar.  Agora, estava quase ofegante. 
s vezes, arrombvamos as portas e entrvamos pelas casas adentro. E... eu... varria
a sala com o cano da minha metralhadora e atirava, atirava at a fumaa me cegar.
 Inclinou-se na minha direo, como algum prestes a revelar um grande segredo.
 Ningum pode conhecer o verdadeiro sentido da palavra "LIBERAO" at ter feito
uma coisa como essa: ficar parado em uma sala repleta de alvos, deixar as balas
voarem, sem qualquer culpa ou remorso. Tendo plena conscincia de ser uma pessoa
virtuosa, boa e decente. Sabendo que est realizando o trabalho de Deus.  de tirar o
flego...  Beijou o rosrio e inclinou a cabea.  Lembra disso, Javid?
 Lembro, agha sahib  respondeu o mais jovem dos guardas.
 Como poderia esquecer?
Eu tinha lido nos jornais sobre o massacre dos hazaras em Mazar-i-Sharif.
Aconteceu logo depois que o Talib tomou a cidade, que foi uma das ltimas a cair.
Lembro de Soraya, sem um pingo de sangue no rosto, me mostrando aquela matria
durante o caf da manh.

 De porta em porta... S parvamos para comer e rezar  prosseguiu o talib. E
disse isso de um jeito prazeroso, como quem fala de uma festa fantstica de que
participou.  Deixamos os corpos pelas ruas, e, se as pessoas da famlia tentassem
rastejar para arrast-los de volta para dentro de casa, atirvamos nelas tambm.
Ficaram ali na rua por vrios dias. Entregues aos cachorros. Carne de cachorro para
cachorros.  Apagou o cigarro. Esfregou os olhos com as mos trmulas.  Voc veio
da Amrica?
 Vim.
 Como tem passado aquela prostituta ultimamente?
Senti uma sbita vontade de urinar. Rezei para que passasse.
 Estou procurando um menino.
 S voc?  perguntou ele. Os homens com os Kalashnikovs riram. Tinham
os dentes esverdeados de tanto mascar naswar.
 Pelo que soube, ele est aqui, com o senhor  disse eu.  O nome dele 
Sohrab.
 Quero lhe fazer uma pergunta... O que voc fica fazendo por l, com aquela
prostituta? Por que no est aqui, com os seus irmos muulmanos, servindo ao seu
pas?
 Estive fora por muito tempo.  Foi tudo o que me ocorreu dizer. Estava
com a cabea to quente... Apertei os joelhos tentando segurar a bexiga.
O talib se virou para os dois homens parados junto  porta.
 Isso  uma resposta?  perguntou.
 No, agha sahib  disseram os dois em unssono, com um sorriso.
Voltou os olhos para mim. Deu de ombros.
 Eles esto dizendo que isso no  uma resposta.  Deu uma tragada no
cigarro.  No meio que freqento, h quem acredite que abandonar o prprio watan,
quando ele mais precisa da gente,  o mesmo que traio. Poderia mandar prend-lo
por traio. Poderia at mesmo mandar fuzil-lo. Essa idia lhe d medo?
 S estou aqui por causa do menino.
 Isso lhe d medo?
 D
  bom mesmo  disse ele. Recostou-se novamente no sof. Apagou o
cigarro.
Pensei em Soraya. Fiquei um pouco mais calmo. Lembrei do seu sinal de nascena
em forma de foice, da curva elegante do seu pescoo, dos seus olhos luminosos.
Lembrei da noite de nosso casamento, quando ficamos olhando para a imagem um do
outro refletida no espelho, debaixo do vu verde, e como o seu rosto enrubesceu
quando sussurrei que a amava. Lembrei de ns dois danando uma velha cano afeg,
girando e girando, e todos nos olhando e batendo palmas, o mundo inteiro parecendo
um borro de flores, vestidos, smokings e rostos sorridentes.
O talib estava dizendo alguma coisa.
 Desculpe. No ouvi.
 Perguntei por que voc quer v-lo? Gostaria de ver o meu menino, no ? 
Seu lbio superior se contraiu em um ricto debochado quando ele pronunciou essas
ltimas palavras.
 Gostaria.

Um dos guardas saiu da sala. Ouvi o rangido de uma porta se abrindo. Ouvi o
guarda dizer alguma coisa em pashtu, em tom severo. Depois, passos, e o tilintar de sinos
acompanhando cada passo. Lembrei do homem do macaco que Hassan e eu sempre
amos procurar em Shar-e-Nau. Ns lhe dvamos uma rupia da nossa mesada para ver
uma dana. O sininho no pescoo do seu macaco fazia o mesmo som tilintante.
Ento, a porta se abriu e o guarda entrou. Vinha trazendo um aparelho de som
porttil nos ombros. Atrs dele, entrou um menino usando um pirhan-tumban azulescuro,
solto.
A semelhana era desconcertante. De tirar o flego. Pela foto Polaroid tirada por
Rahim Khan eles no pareciam to idnticos assim.
O garoto tinha o rosto de lua cheia do pai, o mesmo queixo protuberante, as
orelhas dobradas feito conchas e a mesma compleio franzina. Era aquela cara de
boneca chinesa da minha infncia; o rosto que espiava por cima das cartas de baralho
desbotadas, em todos aqueles dias de inverno; o rosto por detrs do cortinado quando
dormamos no telhado da casa de meu pai no vero. Ele tinha a cabea raspada, os olhos
pintados com delineador e as bochechas brilhando com um vermelho artificial. Quando
parou no meio da sala, os sininhos presos nos seus tornozelos tambm pararam de
tilintar.
Deu com os olhos em mim. Fitou-me por um instante. Depois, desviou o olhar.
Ficou olhando para os prprios ps descalos.
Um dos guardas apertou um boto e o aposento se encheu de msica pashtu. A
tabla, o harmnio, e os lamentos de uma dil-roba. Deduzi que a msica no era um
pecado to grave assim, desde que tocada para ouvidos Talib. Os trs homens
comearam a bater palmas.
 Wah wah! Mashallah!  gritavam eles.
Sohrab ergueu os braos e comeou a rodar lentamente. Ficou na ponta dos
ps, rodopiou graciosamente, caiu de joelhos, voltou a se erguer e rodopiou
novamente. Girava as mozinhas, estalava os dedos e inclinava a cabea para um
lado e para o outro, como um pndulo. Batia com os ps no cho e os sininhos
tilintavam em perfeita harmonia com o ritmo da tabla. Ficava o tempo todo de olhos
fechados.
 Mashallah!  bradavam eles.  Shahbas! Bravo!  Os dois guardas
assobiavam e riam. O talib vestido de branco balanava a cabea para frente e para
trs, ao som da msica, com a boca entreaberta em uma expresso maliciosa.
Sohrab ficou danando em crculos, de olhos fechados, at a msica acabar. Os
sininhos tilintaram pela ltima vez quando ele bateu com os ps no cho no momento
em que se ouvia a ltima nota da cano. Estancou no meio de um rodopio.
 Bia, bia, meu garoto  disse o talib, mandando que ele se aproximasse.
Sohrab foi at ele, de cabea baixa, e parou entre as suas coxas. O talib o abraou.
 Como  talentoso esse meu menino hazara, no  mesmo?  perguntou ele. As
suas mos foram deslizando pelas costas de Sohrab, descendo, depois subindo, e se
aninharam debaixo dos braos do garoto. Um dos guardas cutucou o outro e deu
uma risadinha disfarada. O talib ordenou que nos deixassem a ss.
 Pois no, agha sahib  disseram eles, e saram da sala.
O talib virou o menino, fazendo-o ficar de frente para mim. Passou os braos pela
cintura de Sohrab e apoiou o queixo no seu ombro. Ele continuava fitando os prprios
ps, mas me lanava uns olhares furtivos, encabulado. A mo do homem comeou a

deslizar pela barriga do menino, para cima e para baixo. Para cima e para baixo, bem
devagar, suavemente.
 Fico imaginando...  disse o talib, com os olhos injetados me perscrutando por
sobre os ombros de Sohrab.  O que ter acontecido com o velho Babalu?
Aquela pergunta me atingiu em cheio, como uma martelada entre os olhos. Senti
que a cor do meu rosto desaparecia. As minhas pernas ficaram geladas. Entorpecidas.
Ele comeou a rir.
 Estava pensando o qu? Que bastava pr uma barba postia para que eu
no o reconhecesse? Eis a uma coisa a meu respeito que aposto que voc nunca
soube: jamais esqueo um rosto. Jamais.  Roou a orelha de Sohrab com os lbios,
mantendo os olhos em mim.  Soube que seu pai morreu. Tsc, tsc, tsc... Sempre quis
enfrent-lo. Mas, pelo visto, vou ter que me contentar com o covarde do filho dele.
 Tirou ento os culos escuros e cravou os olhos azuis injetados de sangue nos
meus.
Tentei respirar, mas no consegui. Tentei piscar, mas no consegui. O momento
parecia surreal  surreal, no, absurdo; tirou o meu flego, fez o mundo ao meu
redor ficar imvel. O meu rosto estava ardendo. Como  mesmo aquele velho ditado
sobre o vaso ruim? Era exatamente isso que acontecia com o meu passado: no
conseguia me livrar dele nunca. O nome daquele indivduo surgiu l das profundezas
e no quis diz-lo, como se o simples fato de pronunciar aquele nome significasse
invoc-lo. Mas ele j estava ali, em carne e osso, sentado a pouco mais de trs metros
de mim, depois de todos esses anos. E o nome acabou me escapando da boca:
 Assef!
 Amir jan.
 O que  que voc est fazendo aqui?  perguntei, plenamente consciente da
estupidez daquela pergunta, mas incapaz de pensar em qualquer outra coisa que
pudesse dizer.
 Eu?  exclamou ele erguendo uma das sobrancelhas.  Mas, estou
exatamente no meu elemento. Eu  que pergunto o que voc est fazendo aqui...
 J lhe disse  respondi. Minha voz estava tremendo. Adoraria que no
estivesse; adoraria que a minha carne no estivesse se encolhendo e grudando nos
ossos.
 O menino?
 .
 Por qu?
 Pago por ele  disse eu.  Posso telegrafar pedindo que me mandem
dinheiro.
 Dinheiro?  exclamou Assef com um risinho abafado.  J ouviu falar de
Rockingham no oeste da Austrlia?  um pedacinho do paraso. Voc precisava ver,
so quilmetros e quilmetros de praia. gua verde, cu azul. Meus pais moram l,
em uma manso de frente para o mar. Tem um campo de golfe nos fundos da casa, e
um pequeno lago. Meu pai joga golfe todos os dias. Minha me prefere o tnis. Meu
pai diz que o backhand dela  terrvel. Eles so donos de um restaurante afego e de
duas joalherias; e ambos os negcios vo indo muitssimo bem.  Pegou uma uva
rosada e, com todo carinho, a ps na boca de Sohrab.  Portanto, se eu precisar de
dinheiro,  s pedir para eles me mandarem.  Deu um beijo no pescoo de Sohrab.
O menino se encolheu ligeiramente e voltou a fechar os olhos.  Alm disso, no

lutei contra os shorawi por dinheiro. Tambm no me uni ao Talib por dinheiro.
Quer saber por que me juntei a eles?
Meus lbios estavam secos. Passei a lngua neles e percebi que ela tambm estava
seca.
 Est com sede?  perguntou ele, dando um sorriso afetado.
 No.
 Olhe que acho que est com sede...
 Estou timo  respondi. Na verdade, a sala tinha ficado quente demais e o
suor brotava de todos os meus poros, fazendo minha pele pinicar. Isso estava
acontecendo mesmo? Eu estava realmente sentado diante de Assef?
 Voc  quem sabe...  disse ele.  Em todo caso... Onde  que eu estava
mesmo? Ah, sim, como me juntei ao Talib. Bom, como deve se lembrar, nunca fui
um cara l muito religioso. Um dia, porm, tive uma revelao. Foi na priso que isso
aconteceu. Quer ouvir a histria?
Fiquei calado.
 timo. Vou lhe contar  exclamou ele.  Passei algum tempo na cadeia, em
Poleh-Charkhi, logo depois que Babrak Karmal tomou o poder, em 1980. Acabei indo
parar l uma noite, quando um grupo de soldados parchami invadiu a nossa casa e
mandou que meu pai e eu fssemos com eles, sob a mira de um revlver. Os filhos-daputa
no alegaram nenhum motivo e nem responderam s perguntas de minha me.
No que isso fosse alguma coisa incompreensvel, pois todo mundo sempre soube
que os comunistas eram a escria mesmo. Eram todos gente de famlias humildes, sem
estirpe. Os mesmos cachorros que no serviam nem para lamber as minhas botas
antes da vinda dos shorawi agora me davam ordens, com uma arma na mo, a
bandeira parchami na lapela, todos com aquele indefectvel discursinho sobre a queda
da burguesia e agindo como se fossem os maiorais. Estava acontecendo a mesma coisa
por toda parte: os ricos eram arrebanhados e atirados na cadeia para servir de exemplo
para os camaradas.
"O fato  que fomos amontoados em grupos de seis naquelas celas minsculas,
do tamanho de uma geladeira. Toda noite, o comandante, uma coisa meio hazara, meio
usbeque, que fedia como um burro podre, mandava que um dos prisioneiros fosse
arrastado para fora da cela e o espancava at que a sua cara redonda ficasse pingando
de suor. Depois, acendia um cigarro, estalava os dedos e ia embora. Na noite
seguinte, escolhia outra pessoa. Certa noite, foi a mim que escolheu. Isso no podia
ter acontecido em pior hora. H trs dias que eu vinha mijando sangue. Clculos
renais. E, se voc nunca teve uma pedra nos rins, pode acreditar quando lhe digo que
 a pior dor que se possa imaginar. Minha me tambm tinha isso e lembro que me
disse, uma vez, que preferia enfrentar um parto a ter uma daquelas crises de passagem
de um clculo. De todo modo, no podia fazer nada. Me tiraram da cela e ele comeou
a me chutar. Estava com umas botas que iam at os joelhos, com biqueiras metlicas,
que ele usava toda noite para a sua brincadeirinha de chutes. E resolveu us-las em
mim. Gritei, gritei, e ele continuou me chutando. De repente, deu um chute no meu rim
esquerdo e a pedra passou. Assim, sem mais nem menos. Ah, que alvio!  Assef riu.
 A, eu gritei: 'Allah-u-akbar', e ele chutou com mais fora ainda, e comecei a rir. O
comandante ficou louco da vida e me atingiu com mais fora. Quanto mais fortes eram
os seus chutes, mais eu ria. Jogaram-me de volta  cela ainda rindo. E continuei

rindo sem parar porque, de repente, compreendi que aquilo tinha sido uma mensagem
de Deus: ele estava do meu lado. Queria que eu vivesse por alguma razo.
"Sabe, topei com esse comandante no campo de batalha alguns anos depois. 
engraado como Deus age. Fui encontr-lo em uma trincheira, nos arredores de
Meymanah, sangrando, com um estilhao de granada no peito. Continuava usando
aquelas mesmas botas. Perguntei se lembrava de mim. Respondeu que no. Eu lhe
disse a mesma coisa que disse a voc ainda agora, que nunca esqueo um rosto. E atirei
no saco dele. Desde ento, venho cumprindo a minha misso."
 E que misso  essa?  ouvi minha prpria voz perguntando.  Apedrejar
adlteros? Violentar crianas? Aoitar mulheres que usam saltos altos? Massacrar
hazaras? Tudo em nome do isl?  As palavras foram brotando subitamente, de
modo inesperado; foram saindo antes que eu pudesse cont-las. Adoraria poder
traz-las de volta. Engoli-las. Mas j tinham sado. Sabia que tinha ultrapassado uma
barreira, e que qualquer esperana que ainda pudesse ter, por menor que fosse, de
escapar dali com vida tinha desaparecido com essas palavras.
Por um breve instante, um lampejo de surpresa atravessou o rosto de Assef, mas
logo se dissipou.
 Pelo que vejo, essa histria pode acabar ficando muito divertida  disse ele,
dando uma risadinha.  Mas h coisas que traidores como voc no podem
compreender.
 O qu, por exemplo?
As sobrancelhas de Assef se crisparam.
 Coisas como ter orgulho do seu povo, dos seus costumes, da sua lngua. O
Afeganisto  como uma bela casa cheia de lixo espalhado, e algum tem que retirar
esse lixo.
 Era isso que vocs estavam fazendo indo de porta em porta, l em Mazar?
Retirando o lixo?
 Exatamente.
 No Ocidente, existe uma expresso para isso  disse eu.
 Limpeza tnica.
 E mesmo?  O rosto de Assef se iluminou.  Limpeza tnica... Gosto disso.
Soa bem.
 Tudo o que quero  o garoto.
 Limpeza tnica...  murmurou Assef, saboreando aquelas palavras.
 Quero o menino  repeti. Os olhos de Sohrab se voltaram rapidamente
para mim. Eram olhos de cordeiro abatido. Tinham at mesmo aquele contorno negro.
Lembrei que, no dia do Eid-e-qorban, no quintal dos fundos l de casa, o mul pintava
os olhos do cordeiro de negro, e lhe dava um torro de acar antes de lhe cortar a
garganta. Julguei ter visto um lampejo de splica no olhar de Sohrab.
 Quero saber por qu  disse Assef. Mordiscou a orelha de Sohrab com a
ponta dos dentes e, depois, a soltou. Gotas de suor lhe escorriam pela testa.
 Isso  problema meu.
 O que pretende fazer dele?  perguntou. E, dando um sorriso cnico,
acrescentou:  Ou com ele?
 Isso  nojento  disse eu.
 Como pode saber? J experimentou?
 Quero lev-lo para um lugar melhor.

 Diga-me por qu.
 Isso  problema meu  repeti. No sei o que me levou a agir assim, dando
essas respostas to speras. Talvez o fato de achar que ia morrer de qualquer jeito.
 O que me intriga  disse Assef , o que me intriga  voc ter vindo de to
longe, Amir, de to longe por causa de um hazara. Por que est aqui? Por que est
aqui de verdade?
 Tenho os meus motivos  respondi.
 Pois, ento, muito bem  disse ele, debochado. Deu um empurro em Sohrab,
fazendo-o recuar em direo  mesinha. O menino esbarrou nela e a derrubou,
espalhando as uvas. Caiu em cima delas, de cara no cho, e manchou a camisa com o
suco roxo das frutas. Os ps da mesa, com aquela argola de bolotas de lato no ponto
em que se cruzavam, estavam agora apontando para o teto.
 Pois pode lev-lo  prosseguiu Assef. Ajudei Sohrab a se levantar, dei
umas batidinhas nas suas calas para tirar as uvas esmigalhadas que tinham ficado
grudadas ali, como mariscos em um ancoradouro.
 Ande, pode lev-lo  insistiu Assef, apontando para a porta.
Peguei Sohrab pela mo. Era uma mozinha pequena, com a pele seca e calejada.
Seus dedos se fecharam segurando a minha. Revi Sohrab naquela foto Polaroid, o seu
jeito de abraar a perna de Hassan e de recostar a cabea no quadril do pai. Ambos
estavam sorrindo. Enquanto atravessvamos a sala, os sininhos foram tilintando.
O mximo que fizemos foi chegar at a porta.
  claro  bradou Assef s nossas costas  que eu no disse que podia levar
ele assim, a troco de nada.
Parei e me voltei para ele.
 E o que voc quer?
 Vai ter que ganhar esse menino.
 O que voc quer?
 Temos um negcio pendente, voc e eu  disse ele.  Est lembrado, no
est?
Ele no tinha com que se preocupar. Eu nunca poderia esquecer do dia seguinte
ao golpe de Estado, quando Daoud Khan derrubou o rei. Durante toda a minha vida
adulta, sempre que ouvia o nome de Daoud Khan, o que via era Hassan apontando o
estilingue para a cara de Assef e dizendo que teriam de passar a cham-lo "Assef, o
Caolho", em vez de "Assef Goshkhor". Lembro da inveja que senti da coragem de
Hassan. Assef tinha ido embora jurando que, um dia, nos pegaria a ambos. Cumpriu a
promessa com relao a Hassan. Agora, tinha chegado a minha vez.
 Tudo bem  disse eu, sem saber o que mais poderia dizer. No estava
disposto a implorar, o que s tornaria aquele momento ainda mais agradvel para ele.
Assef mandou que os guardas entrassem novamente.
 Ouam bem  recomendou ele.  Daqui a pouco, vou fechar esta porta.
Ento, ele e eu vamos resolver uma velha pendncia. Seja l o que for que
ouvirem, no entrem! Esto entendendo? No entrem!
Os guardas fizeram que sim com a cabea. Olharam para Assef e, depois, para
mim.
 Est certo, agha sahib  disseram.
 Quando tudo terminar, s um de ns dois vai sair desta sala com vida 
prosseguiu Assef.  Se for ele,  porque ter conquistado a prpria liberdade e vocs
vo deix-lo passar, entenderam?

O mais velho dos guardas se remexeu, inquieto.
 Mas, agha sahib...
 Se for ele, vocs vo deix-lo passar!  gritou Assef. Os dois homens
recuaram, mas assentiram outra vez. E se viraram para sair. Um deles fez meno de
pegar Sohrab.
 Deixe o garoto aqui  disse Assef. E sorriu.  Vai ser bom para ele assistir.
Lies nunca so demais para um menino.
Os guardas saram. Assef deixou de lado as contas de orao. Meteu a mo no
bolso do palet preto. O que tirou dali no me surpreendeu absolutamente: o socoingls
de ao inoxidvel.
ELE USAVA GEL NO CABELO e tinha um bigodinho tipo Clark Gable acima dos lbios
grossos. O gel tinha molhado a touca cirrgica verde, de tecido no-tecido, formando
uma mancha escura que tinha o feitio da frica.  isso que lembro a respeito dele. Isso
e o cordo de ouro com o pingente "Allah " pendurado no seu pescoo moreno. Est
acima de mim, me olhando, e falando rapidamente em uma lngua que no entendo.
Urdu, acho eu. No tiro os olhos do seu pomo-de-ado, que fica subindo e descendo,
subindo e descendo, e quero lhe perguntar que idade tem, afinal. Ele parece jovem
demais, como um ator de alguma dessas novelas de TV estrangeiras. Mas tudo o que
consigo balbuciar : "Acho que foi uma boa briga. Acho que foi uma boa briga."
NO SEI SE FOI UMA BOA BRIGA para Assef. No acredito que tenha sido. Como poderia ser?
Era a primeira vez que eu brigava com algum. Durante toda a minha vida, nunca dei
um soco que fosse.
Minhas lembranas da briga com Assef eram incrivelmente ntidas, mas por
fragmentos. Lembro que ele ligou o som antes de enfiar o soco-ingls na mo. O
tapete de orao, aquele que tinha um desenho oblongo de Meca, se soltou da parede
e caiu na minha cabea; e a poeira que havia nele me fez espirrar. Lembro de Assef
atirando uvas na minha cara, rosnando e arreganhando os dentes lustrosos de saliva,
e revirando os olhos injetados de sangue. Lembro que, l pelas tantas, o seu turbante
caiu mostrando cachos de cabelo louro que lhe batiam nos ombros.
E o final,  claro. Isso  algo que continuo vendo com absoluta nitidez. E vou
ver para o resto da vida.
De um modo geral, o que lembro  isso: o soco-ingls brilhando  luz da tarde;
como aquilo era frio, das primeiras vezes que me acertou, e como esquentou
depressa por causa do meu sangue. Eu sendo atirado de encontro  parede e um
prego, onde antes deveria haver um quadro pendurado, se cravando nas minhas costas.
Sohrab gritando. A tabla, o harmnio, uma dil-roba tocando. Eu atirado contra a
parede. O soco-ingls estraalhando o meu maxilar. Eu engasgando com os meus
prprios dentes, engolindo-os, pensando nas tantas horas que tinha passado
escovando e usando fio dental. Eu sendo atirado de encontro  parede. Caindo no
cho. O sangue que escorria do meu lbio superior manchando o tapete lils. A dor
me dilacerando a barriga e eu me perguntando se teria condies de voltar a respirar
novamente. O barulho das minhas costelas estalando, como os galhos de rvore que
Hassan e eu quebrvamos para usar como espadas e lutar feito Simbad naqueles velhos
filmes. Sohrab gritando. Meu rosto batendo na quina da televiso. Mais estalos, s
que, desta vez, logo abaixo do meu olho esquerdo. Msica tocando. Sohrab gritando.

Dedos agarrando o meu cabelo, puxando a minha cabea para trs. O brilho do ao
inoxidvel. L vem ele de novo. Mais uma vez, os estalos, agora no meu nariz. Engolir
a dor e perceber que os meus dentes no ficavam mais alinhados como antes. Ser
chutado. Sohrab gritando.
No sei em que altura da briga comecei a rir, mas foi o que fiz. Doa rir. Doa o
rosto, doam as costelas, doa a garganta. Mas eu continuava rindo sem parar. E,
quanto mais eu ria, mais ele me chutava, me esmurrava, me arranhava.
 ONDE EST A GRAA?  urrava Assef, sem parar de me acertar.
Seu cuspe entrou no meu olho. Sohrab gritou.
 ONDE EST A GRAA?  berrou ele. Mais uma costela estalou. Desta vez, um
pouco mais abaixo, do lado esquerdo. O que me parecia to engraado era que, pela
primeira vez, desde aquele inverno de 1975, estava me sentindo em paz. Ria porque
tinha percebido que, em algum cantinho escondido da minha mente, sempre estivera
procurando por isso. Lembrei daquele dia, no alto da colina, quando atirei as roms em
Hassan, tentando provoc-lo. Ele s ficou parado ali, sem fazer nada, com o suco
vermelho empapando a sua camisa como se fosse sangue. Depois, tirou uma rom da
minha mo e a esmagou na prpria testa. "Est satisfeito agora?", sussurrou ele ento,
entre dentes. "Est se sentindo melhor?" No, de jeito nenhum; no fiquei satisfeito,
nem me senti melhor. Mas agora, sim. O meu corpo estava todo quebrado  s mais
tarde ia descobrir em que estado ele realmente estava , mas me sentia curado. Enfim
curado. E ria.
Ento, veio o final. E isso  uma coisa que vou levar comigo para o tmulo.
L estava eu, no cho, rindo, com Assef encarapitado em cima do meu peito. O
rosto dele era a prpria imagem da loucura, emoldurado por mechas de cabelo que
balanavam a alguns centmetros do meu rosto. Com uma das mos, me segurava pelo
pescoo. A outra, que tinha o soco-ingls, estava levantada bem acima do seu ombro.
Ento, ele ergueu o punho fechado ainda mais alto, preparando-se para um novo
soco.
De repente...
 Bas!  disse uma vozinha frgil.
Ambos olhamos.
 Por favor, chega.
Lembrei de uma coisa que o diretor do orfanato tinha dito quando abriu a porta
para Farid e para mim. Qual era mesmo o nome dele? Zaman? "Os dois so
inseparveis", disse ele. "Aonde quer que ele v, l est a atiradeira enfiada na sua
cintura."
 Chega.
Dois riscos pretos de delineador desciam pelo seu rosto, se misturando com as
lgrimas, borrando o ruge das bochechas. O seu lbio superior tremia. O nariz
escorria.
 Bas!  disse ele com a voz rouca.
A sua mo estava erguida acima do ombro, segurando a lingeta de couro presa
aos elsticos inteiramente retesados. Havia algo ali, alguma coisa amarela e brilhante.
Pisquei os olhos para me livrar do sangue e vi que era uma das bolotas de lato
daquela argola que prendia os ps da mesa. O estilingue estava apontado para o
rosto de Assef.

 Chega, agha. Por favor  disse Sohrab, com a voz rouca e trmula.  Pare
de machucar ele.
Assef abriu a boca, mas no saiu som algum. Comeou a dizer alguma coisa, mas
parou.
 O que voc pensa que est fazendo?  exclamou ele afinal.
 Pare, por favor  disse Sohrab, com os olhos verdes cheios de lgrimas e a
maquiagem toda borrada.
 Largue isso, seu hazara  disse Assef entre dentes.  Largue isso, ou o que
estou fazendo com ele vai parecer um simples puxo de orelhas comparado ao que
vou fazer com voc.
As lgrimas escorriam pelo seu rosto. Sohrab abanou a cabea.
 Por favor, agha  disse ele.  Pare.
 Largue isso.
 No machuque mais ele.
 Largue isso.
 Por favor.
 LARGUE ISSO!
 Bas.
 LARGUE ISSO!  berrou Assef, soltando o meu pescoo e partindo para cima de
Sohrab.
O estilingue zuniu quando Sohrab largou a lingeta. E ouvi Assef gritando. Levou
a mo ao lugar onde, um minuto antes, ficava o seu olho esquerdo. O sangue escorria
por entre seus dedos. Sangue e mais alguma coisa, alguma coisa branca e gelatinosa.
"Isso se chama fluido vtreo", pensei eu com toda clareza. "Li em algum lugar. Fluido
vtreo."
Assef estava rolando pelo tapete. Rolava de um lado para o outro, gritando,
sempre com a mo em concha sobre a rbita ensangentada.
 Vamos!  exclamou Sohrab. Pegou a minha mo e me ajudou a ficar de p.
Cada centmetro do meu corpo espancado gritava de dor. s nossas costas, Assef
continuava a berrar.
 FORA! CAIAM FORA DAQUI!  gritava ele.
Cambaleando, abri a porta. Os guardas arregalaram os olhos ao me ver, e me
perguntei que aparncia teria. Minha barriga doa a cada respirao. Um dos guardas
disse algo em pashtu e os dois passaram correndo por ns para entrar na sala onde
Assef continuava gritando.
 FORA!
 Bia!  disse Sohrab me puxando pela mo.  Vamos!
Sa tropeando pelo corredor, com a mozinha de Sohrab segurando a minha. Dei
uma ltima olhada para trs. Os guardas estavam debruados sobre Assef, fazendo
alguma coisa em seu rosto. Foi ento que compreendi: a bolota de lato ainda estava
enfiada na rbita vazia do seu olho.
O mundo inteiro se sacudia para cima e para baixo, dava guinadas para um lado
e para o outro, enquanto eu ia descendo a escada, cambaleando, me apoiando em
Sohrab. L no andar de cima, os gritos de Assef no paravam. Eram os berros de um
animal ferido. Conseguimos chegar do lado de fora, ao ar livre, eu com o brao
passado nos ombros de Sohrab, e vi Farid vir correndo em nossa direo.

 Bismillah! Bismillah!  exclamou ele, arregalando os olhos ao me ver.
Passou meu brao pelos seus ombros e me levantou no colo. Sempre correndo, me
levou para o furgo. Acho que gritei. Vi as suas sandlias golpeando o cho e batendo
em seus calcanhares escuros e calejados. Respirar doa. Depois, l estava eu olhando
para o teto do Land Cruiser, deitado no banco de trs, naquele estofamento bege e
rasgado, e ouvindo o "bip, bip, bip" indicando que as portas estavam abertas. Ouvi
passos apressados em redor do carro. Farid e Sohrab trocando algumas palavras
rapidamente. As portas batendo e o barulho do motor sendo ligado. O carro
arrancou e senti uma mo pequenina na minha testa. Ouvi vozes pela rua, alguns gritos
e vi rvores que passavam pela janela. Sohrab soluava. Farid continuava repetindo
"Bismillah! Bismillah!".
Foi mais ou menos por essa altura que desmaiei.

VINTE E TRS
ROSTOS DESPONTAVAM EM MEIO  NVOA, detinham-se ali por algum tempo e, depois,
desapareciam. Aproximavam-se, faziam perguntas. Todos faziam perguntas. Sei quem
sou? Est doendo em algum lugar? Sei quem sou, sim, e di tudo. Quero lhes dizer isso,
mas falar tambm di. Sei disso porque, algum tempo atrs, talvez h um ano, ou dois,
ou dez, tentei falar com uma criana de ruge no rosto e olhos pintados de preto. Aquela
criana. , estou vendo ela agora. Estamos em um carro bem xumbrega, a criana e eu,
e acho que no  Soraya que est dirigindo porque ela nunca corre tanto assim. Quero
dizer alguma coisa para essa criana  parece que  muito importante. Mas no me
lembro do que quero dizer, nem por que motivo isso seria to importante. Talvez
quisesse lhe dizer que parasse de chorar; que, agora, tudo ia ficar bem. Talvez no. Por
alguma razo que no consigo lembrar, quero agradecer a essa criana.
Rostos. Todos eles esto usando gorros verdes. Entram e saem do meu campo de
viso. Falam depressa; usam umas palavras que no entendo. Ouo outras vozes,
outros rudos, bipes e alarmes. Mais e mais rostos. Me olhando bem de perto. No
lembro de nenhum deles, a no ser o daquele homem com gel no cabelo e o bigodinho
tipo Clark Gable; aquele que tinha a mancha no formato da frica no gorro. O Sr.
Gal de Novela de TV.  engraado. Estou com vontade de rir. Mas rir tambm di.
Apago.
ELA DIZ QUE SE CHAMA AISHA, "como a esposa do profeta". O seu cabelo, j meio
grisalho, est repartido no meio e preso em um rabo-de-cavalo. No nariz, tem um
piercing em formato de sol. Usa lentes bifocais que fazem os seus olhos ficarem
saltados. Tambm est de verde e tem as mos macias. V que estou olhando para ela
e sorri. Diz algo em ingls. Sinto alguma coisa me espetando em um dos lados do
peito.
Apago.
TEM UM HOMEM PARADO junto da minha cama. Eu o conheo.  moreno, magricela, e tem
uma barba comprida. Est usando um chapu  como  mesmo que se chamam esses
chapus? Pakols? Usa o tal chapu meio descado para um lado, como algum famoso
cujo nome me escapa agora. Conheo esse homem. Ele me levou de carro para um
lugar qualquer, alguns anos atrs. Eu o conheo. Tem algo de errado com a minha
boca. Ouo alguma coisa borbulhando.
Apago.
O MEU BRAO DIREITO EST ARDENDO. A mulher de culos bifocais, e com o piercing em
formato de sol, est debruada sobre o meu brao, prendendo nele um tubo de plstico
transparente. Ela diz que  "o potssio". " como uma ferroada de abelha, no ?",
pergunta.  verdade. Como  mesmo o nome dela? Tem alguma coisa a ver com um
profeta. Tambm conheo essa mulher de algum tempo atrs. Ela usava rabo-decavalo.
Agora, est com o cabelo puxado para trs, preso em um coque. Soraya
estava com o cabelo desse jeito quando nos falamos pela primeira vez. Quando foi
isso? A semana passada?
Aisha! Claro...
Tem alguma coisa errada com a minha boca. E aquele negcio me espetando no
peito.
Apago.
ESTAMOS NAS MONTANHAS SULAIMAN, no Baluquisto, e meu pai est lutando com o urso
negro.  o baba da minha infncia, o toophan agha, o gigantesco espcime do pashtun
poderoso, e no aquele homem que definhava debaixo dos cobertores, aquele homem de
rosto encovado e olhos fundos. Homem e fera se embolam em um trecho do terreno
onde havia capim, e o cabelo escuro e cacheado de baba esvoaa. A fera ruge, ou
talvez tenha sido baba. Voam cuspe e sangue; chocam-se patas e mos. Os dois caem
no cho, com um barulho surdo, e l est baba sentado no peito do urso, enfiando os
dedos pelo focinho do animal adentro. Ele ergue os olhos para mim e, ento, posso ver.
Ele sou eu. Eu  que estou lutando com o urso.
Acordo. O homem moreno e magricela est ali outra vez, ao lado da cama. O
nome dele  Farid, agora me lembro. E, com ele, o menino do carro. O seu rosto me
faz lembrar o som de sinos. Estou com sede.
Apago.
E continuo assim, apagando e voltando.
O NOME DO HOMEM DE BIGODINHO tipo Clark Gable era dr. Faruqi, como acabei
descobrindo. E ele no era gal de novela de TV coisa nenhuma. Era cirurgio de
cabea e pescoo, embora eu continue pensando nele como algum chamado Armand,
em alguma novela sensual passada em uma ilha dos trpicos.
"Onde estou?" era o que queria perguntar. Mas a minha boca no abria. Franzi
as sobrancelhas. Soltei um grunhido. Armand sorriu mostrando uns dentes
branqussimos.
 Ainda no, Amir  disse ele.  Logo, logo. Depois que os arames forem
retirados.  Ele falava ingls com um forte sotaque urdu.
"Arames?"
Armand cruzou os braos. Era bastante cabeludo e usava uma aliana de ouro.

 Voc deve estar se perguntando que lugar  esse e o que aconteceu. 
perfeitamente normal. O perodo ps-cirrgico sempre deixa a pessoa muito
desnorteada. Ento, vou lhe contar o que sei.
Queria lhe perguntar sobre os arames. Perodo ps-cirrgico? Onde estava
Aisha? Queria que ela sorrisse para mim, queria sentir as suas mos macias nas
minhas.
Armand franziu as sobrancelhas e ergueu uma delas de um jeito ligeiramente
cheio de si.
 Voc est em um hospital de Peshawar. Chegou h dois dias.  preciso que
saiba, Amir, que sofreu alguns ferimentos bem significativos. Diria mesmo que tem
muita sorte por estar vivo, meu amigo  disse isso balanando o indicador para
frente e para trs, como um pndulo.  Teve ruptura do bao. Provavelmente, e
ainda bem, uma ruptura tardia, pois havia sinais de um princpio de hemorragia em
sua cavidade abdominal. Meus colegas da unidade de cirurgia geral tiveram de
realizar uma esplenectomia de emergncia. Se a ruptura tivesse ocorrido um pouco
mais cedo, voc teria morrido de hemorragia interna.  Deu-me uns tapinhas no
brao, o que estava com o soro, e sorriu.  Teve tambm vrias costelas fraturadas.
E uma delas provocou um pneumotrax.
Franzi a testa. Tentei abrir a boca. Lembrei dos arames.
 Isso significa que um dos seus pulmes foi perfurado  explicou Armand.
Deu um puxo no tubo de plstico transparente que estava do meu lado esquerdo.
Senti de novo aquela fisgada no peito.  Vedamos o vazamento com esse dreno
torcico.  Acompanhei com os olhos o tubo saindo das ataduras que envolviam meu
peito e vi que ia dar em um reservatrio parcialmente cheio, com colunas de
gua. Era dali que vinha aquele barulho de borbulhas.  Tambm sofreu diversas
laceraes. Isto quer dizer "cortes"  acrescentou.
Pensei em lhe dizer que sabia o que a palavra significava; afinal, eu era escritor.
J ia tentando abrir a boca. Tinha esquecido os arames de novo.
 A pior lacerao foi no seu lbio superior  disse Armand.  O impacto
abriu o lbio em dois, deixando o meio inteiramente separado. Mas no se preocupe,
pois o pessoal da cirurgia plstica costurou as duas partes e todos eles acham que o
resultado ficou timo.  claro que voc vai ter uma cicatriz... Isso  inevitvel.
"Houve ainda uma fratura orbital do lado esquerdo; ou seja, do osso da cavidade
orbital, e tivemos que reconstitu-lo tambm. Os arames do seu rosto vo ser retirados
dentro de umas seis semanas  prosseguiu Armand.  At l, s lquidos e
vitaminas. Voc vai emagrecer um pouco e, por algum tempo, vai ficar falando como
Al Pacino no primeiro filme da srie O poderoso chefo  acrescentou ele rindo. 
Mas, hoje, tem um trabalho a fazer. Sabe qual ?
Fiz que no com a cabea.
 O seu trabalho de hoje  expelir gases. Faa isso, e comearemos a lhe dar
alimentao lquida. Se no peidar, no come  disse ele, rindo novamente.
Mais tarde, depois que Aisha trocou o soro e levantou a cabeceira da cama como
eu tinha pedido, fiquei pensando no que havia acontecido comigo. Bao rompido.
Dentes quebrados. Pulmo perfurado. Cavidade orbital arrebentada. Mas, enquanto
observava um pombo bicar uma migalha de po no peitoril da janela, lembrei de
outra coisa que Armand/dr. Faruqi tinha dito: "O impacto abriu o lbio em dois," disse
ele, "deixando o meio inteiramente separado". Deixando o meio inteiramente
separado. Como um lbio leporino.
No DIA SEGUINTE, FARID E SOHRAB vieram me visitar.
 Hoje voc sabe quem somos ns? J est conseguindo se lembrar? 
perguntou Farid, e no era s de brincadeira.
Fiz que sim com a cabea.
 Al hamdullellah!  exclamou ele radiante.  Chega de tantos disparates.
 Obrigado, Farid  disse eu, sem mexer o rosto todo preso por arames.
Armand tinha razo: parecia mesmo Al Pacino em O poderoso chefo. E a minha
lngua estava sempre me surpreendendo porque se enfiava pelos espaos que ficavam
sobrando entre os dentes que eu tinha engolido.  Muito obrigado mesmo. Por tudo.
Ele fez um aceno com a mo e ficou vermelho.
 Bas. No tem nada que agradecer  disse. Virei-me para Sohrab. Ele estava de
roupa nova, um pirhan-tumban marrom-claro, um pouco grande demais, e usava um
barrete preto. Olhava para os prprios ps, brincando com o fio do soro enrolado em
cima da cama.
 Nunca fomos apresentados de verdade  disse eu estendendo a mo para ele.
 Meu nome  Amir.
Ele olhou para a minha mo e, depois, para mim.
 Voc  o Amir agha de quem o pai me falou?  perguntou.
 Sou.  Lembrei das palavras da carta de Hassan. "Falei muito de voc para
Farzana jan e para Sohrab. Contei-lhes como crescemos juntos, como brincvamos e
corramos pelas ruas. Eles riram muito de todas as travessuras que ns dois
aprontvamos!"  Tenho que agradecer a voc tambm, Sohrab jan  disse eu. 
Voc salvou a minha vida.
O menino no disse nada. Baixei a mo quando vi que ele no ia apert-la.
 Gostei da sua roupa nova  murmurei.
 Era do meu filho  disse Farid.  J est pequena para ele. E acho que ficou
tima em Sohrab.  Acrescentou que Sohrab poderia ficar na sua casa at que
encontrssemos um lugar para ele.  No temos muito espao, mas o que se h de
fazer? No posso deix-lo pelas ruas. Alm disso, os meus filhos gostaram dele. Ha,
Sohrab?  Mas o menino continuou de olhos baixos, enrolando o fio no dedo.  Tem
uma coisa que venho querendo perguntar  disse Farid com alguma hesitao.  O que
aconteceu naquela casa? O que aconteceu entre voc e o talib?
 Digamos que ns dois tivemos o que merecamos  respondi.
Farid fez que sim com a cabea e no insistiu. Ocorreu-me que, em algum ponto,
entre o momento em que samos de Peshawar para o Afeganisto e agora, tnhamos
nos tornado amigos.  Tambm tenho pensado em perguntar uma coisa.
 O que ?
No queria perguntar. Tinha medo da resposta.
 E Rahim Khan?  disse eu.
 Foi embora.
Meu corao deu um pulo.
 Ele...?

 No. S... foi embora.  Estendeu para mim um papel dobrado e uma
chave.  O proprietrio me entregou isso quando fui procur-lo. Ns viajamos em
um dia e Rahim Khan foi embora no dia seguinte.
 Embora para onde?
Farid deu de ombros.
 O proprietrio no sabe. S disse que Rahim Khan deixou a carta e a chave
para voc, e se despediu.  Olhou o relgio.   melhor irmos andando. Bia,
Sohrab.
 Ele pode ficar mais um pouco?  perguntei.  Venha busc-lo mais tarde. 
Voltei-me para Sohrab.  Quer ficar um pouquinho mais aqui comigo?
Ele deu de ombros e no respondeu.
 Claro que sim  disse Farid.  Venho busc-lo um pouco antes da namaz
do final da tarde.
HAVIA MAIS TRS PACIENTES no mesmo quarto que eu. Dois homens de uma certa idade
 um deles com a perna engessada, o outro, chiando com asma , e um rapaz de
quinze ou dezesseis anos que tinha sido operado do apndice. O velho de perna
engessada ficou nos observando, olhando ora para mim, ora para o menino hazara
sentado em um banquinho. As famlias dos meus companheiros de quarto 
senhoras usando shalwar-kameezes de cores brilhantes, crianas, homens de barrete
 entravam e saam fazendo bastante barulho. Tinham trazido pakoras, naan,
samosas, biryani. s vezes, tinha gente que apenas entrava no quarto, como o homem
alto e barbudo que apareceu imediatamente antes de Farid e Sohrab chegarem. Usava
uma manta marrom enrolada no corpo. Aisha lhe perguntou alguma coisa em urdu.
Ele no lhe deu a mnima ateno e espiou cada canto do quarto. Achei que tinha
demorado um pouco demais olhando para mim. Quando a enfermeira foi falar com ele
outra vez, o homem simplesmente deu meia-volta e saiu.
 Como voc est?  perguntei, dirigindo-me a Sohrab. Ele deu de ombros e
continuou olhando para as prprias mos.
 Est com fome? Aquela senhora ali me deu um prato de biryani, mas no posso
comer nada disso  prossegui. No sabia mais o que lhe dizer.  Quer?
Ele fez que no com a cabea.
 Quer falar?
Ele abanou a cabea novamente.
Ficamos sentados ali por algum tempo, calados. Eu, recostado na cama, com dois
travesseiros nas costas, e Sohrab no banquinho de trs pernas ao lado da cama. A certa
altura, peguei no sono, e, quando acordei, j estava comeando a escurecer, as sombras
tinham se espalhado, e Sohrab ainda estava sentado perto de mim. Continuava de
olhos baixos, fitando as prprias mos.
NAQUELA NOITE, DEPOIS QUE FARID veio buscar Sohrab, abri a carta de Rahim Khan.
Tinha demorado o mximo possvel para fazer isso.
Amir jan,
Inshallah esta carta v encontr-lo so e salvo. Peo a Deus que no tenha posto
voc em perigo, e que o Afeganisto no tenha lhe feito mal algum. Desde que viajou,
tenho rezado por voc.

Tinha razo em achar que eu sabia durante todos esses anos. Era verdade.
Hassan me contou tudo, pouco tempo depois do ocorrido. O que voc fez foi errado,
Amir jan, mas no se esquea que era apenas um menino quando isso aconteceu. Um
menino com problemas. Nessa poca, voc era excessivamente duro consigo mesmo e
continua sendo  como pude ver em seus olhos aqui em Peshawar. Mas espero que
pense bem nisso: um homem que no tem conscincia, que no tem bondade, no sofre.
Tenho esperanas de que o seu sofrimento termine com essa viagem ao Afeganisto.
Amir jan, tenho vergonha pelas mentiras que lhe contamos durante todos esses
anos. Voc teve toda razo em se zangar naquele dia em que nos encontramos. Tinha o
direito de saber. E Hassan tambm. Sei que isso no absolve ningum de coisa
alguma, mas a Cabul onde vivamos naquela poca era um mundo estranho, um
mundo em que certas coisas tinham mais importncia que a verdade.
Amir jan, sei como seu pai era severo com voc. Via o quanto voc sofria e como
desejava o afeto dele, e o meu corao sofria junto com voc. Mas seu pai era um
homem dividido entre duas pessoas, Amir jan; voc e Hassan. Ele os amava a ambos,
mas no podia amar Hassan do jeito que desejava, abertamente, como pai. Ento,
descontou em voc. Amir, a metade socialmente legitimada, a metade que representava
as riquezas que ele tinha herdado e os privilgios do pecar impunemente que vm
junto com elas. Quando via voc, via a si mesmo. E a sua prpria culpa. Voc ainda
est com raiva e sei que  cedo demais para esperar que aceite isso, mas talvez, um
dia, possa compreender que, quando seu pai era severo com voc, tambm estava sendo
severo consigo mesmo. Como voc, seu pai era uma alma torturada, Amir jan.
No posso descrever como foi profunda a tristeza que tomou conta de mim
quando fiquei sabendo da morte dele. Eu o amava porque ele era meu amigo, mas
tambm porque era um bom homem, talvez at um grande homem. E  isso que
quero que voc entenda: que o bem, o verdadeiro bem, nasceu do remorso que seu pai
sentia. As vezes, acho que tudo o que ele fez  dar comida aos pobres nas ruas,
construir o orfanato, dar dinheiro aos amigos que estivessem precisando  foi o jeito
que encontrou para se redimir. E acredito, Amir jan, que a verdadeira redeno  isso:
 a culpa levar a pessoa a fazer o bem.
Sei que, no fim, Deus vai perdoar. Vai perdoar a seu pai, a mim e tambm a voc.
Espero que possa fazer o mesmo. Perdoe seu pai, se puder. Perdoe-me, se quiser.
Mas, acima de tudo, perdoe a si mesmo.
Deixei algum dinheiro para voc; na verdade,  a maior parte do que estou
deixando. Acho que ter despesas quando voltar, e essa quantia deve ser suficiente
para cobri-las. H um banco em Peshawar; Farid sabe onde fica. O dinheiro est em
um cofre. Deixei a chave tambm.
Quanto a mim, j  hora de ir embora. Resta-me pouco tempo e quero pass-lo
sozinho. Por favor, no me procure.  a ltima coisa que lhe peo.
Eu o entrego nas mos de Deus.
Seu amigo de sempre,
Rahim
Passei nos olhos a manga da camisola do hospital. Dobrei a carta e a enfiei
debaixo do colcho.
"Amir, a metade socialmente legitimada, a metade que representava as riquezas que
ele tinha herdado e os privilgios do pecar impunemente que vm junto com elas." Quem

sabe no era por isso que baba e eu tnhamos nos dado muito melhor nos Estados
Unidos. Vendendo objetos usados por alguns trocados, tendo empregos subalternos,
morando naquele apartamento sebento  a verso primeiro-mundista de um casebre.
Nos Estados Unidos, ao olhar para mim, baba talvez visse um pedacinho de Hassan.
"Como voc, seu pai era uma alma torturada", escreveu Rahim Khan. Talvez. Ns
dois tnhamos pecado e trado. Mas baba encontrou um jeito de transformar o seu
remorso em bondade. E eu, o que tinha feito, a no ser descontar a minha culpa nas
prprias pessoas que tinha trado e, depois, tentar esquec-las? O que tinha feito, a
no ser me tornar um insone?
O que  que eu tinha feito para tentar corrigir aquilo tudo?
Quando a enfermeira  no Aisha, mas uma mulher de cabelo vermelho cujo
nome me foge agora  entrou no quarto com uma seringa na mo e me perguntou se
eu ia precisar de uma injeo de morfina, respondi que sim.
TIRARAM O DRENO TORCICO NA MANH seguinte, bem cedo, e Armand autorizou a
enfermagem a me dar uns goles de suco de ma. Quando Aisha ps a xcara com o
suco na mesinha perto da cama, pedi que me arrajasse um espelho. Ela ergueu os
culos bifocais para a testa, enquanto abria as cortinas deixando que o sol da manh
inundasse o quarto.
 No se esquea  disse ela, olhando para trs  que, em poucos dias, a sua
aparncia j estar bem melhor. O meu genro teve um acidente de moto no ano
passado. Seu rosto bonito foi arrastado pelo asfalto e ficou roxo feito uma berinjela.
Agora, est lindo outra vez, como um astro de cinema de Lollywood.
Apesar daquelas palavras tranqilizadoras, olhar para o espelho e ver aquela coisa
que insistia em se mostrar como sendo o meu rosto meio que me tirou o flego. Era
como se algum tivesse enfiado o bocal de uma bomba de ar por debaixo da minha
pele e bombeado muito. Os meus olhos estavam inchados e roxos. O pior de tudo,
porm, era a boca, uma pstula grotesca, toda roxa e vermelha, cheia de talhos e pontos.
Tentei sorrir e senti nos lbios uma fisgada de dor. No ia conseguir fazer isso por
um bom tempo. Havia pontos do lado esquerdo do meu rosto, debaixo do queixo, e
tambm na testa, logo abaixo da nascida do cabelo.
O velho de perna quebrada disse alguma coisa em urdu. Respondi dando de
ombros e fazendo um aceno com a cabea. Ele apontou para o prprio rosto, deu uns
tapinhas e abriu um sorriso largo e desdentado.
 Muito bom  disse, em ingls.  Inshallah.
 Obrigado  sussurrei.
Farid e Sohrab chegaram logo depois que larguei o espelho. Sohrab sentou na
banqueta e encostou a cabea na grade lateral da cama.
 Sabe  disse Farid , quanto mais cedo voc sair daqui, melhor.
 O dr. Faruqi disse que...
 No estou falando do hospital. Estou falando de Peshawar.
 Por qu?
 No acredito que esteja a salvo por muito tempo  respondeu ele, baixando a
voz.  O Talib tem amigos por aqui. Vo comear a procurar por voc.
 Talvez j tenham comeado  murmurei. De repente, lembrei do homem
barbudo que tinha entrado no quarto e ficado ali parado me olhando.
Farid se abaixou um pouco.

 Assim que puder andar, vou lev-lo para Islamabad. L tambm no  muito
seguro. Na verdade, nenhum lugar no Paquisto , mas  melhor do que aqui. Pelo
menos voc vai ganhar mais algum tempo.
 Farid jan, isso tambm no vai ser nada seguro para voc. Talvez no
deva mais ser visto comigo. Tem que pensar na sua famlia.
Ele fez um gesto com a mo.
 Os meus meninos so pequenos, mas so muito espertos. Sabem tomar conta das
mes e das irms.  Sorriu.  Alm do mais, no disse que ia fazer isso de graa.
 Nem eu concordaria, se voc propusesse  disse eu. Esqueci que no podia
sorrir, e tentei. Um filetinho de sangue escorreu pelo meu queixo.  Posso lhe pedir
mais um favor?
 Por voc, faria isso mil vezes  respondeu ele.
E, em um instante, l estava eu chorando. Engoli ar, engasguei, com as lgrimas
rolando pelo meu rosto e a minha boca em carne viva dando fisgadas de dor.
 O que aconteceu?  perguntou Farid assustado.
Escondi o rosto com uma das mos e ergui a outra. Sabia que o quarto inteiro
estava me olhando. Depois, me senti cansado, oco.
 Desculpe  disse. Sohrab estava olhando para mim com as sobrancelhas
franzidas.
Quando consegui falar, disse a Farid o que queria que ele fizesse.
 Rahim Khan me disse que eles moram aqui em Peshawar.
 Talvez seja melhor escrever o nome deles  disse Farid, fitando-me com ar
cauteloso, como se estivesse imaginando que diabos aquela frase poderia provocar
em mim. Rabisquei os nomes em um pedao de papel-toalha: "John e Betty
Caldwell."
Farid ps o papel dobrado no bolso.
 Vou procur-los o mais depressa possvel  disse ele. E acrescentou, virando-se
para Sohrab:  Quanto a voc, volto para busc-lo de tarde. No v cansar muito
Amir agha.
Mas Sohrab estava perto da janela, onde uma meia dzia de pombos se agitava,
bicando a madeira e migalhas de po velho.
EM UMA DAS GAVETAS DA MESINHA de cabeceira tinha encontrado um velho exemplar da
National Geographic, um lpis mordido, um pente com alguns dentes faltando e o que
estava tentando alcanar agora, com o rosto banhado de suor por causa do esforo
que fazia: um baralho. Tinha contado as cartas mais cedo e, para minha surpresa, o
baralho estava completo. Perguntei a Sohrab se queria jogar. No esperava nem que
respondesse, que dir que aceitasse o meu convite. Estava calado desde que tnhamos
fugido de Cabul. Mas ele se virou l da janela e disse:
 O nico jogo que sei  panjpar.
 J estou at com pena de voc  balbuciei.  Pois sou a maior fera no
panjpar. Mundialmente conhecido.
Ele veio se sentar no banquinho ao meu lado. Dei as suas cinco cartas.
 Quando seu pai e eu ramos da sua idade, jogvamos esse jogo.
Principalmente no inverno, quando nevava e no podamos ir brincar l fora.
Ficvamos jogando at o sol se pr.

Sohrab jogou uma carta para mim e apanhou outra da pilha. Fiquei olhando para
ele, disfaradamente, vendo-o refletir com as cartas na mo. Era igualzinho ao pai em
vrios aspectos: o jeito de segurar as cartas com ambas as mos, o jeito de examin-las
apertando os olhos, o jeito de olhar as pessoas, quase sempre evitando encar-las.
Ficamos jogando em silncio. Ganhei a primeira partida, deixei que ele ganhasse
a segunda, e perdi as outras cinco jogando limpo, sem trapaas.
 Voc  to bom quanto seu pai; talvez at melhor  disse eu depois de mais
uma derrota.  s vezes, ganhava dele, mas acho que era porque ele me deixava
ganhar.  Depois de um instante calado, acrescentei:  Seu pai e eu fomos
amamentados pela mesma mulher.
 Eu sei.
 O que... o que ele contou sobre ns dois?
 Que voc foi o melhor amigo que ele teve na vida  disse ele.
Revirei o valete de ouros entre os dedos, sacudi a carta para frente e para trs.
 Sabe, acho que no fui um amigo to bom assim  disse eu.  Mas queria
ser seu amigo. Acredito que posso ser um bom amigo para voc. Acha que  possvel?
Gostaria disso?  Pus a mo em seu brao com toda cautela, mas ele se retraiu.
Largou as cartas e empurrou o banquinho. Voltou para a janela. O cu estava rajado
de vermelho e roxo, pois o sol comeava a se pr sobre Peshawar. Da rua subiram uma
srie de buzinas, o zurro de um asno, o apito de um guarda. Sohrab ficou parado ali,
sob aquela luz avermelhada, com a testa encostada na vidraa e as mos enfiadas
debaixo dos braos.
AISHA TINHA UM AUXILIAR QUE VEIO me ajudar a dar os primeiros passos naquela mesma
noite. S dei uma volta pelo quarto, segurando, com uma das mos, o suporte do soro
e agarrando, com a outra, o brao do enfermeiro. Levei dez minutos para chegar de
volta  cama e, a essa altura, a inciso no meu abdome j estava latejando e eu estava
banhado em suor. Deitei na cama, ofegante, ouvindo o meu corao pulsando
acelerado e pensando na saudade que sentia de minha mulher.
Sohrab e eu passamos boa parte do dia seguinte jogando panjpar, sempre calados.
E no outro dia tambm. Quase no falvamos. Ficvamos apenas jogando. Eu,
recostado na cama; ele, sentado no banquinho de trs pernas. E a nossa rotina s era
quebrada pela voltinha que eu dava pelo quarto ou por uma ida ao banheiro l no
saguo. Mais tarde,  noite, tive um sonho. Sonhei que Assef estava parado na porta do
meu quarto no hospital, ainda com a bolota de lato enfiada no olho. "Ns dois somos
iguais", dizia ele. "Voc foi criado junto com ele, mas  meu irmo gmeo."
No DIA SEGUINTE DE MANH, disse a Armand que estava indo embora.
 Ainda  cedo para ter alta  protestou ele. Pela primeira vez, no estava
vestido como cirurgio, mas usando um terno azul-marinho e uma gravata amarela.
O cabelo estava novamente com gel.  Voc ainda est tomando antibiticos no
soro e...
 Tenho que ir  disse eu.  Agradeo tudo o que fez por mim. O que todos
vocs fizeram. De verdade. Mas tenho que ir embora.
 Para onde?  perguntou ele.
 Prefiro no dizer.

 Mas voc mal pode andar...
 Consigo ir at o final do saguo e voltar  disse eu.  Vou ficar bem.  O
plano era o seguinte: sair do hospital. Apanhar o dinheiro no cofre do banco e pagar
as despesas mdicas. Ir at o orfanato e entregar Sohrab a John e Betty Caldwell.
Depois, arranjar algum que me levasse a Islamabad e alterar os planos de viagem. Me
dar mais alguns dias, at estar me sentindo melhor. E, ento, pegar um avio para
casa.
Pelo menos, era isso que pretendia fazer. At Farid e Sohrab chegarem.
 Os seus amigos, esses tais de John e Betty Caldwell, no esto em Peshawar 
disse Farid.
Levei dez minutos s para vestir o pirhan-tumban. O meu peito, no lugar que
tinha sido aberto para eles introduzirem o dreno, doa quando eu levantava o brao, e
a minha barriga latejava sempre que eu inclinava o corpo para frente. A minha
respirao ficou ofegante com o simples esforo que fiz para pr os meus poucos
pertences em uma sacola de papel pardo. Mas consegui me aprontar e j estava
sentado na beira da cama quando Farid apareceu com essa notcia. Sohrab sentou na
cama ao meu lado.
 Onde  que eles foram?  perguntei.
Farid abanou a cabea.
 Voc no est entendendo...
 Porque Rahim Khan disse que...
 Fui ao consulado dos Estados Unidos  prosseguiu Farid pegando a sacola de
papel.  Nunca houve ningum chamado John ou Betty Caldwell em Peshawar.
Segundo os funcionrios do consulado, eles nunca existiram. Pelo menos no aqui, em
Peshawar.
Perto de mim, Sohrab estava folheando o velho exemplar da National
Geographic.
FOMOS APANHAR O DINHEIRO NO BANCO. O gerente, um sujeito barrigudo, com rodelas de
suor debaixo dos braos, ficou o tempo todo sorrindo e afirmando que ningum no
banco tinha tocado no dinheiro.
 Absolutamente ningum  disse ele muito srio, balanando o indicador 
minha frente do mesmo jeito que Armand tinha feito.
Sair andando de carro por Peshawar com tanto dinheiro dentro de uma sacola de
papel foi uma experincia ligeiramente assustadora. Alm disso, eu suspeitava que
qualquer homem barbudo que ficasse me olhando fosse um matador do Talib, enviado
por Assef. E duas coisas se combinavam para me deixar com medo: h um monte de
homens barbudos em Peshawar, e todo mundo fica olhando para a gente.
 O que vamos fazer com ele?  perguntou Farid, me ajudando a andar bem
devagar da tesouraria do hospital at o carro. Sohrab estava no banco de trs do
Land Cruiser, olhando o trnsito pela janela baixada, com o queixo apoiado nas
mos.
 Ele no pode ficar em Peshawar  respondi, ofegante.
 No, Amir agha, de jeito nenhum  disse Farid. Tinha lido a pergunta por
detrs das minhas palavras.  Sinto muito. Gostaria de...

 No tem problema, Farid  disse eu. Consegui lhe dar um sorriso cansado.
Voc j tem muitas bocas para alimentar.  Um cachorro tinha parado perto do
furgo, ficando de p nas patas traseiras e, com as dianteiras apoiadas na porta,
abanava o rabo. Sohrab estava brincando com ele.  Acho que vou lev-lo para
Islamabad, at segunda ordem  acrescentei.
PASSEI QUASE TODAS AS QUATRO HORAS de viagem at Islamabad dormindo. Sonhei  bea, e
praticamente s me lembro de um emaranhado de imagens, alguns retalhos de memria
visual que me passavam pela cabea como se fosse em um arquivo giratrio. Baba
marinando carne de cordeiro para o meu aniversrio de treze anos. Soraya e eu fazendo
amor pela primeira vez, com o sol nascendo a leste, as msicas do casamento ainda
ecoando nos nossos ouvidos, as mos dela, pintadas de hena, segurando as minhas. A
vez que baba nos levou, a mim e a Hassan, at uma plantao de morangos em
Jalalabad  o dono tinha nos dito que poderamos comer o quanto quisssemos,
contanto que comprssemos pelo menos quatro quilos , e ns dois acabamos com dor
de barriga. Como parecia escuro, quase negro, o sangue de Hassan na neve, pingando
dos fundilhos das suas calas. "O sangue  uma coisa poderosa, bachem." Khala
Jamila dando uns tapinhas no joelho de Soraya e dizendo: "Deus sabe o que faz.
Quem sabe no era mesmo para ser?" As noites em que dormamos no telhado da
casa de meu pai. Baba me dizendo que o nico pecado realmente grave era roubar.
"Quando mente, est roubando de algum o direito de saber a verdade." Rahim Khan
ao telefone, dizendo que havia um jeito de voltar a ser bom. "Um jeito de ser bom de
novo..."

VINTE E QUATRO
SE PESHAWAR ERA A CIDADE QUE ME FAZIA lembrar do que Cabul tinha sido um dia, ento
Islamabad era a cidade que Cabul poderia ter se tornado no futuro. As ruas eram mais
largas que as de Peshawar, mais limpas e todas arborizadas com hibiscos e
flamboyants. Os bazaars eram mais organizados e bem menos atravancados de
pedestres e riquixs. A arquitetura tambm era mais elegante, mais moderna, e vi
parques onde floresciam rosas e jasmins  sombra das rvores. Farid encontrou um
pequeno hotel em uma rua transversal, perto das colinas Margalla. No caminho,
passamos pela famosa mesquita Shah Faisal, considerada a maior do mundo, com as
suas imensas vigas de concreto e os seus gigantescos minaretes. Sohrab se animou
todo ao ver o prdio, debruou na janela e ficou olhando para ele at Farid dobrar a
esquina.
O QUARTO DO HOTEL REPRESENTAVA um progresso considervel com relao quele onde
Farid e eu ficamos l em Cabul. Os lenis eram limpos, os tapetes tambm, e o
banheiro, impecvel. Tinha xampu, sabonete, lminas de barbear, uma banheira e
toalhas com cheirinho de limo. E nenhuma mancha de sangue nas paredes. Mas no
era s: havia um aparelho de TV sobre uma mesinha, defronte das duas camas de
solteiro.
 Olhe!  disse eu, dirigindo-me a Sohrab. Liguei o boto, j que no havia
controle remoto, e fui passando pelos canais. Encontrei um programa infantil com
fantoches, que eram carneirinhos todos peludos, cantando em urdu. Sohrab sentou
em uma das camas e abraou as pernas junto ao peito. As imagens da TV se refletiam
nos seus olhos verdes enquanto ele olhava fixo para a tela, balanando o corpo para
frente e para trs. Lembrei daquela vez em que prometi a Hassan que compraria uma
televiso colorida para a famlia dele, quando ambos fssemos adultos.
 Tenho que ir andando, Amir agha  disse Farid.
 Passe a noite aqui  retruquei.   uma longa viagem. Voc pode ir amanh
de manh.
 Tashakor  disse ele.  Mas quero voltar ainda esta noite. Estou com
saudade dos meus filhos.  Quando estava saindo do quarto, parou diante da porta e
disse:  Adeus, Sohrab jan.  Esperou pela resposta, mas Sohrab no lhe deu a
mnima ateno. Continuou balanando o corpo para frente e para trs, com o rosto
iluminado pelo brilho prateado das imagens que iam surgindo na tela.
J fora do quarto, dei a Farid um envelope. Quando ele o abriu, ficou de queixo
cado.
 No sei como lhe agradecer  disse eu.  Voc fez tanto por mim...
 Quanto tem a?  perguntou ele, ligeiramente atordoado.
 Pouco mais de dois mil dlares.

 Dois mil...  balbuciou ele. O seu lbio inferior estava tremendo. Mais
tarde, quando j estava saindo com o carro, buzinou duas vezes e acenou com a mo.
Respondi acenando tambm. Nunca mais voltei a v-lo.
Quando entrei de novo no quarto do hotel, encontrei Sohrab deitado na
cama, encolhido como um "C". Os seus olhos estavam fechados, mas no saberia
dizer se estava dormindo. Tinha desligado a televiso. Sentei na minha cama,
fazendo uma careta de dor, e enxuguei o suor da testa. Fiquei me perguntando
quanto tempo ainda ia continuar doendo para eu me levantar, me sentar, me virar na
cama. Quando  que teria condies de comer coisas slidas. O que ia fazer com
aquele menino ferido, que estava deitado ali, na outra cama, embora uma parte de
mim j soubesse a resposta para essa pergunta.
Havia uma garrafa com gua na mesinha de cabeceira. Enchi um copo e tomei
dois dos comprimidos de Armand. A gua estava quente e amarga. Fechei as cortinas,
fui me ajeitando na cama e me deitei. Parecia que o meu peito ia se esgarar. Quando a
dor diminuiu um pouquinho, e consegui respirar novamente, puxei o cobertor at o
peito e fiquei esperando que os comprimidos de Armand fizessem efeito.
QUANDO ACORDEI, O QUARTO ESTAVA mais escuro. O pedacinho de cu que aparecia por
entre as cortinas tinha o tom roxo do crepsculo, e a noite j vinha chegando. Os
lenis estavam encharcados e a minha cabea latejava. Tinha sonhado de novo, mas
no conseguia me lembrar de nada.
Meu corao deu um salto quando olhei para a cama de Sohrab e vi que estava
vazia. Chamei por ele. Tomei um susto com o som da minha prpria voz. Era uma
situao das mais desnorteadoras: eu, sentado em um quarto escuro de hotel, a
milhares de quilmetros de casa, com o corpo todo arrebentado e chamando por um
menino que s tinha conhecido uns poucos dias antes. Chamei novamente, mas no
ouvi nada. Com muito esforo, sa da cama, procurei no banheiro, fui olhar no
estreito corredor do lado de fora do quarto. Ele tinha ido embora.
Tranquei a porta e fui mancando at o escritrio do gerente, no saguo de entrada,
agarrando, com uma das mos, o corrimo que havia no corredor para conseguir me
firmar. Em um canto do saguo, havia uma palmeira de plstico empoeirada e, no
papel de parede, flamingos que voavam. Quando cheguei, o gerente estava lendo um
jornal por trs do balco de tampo de frmica da recepo. Descrevi Sohrab e
perguntei se ele o tinha visto. O homem baixou o jornal e tirou os culos de leitura.
Tinha o cabelo todo emplastrado e um bigodinho quadrado j com alguns fios grisalhos.
O seu cheiro me lembrava vagamente uma fruta tropical que no consegui identificar.
 Meninos gostam de andar por a  disse ele, com um suspiro.  Tenho trs.
Passam o dia inteiro correndo de um lado para o outro, e deixando a me preocupada.
Abanou-se com o jornal, sem tirar os olhos do meu rosto.
 No acredito que ele esteja correndo por a  disse eu.  No somos de
Islamabad. Estou com medo que ele possa se perder.
O gerente balanou a cabea para um lado e para o outro.
 Ento devia ter ficado de olho nele, moo.
 Sei disso  concordei.  S que peguei no sono e, quando acordei, ele no
estava mais l.
 Mas a gente precisa tomar conta das crianas...

 Eu sei  exclamei, com a pulsao cada vez mais acelerada. Como  que
aquele homem podia fazer to pouco caso da minha apreenso? Ele passou o jornal
para a outra mo, e recomeou a se abanar.
 Agora esto querendo bicicletas...
 Quem?
 Os meus filhos  respondeu ele.  Vivem dizendo "Pai, pai, por favor, se
comprar bicicletas para ns, vamos nos comportar direitinho. Por favor, pai" 
prosseguiu ele, com um risinho nasalado.
 Bicicletas! A me deles me mata, pode acreditar no que lhe digo.
Imaginei Sohrab cado em uma vala. Ou na mala de algum carro, amarrado e
amordaado. No queria ter o sangue dele nas mos. Mais isso, no!
 Por favor  disse eu. Apertei os olhos. Li o nome do gerente no crach preso
na sua camisa de algodo azul, de mangas curtas.  O senhor o viu, sr. Fayyaz?
 O menino?
Engoli a raiva.
 , o menino! O menino que veio comigo. Pelo amor de Deus, o senhor o viu
ou no?
Ele parou de se abanar. Estreitou os olhos.
 No venha com irritao para cima de mim, meu amigo. No fui eu quem
perdeu o menino!
O fato de ele ter toda razo no impediu que eu ficasse lvido.
 O senhor est certo. Eu  que estou errado. A culpa  toda minha. Agora,
pode me dizer se o viu?
 Desculpe  disse ele, lacnico. Ps os culos de novo. Abriu o jornal
ruidosamente.  No vi, no.
Fiquei parado ali, diante do balco, por um minuto, fazendo um esforo para
no gritar. Quando j estava saindo do saguo, ele perguntou:
 Tem alguma idia de onde ele possa ter ido?
 No  respondi. Estava me sentindo cansado. Cansado e apavorado.
 Alguma coisa que pudesse interess-lo?  indagou o gerente. Vi que tinha
voltado a dobrar o jornal.  Os meus filhos, por exemplo, fazem qualquer coisa
para ver filmes de ao americanos, principalmente com aquele tal de Arnold
Whatsanegger...
 A mesquita!  exclamei.  A mesquita enorme!  Lembrei que Sohrab
tinha sado da pasmaceira habitual quando passamos diante dela; lembrei do jeito
como se debruou na janela para ficar olhando para o prdio.
 A Shah Faisal?
 Isso mesmo. Pode me levar at l?
 Sabia que  a maior mesquita do mundo?  indagou ele  guisa de
resposta.
 No, mas...
 S o trio comporta quatro mil pessoas.
 Pode me levar at l?
 Fica apenas a um quilmetro daqui  disse ele. Mas j estava saindo do seu
lugar atrs do balco.
 Pago pela corrida  disse eu.

Ele suspirou e abanou a cabea.
 Espere aqui.  E desapareceu pela porta de um quarto nos fundos. Saiu de l
usando outros culos e trazendo um molho de chaves na mo. Atrs dele, vinha uma
mulher baixinha e gorducha, com um sri cor de laranja, que tomou o seu lugar na
recepo.  No vou lev-lo at l por dinheiro  disse ele passando por mim feito
uma bala.  Estou fazendo isso porque tambm sou pai.
PENSEI QUE FSSEMOS FICAR RODANDO pela cidade inteira at a noite. J me via indo 
polcia, descrevendo Sohrab para os guardas, sob o olhar reprovador de Fayyaz.
Ouvia o delegado, com voz cansada e desinteressada, fazendo as perguntas de praxe.
E, por detrs dessas perguntas oficiais, uma outra, extra-oficial: quem diabos vai se
preocupar com mais uma criana afeg morta?
Mas acabamos encontrando Sohrab a uns quinhentos metros da mesquita,
sentado no estacionamento parcialmente vazio, na borda de um canteirinho gramado.
Fayyaz parou o carro ali perto para eu descer.
 Tenho que voltar  disse ele.
 Est timo. Podemos ir a p  disse eu.  Muito obrigado, sr. Fayyaz.
Obrigado mesmo.
Depois que desci, ele se inclinou no banco da frente.
 Posso lhe dizer uma coisa?
 Claro.
Na penumbra do crepsculo, o seu rosto era apenas um par de culos refletindo
a pouca luz que ainda havia.
 O que acontece com vocs, afegos,  que... bem, vocs so um povo meio
irresponsvel.
Estava cansado e com dor. As minhas mandbulas latejavam. E aqueles
malditos ferimentos no meu peito e na minha barriga pareciam arame farpado por
baixo da pele. Assim mesmo, porm, comecei a rir.
 O que... o que fiz...  principiou Fayyaz, mas eu j estava s gargalhadas,
com o riso saindo aos trancos pela minha boca costura da.  Que gente mais maluca...
 exclamou ele. E saiu com o carro, cantando os pneus, com o vermelho das lanternas
traseiras brilhando na luz plida do anoitecer.
 VOC ME DEU O MAIOR SUSTO  disse eu. Sentei ao seu lado, me encolhendo de dor ao
curvar o corpo.
Sohrab estava fitando a mesquita. A Shah Faisal tinha o feitio de uma gigantesca
tenda. Carros iam e vinham; fiis vestidos de branco entravam e saam. Ficamos
sentados ali em silncio, eu recostado na rvore, Sohrab perto de mim, com os
joelhos encolhidos contra o peito. Ouvimos a chamada para a orao, vimos as
centenas de lmpadas do prdio se acenderem quando escureceu. A mesquita brilhava
como um diamante na escurido. Chegava a iluminar o cu, e o rosto de Sohrab.
 J esteve alguma vez em Mazar-i-Sharif?  indagou ele, com o queixo
apoiado nos joelhos.
 H muito tempo. No me lembro muito bem da cidade.

 O pai me levou l uma vez, quando eu era pequeno. A me e Sasa tambm
foram com a gente. O pai comprou um macaco para mim no bazaar. No um de
verdade. Um daqueles de encher. Ele era marrom e tinha uma gravata-borboleta.
 Acho que tive um desses quando era criana.
 O pai me levou  Mesquita Azul  disse ele.  Lembro que tinha um
monto de pombos do lado de fora da masjid e eles no tinham nenhum medo das
pessoas. Vieram direto para cima de ns. Sasa me deu uns pedacinhos de naan para eu
jogar para eles. Em um minuto, estava cercado de pombos arrulhando por todo lado.
Foi bem divertido.
 Voc deve sentir muita saudade dos seus pais  disse eu. Sempre me
perguntei se teria visto o Talib arrastando os dois pela rua. Espero que no.
 Voc tem saudade dos seus?  perguntou ele, encostando o peito nos
joelhos e erguendo os olhos para mim.
 Se tenho saudade dos meus pais? Bom, no conheci a minha me. J o meu
pai morreu h alguns anos, e sinto saudade dele sim. s vezes muita saudade.
 Lembra como ele era?
Pensei no pescoo grosso de baba, nos seus olhos negros, no cabelo castanho e
rebelde. Sentar no colo dele era como sentar em um par de troncos de rvore.
 Lembro sim  respondi.  E do cheiro dele tambm.
 Estou comeando a esquecer o rosto dos meus pais  disse Sohrab.  Isso
 ruim?
 No  respondi.  O tempo  assim mesmo.  Lembrei de uma coisa.
Procurei no bolso da frente do casaco. Achei o instantneo Polaroid de Hassan e
Sohrab.  Olhe aqui  disse.
Ele ps a foto a um palmo do rosto, virando-a um pouco para que a luz da
mesquita a iluminasse. Ficou olhando para ela por um bom tempo. Achei que fosse
chorar, mas no chorou. Simplesmente ficou segurando a fotografia com as duas mos,
passando o polegar sobre ela. Lembrei de uma frase que li em algum lugar, ou que
talvez tenha ouvido algum dizer: "H muitas crianas no Afeganisto, mas muito
pouca infncia." Sohrab estendeu a mo para me devolver o retrato.
 Pode ficar com ela  disse eu.   sua.
 Obrigado  respondeu ele. Olhou para a foto mais uma vez e meteu-a no
bolso do casaco. Uma carroa puxada por um cavalo entrou no estacionamento.
Sininhos balanavam no pescoo do animal, tilintando a cada passo que ele dava.
 Tenho pensado muito em mesquitas ultimamente  disse Sohrab.
 Tem mesmo? Mas, pensado o qu?
Ele deu de ombros.
 S pensado.  Ergueu o rosto e me encarou. Agora estava chorando, de
mansinho, calado.  Posso lhe perguntar uma coisa, Amir agha?
 Claro que pode.
 Ser que...  principiou ele, e a sua voz ficou embargada.  Ser que
Deus vai me mandar para o inferno por causa do que eu fiz com aquele homem?
Esbocei um gesto na sua direo, mas ele recuou. E eu tambm.
 No  respondi.  Claro que no.  Queria pux-lo para mim, abra-lo,
dizer que era o mundo que tinha sido mau com ele, e no o contrrio.
O seu rosto se contraiu, fazendo um esforo para aparentar serenidade.

 O pai sempre dizia que  errado machucar as pessoas, mesmo as malvadas.
Porque elas no tm condies de fazer outra coisa, e porque, s vezes, as pessoas
ms podem se tornar boas.
 Nem sempre, Sohrab.
Ele me olhou com um ar intrigado.
 Conheo aquele homem que maltratou voc h muitos anos  disse eu. 
Acho que percebeu isso pela conversa que tivemos. Ele... tentou me machucar uma
vez, quando eu tinha a sua idade, mas seu pai me salvou. Seu pai era muito corajoso e
estava sempre me livrando das encrencas, me defendendo. A, um dia, o sujeito malvado
resolveu atacar o seu pai e o machucou muito, muito mesmo... e eu... e eu no pude
salvar o seu pai como ele sempre me salvava.
 Por que algum ia querer machucar meu pai?  perguntou Sohrab com
uma vozinha ofegante.  Ele nunca fez mal a ningum.
 Tem razo. Seu pai era um bom homem. Mas  isso que estou tentando lhe
dizer, Sohrab jan. Que h gente muito m neste mundo, e que, s vezes, essas pessoas
continuam ms para sempre. s vezes, a gente tem que enfrent-las. O que voc fez
com aquele homem  o que eu deveria ter feito muitos anos atrs. Voc lhe deu o que
ele merecia, e ele merecia at mais que isso.
 Voc acha que o pai est desapontado comigo?
 Tenho certeza que no  respondi.  Voc salvou a minha vida, l em
Cabul. Sei que ele est muito orgulhoso por voc ter feito isso.
Sohrab enxugou o rosto com a manga da camisa. Uma bolha de cuspe que
tinha se formado em seus lbios estourou. Ele cobriu o rosto com as mos e ficou
chorando por um bom tempo, at que voltou a falar.
 Tenho saudade do pai, e da me tambm  disse, com voz rouca.  E
tenho saudade de Sasa e de Rahim Khan sahib. Mas, s vezes, fico feliz por eles no
estarem... no estarem mais aqui.
 Por qu?  perguntei, pondo a mo em seu brao. Ele se retraiu.
 Porque...  balbuciou ele por entre os soluos  porque no quero que me
vejam assim... Estou to sujo...  Respirou fundo e soltou o ar em um grito
ofegante.  Estou to sujo e to cheio de pecados...
 Voc no est sujo, Sohrab  disse eu.
 Aqueles homens...
 Voc no est sujo no.
 ...eles fizeram umas coisas... o homem mau e os outros dois... fizeram umas
coisas... fizeram umas coisas comigo.
 Voc no est sujo, e tambm no est cheio de pecados.  Toquei novamente
em seu brao e, mais uma vez, ele se retraiu. Estendi a mo de novo, suavemente, e o
trouxe para mais perto de mim.  No vou machuc-lo  sussurrei.  Prometo. 
Ele ainda resistiu um pouquinho. Depois relaxou. Deixou que eu o abraasse e
apoiou a cabea no meu peito. Fiquei ali, com aquele menininho que estremecia
nos meus braos a cada soluo que dava.
Existe um parentesco entre as pessoas que mamaram do mesmo leite. Agora,
enquanto a dor daquela criana ia encharcando a minha camisa, percebi que esse
parentesco tinha criado razes tambm entre ns dois. O que aconteceu naquela sala
com Assef nos ligou um ao outro irremediavelmente.

Fiquei esperando a hora certa, o momento certo para fazer a pergunta que vinha
martelando em minha cabea e me tirando o sono  noite. Decidi que o momento era
agora, bem aqui, neste instante, com as luzes resplandecentes da casa de Deus
brilhando sobre ns.
 Voc gostaria de ir morar nos Estados Unidos, comigo e com a minha
mulher?
Sohrab no respondeu. Continuou soluando, encostado no meu peito, e deixei
que ficasse assim.
DURANTE UMA SEMANA NENHUM DE NS mencionou o que eu tinha perguntado, como se
aquela pergunta no houvesse existido. Ento, um dia, Sohrab e eu pegamos um txi
para ir at o mirante Daman-e-Koh, ou "a bainha da montanha". Encarapitado a meio
caminho na subida das colinas Margalla, o mirante tem uma vista panormica de
Islamabad, com as suas fileiras de avenidas limpas e arborizadas, e o seu casario
branco. O motorista nos disse que, l de cima, podamos ver o palcio presidencial.
 Depois de uma chuva, quando o ar est lmpido, pode-se ver at alm de
Rawalpindi  acrescentou. Pelo retrovisor, percebi que os seus olhos iam de mim
para Sohrab, e vice-versa, sem parar. Vi tambm o meu prprio rosto, j no estava
to inchado quanto antes, mas tinha um tom amarelado, por causa da quantidade de
hematomas que comeavam a desaparecer.
Sentamos em um banco de uma das reas para piquenique,  sombra de um
eucalipto. Estava fazendo calor e o sol brilhava l no alto, em um cu azul-topzio.
Nos bancos vizinhos, famlias comiam samosas e pakoras. Em algum lugar, um rdio
tocava uma cano indiana que me pareceu conhecida, de algum velho filme, talvez
Pakeeza. Crianas, vrias delas da idade de Sohrab, corriam atrs de bolas de futebol,
rindo e gritando. Lembrei do orfanato de Karteh-Seh, lembrei do rato que passou
correndo entre os meus ps, l no escritrio de Zaman. Senti o peito apertado por uma
onda de raiva inesperada pensando em como os meus compatriotas estavam
destruindo o seu prprio pas.
 O que foi?  perguntou Sohrab. Dei um sorriso forado e disse que no
era nada de importante.
Abrimos uma toalha de banho do hotel sobre a mesa de piquenique e ficamos
jogando panjpar. Achei bom estar ali, com o filho de meu meio-irmo, jogando cartas,
sentindo o calor do sol batendo na minha nuca. A cano acabou e comeou uma outra
que no reconheci.
 Olhe!  exclamou Sohrab, apontando para o alto com as cartas. Olhei
para cima e vi um falco voando em crculos naquele cu imenso e lmpido.
 No sabia que havia falces em Islamabad  disse eu.
 Nem eu  retrucou ele, acompanhando com os olhos os giros da ave.  Tem
falces l onde voc mora?
 Em San Francisco? Acho que sim. Embora no possa dizer que j tenha visto
muitos deles.
 Ah...  disse ele. Fiquei com esperana de que fizesse mais perguntas, mas
ele simplesmente recomeou a distribuir as cartas e perguntou se podamos comer.
Abri a sacola de papel e lhe dei um sanduche de carne. J o meu almoo consistia em
mais um copo de suco de banana com laranja, preparado no liquidificador do sr. Fayyaz
que aluguei por uma semana. Chupei o canudo e a minha boca se encheu da doura

daquelas frutas misturadas. Escorreu um pouco do lquido pelo canto dos meus lbios.
Sohrab me deu um guardanapo e ficou me olhando enquanto eu limpava a boca. Sorri
para ele e ele sorriu para mim.
 Seu pai e eu ramos irmos  disse eu. Aquilo saiu assim, sem mais nem
menos. Quis dizer isso naquela noite, quando estvamos sentados perto da mesquita,
mas no disse. No entanto ele tinha o direito de saber; e eu no queria esconder
nada, nunca mais.  Na verdade, meio-irmos. Nosso pai era o mesmo.
Sohrab parou de mastigar e largou o sanduche.
 O pai nunca me disse que tinha um irmo.
  porque ele no sabia.
 Por que no?
 Porque ningum contou para ele  respondi.  Nem para mim. S fui
descobrir isso h muito pouco tempo.
Sohrab piscou os olhos. Como se estivesse me olhando, me olhando de verdade,
pela primeira vez.
 Mas por que as pessoas esconderam isso do pai e de voc?
 Sabe que foi exatamente a pergunta que me fiz ainda outro dia? E encontrei
uma resposta, mas ela no  boa. Digamos que ningum nos contou porque seu pai e
eu... no deveramos ser irmos.
 Porque ele era hazara?
Forcei meus olhos a continuarem fitando Sohrab.
 
 O seu pai...  principiou ele olhando para o sanduche.  O seu pai amava
voc e meu pai do mesmo jeito?
Lembrei de um dia distante, no lago Ghargha, quando baba se permitiu dar uns
tapinhas nas costas de Hassan porque a pedra dele pulou na gua mais vezes do que a
minha. Revi baba no quarto do hospital, radiante porque estavam removendo as
ataduras dos lbios de Hassan.
 Acho que ele nos amava igualmente, mas de jeitos diferentes.
 Ele tinha vergonha do meu pai?
 No  respondi.  Acho que ele se envergonhava de si mesmo.
Sohrab pegou de volta o sanduche e comeou a mordisc-lo em silncio.
FOMOS EMBORA NO FINAL DA TARDE, cansados, por causa do calor, mas aquele era um
cansao gostoso. Durante toda a viagem de volta, senti que Sohrab estava me olhando.
Pedi que o motorista parasse diante de uma loja que vendia cartes telefnicos. Dei a
ele o dinheiro e uma gorjeta, pedindo-lhe que desse um pulo at l e comprasse um
para mim.
 noite, ficamos deitados na cama vendo um programa de entrevistas na TV. Dois
religiosos, com longas barbas grisalhas e turbantes brancos, recebiam telefonemas de
fiis do mundo inteiro. Um indivduo chamado Ayub, que estava ligando da
Finlndia, perguntou se o filho adolescente poderia ir para o inferno por usar as calas
to baixo que o cs da cueca ficava aparecendo.
 Vi uma foto de San Francisco uma vez  disse Sohrab.
  mesmo?
 Tinha uma ponte vermelha e um prdio com um teto pontudo.

 Voc devia ver as ruas de l  disse eu.
 O que tem nelas?  indagou ele. Estava olhando para mim nesse
momento. Na tela da TV, os dois muls confabulavam entre si.
 So umas ladeiras to ngremes que, quando a gente est subindo por elas,
tudo o que consegue ver  o cap do carro e o cu  respondi.
 Parece assustador  comentou ele. Virou-se na cama ficando de frente para
mim e de costas para a TV.
 Assusta mesmo, mas s nas primeiras vezes  prossegui.  Depois a
gente se acostuma.
 L neva?
 No, mas tem muita neblina. Sabe aquela ponte vermelha que voc viu?
 Sei.
 s vezes, a neblina fica to cerrada, pela manh, que s d para ver a
pontinha dos seus pilares, l no alto.
Desta vez ele sorriu, encantado.
 Puxa!
 Sohrab?
 O qu?
 Voc pensou naquilo que perguntei outro dia?
O sorriso desapareceu do seu rosto. Ele virou de barriga para cima e cruzou as
mos atrs da cabea. Afinal, os muls chegaram  concluso que o filho de Ayub iria
para o inferno por usar as calas do jeito que usava. Alegaram que isso estava no
Haddith.
 Andei pensando nisso, sim  disse Sohrab.
 E...?
 E fico com medo.
 Sei que  um pouco assustador  disse eu me agarrando quela pontinha de
esperana.  Mas voc vai aprender ingls bem depressa, e logo vai se acostumar
com...
 No foi isso que quis dizer. Isso tambm me d medo, mas...
 Mas o qu?
Sohrab se virou de novo para mim. Encolheu os joelhos.
 E se voc se cansar de mim? E se a sua mulher no gostar de mim?
Levantei o mais depressa que pude e atravessei o espao que nos separava. Sentei
na cama ao seu lado.
 Nunca vou me cansar de voc, Sohrab  disse eu.  Nunca mesmo. 
verdade. Juro. Voc  meu sobrinho, lembra? E Soraya jan  uma mulher muito legal.
Pode confiar em mim, ela vai adorar voc. Tenho certeza.  Resolvi arriscar. Me
inclinei e peguei a mo dele. Sohrab ficou um pouco tenso, mas me deixou segur-la.
 No quero ir para outro orfanato  disse ele.
 Eu nunca deixaria isso acontecer. Prometo  retruquei, segurando sua mo
entre as minhas.  Venha comigo.
Suas lgrimas estavam molhando o travesseiro. Por um bom tempo, ficou calado.
Depois, apertou a minha mo. E fez que sim com a cabea. Fez que sim.
S CONSEGUI COMPLETAR A LIGAO na quarta tentativa. O telefone tocou trs vezes
antes que ela atendesse.

 Al?  Eram sete e meia da noite em Islamabad, portanto, mais ou menos a
mesma hora da manh na Califrnia. O que significava que Soraya tinha se levantado
h cerca de uma hora, e estava se aprontando para ir para a escola.
 Sou eu  disse. Estava sentado na cama, olhando para Sohrab, que dormia.
 Amir!  exclamou ela quase gritando.  Voc est bem? Onde est?
 No Paquisto.
 Por que no telefonou antes? Quase morri de tashweesh! Minha me tem rezado
e feito nazr diariamente.
 Desculpe por no ter telefonado. Agora estou bem.  Tinha lhe dito que
ficaria fora por uma semana, ou duas no mximo. J fazia quase um ms que tinha
viajado. Sorri.  E diga a khala Jamila que pare de matar carneiros.
 O que quer dizer com "agora estou bem"? E o que aconteceu com a sua voz?
 No precisa se preocupar com isso. Estou bem. De verdade. Soraya, tenho que
lhe contar uma histria. Uma histria que j devia ter contado h muito tempo. Mas,
antes, preciso lhe dizer uma coisa.
 O que ?  perguntou ela, e a sua voz soou mais baixa, mais cautelosa.
 No vou voltar sozinho. Estou levando um garotinho comigo.  E, depois de
uma pausa, acrescentei:  Queria que ns o adotssemos.
 O qu?
Olhei para o relgio.
 Daqui a cinquenta e sete minutos esse maldito carto vai acabar e tenho muitas
coisas para lhe contar  disse eu.  Sente em algum lugar  acrescentei. Ento,
ouvi o barulho de uma cadeira sendo arrastada s pressas pelo assoalho.
 Pode falar  disse ela.
E, desta vez, fiz o que no tinha feito em quinze anos de casado: contei tudo para
minha mulher. Tudo mesmo. Tinha imaginado esse momento mil vezes, e sempre fiquei
com medo. Quando falei, porm, senti como se tivesse tirado um peso do meu peito. E
achei que Soraya devia ter sentido alguma coisa bem parecida na noite do nosso
khastegari, depois que me falou do seu passado.
Quando terminei a minha histria, ela estava chorando.
 O que voc acha?  perguntei.
No sei o que pensar, Amir. Voc me contou tanta coisa de uma vez s...
 Sei disso.
Ouvi que assoava o nariz.
 Uma coisa, porm, eu sei: voc tem que traz-lo para casa. Quero que faa
isso.
 Tem certeza?  perguntei, fechando os olhos e sorrindo.
 Se tenho certeza?  exclamou ela.  Ele  seu qaom, Amir,  sua famlia e,
portanto,  meu qaom tambm. Claro que tenho certeza. Voc no pode deix-lo
a pelas ruas.  Calou-se por um instante.  Como ele ?
Olhei para Sohrab dormindo na cama ao meu lado.
  doce, de um jeito meio srio.
 Tambm, no  para menos...  disse ela.  Quero conhec-lo, Amir. Quero
mesmo.
 Soraya?
 O qu?
 Dostet darum. Amo voc.

 Amo voc tambm  disse ela. Pelo seu jeito de falar, dava para perceber
que estava sorrindo.  E trate de se cuidar.
 Pode deixar. S mais uma coisa. No diga aos seus pais quem ele . Se
tiverem que saber, que seja por mim.
 Tudo bem.
Desligamos o telefone.
O GRAMADO DEFRONTE DA EMBAIXADA dos Estados Unidos em Islamabad era aparado com
capricho, pontilhado de canteiros de flores circulares, e cercado por uma borda de
arbustos podados bem certinho. O prdio em si era como outros tantos pela cidade:
baixo e branco. Passamos por diversos postos de controle antes de chegar at l e
trs agentes de segurana diferentes me submeteram a uma revista corporal completa,
depois que os arames da minha mandbula fizeram disparar o detector de metais.
Quando conseguimos enfim entrar, vindo do calor do lado de fora, o ar-condicionado
bateu em cheio no meu rosto como um jato de gua gelada. A secretria que ficava na
recepo, uma loura de uns cinquenta e poucos anos, de rosto fino e magro, sorriu
quando eu disse como me chamava. Estava usando uma blusa bege e um terninho
preto. Depois de vrias semanas, era a primeira mulher que via usando algo que no
fosse uma burqa ou um shalwar-kameez. Procurou na agenda do dia, batendo com a
borracha da ponta do lpis na mesa. Encontrou o meu nome e me mandou sentar.
 Gostariam de uma limonada?  perguntou ela.
 No, obrigado  respondi.
 E o seu filho?
 Como?
 O rapazinho bonito  disse ela, olhando para Sohrab.
 Ah! Seria timo. Obrigado.
Sohrab e eu sentamos no sof de couro preto defronte da mesa da recepcionista,
perto de uma grande bandeira dos Estados Unidos. Sohrab pegou uma revista na
mesinha de centro com tampo de vidro. Ficou virando as pginas, sem olhar realmente
as figuras.
 O que foi?  indagou ele.
 O que foi o qu?
 Voc est sorrindo  respondeu.
 Estava pensando em voc  disse eu.
Ele riu, nervoso. Pegou outra revista e levou menos de trinta segundos para
folhe-la.
 No precisa ficar com medo  disse eu pondo a mo no seu brao.  Essa
gente  boazinha. Relaxe.  O conselho servia para mim tambm. No tinha parado
de me remexer no sof, desamarrando e amarrando de novo o cadaro dos sapatos. A
secretria ps um copo grande com limonada e gelo em cima da mesinha.  Pronto.
Aqui est  disse ela.
Sohrab sorriu, encabulado.
 Thank you very much  disse ele, em ingls. O que saiu foi alguma coisa
como "Tank you wery match". E era tudo o que sabia de ingls, segundo me disse.
Isso e "Have a nice day".
Ela riu.

 No h de qu  respondeu. E voltou para a sua mesa, com o barulhinho
dos saltos dos sapatos batendo no cho.
 Have a nice day  disse Sohrab.
RAYMOND ANDREWS ERA UM SUJEITO baixinho, com umas mozinhas midas, as unhas
muitssimo bem-cuidadas e uma aliana de casamento no dedo anular. Me recebeu
com um breve aperto de mo e senti como se estivesse apertando um passarinho.
"Nosso destino est nessas mos", pensei, enquanto Sohrab e eu nos sentvamos nas
cadeiras defronte da escrivaninha dele. Na parede, s suas costas, estava pendurado
um pster de Les Misrables, ao lado de um mapa topogrfico dos Estados Unidos. No
parapeito da janela, um p de tomates plantado em um vaso pegava sol.
 Fuma?  perguntou ele com uma voz de bartono profundo que destoava de
sua pequena estatura.
 No, obrigado  respondi, sem me importar absolutamente com o fato de
Andrews mal ter olhado para Sohrab e tambm no me encarar enquanto falava. Ele
abriu uma gaveta da escrivaninha e acendeu um cigarro tirado de um mao j meio
vazio. Da mesma gaveta tirou ainda um frasco de loo. Ficou olhando para o p de
tomates, esfregando a loo nas mos, com o cigarro pendendo do canto da boca.
Depois, fechou a gaveta, apoiou os cotovelos na mesa e exalou.  Ento  disse ele,
acompanhando com os olhos cinzentos a fumaa do cigarro , conte-me a sua histria.
Estava me sentindo como Jean Valjean sentado diante de Javert. Disse para mim
mesmo que agora estava em solo americano, que aquele sujeito estava do meu lado,
que era pago para ajudar pessoas como eu.  Quero adotar este menino e lev-lo
comigo quando voltar para os Estados Unidos  disse eu.
 Conte-me a sua histria  repetiu ele, apertando com o indica dor um tantinho
de cinza que tinha cado na escrivaninha impecvel e jogando aquilo na lata de lixo.
Contei a verso que tinha arquitetado, depois de falar com Soraya por telefone. Fui
ao Afeganisto para buscar o filho de meu meio-irmo. Encontrei o menino em
condies deplorveis, abandonado em um orfanato. Paguei uma quantia em dinheiro
ao diretor da instituio e consegui retirar o menino de l. Ento, voltei com ele para
o Paquisto.
 O senhor  meio-tio do menino?
 Sou.
Andrews olhou para o relgio. Inclinou-se e virou o vaso com o p de tomates
no parapeito da janela.
 Conhece algum que possa atestar isso?
 Conheo, mas no sei onde ele se encontra agora.
Ele se virou para mim e assentiu com um gesto. Tentei decifrar o seu rosto, mas
no consegui. E me perguntei se ele j teria usado aquelas mozinhas em um jogo de
pquer.
 Presumo que no mandou pr esses arames no seu rosto porque era a ltima
moda  afirmou ele. Sohrab e eu estvamos em maus lenis. Agora sabia disso.
Disse-lhe que tinha sido agredido por um assaltante em Peshawar.
 Claro  disse ele. Pigarreou.  O senhor  muulmano?
 Sou.
 Praticante?
 Sou.

Na verdade, nem me lembrava da ltima vez que tinha apoiado a testa no cho
para rezar. Mas depois me lembrei: foi no dia em que o dr. Amani nos deu o
diagnstico de baba. Ajoelhei ento no tapete de oraes e s conseguia recordar
alguns fragmentos de versculos aprendidos na escola.
 Isso ajuda um pouco, no seu caso, mas no muito  prosseguiu ele, coando
um ponto qualquer no repartido impecvel de seu cabelo ruivo.
 O que quer dizer com isso?  perguntei. Peguei a mo de Sohrab e enlacei os
meus dedos nos seus. Ele s fazia olhar para Andrews e para mim com um ar de quem
no estava entendendo nada.
 H uma resposta longa, e tenho certeza de que  a que vou acabar lhe
dando. Mas no quer primeiro a resposta curta?
 Acho que sim  respondi.
Andrews apagou o cigarro, franzindo os lbios.
 Desista.
 Como?
 Da requisio para adotar esse rapazinho. Desista.  o conselho que lhe dou.
 O seu conselho foi devidamente registrado  disse eu.  Mas, agora, quem
sabe o senhor no me diz por qu?
 Isso significa que o senhor est querendo a resposta longa  retrucou ele,
impassvel, sem demonstrar qualquer reao diante do meu tom rspido. Juntou as
mos como se estivesse de joelhos na frente da Virgem Maria.  Admitamos que essa
sua histria seja verdadeira, embora eu seja capaz de apostar os meus vencimentos
como boa parte dela foi inventada ou omitida. No que isso tenha alguma
importncia, note bem. O senhor est aqui, ele est aqui, e isso  tudo o que conta.
Mesmo assim, a sua requisio esbarra com obstculos significativos, sendo que um
deles, e no  o mais simples,  o fato de essa criana no ser rf.
 Claro que .
 No. Legalmente, no .
 Os pais dele foram executados no meio da rua. Todos os vizinhos viram 
disse eu, feliz por estarmos falando ingls.
 O senhor tem as certides de bito?
 Certides de bito? Mas estamos falando do Afeganisto! A maioria das
pessoas por l no tem nem certido de nascimento...
Os seus olhos vidrados nem sequer piscavam.
 No sou eu quem faz as leis, meu senhor. Apesar da sua indignao, continua
sendo necessrio provar que os pais faleceram. S assim o menino pode ser
legalmente declarado rfo.
 Mas...
 O senhor queria a resposta longa. Pois  o que estou fazendo. O problema que
ter de enfrentar a seguir  obter a cooperao do pas de origem da criana. Ora, isso
j  difcil nas circunstncias mais favorveis, e, para usar as suas prprias palavras,
estamos falando do Afeganisto. No temos embaixada em Cabul. O que torna as
coisas extremamente complicadas. Praticamente impossveis.
 O senhor est dizendo que devo atir-lo de volta s ruas?  exclamei.
 No foi isso que eu disse.
 Ele foi vtima de abuso sexual  prossegui, lembrando dos sininhos nos
tornozelos de Sohrab, dos seus olhos pintados com delineador.

 Lamento muito  disse a boca de Andrews. No entanto, pelo seu jeito de me
olhar, poderamos perfeitamente estar falando sobre o tempo que fazia l fora.  Mas
isso no vai fazer com que o servio de imigrao libere um visto para esse menino.
 O que  que o senhor est dizendo?
 Estou dizendo que, se quiser ajudar, mande dinheiro para uma organizao de
ajuda humanitria que goze de boa reputao. Ou aliste-se como voluntrio em um
campo de refugiados. Mas, a essa altura dos acontecimentos, temos desencorajado
veementemente qualquer cidado dos Estados Unidos a tentar adotar crianas afegs.
Levantei da cadeira.
Vamos embora, Sohrab  disse eu, em farsi. Sohrab veio para perto de mim e
apoiou a cabea no meu quadril. Lembrei da foto Polaroid em que ele e Hassan
estavam parados desse mesmo jeito.  Posso lhe fazer uma pergunta, sr. Andrews?
 Pois no.
 O senhor tem filhos?
Pela primeira vez, ele piscou.
 E ento, tem?  uma pergunta simples.
Ele ficou calado.  Foi o que pensei  disse eu, pegando Sohrab pela mo.  De veriam ter posto
nessa cadeira algum que soubesse o que  querer um filho.  Virei para sair, e
Sohrab veio vindo logo atrs.
 E eu, posso lhe fazer uma pergunta?  indagou Andrews.
 Faa.
 O senhor prometeu a essa criana que a levaria consigo?
 Qual  o problema?
Ele abanou a cabea.
  sempre um perigo prometer certas coisas a uma criana.  Suspirou e
abriu novamente a gaveta da escrivaninha.  Pretende realmente levar isso adiante?
 prosseguiu ele, remexendo em uns papis.
 Claro que pretendo.
Andrews apanhou um carto de visitas.
 Ento, eu o aconselho a procurar um bom advogado especializado em
imigrao. Omar Faisal trabalha aqui, em Islamabad. Pode dizer a ele que foi indicado
por mim.
Peguei o carto.
 Obrigado  murmurei.
 Boa sorte  disse ele. Quando estvamos saindo da sala, olhei para trs.
Andrews estava de p, parado em um retngulo de sol, olhando pela janela com um
ar ausente, girando o vaso de tomates na direo do sol, cuidando da planta com
todo carinho.
 PASSAR BEM  disse a secretria quando j estvamos de sada.
 O seu chefe bem que poderia ser um pouco mais gentil  disse eu. Na verdade,
esperava que ela revirasse os olhos, talvez assentindo, como se dissesse "Sei disso.  o
que todo mundo diz". Em vez disso, ela baixou a voz.  Pobre Ray. Nunca mais foi o
mesmo desde que a filha morreu.
Ergui uma sobrancelha.
 Suicdio  sussurrou ela.

No TXI, VOLTANDO PARA o HOTEL, Sohrab apoiou a cabea no vidro da janela e ficou
olhando os prdios que passavam, as fileiras de eucaliptos. Seu hlito embaava o
vidro. Ele limpava e, depois, embaava de novo. Fiquei esperando que me perguntasse
alguma coisa sobre a entrevista, mas no perguntou nada.
A GUA ESCORRIA DO OUTRO LADO da porta fechada do banheiro. Desde que chegamos
quele hotel, Sohrab tomava um banho bem demorado toda noite, antes de ir para a
cama. Em Cabul, gua quente nas torneiras  como os pais, um artigo raro. Agora,
Sohrab passava quase uma hora no banho, mergulhado naquela gua ensaboada, se
esfregando. Sentado na beira da cama, liguei para Soraya. Dei uma olhada para a fina
rstia de luz por baixo da porta do banheiro. "Ser que j est se sentindo limpo,
Sohrab?"
Contei para ela o que Raymond Andrews tinha me dito.
 O que voc acha?  perguntei.
 Temos de acreditar que ele est enganado  respondeu ela.
Soraya me disse que tinha telefonado para algumas agncias de adoo que
tratavam de casos internacionais. Ainda no tinha encontrado uma que se dispusesse a
fazer isso com o Afeganisto, mas ia continuar procurando.
 Como foi que os seus pais receberam a notcia?
 Madar est feliz por voc. Sabe muito bem como ela o adora, Amir. A seus
olhos, nada do que voc possa fazer  errado. J padar... bem, como sempre, ele 
um pouco mais difcil. No tem falado muito sobre isso.
 E voc? Est feliz?
Ouvi ela mudando o fone para a outra mo.
 Acho que vamos fazer muito bem ao seu sobrinho, mas talvez esse menininho
tambm nos faa muito bem.
 Era exatamente o que eu estava pensando.
 Sei que pode parecer loucura, mas me peguei imaginando qual seria a
qurma favorita dele, ou a matria preferida na escola. J me vejo ajudando com o
dever de casa...  Ela riu. No banheiro, a torneira tinha sido fechada. Dava para
ouvir Sohrab l dentro, se remexendo, derramando gua pelas bordas da banheira.
 Voc vai ser maravilhosa...  disse eu.
 Ah, j ia esquecendo! Telefonei para kaka Sharif!
Lembrei dele no nosso nika, recitando aquele poema escrito no papel de carta
do hotel. Lembrei do seu filho segurando o Coro acima das nossas cabeas quando
estvamos caminhando em direo ao palco, sorrindo para as mquinas fotogrficas. 
E o que foi que ele disse?
 Bem, ele vai mexer os pauzinhos para nos ajudar. Vai ligar para alguns dos seus
amigos no servio de imigrao  respondeu ela.
 Isso  uma tima notcia  disse eu.  Mal posso esperar para ver voc e
Sohrab se encontrarem.
 E eu mal posso esperar para ver voc  disse ela.
Desliguei sorrindo.
Logo depois, Sohrab saiu do banheiro. Se tinha dito umas dez palavras, desde
que samos da entrevista com Raymond Andrews, foi muito. E, todas as vezes que tentei

puxar conversa, ele s fez que sim com a cabea ou deu uma resposta monossilbica.
Pulou na cama, puxou o cobertor at o queixo e, em minutos, estava roncando.
Desembacei parte do espelho do banheiro e fiz a barba com um dos barbeadores
antiquados do hotel, um daqueles que a gente abre e enfia a gilete. Depois, tomei meu
banho. Fiquei deitado na banheira at a gua que estava pelando esfriar e a minha pele
ficar toda arrepiada. Fiquei mergulhado ali, pensando, imaginando coisas...
OMAR FAISAL ERA UM SUJEITO GORDUCHO, moreno, com covinhas no rosto, olhos pretos
redondos e um sorriso afvel mostrando dentes separados. Seu cabelo grisalho, j
rareando, estava preso em um rabo-de-cavalo. Ele usava um terno de veludo cotel
marrom, com rodelas de couro nos cotovelos, e tinha uma pasta surrada, abarrotada.
Como a pasta no tinha mais ala, ele a carregava junto ao peito. Era aquele tipo de
pessoa que comea vrias das suas frases rindo e pedindo desculpas desnecessrias,
do gnero "Sinto muito, estarei a s cinco". Risos. Quando telefonei, insistiu que era
melhor ele vir ao nosso encontro.
 Sinto muito  disse em um ingls perfeito, sem nenhum sotaque , os
motoristas desta cidade so uns vigaristas. Se farejarem um estrangeiro, vo triplicar o
preo da corrida.
Empurrou a porta, todo sorrisos e pedidos de desculpas, um tanto ofegante e
suando muito. Enxugou a testa com um leno e foi abrindo a pasta, remexendo o seu
contedo  cata de um bloco e pedindo desculpas pelas folhas de papel que espalhou
em cima da minha cama. Sentado na sua cama, com as pernas cruzadas, Sohrab tinha
um olho na televiso sem som e outro naquele advogado irrequieto. De manh, eu lhe
disse que Faisal viria e ele apenas fez que sim com a cabea. Esteve a ponto de
perguntar alguma coisa, mas desistiu e continuou vendo o programa com uns bichos
que falavam.
 Pronto  disse Faisal, folheando um bloco amarelo, tipo formulrio
oficial.  Tomara que os meus filhos saiam  me em termos de organizao.
Desculpe. Provavelmente isso no  o tipo de coisa que gostaria de ouvir de seu
possvel advogado, no  mesmo?  comentou ele, rindo.
 Bem, Raymond Andrews o tem em alta conta.
 O sr. Andrews... ... Um sujeito decente. Na verdade, ele me telefonou e me
falou a seu respeito.
 E mesmo?
  sim.
 Ento j est a par da minha situao.
Faisal deu uns tapinhas nas gotas de suor que bordejavam o seu lbio superior.
 Estou a par da verso da situao que voc lhe contou  disse ele, dando um
sorriso tmido que formou duas covinhas no seu rosto. Virou-se para Sohrab.  Esse
deve ser o rapazinho que est causando tantos problemas...  acrescentou, em farsi.
 Este  Sohrab  disse eu.  Sohrab, este aqui  o dr. Faisal, o advogado de
quem lhe falei.
Sohrab escorregou pela beirada da cama e veio cumprimentar Omar Faisal.
 Salaam alaykum  disse ele com uma voz sumida.
 Alaykum salaam, Sohrab  respondeu Faisal.  Sabe que tem o nome de um
grande guerreiro?

Sohrab fez que sim com a cabea. Voltou para a cama e se deitou de lado para ver
televiso.
 No sabia que falava farsi to bem  comentei em ingls.  Foi criado
em Cabul?
 No. Nasci em Karachi. Mas morei efetivamente em Cabul por vrios
anos. Em Shar-e-Nau, perto da mesquita Haji Yaghoub  disse ele.  Mas, na
verdade, fui criado em Berkeley. Meu pai abriu uma loja de msica l, em fins dos
anos 1960. Amor livre, faixas na cabea, camisetas de batique, e tudo o mais 
prosseguiu. Inclinou-se para frente.  Foi na poca de Woodstock.
 P, legal  disse eu, e Faisal riu tanto que recomeou a suar.
 Bom, seja como for  retomei , o que contei ao sr. Andrews 
praticamente o que aconteceu, a no ser por umas duas coisinhas. Ou talvez trs.
Vou lhe dar a verso no-censurada.
Faisal lambeu a ponta do dedo, procurou uma folha em branco no bloco e tirou
a tampa da caneta.
 Eu lhe agradeo por isso, Amir. E que tal falarmos s ingls daqui para a
frente?
 timo.
Contei tudo o que tinha acontecido. Falei do meu encontro com Rahim Khan, da
viagem para Cabul, do orfanato, do apedrejamento no estdio Ghazi.
 Meu Deus!  sussurrou ele.  Lamento muito. Tenho tantas boas lembranas
de Cabul...  difcil acreditar que estejamos falando do mesmo lugar...
 Esteve por l recentemente?
 No.
 Pode ter certeza de que no  Berkeley  disse eu.
 Continue.
Contei todo o resto. O encontro com Assef, a briga, Sohrab e o estilingue, nossa
fuga de volta para o Paquisto. Quando terminei, ele rabiscou algumas anotaes,
respirou fundo e me deu um olhar srio.
 Bem, Amir, voc tem uma batalha rdua pela frente.
 Alguma chance de venc-la? Ele reps a tampa na caneta.
 Correndo o risco de parecer Raymond Andrews, diria que no  provvel.
Impossvel no , mas  pouco provvel  respondeu ele. E o sorriso afvel tinha
desaparecido, bem como o ar brincalho dos seus olhos.
 Mas so justamente as crianas como Sohrab que mais precisam de um lar 
disse eu.  Essas regras e esses regulamentos no fazem o menor sentido para mim.
 E  para mim que voc vem dizer isso, Amir?  exclamou ele.  Acontece
que, considerando-se a atual legislao sobre imigrao, as polticas dos rgos de
adoo e a situao poltica do Afeganisto, o circo est armado, e ele no  nada
propcio ao que voc est pretendendo.
 No consigo entender  insisti. E estava com vontade de esmurrar alguma
coisa.  Quer dizer, entender eu entendo, mas no consigo compreender.
Omar assentiu com a cabea, uma ruga profunda lhe franzindo a testa.
 , mas  assim. Nos tempos que se seguem a um desastre, quer ele seja
natural ou provocado pelo homem, e o Talib  um desastre, pode acreditar em mim,
Amir, fica sempre difcil provar que uma criana  rf. Elas so levadas para campos
de refugiados, ou os pais simplesmente as abandonam porque no tm condies de
cri-las. Acontece o tempo todo. Por isso o servio de imigrao no emite vistos, a no
ser que fique provado que a criana se enquadra na definio legal de rfo disponvel
para adoo. Sinto muito, sei que parece ridculo, mas voc vai precisar das certides
de bito.
 Voc j morou no Afeganisto  retruquei.  Sabe muito bem como 
improvvel que eu consiga isso.
 Eu sei  disse ele.  Mas suponhamos que fique provado que a criana no
tem nem pai nem me vivos. Mesmo assim, o servio de imigrao acredita que o
procedimento ideal para uma adoo  entregar a criana a algum do seu prprio
pas, a fim de que a sua herana seja preservada.
 Que herana?  exclamei.  O Talib destruiu qualquer herana que um
afego pudesse ter. Viu o que eles fizeram com os Budas gigantes de Bamiyan?
 Sinto muito, Amir, mas estou lhe explicando como o servio de imigrao
funciona  disse Omar, pondo a mo no meu brao. Olhou para Sohrab e sorriu.
Voltou-se ento outra vez para mim.  Alm disso, uma criana tem de ser
legalmente adotada segundo as leis e as regulamentaes do seu prprio pas.
Acontece que, quando esse pas est imerso no caos, ou seja, exatamente o caso do
Afeganisto, os rgos oficiais esto sempre ocupados demais com as emergncias, e
tratar de processos de adoo nunca vai ser uma das suas prioridades.
Suspirei, esfregando os olhos. Atrs deles, estava se instalando uma dor de
cabea lancinante.
 Mas vamos supor que, de uma forma ou de outra, o Afeganisto consiga reunir
as tais certides  prosseguiu Omar, cruzando os braos sobre a barriga proeminente.
 Ele ainda pode no permitir essa adoo. Na verdade, mesmo as naes
muulmanas mais moderadas so reticentes quanto a adoes porque, na maioria
desses pases, a lei islmica, a Shari'a, no reconhece essa prtica.
 Voc est me dizendo para desistir?  perguntei, pressionando a testa com a
palma da mo.
 Voc cresceu nos Estados Unidos, Amir. Se h uma coisa que aquele pas me
ensinou  que, para eles, desistir equivale a mijar na jarra de limonada das
bandeirantes. Mas, como seu advogado, o meu papel  lhe transmitir os fatos  afirmou
ele.  Alm de tudo isso, as agncias de adoo costumam mandar membros de sua
equipe para avaliar o meio em que vivem as crianas, e nenhuma agncia, em s
conscincia, vai mandar algum para o Afeganisto.
Olhei para Sohrab sentado na cama, vendo TV, mas tambm prestando ateno
em ns. Estava na mesma posio em que seu pai tanto gostava de ficar, com o queixo
apoiado nos joelhos.
 Sou meio-tio dele. Isso no ajuda em nada?
 Ajuda, se puder provar. Sinto muito, mas no tem nenhum documento ou
algum que pudesse testemunhar a seu favor?
 Nenhum documento  disse eu, com a voz cansada.  E ningum sabia
nada sobre isso. Sohrab no sabia at eu lhe contar. E eu mesmo s vim a descobrir
essa histria bem recentemente. A nica outra pessoa que estava a par de tudo foi
embora, talvez j tenha at morrido.
 Humm...
 Quais so as minhas opes, Omar?

 Vou ser franco com voc. No so muitas.
 Cus, o que  que vou fazer?
Omar respirou fundo, deu umas batidinhas no queixo com o lpis, soltou o
ar.
 Voc sempre pode preencher um formulrio requerendo um rfo, e torcer para
que tudo d certo. Pode tambm tentar uma adoo independente. O que significa que
ter de viver com Sohrab aqui no Paquisto, dia aps dia, durante os prximos dois
anos. Pode pedir asilo para ele.  um processo demorado, e ter de provar que existe
perseguio poltica. H ainda a possibilidade de voc requerer um visto humanitrio.
Mas essa  uma deciso que compete ao procurador-geral, e esse tipo de visto no 
concedido com facilidade.  Ele fez uma pausa.  E tem ainda uma outra opo que,
provavelmente, acaba sendo a sua melhor chance.
 Qual ?  perguntei me inclinando para a frente.
 Voc pode abandon-lo em um orfanato daqui e, depois, preencher o
formulrio requerendo um rfo. Dar entrada no processo 1-600 e na avaliao
familiar enquanto ele est em um lugar seguro.
 O que  isso?
 Ah, desculpe, o 1-600  uma formalidade do servio de imigrao. A
avaliao familiar  feita pela agncia de adoo que voc escolher  explicou Omar.
 Sabe como , eles precisam ter certeza de que voc e sua mulher no so uma dupla
de loucos furiosos.
 Isso eu no quero fazer  disse eu, olhando novamente para Sohrab. 
Prometi a ele que no o mandaria de volta para um orfanato.
 Mas, como j disse, pode ser a sua melhor chance.
Conversamos ainda por algum tempo. Depois, fui acompanh-lo at o carro, um
velho Fusca. A essa altura, o sol estava comeando a se pr em Islamabad, formando
uma aurola chamejante a oeste da cidade. Vi o carro estremecer sob o peso de Omar
enquanto, sabe-se l como, ele dava um jeito de se enfiar ao volante.
 Amir  chamou ele, baixando o vidro da janela.
 Sim?
 Queria dizer uma coisa sobre o que voc est tentando fazer. Acho que 
muito legal.
Saiu com o carro, acenando para mim. Fiquei parado na porta, acenando
tambm, e desejei que Soraya pudesse estar ali comigo.
QUANDO VOLTEI PARA O QUARTO, Sohrab tinha desligado a televiso. Sentei na beirada da
minha cama e lhe pedi que viesse sentar ao meu lado.
 O dr. Faisal acha que tem um jeito de voc poder ir comigo para os Estados
Unidos  disse.
 ?  indagou ele dando um ligeiro sorriso, coisa que no tinha feito nem
uma nica vez nos ltimos dias.  E quando  que podemos ir?
 Bom, a  que est o problema. Pode demorar um pouco. Mas ele disse que 
possvel, e que vai nos ajudar.  Pus a mo na sua nuca. L fora, o chamado para a
orao ressoava pelas ruas.
 Quanto tempo demora?  perguntou ele.
 No sei. Um pouco.

Sohrab deu de ombros e voltou a sorrir, desta vez era um sorriso mais largo.
 No tem importncia. Posso esperar. E que nem ma cida.
 Ma cida?
 Um dia, quando eu era bem pequenininho mesmo, trepei em uma rvore e
comi uma daquelas mas verdes, cidas. Minha barriga inchou e ficou dura feito um
tambor. Doeu  bea. A me disse que, se eu tivesse esperado as mas amadurecerem,
no teria ficado doente. Agora, quando quero alguma coisa de verdade, tento lembrar
do que ela disse sobre as mas.
 Mas cidas...  disse eu.  Mashallah, voc  sem dvida o sujeitinho
mais esperto que j conheci, Sohrab jan.  Ele ficou vermelho at a raiz dos
cabelos.
 Voc vai me levar quela ponte vermelha? Aquela da neblina?  indagou ele.
 Claro que vou  respondi.  Claro que vou.
 E vamos andar de carro por aquelas ruas onde a gente s consegue ver o cap
do carro e o cu?
 Vamos passar por todas elas  disse eu. Meus olhos se encheram de lgrimas
e pisquei para disfarar.
 O ingls  difcil de aprender?
 Acho que em um ano voc vai estar falando to bem quanto fala farsi.
 Verdade?
 .  Pus um dedo no seu queixo e virei o seu rosto para mim.
 S que tem mais uma coisa, Sohrab.
 O que ?
 O dr. Faisal acha que ajudaria muito se pudssemos... se eu lhe pedisse para
ficar em uma casa para crianas por algum tempo.
 Uma casa para crianas?  perguntou ele, e o seu sorriso desapareceu. 
Voc quer dizer um orfanato?
 Seria s por algum tempo.
 No!  exclamou ele.  No. Por favor.
 S por algum tempo, Sohrab. Prometo.
 Voc prometeu que nunca ia me pr em um lugar desses, Amir agha  disse
ele. Tinha a voz embargada e as lgrimas comeavam a escorrer dos seus olhos. Aquilo
foi como uma punhalada para mim.
  diferente. Vai ser aqui, em Islamabad, e no em Cabul. E vou vir visit-lo
o tempo todo, at conseguir tir-lo de l e lev-lo para os Estados Unidos.
 No, por favor! No!  pediu ele com a voz rouca.  Tenho medo desses
lugares! Vo me machucar! No quero ir para l.
 Ningum vai machucar voc. Nunca mais.
 Vo sim! Sempre dizem que no vo, mas  mentira. Eles so uns mentirosos.
Deus, por favor!
Com o polegar, enxuguei a lgrima que lhe escorria pelo rosto.
 Lembra das mas cidas? E exatamente a mesma coisa  disse eu com
carinho.
 No  no! Esse lugar no. Ah, meu Deus. Por favor, no!  Sohrab estava
tremendo, com o nariz escorrendo e o catarro se misturando com as lgrimas.

 Ei!  sussurrei, puxando-o para junto de mim e abraando aquele corpinho
que se sacudia.  Shhh! Vai dar tudo certo. Vamos para casa juntos. Voc vai ver,
vai dar tudo certo.
A voz dele soou abafada contra o meu peito, mas pude perceber o pnico que
havia ali.
 Por favor, prometa que no vai fazer isso! Ah, meu Deus, Amir agha! Prometa
que no vai fazer isso!
Como poderia fazer essa promessa? Apertei Sohrab nos meus braos, bem junto
do peito, e fiquei balanando para frente e para trs. Ele ficou chorando em minha
camisa at as lgrimas secarem, at o tremor cessar e as suas splicas se transformarem
em murmrios indecifrveis. Fiquei esperando, balanando com ele, at que a sua
respirao voltou ao normal e o seu corpo relaxou. Lembrei de uma coisa que tinha
lido h muito tempo: " assim que as crianas lidam com o terror. Adormecem."
Peguei Sohrab no colo e o pus na cama. Ento, deitei tambm e, pela janela,
fiquei olhando aquele cu arroxeado sobre Islamabad.
O CU J ESTAVA BEM ESCURO quando o telefone me acordou. Esfreguei os olhos e acendi a
lmpada da mesinha de cabeceira. Passava um pouco das dez e meia da noite. Tinha
dormido bem umas trs horas. Atendi o telefone.
 Al?
  uma ligao dos Estados Unidos  anunciou a voz entediada do sr. Fayyaz.
 Obrigado  disse eu. A luz do banheiro estava acesa; Sohrab estava tomando
o seu banho noturno. Depois de alguns estalidos, ouvi a voz de Soraya.
 Salaam!  Ela parecia empolgada.
 Oi.
 Como foi o encontro com o tal advogado?
Contei o que Omar Faisal tinha sugerido.
 Bom, pode esquecer essa histria  disse ela.  No vamos precisar fazer
nada disso.
Sentei na cama.
 Rawsti? Por qu? O que  que houve?
 J tive a resposta de kaka Sharif. Ele tinha dito que o "x" do problema era
trazer Sohrab para os Estados Unidos. Uma vez que estivesse aqui, existem meios
para mant-lo no pas. Ento, kaka Sharif deu uns telefonemas para alguns amigos do
servio de imigrao. Ontem me ligou de volta dizendo que est praticamente certo
que vai conseguir um visto humanitrio para Sohrab.
 No brinque!  exclamei eu.  Ah, graas a Deus! Sharif jan  o mximo!
 Sei disso. De qualquer forma, seremos responsveis por ele. Tudo deve
acontecer bem depressa. Ele me disse que o visto tem validade por um ano, tempo
suficiente para se fazer um pedido de adoo.
 Isso vai sair mesmo, Soraya? Hein?
 Parece que sim  respondeu ela. Aparentemente, estava feliz. Disse-lhe que
a amava e ela me disse que me amava tambm. E desliguei.
 Sohrab!  gritei, levantando da cama.  Tenho timas notcias!  Bati na
porta do banheiro.  Sohrab! Soraya jan acabou de ligar da Califrnia. No

teremos que pr voc em um orfanato, Sohrab. Vamos para os Estados Unidos, ns
dois. Est me ouvindo? Vamos para os Estados Unidos!
Empurrei a porta. Fui at a banheira.
De repente, estava ajoelhado no cho, gritando. Gritando por entre os dentes
cerrados. Gritando tanto que pensei que a minha garganta fosse se rasgar e o meu
peito, estourar.
Mais tarde, disseram que eu ainda estava gritando quando a ambulncia
chegou.

VINTE E CINCO
NO ME DEIXARAM ENTRAR.
Vi ele sendo levado atravs de uma srie de portas duplas, daquelas de vaivm, e fui
atrs. Empurrei as portas. Um cheiro de iodo e gua oxigenada me chegou s narinas,
mas tudo o que tive tempo de ver foram dois homens, usando gorros cirrgicos, e uma
mulher de verde debruada sobre uma maca. Um lenol branco tinha cado um pouco
para um dos lados da maca e estava arrastando pelos ladrilhos encardidos do cho.
Dois pezinhos ensanguentados apareciam por debaixo do lenol, e notei que a unha do
dedo do p esquerdo estava lascada. Ento, um homem alto e corpulento, vestido de
azul, pe a mo espalmada no meu peito e me empurra de volta porta afora,
encostando uma aliana fria na minha pele. Tento entrar de novo, xingo o tal homem,
mas ele diz que no posso ficar ali, e diz isso em ingls, educada, mas energicamente.
 O senhor vai ter que aguardar  afirma ele, levando-me de volta  sala de
espera. Quando as portas de vaivm se fecham s suas costas, com uma espcie de
suspiro, tudo o que consigo ver so os gorros cirrgicos dos homens por aquelas
estreitas vidraas retangulares.
Ele me deixou em um amplo corredor sem janelas, apinhado de gente. Algumas
pessoas estavam sentadas em cadeiras metlicas de dobrar, encostadas s paredes;
outras, no fino tapete pudo. Quis recomear a gritar e me lembrei da ltima vez que
tinha me sentido desse jeito. Foi naquela viagem com baba, dentro do tanque daquele
caminho, mergulhado na escurido juntamente com outros refugiados. Quis fugir de
onde estava, fugir da realidade, subir feito uma nuvem e sair voando por a afora, me
fundir com essa noite mida de vero e desaparecer bem longe daqui, alm das colinas.
Mas estou aqui, com as pernas pesando como chumbo, os pulmes vazios, a garganta
ardendo. No h a menor possibilidade de sair voando por a. No vai haver outra
realidade esta noite. Fecho os olhos e sinto os cheiros do corredor penetrarem pelas
minhas narinas: suor e amnia, lcool e curry. No teto, mariposas se atiram contra as
lmpadas frias acinzentadas que se estendem por todo o corredor, e ouo o rudo das
suas asas batendo feito papel. Ouo conversas, soluos abafados, gente que funga,
algum que geme, mais algum que suspira, portas de elevador abrindo com um
"plim", o alto-falante chamando por algum em urdu.
Volto a abrir os olhos e agora sei o que devo fazer. Olho ao meu redor* com o
corao martelando no peito, o sangue pulsando nos ouvidos.  esquerda, h um
quartinho escuro. L dentro, encontro o que estava procurando. Serve perfeitamente.
Apanho um lenol branco da pilha de roupas dobradas e levo-o comigo para o corredor.
Vejo uma enfermeira conversando com um guarda perto do banheiro. Pego a
mulher pelo brao, puxando-a, quero saber para que lado fica o oeste. Ela no me
entende e as rugas em seu rosto se acentuam quando franze a testa. Estou com a
garganta doendo e os olhos ardendo por causa do suor. A cada inspirao,  como se
inalasse fogo, e acho que estou chorando. Pergunto outra vez. Imploro.  o policial
que me mostra a direo.
Estendo o meu jai-namaz improvisado, o meu tapete de orao, e me ajoelho,
baixando a testa at o cho, com as lgrimas encharcando o lenol. Me inclino
voltado para o Oeste. S ento lembro que faz uns quinze anos que no rezo. Esqueci
as oraes h muito tempo. Mas isso no tem importncia. Vou dizer as poucas
palavras de que ainda consigo me lembrar: La illaha il Allah, Muhammad u rasul
ullah. No h outro Deus seno Allah, e Mohammad  o Seu mensageiro. Agora
percebo que baba estava errado. Existe um Deus, sim, sempre existiu. Posso v-Lo ali,
nos olhos das pessoas que esto nesse corredor do desespero. Aqui  a Sua verdadeira
casa;  aqui que aqueles que perderam Deus voltam a encontr-Lo; no naquela
masjid branca, com as suas lmpadas que brilham como diamantes e os seus
minaretes altssimos. Existe um Deus, tem que existir, e agora vou rezar, vou pedir
que Ele me perdoe por no ter Lhe dado a devida importncia durante todos esses
anos, que me perdoe por eu ter trado, mentido e pecado impunemente, e s ter
pensado em recorrer a Ele nos momentos de necessidade; pedir-Lhe que seja clemente
e misericordioso como o Seu livro diz que Ele . Inclino a cabea para o Oeste, beijo o
cho e prometo fazer zakat, prometo fazer as namaz, fazer jejum durante o Ramadan e
continuar jejuando quando o Ramadan j tiver terminado. Prometo que vou decorar
cada palavra do Seu livro sagrado, e que vou fazer uma peregrinao quela cidade
quentssima do deserto para me curvar tambm diante da Ka'bah. Vou fazer tudo isso e,
de hoje em diante, vou pensar Nele diariamente, se Ele me conceder um nico pedido.
As minhas mos esto manchadas com o sangue de Hassan. Que Deus no permita
que elas se manchem tambm com o sangue do filho dele.
Ouo uma choradeira e percebo que sou eu. Os meus lbios esto salgados por
causa das lgrimas que me escorrem pelo rosto. Sinto que todos os olhos daquele
corredor esto voltados para mim, mas continuo inclinado na direo do Oeste. Rezo.
Rezo para no estar sendo punido pelos meus pecados como sempre temi que viesse a
acontecer.
ISLAMABAD EST IMERSA EM UMA NOITE escura e sem estrelas. Passaram-se algumas horas e
estou sentado no cho de um minsculo saguo, perto do corredor que leva ao setor de
emergncia.  minha frente, uma mesinha de um marrom desbotado est repleta de
jornais e de revistas amassados: um exemplar da Time, de abril de 1996; um jornal
paquistans, com a foto de um menino atropelado e morto por um trem uma semana
atrs; uma revista trazendo, na capa lustrosa, astros de Lollywood sorridentes. H
uma velha, trajando um shalwar-kameez verde-jade e um xale de croch, cochilando
em uma cadeira de rodas defronte de mim. De quando em quando, ela acorda e
murmura uma prece em rabe. Desanimado, pergunto com meus botes que preces
sero ouvidas esta noite, se as dela ou as minhas. Vi o rosto de Sohrab, com aquele
queixo proeminente, as orelhas midas que pareciam conchas, os olhos oblquos e
puxados como folhas de bambu, iguaizinhos aos de seu pai. Uma tristeza to profunda
quanto a noite l fora tomou conta de mim, e senti um n na garganta.
Precisava respirar.
Levantei e abri as janelas. O ar que passa pela tela  quente e empoeirado  tem
cheiro de tmaras excessivamente maduras e de esterco. Obrigo os meus pulmes a
absorverem grandes tragos desse ar, mas ele no alivia o aperto que sinto no peito.
Me deixo cair de volta ao cho. Pego a revista Time e passo os olhos pelas suas pginas.
Mas no consigo ler; no consigo prestar ateno em nada. Ento, atiro a revista na
mesa e volto a olhar fixo para o ziguezague das rachaduras no cho de cimento, para
as teias de aranha pendendo da juno do teto com a parede, para as moscas mortas
acumuladas no parapeito da janela. Acima de tudo, porm, olho para o relgio na
parede. Passa um pouco das quatro da manh e j faz umas cinco horas que fui
empurrado para fora daquelas portas duplas de vaivm. E, at agora, no tive notcia
alguma.
O cho comea a parecer que faz parte do meu corpo, e a minha respirao vai
ficando mais pesada, mais lenta. Quero dormir, fechar os olhos e deitar a cabea nesse
piso frio e empoeirado. Pegar no sono. Talvez, quando acordar, descubra que tudo
aquilo que vi no banheiro do hotel fazia parte de um sonho: as gotas pingando da
torneira e caindo com um "plinc" naquela gua ensangentada; o brao esquerdo
pendurado na borda da banheira; a gilete em cima da caixa de descarga da privada 
a mesma gilete que eu tinha usado para fazer a barba na vspera , e os olhos dele
ainda entreabertos, mas sem vida. Isso mais que tudo. Queria esquecer aqueles olhos.
O sono logo veio, e me deixei levar. Sonhei com coisas que no consegui
lembrar depois.
ALGUM EST BATENDO no meu ombro. Abro os olhos. Tem um homem ajoelhado ao meu
lado. Est usando um gorro como o daquele indivduo que estava por trs das portas
de vaivm, e tem uma mscara cirrgica cobrindo a sua boca  o meu corao quase
pra quando vejo uma gota de sangue naquela mscara. O homem tem o retrato de
uma garotinha de olhos meigos colado no bipe. Tira a mscara e fico feliz por no ter
que continuar olhando para o sangue de Sohrab. A pele dele  escura como aquele
chocolate suo importado que Hassan e eu comprvamos no bazaar em Shar-e-Nau;
o seu cabelo est comeando a rarear e os seus olhos castanho-claros so guarnecidos
de clios recurvados. Com um sotaque britnico, ele me diz que  o dr. Nawaz e, de
repente, quero distncia daquele homem, pois no sei se consigo agentar a notcia
que veio me dar. O dr. Nawaz me explica que o menino teve ferimentos profundos e
perdeu uma grande quantidade de sangue, e a minha boca comea a murmurar aquela
orao de novo:
"La illaha il Allah, Muhammad u rasul ullah."
Tiveram que fazer vrias transfuses de glbulos vermelhos...
"Como  que vou contar a Soraya?"
Foi preciso reanim-lo duas vezes...
"Vou fazer namaz, vou fazer zakat."
Eles o teriam perdido se o seu corao no fosse jovem e forte...
"Vou jejuar."
Ele est vivo.

O dr. Nawaz sorri. Levo um momento para processar o que ele acaba de dizer.
Ento, ele continua a falar, mas j no estou ouvindo. Porque peguei as suas mos e
as trouxe at o meu rosto. Choro aliviado nas mos pequenas e rechonchudas daquele
estranho que agora est calado. Esperando.
A UNIDADE DE TERAPIA INTENSIVA  uma sala em forma de L, mergulhada na penumbra,
com uma parafernlia de monitores que apitam e de mquinas que zumbem. O dr.
Nawaz me leva at duas fileiras de leitos separadas por umas cortinas de plstico
branco. O de Sohrab  o ltimo, perto do canto mais prximo ao posto de
enfermagem, onde duas enfermeiras usando trajes cirrgicos esto rabiscando
anotaes em pranchetas e conversando em voz baixa. No silncio do elevador, ao
lado do dr. Nawaz, pensei que ia chorar de novo na hora em que visse Sohrab. Mas,
quando me sentei na cadeira que ficava ao p de sua cama, olhando para o seu
rostinho branco por detrs de um reluzente emaranhado de tubos plsticos e fios de
soro, os meus olhos estavam secos. Vendo o seu peito subir e descer ao ritmo do
aparelho de ventilao, um estranho entorpecimento toma conta de mim, o mesmo
entorpecimento que um homem deve sentir alguns segundos depois de dar uma
guinada ao volante e, por muito pouco, conseguir evitar uma coliso frontal.
Tiro uma soneca e, quando acordo, vejo o sol surgindo em um cu
esbranquiado atravs da janela que fica perto do posto de enfermagem. A claridade
vai penetrando no aposento, conduzindo a minha sombra na direo de Sohrab. Ele
no se mexeu.
 O senhor deveria dormir um pouco  diz uma enfermeira. No a reconheo.
Com certeza houve mudana de turno enquanto eu estava cochilando. Ela me leva
ento a um outro saguo contguo  UTI. No h ningum ali. Me entrega um
travesseiro e um cobertor hospitalar. Agradeo e me deito no sof de vinil, em um
canto do aposento. Pego no sono quase imediatamente.
Sonho que estou no saguo l do trreo. O dr. Nawaz vem vindo na minha
direo e me levanto para ir ao seu encontro. Ele tira a mscara cirrgica e, de
repente, as suas mos so mais brancas do que eu achava; tem as unhas feitas, a linha
do repartido do cabelo  impecvel, e vejo que no  o dr. Nawaz, mas sim Raymond
Andrews, o homenzinho da embaixada que tinha o p de tomates plantado em um
vaso. Andrews empina o queixo. Aperta os olhos.
DURANTE O DIA, O HOSPITAL era um labirinto de milhares de corredores angulosos, com
um borro de branco fluorescente pairando sobre as nossas cabeas. Fiquei conhecendo
tudo aquilo; fiquei sabendo que o boto do quarto andar, no elevador da ala leste, no
acendia; que a porta do banheiro masculino do mesmo andar estava emperrada, e era
preciso usar o ombro para abri-la. Fiquei sabendo que a vida no hospital tem um
ritmo, com o corre-corre das atividades imediatamente antes da mudana de turno
matinal, o atropelo do meio do dia, a calma e o silncio das horas mais tardias da
noite, s ocasionalmente interrompidos pela passagem de mdicos e enfermeiras
correndo para reanimar algum. De dia, ficava velando na cabeceira de Sohrab e, de
noite, vagava pelo emaranhado de corredores do hospital, ouvindo os saltos dos meus
sapatos ressoando no cho de ladrilhos, pensando no que diria a Sohrab quando ele
acordasse. Acabava voltando para a UTI, para perto do aparelho de ventilao que
ficava junto da sua cama, sem ter a mnima idia do que poderia lhe dizer.

Depois de trs dias na UTI, retiraram o aparelho de ventilao e transferiram
Sohrab para um leito no andar trreo. Eu no estava l quando ele foi removido.
Naquela noite, tinha voltado para o hotel para tentar dormir um pouco, mas acabei
passando a noite inteira me revirando na cama. Pela manh, tentei no olhar para a
banheira. Ela agora estava limpa. Algum tinha lavado o sangue, posto capachos
novos pelo cho, esfregado as paredes. Mas no pude me impedir de sentar naquela
borda fria. Fiquei imaginando Sohrab abrindo a torneira de gua quente para ench-la.
Vi ele se despindo. Girando o cabo do barbeador e abrindo as duas lingetas de
segurana, retirando a gilete, segurando-a entre o polegar e o indicador. Vi ele
entrando na gua, ficando deitado ali por um instante, com os olhos fechados.
Perguntei a mim mesmo qual teria sido o seu ltimo pensamento enquanto erguia a
gilete e, depois, a baixava.
Estava saindo do saguo quando o sr. Fayyaz, o gerente do hotel, me alcanou.
 Lamento muito  disse ele , mas tenho que lhe pedir para deixar o meu
hotel, por favor. Isso  muito ruim para os negcios, muito ruim.
Disse-lhe que compreendia e encerrei a conta. Ele no cobrou pelos trs dias
que passei no hospital. Esperando um txi, diante da porta, pensei no que o sr. Fayyaz
tinha dito naquela noite em que samos procurando por Sohrab: "O que acontece com
vocs, afegos,  que... bem, vocs so um povo meio irresponsvel." Na hora, ri, mas,
agora, fiquei refletindo sobre isso. Como  que pude ir dormir depois de dar a Sohrab
a notcia que ele mais temia?
Quando entrei no txi, perguntei se o motorista conhecia alguma livraria persa.
Ele me disse que havia uma, a poucos quilmetros ao sul. Demos uma passada l
antes de ir para o hospital.
O NOVO QUARTO DE SOHRAB tinha as paredes creme, descascadas, com frisos cinzaescuros,
e o cho de azulejos que um dia devem ter sido brancos. O seu companheiro
de quarto era um adolescente punjabi que, como fiquei sabendo mais tarde pelas
enfermeiras, tinha quebrado a perna ao cair do teto de um nibus em movimento. A
perna do garoto estava engessada, erguida, e presa a umas espcies de tenazes com
correias de onde pendiam vrios pesos.
A cama de Sohrab ficava perto da janela, e a parte dos ps estava iluminada pelo
sol do final da manh, que passava pelos retngulos da vidraa. Um segurana
uniformizado estava parado junto  janela, comendo sementes de melancia torradas 
Sohrab estava sob vigilncia vinte e quatro horas por dia. Era a regra do hospital nos
casos de tentativa de suicdio, como me explicou o dr. Nawaz. Ao me ver, o segurana
levou a mo ao quepe e saiu do quarto.
Sohrab usava um pijama do hospital, de mangas curtas. Estava deitado de
barriga para cima, com o cobertor puxado at o peito e o rosto virado para a janela.
Achei que estivesse dormindo, mas, quando arrastei a cadeira para mais perto da cama,
as suas plpebras se moveram e se abriram. Ele me olhou e desviou os olhos. Estava
muito plido, apesar das transfuses que lhe deram, e havia uma grande mancha roxa
na dobra do seu brao direito.
 Como  que voc est?  perguntei.
Ele no respondeu. Pela janela, olhava para um cercado de cho de areia com
balanos que havia no jardim do hospital. Perto dali, via-se um arco de trelia, 
sombra de uma fileira de hibiscos, e trepadeiras verdes subiam por aquela latada.
Algumas crianas brincavam na areia com baldes e ps. O cu estava azul e sem
nuvens, e vi passar um jato minsculo deixando atrs de si dois rastros brancos,
idnticos. Me virei novamente para Sohrab.
 Falei com o dr. Nawaz ainda agora, e ele acha que voc vai ter alta daqui a uns
dois ou trs dias.  uma boa notcia, no acha?
Mais uma vez, a nica resposta que tive foi o silncio. Do outro lado do quarto, o
garoto punjabi se esticou e resmungou alguma coisa ainda dormindo.
 Gosto do seu quarto  disse eu, tentando no olhar para os pulsos
enfaixados de Sohrab.  E bem claro, e tem uma vista agradvel.  Silncio. Mais
alguns minutos desconfortveis se passaram e senti um ligeiro suor que comeava a
brotar na minha testa e acima do meu lbio superior. Apontei para a tigela de aush
com ervilha que estava intocada sobre a mesinha de cabeceira, junto com uma
colher de plstico que tambm no havia sido usada.  Voc deveria tentar comer um
pouco. Para recuperar quwat, as foras. Quer que eu ajude?
Ele me encarou e, depois, desviou os olhos, com o rosto impassvel. Pude ver
que os seus olhos continuavam sem brilho, ausentes, do mesmo jeito que me pareceram
quando o retirei da banheira. Me abaixei para pegar o saco de papel que estava no cho
entre os meus ps, e tirei de l o exemplar usado do Shahnamah que comprei na tal
livraria persa. Virei a capa de frente para ele.
 Eu sempre lia histrias desse livro para seu pai quando ramos crianas.
Subamos na colina perto l de casa e nos sentvamos debaixo do p de rom... 
Minha voz foi murchando. Sohrab tinha voltado a olhar para a janela. Dei um sorriso
forado.  A histria favorita de seu pai era a de Rostam e Sohrab, e foi por isso que
lhe deu esse nome. Sei que voc sabe disso.  Fiz uma pausa, sentindo-me meio idiota.
 De todo modo, ele dizia na carta que me escreveu que essa histria tambm  a sua
favorita, ento achei que seria bom ler um pouco para voc. Que tal?
Sohrab fechou os olhos e os cobriu com o brao que tinha o hematoma.
Fui direto  pgina que tinha marcado no txi.
 Ento, vamos l  disse eu, tentando imaginar, pela primeira vez, o que teria
passado pela cabea de Hassan quando pde final mente ler o Shahnamah e
percebeu que eu o tinha enganado todas aquelas vezes. Pigarreei e comecei a ler. 
"Prepare-se para ouvir o combate de Sohrab contra Rostam, embora esta seja uma
histria repleta de lgrimas"  principiei.  "Aconteceu que, certo dia, Rostam se
levantou da cama com a cabea cheia de pressentimentos. Lembrou-se..."  Li o
captulo I praticamente todo, at a parte em que o jovem guerreiro Sohrab veio ao
encontro da me, Tahmineh, princesa de Samengan, e lhe disse que queria conhecer a
identidade do prprio pai. Fechei o livro.  Quer que continue? Daqui a pouco vo
comear as batalhas, lembra? Sohrab vai chefiar o seu exrcito at o Castelo Branco,
no Ir. Continuo a ler?
Ele abanou a cabea bem devagar. Botei o livro de volta na sacola de papel.
 Tudo bem  disse, encorajado por ele ter finalmente reagido.  Quem sabe a
gente continua amanh... Como est se sentindo?
Sua boca se abriu, deixando escapar um som rouco. O dr. Nawaz tinha me dito
que isso podia acontecer, j que o tubo de ventilao tinha arranhado as suas cordas
vocais. Sohrab passou a lngua pelos lbios e tentou de novo.
 Cansado.

 Eu sei. O dr. Nawaz disse que era de se esperar...
Mas ele estava abanando a cabea.
 O que foi?
Sohrab estremeceu quando falou novamente, com aquela voz abafada que mal
passava de um sussurro.
 Cansado de tudo.
Suspirei e afundei na cadeira. Havia um raio de sol passando pela cama,
exatamente entre ns dois, e, por um instante, o rosto macilento que me olhava do outro
lado dessa luz era uma rplica do de Hassan. No aquele Hassan que ficava jogando
domin comigo at o mul comear a chamar para a azan do fim do dia e Ali nos
mandar voltar para casa; no o Hassan atrs de quem eu corria, descendo a nossa
colina, quando o sol j ia desaparecendo atrs dos telhados mais a oeste; mas o
Hassan que vi pela ltima vez com vida, carregando as suas coisas atrs de Ali durante
uma tempestade de vero, jogando aquilo tudo dentro da mala do carro de baba,
enquanto fiquei s olhando pela vidraa encharcada da janela do meu quarto.
Sohrab balanou lentamente a cabea.
 Cansado de tudo  repetiu.
 O que  que eu posso fazer, Sohrab? Diga, por favor.
 Quero...  principiou ele. Estremeceu novamente e levou a mo  garganta,
como se tentasse tirar o que quer que estivesse bloqueando sua voz. Mais uma vez, os
meus olhos foram atrados por aquele pulso bem amarrado com ataduras de gaze. 
Quero de volta a minha vida de antigamente  sussurrou ele.
 Ah, Sohrab!
 Quero o pai e a me jan. Quero Sasa. Quero brincar com Rahim Khan
sahib no jardim. Quero morar novamente na nossa casa.  Arrastou o brao at
esconder os olhos.  Quero de volta a minha vida de antigamente.
Eu no sabia o que dizer, nem para onde olhar e, por isso, baixei os olhos e fiquei
fitando as minhas prprias mos. "A sua vida de antigamente", pensei. "A minha
tambm. Brinquei naquele mesmo quintal, Sohrab. Morei naquela mesma casa. Mas
a grama morreu e tem um jipe estranho estacionado l na entrada da nossa casa,
vazando leo no calamento. A nossa vida de antigamente j no existe mais, Sohrab, e
todos os que faziam parte dela ou morreram ou esto morrendo. Agora, somos s voc
e eu. S ns dois."
 Isso eu no posso lhe dar  disse.
 Queria que voc no tivesse...
 Por favor no diga isso!
 ...que voc no tivesse... Queria que tivesse me deixado l na gua.
 Nunca mais diga isso, Sohrab  exclamei, inclinando-me para a frente.  No
agento ouvir voc falar desse jeito...  Pus a mo no seu ombro, mas ele se encolheu.
Se afastou. Deixei cair a mo, pesaroso. Lembrei que, nos ltimos dias antes de eu
quebrar a promessa que tinha feito, ele finalmente estava se sentindo  vontade
comigo, e eu podia toc-lo.  Sohrab, no posso lhe devolver a sua vida de
antigamente. Deus sabe que adoraria poder fazer isso. Mas posso lev-lo comigo.
Foi para lhe dar essa notcia que entrei no banheiro aquela noite. Voc conseguiu um
visto para ir para os Estados Unidos, e viver l, comigo e com a minha mulher.

verdade. Juro.
Ele soltou um suspiro e fechou os olhos. E lamentei ter dito essa ltima palavra.

 Sabe, fiz muitas coisas na vida de que me arrependo  disse eu , mas
talvez no me arrependa de nenhuma delas mais do que de ter voltado atrs com
relao  promessa que fiz a voc. Acontece que isso nunca mais vai acontecer de
novo, e sinto muitssimo que tenha acontecido. Estou lhe pedindo bakhshesh, pedindo o
seu perdo. Ser que voc pode fazer isso? Pode me perdoar? Pode acreditar em
mim?  Baixei o tom da voz.  Voc vem comigo?
Enquanto fiquei esperando por sua resposta, a minha mente voou para um dia de
inverno h muitos anos. Hassan e eu sentados na neve, debaixo de uma cerejeira sem
folhas. Nesse dia, fui cruel com Hassan, impliquei com ele, perguntei se comeria
coc para provar a sua lealdade. Agora, eu  que estava sob a lente de aumento; eu 
que tinha de provar o meu valor. E merecia isso.
Sohrab se virou de lado, dando as costas para mim. Durante um bom tempo,
no disse nada. E ento, como se fosse apenas uma idia que lhe passou pela cabea
quando estava pegando no sono, murmurou:
 Estou to khasta...  To cansado...
Fiquei sentado junto da cama at ele adormecer. Algo entre mim e Sohrab estava
perdido. Antes daquele encontro com Omar Faisal, o advogado, um lampejo de
esperana estava comeando a penetrar nos olhos de Sohrab, como um hspede
acanhado. Agora, aquela luz tinha sumido, o hspede tinha ido embora, e me
perguntei quando ousaria voltar. Me perguntei quanto tempo levaria at que Sohrab
voltasse a sorrir; quanto tempo levaria at ele me perdoar, se  que conseguiria.
Depois, sa do quarto e fui procurar outro hotel. Nem desconfiava que quase um
ano ia se passar at que eu voltasse a ouvir Sohrab dizer outra palavra.
AFINAL DE CONTAS, SOHRAB NUNCA ACEITOU a minha proposta. Tambm no a recusou. Mas
ele sabia que, quando as suas ataduras fossem retiradas e as roupas do hospital,
devolvidas, no passaria de mais um entre os tantos rfos hazara pelas ruas. Que
escolha tinha? Para onde poderia ir? Ento, o que considerei um sim, na verdade, foi
muito mais uma rendio silenciosa; nem tanto uma aceitao, mas antes um ato de
resignao de algum exausto demais para decidir e cansado de acreditar. O que queria
mesmo era a sua vida de antigamente. O que conseguiu foi os Estados Unidos e eu.
No que fosse um destino ruim, considerando-se os prs e os contras, mas no podia
dizer isso a ele. Perspectivas so um luxo quando se tem um enxame de demnios
zumbindo constantemente na cabea.
E foi assim que, cerca de uma semana mais tarde, atravessamos um trecho de asfalto
quente e negro da pista do aeroporto, e eu trouxe o filho de Hassan do Afeganisto
para os Estados Unidos, tirando-o da certeza de um turbilho para atir-lo em um
turbilho de incerteza.
UM DIA, L POR VOLTA DE 1983 ou 1984, fui a uma locadora de vdeo em Fremont.
Estava olhando a seo dos westerns quando um sujeito parou ao meu lado, tomando
uma Coca-Cola em um copo de 7-Eleven. Apontando para Sete homens e um destino,
perguntou se eu j tinha visto aquele filme.
 J  respondi.  Treze vezes. Charles Bronson morre no final, James
Coburn e Robert Vaughn tambm.  Ele me olhou de cara amarrada, como se eu
tivesse acabado de cuspir no seu refrigerante.

 Muito obrigado, cara  disse o sujeito, e foi embora abanando a cabea e
resmungando alguma coisa. Foi a que aprendi que, nos Estados Unidos, no se pode
revelar o fim de um filme e, se voc fizer isso, vai ser tratado com desprezo e obrigado
a pedir perdo por ter cometido o pecado de "estragar o final".
J no Afeganisto, s o final importava. Quando Hassan e eu voltvamos para
casa, depois de ter visto um filme indiano no cinema Zainab, o que Ali, Rahim Khan,
baba ou o monte de amigos dele  primos de segundo e terceiro graus que entravam e
saam l de casa  queriam saber era se a mocinha conseguiu ser feliz. O bacheh do
filme, o gal, se tornou kamyab e realizou os seus sonhos, ou estava
fadado a ser nah-kam, a mergulhar no fracasso?
Tudo o que queriam saber era se o filme tinha um final feliz. Se algum viesse
me perguntar hoje se a histria de Hassan, Sohrab e eu tem um final feliz, no saberia o
que dizer.
Algum sabe?
Afinal de contas, a vida no  um filme indiano. Zendagi migzara, como os
afegos tanto gostam de dizer. A vida continua, sem se preocupar com comeos,
finais, kamyab, nah-kam, crise ou catarse; apenas seguindo em frente, como uma
caravana de kochis, lerda e empoeirada.
Eu no saberia responder a tal pergunta. Apesar do minsculo milagre que
aconteceu domingo passado.
CHEGAMOS EM CASA H CERCA DE SETE MESES, em um dia quente de agosto de 2001. Soraya
foi nos buscar no aeroporto. Nunca tinha estado longe dela por tanto tempo e, quando
ela apertou os braos em volta do meu pescoo, quando senti o cheiro de ma dos seus
cabelos, me dei conta de como tinha sentido saudade.
 Voc continua sendo o sol que nasce depois da minha yelda  sussurrei.
 O qu?
 Nada. No tem importncia...  respondi, beijando sua orelha.
Depois, ela se ajoelhou para fitar Sohrab. Pegou a mo dele e sorriu.
 Salaam, Sohrab jan. Sou sua khala Soraya. Estvamos todos esperando por
voc.
Quando a vi assim, sorrindo para Sohrab, com os olhos ligeiramente marejados,
tive a percepo da me que ela teria sido se o prprio tero no a houvesse trado.
Sohrab se remexeu um pouco e desviou os olhos.
SORAYA TINHA TRANSFORMADO O ESCRITRIO, no andar de cima, em um quarto para
Sohrab. Ela o levou at l e ele se sentou na beira da cama. Os lenis eram
estampados com pipas de cores vivas voando em um cu ndigo. Tinha feito inscries
na parede perto do armrio embutido, metros e centmetros para acompanhar o
crescimento de uma criana. Junto do p da cama, vi uma cesta de vime com um
monte de livros, um trem e uma caixa de aquarela.
Sohrab estava usando a camiseta branca e a cala jeans que eu tinha comprado
para ele em Islamabad, pouco antes de viajarmos a camiseta ficava meio pendurada
nos seus ombros magros e encurvados. O seu rosto ainda no tinha recuperado as
cores, a no ser pelo halo escuro em redor dos olhos. Agora, estava olhando para ns

daquele mesmo jeito impassvel que olhava para os pratos de arroz cozido que as
serventes do hospital punham  sua frente.
Soraya perguntou se ele tinha gostado do quarto e percebi que ela estava tentando
evitar olhar para aqueles pulsos, mas os seus olhos estavam continuamente voltando
para as linhas rosadas recortadas ali. Sohrab baixou a cabea. Enfiou as mos sob as
coxas e no disse nada. Ento, simplesmente deitou a cabea no travesseiro. Menos de
cinco minutos depois, l da porta do quarto, Soraya e eu vimos que ele j estava
roncando.
Fomos para a cama e Soraya adormeceu com a cabea apoiada no meu peito.
No escuro do nosso quarto, fiquei acordado, mais uma vez com insnia. Acordado.
E sozinho, com os meus prprios demnios.
L pelas tantas, no meio da noite, levantei para ir at o quarto de Sohrab. Fiquei
parado junto da cama, olhando para ele, e vi alguma coisa aparecendo por debaixo do
travesseiro. Peguei para ver. Era a foto Polaroid tirada por Rahim Khan, aquela que
eu tinha lhe dado na noite em que estvamos sentados perto da mesquita Shah Faisal.
Aquela em que Hassan e Sohrab esto parados, um ao lado do outro, apertando os
olhos por causa do sol, e sorrindo como se o mundo fosse um lugar bom e justo.
Perguntei com meus botes quanto tempo Sohrab teria ficado deitado na cama fitando
aquela foto, virando-a e revirando-a nas mos.
Olhei para o retrato. "Seu pai era um homem dividido entre duas pessoas", dizia
Rahim Khan na sua carta. Eu era a metade autorizada, a metade legitimada e
socialmente aceita, a encarnao involuntria da culpa de baba. Olhei para Hassan,
com o sol lhe batendo no rosto e revelando aquela falha de dois dentes da frente. A
outra metade de baba. A que no era autorizada, no era privilegiada. A metade que
herdou o que havia de mais nobre e puro em baba. A metade que, talvez, l no
fundo do corao, baba considerasse o seu verdadeiro filho.
Botei a foto de volta no lugar de onde a tirei. E foi ento que me dei conta de
algo: que essa ltima idia que me passou pela cabea no tinha provocado
nenhuma dor. Ao fechar a porta do quarto de Sohrab, fiquei imaginando se era
assim que brotava o perdo, no com as fanfarras da epifania, mas com a dor
juntando as suas coisas, fazendo as suas trouxas e indo embora, sorrateira, no meio
da noite.
O GENERAL E KHALA JAMILA vieram jantar no dia seguinte. Khala Jamila, de cabelo bem
curtinho e em um tom de vermelho mais escuro que o de costume, entregou a Soraya
um prato de maghout com cobertura de amndoas que tinha trazido para a
sobremesa. Quando viu Sohrab, exclamou radiante:
 Mashallah! Soraya jan tinha nos dito como voc era khoshteep, mas  ainda
mais bonito em pessoa, Sohrab jan.  E lhe deu uma suter azul de gola rul.  Eu
mesma tricotei para voc  disse ela.   para o prximo inverno. Inshallah vai
caber direitinho.
Sohrab pegou a suter das mos dela.
 Ol, rapazinho  foi tudo o que o general disse, apoiando-se na bengala com
ambas as mos, e olhando para Sohrab como quem observa um objeto de decorao
meio esquisito na casa de algum.
Respondi, e respondi de novo a todas as perguntas que khala Jamila me fez
sobre os ferimentos que sofri  pedi a Soraya que lhes dissesse que eu tinha sido
agredido por um assaltante. Garanti a ela que no haveria nenhuma seqela
permanente, que os arames deveriam ser retirados em poucas semanas e que, ento,
poderia provar de novo a comida que ela fazia. E garanti tambm que passaria sumo
de ruibarbo com acar nas cicatrizes para que desaparecessem mais depressa.
O general e eu fomos nos sentar na sala de visitas e ficamos tomando vinho
enquanto Soraya e a me punham a mesa. Contei-lhe a respeito de Cabul e do Talib.
Ele ficou ouvindo e assentindo com a cabea, a bengala no colo, e estalou a lngua em
sinal de reprovao quando lhe disse que tinha visto um homem vendendo a perna
mecnica. No mencionei as execues no estdio Ghazi, nem Assef. Ele perguntou por
Rahim Khan que, segundo me disse, tinha encontrado algumas vezes em Cabul, e
abanou a cabea com ar solene quando lhe falei da sua doena. Mas, enquanto
conversvamos, percebi que, vira e mexe, ele olhava para Sohrab, que estava
dormindo no sof. Como se estivssemos rondando pelas bordas daquilo que
realmente queria saber.
A ronda finalmente acabou e, no meio do jantar, o general pousou o garfo e disse:
 Ento, Amir jan, no vai nos contar por que trouxe esse menino com voc?
 Iqbal jan!  exclamou khala Jamila.  Isso l  pergunta que se faa?
 Enquanto voc est ocupada tricotando suteres, minha querida, preciso lidar
com a percepo que a comunidade tem de nossa famlia. As pessoas vo fazer
perguntas. Vo querer saber por que h um menino hazara morando com a nossa
filha. O que devo dizer a todos?
Soraya deixou cair a colher.
 Pode lhes dizer...  principiou ela, voltando-se para o pai.
 Est tudo bem, Soraya  disse eu, pegando a sua mo.  Est tudo bem. O
general sahib tem razo. As pessoas vo perguntar mesmo.
 Amir...  disse ela.
 No tem problema  retruquei. E, virando-me para meu sogro:  Sabe,
general, o que acontece  que o meu pai dormiu com a mulher do empregado dele. Ela
lhe deu um filho chamado Hassan. Hassan est morto. Aquele menino, dormindo
ali no sof,  filho dele. Meu sobrinho.  isso que o senhor vai dizer s pessoas
que perguntarem.
Todos ficaram me olhando.
 E tem mais uma coisa, general sahib  prossegui.  Nunca mais se refira a
ele como um "menino hazara" na minha frente. Ele tem nome, e esse nome  Sohrab.
Ningum disse mais nenhuma palavra durante todo o resto do jantar.
SERIA UM ERRO DIZER QUE SOHRAB era quieto. Quieto significa em paz. Tranqilidade.
Estar quieto  baixar o boto do VOLUME da vida.
O silncio  pressionar o boto para desligar. Desligar tudo.
O silncio de Sohrab era o silncio auto-imposto daqueles que tm convices,
daqueles que protestam, que tentam defender a sua causa recusando-se a falar. Era o
silncio de quem se escondeu no escuro, dobrou todas as bordas e as prendeu, bem
enfiadas nos cantos, como se faz com um lenol.
Tambm no se poderia dizer que ele vivia conosco. Na verdade, ele ocupava
espao. E muito pouco espao, alis. s vezes, no mercado, ou no parque, eu percebia
como as outras pessoas pareciam praticamente no o ver, como se ele no estivesse
ali. Levantava os olhos de um livro e via que Sohrab tinha entrado na sala, sentado
defronte de mim sem que eu nem ao menos tivesse notado. Ele andava como se tivesse
medo de deixar pegadas atrs de si. Movia-se como se tentasse no agitar o ar ao seu
redor. Passava a maior parte do tempo dormindo.
O silncio de Sohrab tambm era difcil para Soraya. Naquela ligao
interurbana para o Paquisto, ela me falou das coisas que estava planejando para
ele. Aulas de natao. Futebol. Clube de boliche. Agora, passando pelo quarto de
Sohrab, via os livros que continuavam fechados na cesta de vime, a tabela de
crescimento que no tinha marca nenhuma, o quebra-cabea que nunca foi mexido, e
cada um desses detalhes vinha lhe falar de uma vida que poderia ter existido. De um
sonho que murchou quando estava apenas brotando. Mas ela no era a nica. Eu
tambm tive meus sonhos a respeito de Sohrab.
Ao contrrio de Sohrab, porm, o mundo no ficava calado. Em uma manh de
tera-feira, em setembro passado, as Torres Gmeas vieram abaixo e, da noite para o
dia, o mundo mudou. De repente, a bandeira dos Estados Unidos estava por toda
parte, nas antenas dos txis amarelos que circulavam pelo trnsito da cidade, na
lapela dos pedestres que andavam pelas caladas em um fluxo constante, at mesmo
nos gorros imundos dos mendigos de San Francisco, que ficavam sentados sob o toldo
de pequenas galerias de arte ou diante da fachada de lojas. Um dia passei por Edith,
a moradora de rua que fica sempre tocando acordeo na esquina da rua Sutter com a
Stockton, e percebi um adesivo com a bandeira pregado no estojo do acordeo que
estava no cho a seus ps.
Logo depois dos ataques, os Estados Unidos bombardearam o Afeganisto, a
Aliana do Norte entrou no pas e o Talib bateu em retirada, correndo como ratos
para se esconder nas cavernas. De repente, tinha gente fazendo fila na porta das
mercearias e falando das cidades da minha infncia, Kandahar, Herat, Mazar-i-Sharif.
Quando eu era bem pequeno, baba levou a mim e a Hassan at Kunduz. No me
lembro muito bem da viagem, a no ser que sentei  sombra de uma accia, com baba e
Hassan, nos alternando para tomar suco de melancia de um pote de barro e apostando
para ver quem cuspia os caroos mais longe. Agora, Dan Rather, Tom Brokaw e as
pessoas que tomavam capuccino no Starbucks estavam falando da batalha de Kunduz,
ltimo reduto do Talib ao norte. Em dezembro, pashtuns, tadjiques, uzbeques e
hazaras se reuniram em Bonn, e, sob o olhar atento da ONU, deram incio ao processo
que pode, algum dia, pr fim a vinte anos de infelicidade no seu watan. O barrete de
astrac e o chapan verde de Hamid Karzai ficaram famosos.
Sohrab atravessou tudo isso como um sonmbulo.
Soraya e eu nos envolvemos em projetos para o Afeganisto, tanto por um senso de
responsabilidade civil quanto pela necessidade de algo  qualquer coisa que fosse 
para preencher o silncio l de cima, o silncio que sugava tudo como um buraco
negro. Eu nunca tinha sido um ativista antes, mas, quando um homem chamado Kabir,
antigo embaixador do Afeganisto em Sofia, telefonou perguntando se no queria
ajud-lo no projeto de um hospital, aceitei. O pequeno hospital ficava prximo 
fronteira do Afeganisto com o Paquisto e tinha uma unidade cirrgica que, embora
modesta, conseguia tratar dos refugiados afegos com ferimentos causados por minas
terrestres. Mas acabou tendo de ser fechado por falta de verbas. Assumi a coordenao
do projeto, tendo Soraya como minha assistente. Passava a maior parte do dia no
escritrio, mandando e-mails para pessoas no mundo todo, pedindo subvenes,
organizando eventos para levantar fundos. E dizendo com meus botes que trazer
Sohrab para c tinha sido a melhor coisa que fiz.

O ano acabou com Soraya e eu sentados no sof, com as pernas cobertas por uma
manta, vendo Dick Clark na TV. As pessoas se cumprimentaram e se beijaram
quando a bola prateada caiu, e a tela ficou branca de papel picado. J, na nossa casa,
o ano novo comeou exatamente do mesmo jeito que o anterior tinha terminado. Em
silncio.
ENTO, QUATRO DIAS ATRS, em um dia frio e chuvoso de maro de 2002, aconteceu
uma coisinha assombrosa.
Levei Soraya, khala Jamila e Sohrab a um encontro de afegos no parque do lago
Elizabeth, em Fremont. Finalmente, o general tinha sido convocado para assumir um
posto de ministro no Afeganisto no ms passado, e tinha viajado para l h duas
semanas, deixando para trs o terno cinzento e o relgio de bolso. A idia era que
khala Jamila fosse se juntar a ele dentro de alguns meses, quando j estivesse instalado.
Ela sentia muito a sua falta  e andava preocupadssima com a sade dele por l ,
por isso, tnhamos insistido para que viesse passar uns tempos conosco.
Na tera-feira passada, o primeiro dia da primavera, foi o Ano-Novo afego  o
Sawl-e-Nau , e toda a comunidade residente na regio de San Francisco planejou
comemoraes, desde o lado leste at a pennsula. Kabir, Soraya e eu tnhamos mais
uma razo para festejar: o nosso pequeno hospital de Rawalpindi tinha sido reaberto na
semana anterior. No a unidade cirrgica, s a clnica peditrica, mas todos
concordvamos que j era um bom comeo.
O tempo andava ensolarado h alguns dias, mas, no domingo de manh, quando
sentei na cama, ouvi as gotas de chuva batendo na vidraa. "Sorte afeg", pensei,
rindo baixinho. Fiz a namaz matinal enquanto Soraya ainda dormia  j no preciso
consultar o folheto de oraes que consegui na mesquita; agora, os versculos vm
naturalmente, sem qualquer esforo.
Chegamos l por volta do meio-dia e encontramos um punhado de gente
abrigada debaixo de um grande plstico retangular esticado e amarrado a seis estacas
fincadas no cho. Algum j estava fritando bolani; xcaras de ch e uma tigela de aush
com couve-flor fumegavam no fogo. De um gravador, vinha o som arranhado de uma
velha cano de Ahmad Zahir, Dei um sorriso enquanto corramos os quatro por
aquele gramado encharcado: Soraya e eu na frente, khala Jamila no meio e Sohrab
mais atrs, com o capuz da capa de chuva amarela sacudindo em suas costas.
 Qual  a graa?  indagou Soraya cobrindo a cabea com um jornal dobrado.
 Voc pode tirar os afegos de Paghman, mas no pode tirar Paghman dos
afegos  disse eu.
Baixamos a cabea para entrar naquela tenda improvisada. Soraya e khala
Jamila foram falar com uma mulher obesa que estava fritando bolani de espinafre.
Sohrab ficou parado por um instante ali embaixo e, depois, recuou, voltando para a
chuva, com as mos enfiadas nos bolsos da capa e o cabelo  agora castanho e liso
como o de Hassan  colado na cabea. Parou junto de uma poa marrom-escura e
ficou olhando para ela. Ningum pareceu reparar nele. Ningum o chamou de volta.
Com o tempo, as perguntas sobre o menininho, sem dvida alguma excntrico, que
tnhamos adotado, graas a Deus cessaram, e, levando-se em conta que as perguntas
afegs podem ser bem desprovidas de tato, isso significou um alvio considervel. As
pessoas pararam de perguntar por que ele nunca falava. Por que no brincava com as
outras crianas. Mas o melhor de tudo  que pararam de sufocar a empatia exagerada,
pararam de abanar lentamente a cabea, pararam de fazer "tsc, tsc" e de dizer coisas

como "Ah gung bichara", "Ah, pobre mudinho". A novidade tinha se esgotado. Como
um papel de parede que desbota, Sohrab acabou se misturando ao pano de fundo.
Fui cumprimentar Kabir, um homem baixinho e grisalho. Ele me apresentou a
uma dezena de indivduos, um dos quais era professor aposentado, outro, engenheiro,
um terceiro, ex-arquiteto, outro ainda, um cirurgio que tinha uma barraca de cachorroquente
em Hayward. Todos disseram que conheciam baba de Cabul e se referiram a ele
em tom respeitoso. De um jeito ou de outro, meu pai tinha participado da vida deles.
E acrescentaram que era muita sorte minha ter tido por pai aquele grande homem.
Conversamos sobre as dificuldades e a funo talvez ingrata que Karzai tinha pela
frente. Falamos do Loya jirga, do Grande Conselho, que deveria se reunir em breve, e
do iminente retorno do rei  sua ptria depois de vinte e oito anos de exlio. Lembrei
daquela noite, em 1973, quando Zahir Shah foi deposto por seu primo; lembrei dos
tiros e do cu rajado de luz prateada  Ali abraou a mim e a Hassan, dizendo que
no precisvamos ter medo, que era apenas algum caando patos.
Depois, um dos presentes contou uma piada do mul Nasruddin e todos camos
na risada.
 Sabe  disse Kabir , seu pai era tambm um homem engraado.
 Era mesmo, no era?  indaguei, sorrindo, lembrando de como baba
reclamava das moscas logo que chegamos aos Estados Unidos. Ficava sentado na
mesa da cozinha, com o mata-moscas na mo, de olho naqueles insetos que voavam
de uma parede a outra, zumbindo aqui, zumbindo ali, irrequietos e apressados. "Neste
pas", resmungava ele, "at as moscas correm contra o tempo". Como eu tinha rido
naquela ocasio... E, agora, sorria ao me lembrar disso.
Por volta das trs da tarde, a chuva j tinha parado e o cu estava de um cinza
glido, coalhado de nuvens. Uma brisa fria soprava pelo parque. Apareceram mais
famlias. Os afegos se cumprimentam, se abraam, se beijam, trocam comidas uns com
os outros. Algum acende o fogo em uma churrasqueira e logo o cheiro de alho e de
morgh kabob me chega s narinas. Havia msica, algum cantor novo que no
conheo, e os risos das crianas. Vi Sohrab, ainda com a capa de chuva amarela,
encostado em uma caamba de lixo, olhando para o outro lado do parque onde ficava
a quadra de beisebol vazia.
Pouco depois, eu estava conversando com o ex-cirurgio que me contou que ele e
baba tinham sido colegas na oitava srie, quando Soraya me puxou pela manga da
camisa.
 Amir, olhe!  exclamou.
Ela estava apontando para o cu. Umas cinco ou seis pipas voavam bem alto,
alguns retalhos de amarelo, vermelho e verde brilhante contra aquele fundo cinzento.
 V at l. Veja quanto   disse ela e, desta vez, estava apontando para um
sujeito vendendo pipas em uma barraca perto dali.
 Tome, segure aqui  disse eu, deixando com ela a minha xcara de ch. Pedi
desculpas e fui at a barraca, chapinhando pela grama molhada. Apontei para uma
seh-parcha amarela.
 Sawl-e-nau mubabrak  disse o vendedor, pegando os vinte dlares e me
entregando a pipa e tambm um carretel de madeira com tar. Agradeci, retribuindo os
seus votos de um feliz Ano-Novo. Testei a linha, daquele jeito mesmo que Hassan e eu
fazamos, segurando-a entre o polegar e o indicador, e dando um puxo. Ela se
tingiu de sangue e o vendedor sorriu. Sorri para ele tambm.

Levei a pipa at onde Sohrab estava, ainda apoiado na caamba de lixo, de
braos cruzados, mas, agora, olhando para o cu.
 Voc gosta das seh-parcha?  perguntei, segurando a pipa pelas pontas das
varetas. Ele tirou os olhos do cu, olhou para mim, depois, para a pipa e voltou a fitar o
cu. Algumas gotinhas de chuva pingaram do seu cabelo e rolaram pelo seu rosto.
 Uma vez, li que, na Malsia, eles usam pipas para apanhar peixes  disse eu.
 Aposto que no sabia disso. Amarram uma linha de pesca na pipa e pem ela para
voar sobre a gua rasa. Assim, ela no faz sombra e no assusta os peixes. E, na China
antiga, os generais empinavam pipas nos campos de batalha para enviar mensagens
aos seus homens.  verdade. No estou de gozao no.  Mostrei a ele o meu
polegar que sangrava.  E o tar tambm est legal.
Com o rabo do olho, vi Soraya nos observando l da tenda, um tanto tensa com
os braos cruzados e as mos enfiadas nas axilas. Ao contrrio de mim, ela foi aos
poucos desistindo de tentar cativ-lo. As perguntas sem resposta, o olhar vago, o
silncio, tudo aquilo era doloroso demais. Entrou em compasso de espera,
aguardando um sinal verde por parte de Sohrab. S esperando.
Ergui o indicador, depois de lamb-lo.
 Lembro que seu pai verificava a direo do vento chutando o cho com a
sandlia, para levantar poeira e ver para que lado ele estava soprando. Hassan
conhecia um monto de truques como esse  disse eu. Baixei a mo.  Acho que 
para o oeste.
Sohrab enxugou uma gota de chuva que pingava de sua orelha e passou o peso
do corpo de um p para o outro. No disse nada. Lembrei de Soraya me perguntando,
alguns meses atrs, como era a voz dele. Disse-lhe que no me lembrava mais.
 J lhe contei que o seu pai era o melhor caador de pipas de Wazir Akbar
Khan? Talvez at de toda Cabul?  perguntei, amarrando a ponta do tar no lao do
cabresto.  Como os meninos da vizinhana tinham inveja dele... Saa correndo atrs
das pipas e nunca olhava para o cu. As pessoas diziam que ele estava perseguindo a
sombra da pipa. Mas  que elas no o conheciam como eu. Seu pai no perseguia
sombras coisa nenhuma. Simplesmente... sabia.
Mais uma meia dzia de pipas estava voando agora. As pessoas tinham
comeado a formar grupos, com as xcaras de ch na mo e os olhos pregados no cu.
 Quer me ajudar a empinar esta pipa?  perguntei.
Os olhos de Sohrab pularam da pipa para mim, e voltaram para o cu.
 Est certo  disse eu, dando de ombros.  Parece que vou ter que fazer
isso tanhaii. Sozinho.
Sacudi o carretel com a mo esquerda, soltando cerca de um metro de tar. A pipa
amarela oscilou na extremidade da linha, pouco acima da grama molhada.
  a sua ltima chance  disse eu. Mas Sohrab estava olhando para um par de
pipas que tinha se emaranhado l no alto, acima das rvores.
 Tudo bem. L vou eu.
Sa correndo, com os meus tnis fazendo a gua espirrar das poas e a mo
segurando a ponta da linha acima da cabea. J fazia tanto tempo, tantos anos que
no sabia o que era isso, que me perguntei se no estaria fazendo um papel ridculo.
Deixei o carretel ir girando na mo esquerda enquanto corria; senti que a mo direita
tinha se cortado novamente enquanto eu ia dando mais linha. Agora, a pipa estava
subindo s minhas costas, subindo, rodopiando, e corri mais depressa ainda. O carretel
comeou a girar mais rpido e o cerol deu outro talho na palma da minha mo direita.
Parei e me virei. Olhei para cima. Sorri. L no alto, a minha pipa estava balanando
para um lado e para o outro, como um pndulo, fazendo aquele velho som de pssaro
de papel batendo as asas, som que sempre associei s manhs de inverno em Cabul. H
vinte e cinco anos que no empinava pipas, mas, de repente, estava com doze anos outra
vez e os velhos instintos vinham voltando rapidamente.
Senti uma presena ao meu lado e olhei para baixo. Era Sohrab, com as mos
enfiadas nos bolsos da capa de chuva. Ele tinha vindo atrs de mim.
 Quer experimentar?  perguntei. Ele no disse nada. Mas, quando lhe
estendi a linha, a sua mo veio saindo do bolso. Ele hesitou. Depois, pegou a linha.
O meu corao comeou a bater mais depressa e girei o carretel para recolher a linha
solta. Ficamos ali, um ao lado do outro, em silncio, com o pescoo espichado para
cima.
 nossa volta, crianas corriam atrs umas das outras, escorregando na grama.
Agora, algum estava tocando uma velha trilha sonora de filme indiano. Vrios
senhores mais idosos estavam fazendo a namaz da tarde, sobre um plstico estendido
no cho. Havia um cheiro de grama molhada, de fumaa e de carne grelhada no ar.
Desejei que o tempo parasse.
Ento, percebi que tnhamos companhia. Uma pipa verde vinha se aproximando.
Segui a linha com os olhos e dei com um garoto parado a uns trinta metros de onde
estvamos. Ele tinha o cabelo cortado  escovinha e usava uma camiseta onde se
lia, em letras bem pretas: "The Rock Rules." Viu que eu estava olhando e sorriu.
Acenou. Respondi, acenando tambm.
Sohrab estava me devolvendo a linha.
 Tem certeza?  perguntei, apanhando-a de volta.
Ele pegou o carretel da minha mo.
 Est bem  disse eu.  Vamos lhe dar um sabagh, vamos lhe dar uma lio,
no ?  Arrisquei uma olhada. Aquele olhar bao e ausente tinha desaparecido.
Agora, os seus olhos se moviam rapidamente, saltando da pipa verde para a nossa. O
seu rosto estava um tanto afogueado e o seu olhar tinha se tornado subitamente
alerta. Esperto. Vivo. Perguntei a mim mesmo se no teria esquecido que, apesar de
tudo, ele continuava a ser apenas uma criana.
A pipa verde estava fazendo as suas manobras.
 Vamos esperar  disse eu.  Vamos deixar que chegue um pouco mais
perto.  Ela debicou duas vezes e veio vindo na nossa direo.  Pode vir. Pode vir
 chamei.
A pipa verde chegou ainda mais perto, agora subindo um pouco acima da nossa,
sem sequer desconfiar da armadilha que eu tinha preparado para ela.
 Veja, Sohrab. Vou lhe mostrar um dos truques favoritos do seu pai, o velho
tentear e debicar.
Ao meu lado, Sohrab respirava acelerado, pelo nariz. O carretel ia rolando nas
suas mos e os tendes nos seus pulsos, marcados de cicatrizes, pareciam at as cordas
de um rubab. De repente, pisquei os olhos e, por um instante, as mos que seguravam
o carretel eram as mos calejadas, de unhas lascadas do menino de lbio leporino.
Ouvi o grasnido de um corvo em algum lugar e olhei para cima. O parque reluzia com
uma neve to fresca, to deslumbrantemente branca que os meus olhos chegaram a
arder. E ela ia caindo em silncio dos ramos das rvores vestidas de branco. Agora,
havia um cheiro de qurma de nabo no ar. De amoras secas. De laranjas azedas. De
serragem e de nozes. O barulhinho da neve silenciosa foi ficando mais abafado. E
ento, no meio daquela quietude, surgiu uma voz nos chamando de volta para casa, a
voz de um homem que mancava da perna direita.
A pipa verde flutuava exatamente acima de ns.
 Ela j est vindo. Vai ser agora  disse eu, olhando rapidamente para
Sohrab e para a nossa pipa.
A verde hesitou. Manteve a sua posio. Depois, se abateu sobre a nossa.
 L vem ela!  exclamei.
Fiz tudo com perfeio. Mesmo depois de todos esses anos. A velha armadilha
do tentear e debicar. Soltei a pega e dei uns puxes na linha, debicando e me
esquivando da pipa verde. Com uma srie de sacudidelas do meu brao, a nossa pipa
disparou, fazendo um semicrculo em sentido contrrio ao dos ponteiros do relgio.
De repente, era eu que estava por cima. Agora, a pipa verde tentava desesperadamente
subir, em pnico. S que era tarde demais. Eu j tinha lhe pregado a pea de Hassan.
Puxei com fora, e a nossa pipa mergulhou. Quase pude ouvir a nossa linha cortando
a dela. Quase deu para ouvir o estalinho.
Ento, como em um passe de mgica, a pipa verde estava girando e rodopiando
no ar, fora de controle.
s nossas costas, todos aplaudiam. Foi uma exploso de palmas e assobios. Eu
estava ofegante. A ltima vez que experimentei uma sensao to fantstica como essa
foi naquele dia de inverno, em 1975, logo depois de ter cortado a ltima pipa, quando
avistei baba no telhado l de casa, batendo palmas, sorrindo radiante.
Baixei os olhos para Sohrab. Um dos cantos da sua boca tinha se curvado um
tantinho para cima.
Um sorriso.
De um lado s.
Que mal se notava.
Mas que estava ali.
Atrs de ns, crianas saam correndo em disparada e um monte daqueles
caadores perseguia aos gritos a pipa solta que continuava voando acima das rvores.
Foi s eu piscar os olhos e o sorriso tinha desaparecido. Mas existiu. Eu vi.
 Quer que tente apanhar essa pipa para voc?
O seu pomo-de-ado subiu e desceu quando engoliu. O vento agitou o seu
cabelo. Pensei ter visto ele fazer que sim com a cabea.
 Por voc, faria isso mil vezes!  me ouvi dizendo.
Virei, ento, e sa correndo.
Tinha sido apenas um sorriso, e nada mais. As coisas no iam se ajeitar por
causa disso. Alis, nada ia se ajeitar por causa disso. S um sorriso. Um sorriso
minsculo. Uma folhinha em um bosque, balanando com o movimento de um
pssaro que ala vo.
Mas me agarrei quilo. Com os braos bem abertos. Porque, quando chega a
primavera, a neve vai derretendo floco a floco, e talvez eu tivesse simplesmente
testemunhado o primeiro floco que se derretia.

Sa correndo. Um adulto correndo em meio a um enxame de crianas que
gritavam. Mas nem me importei. Sa correndo, com o vento batendo no rosto e um
sorriso to grande quanto o vale do Panjsher nos lbios.
Sa correndo.

EDIO
Izabel Aleixo
Daniele Cajueiro
REVISO DE TRADUO Janana Senna
REVISO
Anna Carla Ferreira
Ceclia Bandeira
Jancy Medeiros
Perla Serafim
DIAGRAMAO
Roberta Meireles
PRODUO GRFICA Lgia Barreto Gonalves
Este livro foi impresso em Guarulhos, em novembro de 2005,
pela Lis Grfica e Editora, para a Editora Nova Fronteira.
A fonte usada no miolo  Sabon, corpo 11,5/15.
O papel do miolo  plen soft natural 70g/m2,
e o da capa  carto 250g/m2.
Visite nosso site: www.novafronteira.com.br


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